14 janeiro 2011

mas o que é que os jornalistas andam a fazer em Cantanhede?

Deviam era mandar para lá antropólogos.
E deixá-los fazer o seu trabalhinho, longe das luzes da ribalta.

O que a comunicação social anda a fazer em Portugal, no que diz respeito ao assassínio de Carlos Castro, é pornográfico. Tirem de Cantanhede os jornalistas e a TV, dêem as novidades em notícias de 1 minuto televisivo e cinco linhas de jornal, no máximo, e vão ver como este não-assunto morre imediatamente.
Aliás, aposto isto com quem quiser: se não tivesse havido ali câmaras de televisão e jornalistas, não se tinham juntado naquela praça central de Cantanhede mais de uma dúzia de gatos-pingados.

O que se anda a fazer nos blogues e mesas de café também não é muito dignificante: embora ninguém saiba realmente o que levou àquele acto de bruta loucura, cada um puxa a brasa para a sua sardinha e tenta encurralar o inimigo. A culpa vai dos - como era mesmo o nome de nojo que dão a esse arquétipo do homossexual odiado? - até à catequista do Renato. Passando pela ilusão da fama e pelos morangos com chantilly.

O que eu gostava é que se calassem todos. A sério. Em vez deste ruído do espectáculo mediático a fuçar na miséria humana e a alimentar ele próprio novas encenações para o público, em vez do ruído de especulações com base em nada, em vez desta utilização generalizada de uma tragédia terrível para, no mapa social, conquistar mais alguns metros ao serviço de um espaço pessoal de ideologia e preconceito. 

Chocam-me especialmente os comentários que culpabilizam a vítima, e lamento o debate conflituoso, estéril e até contraproducente que estão a provocar.
Isto não é uma questão de homossexual versus Santa Maria Goretti. Isto não pode ser objecto de debate público, porque nada sabemos sobre o que aconteceu. Isto é apenas um homem que entre duas opções - abrir a porta e sair do hotel, ou agredir, torturar e matar uma pessoa - escolheu a segunda. Porquê? Talvez nem ele saiba.

6 comentários:

Jonas disse...

Primeiro seta-te. Depois segue este link e vê o que se prepara para hoje à noite, na televisão, em Portugal.

http://jugular.blogs.sapo.pt/2419980.html

Helena Araújo disse...

Sentei-me.
Mas devia era pôr-me de pé, e ir fazer um cordão humano em frente da TVI. Isto é execrável.
Era mesmo preciso fazer um flash mob em frente à TVI, hoje a partir das seis da tarde, a exigir que esse programa só vá para o ar daqui a um ano, ou assim.

Soubesse eu como é que essas coisas se organizam!

Jonas disse...

Um cordão humano à frente da TVI dava notícia, o que serviria apenas para divulgar a transmissão do programa em causa contribuindo de forma substancial para aumentar (ainda mais) as audiências.

Uma aposta em como vai ser líder absoluto de audiências? :)

Helena Araújo disse...

Pois é. Claro que vai ser líder de audiências, e um momento fantástico de união das famílias: do avô ao neto, todos lado a lado a ver o programa sensação.

Então, o mais inteligente é fazer com a Ana Matos Pires. Enviar um e-mail à ERC, imediatamente. Pode ser que ainda se vá a tempo de evitar a emissão do programa.

Carla R. disse...

Por estas e por outras é que fico satisfeita por não ter televisão, por ser a unica na Blogosfera que não conhecia nem um nem outro e por conseguir fugir a tempo de cada blogue que vai falando deste fait-divers.
Andava com duvidas acerca deste meu fundamentalismo algo cobarde e preguiçoso de não ter o aparelho em casa, mas não vai ser com estas andanças que me sentam num sofa.

Helena Araújo disse...

vês TV no computador, não é, não é?
(hihihi)

Também não os conhecia. O que me incomoda é o empolamento que estão a fazer de um caso de polícia e psiquiatria.

OK, a gente até sente curiosidade, até gosta de ver o sangue derramado pela rua, (ahem), mas haja um mínimo de decoro.