31 dezembro 2019

um ano de vintes

Fosse eu mais nova, e já tinha trocadilho para desejar a todos um bom ano novo. Mas o tempo passa, e ensina que cada ano novo traz consigo todas as notas: 20, 18, 15, muitos 9,5 e alguns 4.
Além dos inevitáveis -1 que são todo um infinito triste.


Para 2020, desejo a todos os que aqui passam que não lhes falte nunca a alegria: para iluminar todos os momentos do ano.

E para que seja um ano mesmo bom, dou a palavra à Rita Silva:

May 2020 be the year where, together, we start to rewrite History. Another world is possible. No more silly wishes, let's get to work, folks. Less privileged fellow humans need us. Helping one is helping the whole of mankind.
 
 





29 dezembro 2019

concerto de fim-de-ano dos filarmónicos de Berlim

 

Esta manhã tive a sorte de poder assistir ao ensaio geral para o concerto de fim-de-ano da orquestra filarmónica de Berlim. Para não me acusarem de vir cá fazer-vos sofrer de insularidade, aviso já que podem ver o concerto na ARTE no dia 31 de Dezembro às 17:35 (hora de Portugal), ou no próprio Digital Concert Hall em directo (às 16:00, hora de Portugal).

Por causa daquela conhecida má distribuição divina das nozes fui para o ensaio sem sequer ter visto antes o programa, e pelo caminho pus-me a imaginar que peças russas nos daria o Petrenko. Muito me enganei: levou-nos aos EUA de Gerschwin, de Bernstein e de um desterrado Kurt Weill.

Confesso - só cá para nós - que ao Americano em Paris com que começaram faltava algum dansabile. À excepção do Edicson Ruiz, que passou o tempo todo do lado de lá do Atlântico, em swing descarado e livre com o seu contrabaixo. Espero que no domingo a câmara lhe dê muitas honras de grande plano, para prazer dos telespectadores.

O Kirill Petrenko também deve ter sentido falta do tal dansabile, porque fez imensas correcções. Tantas, que comecei a temer que não acabassem o ensaio a tempo de fazerem o concerto desta noite. Mas não me queixo, porque foi um prazer enorme regressar a algumas das frases, e ver a orquestra a responder às indicações. O maestro também deve ter gostado muito, porque bem lhe ouvi o "wooooow!" maravilhado que lançou na direcção dos violinos.

Outro momento inesquecível foi o solo do Stefan Dohr (na trompa, com o tema "there must be somewhere") nas Danças Sinfónicas de Bernstein. Só por este solo já me teria valido a pena ter levantado tão cedo para atravessar meia cidade com temperaturas perto do zero. Mas houve ainda mais, muito mais. Houve, por exemplo, a descoberta dos ombros do Kirill Petrenko. Onde outros carregam o peso do mundo, este maestro carrega a sensualidade da música. Melhor dizendo: liberta-a. Se fizer isto com todas as músicas, vou ter de rever o meu hábito de escolher os lugares por trás da orquestra para ver o maestro de frente. Lembram-se daquela anedota parva da actriz que também era boa atrás? É este maestro: a música nos seus ombros.

E houve a Diana Damrau, que ouvi hoje pela primeira vez. Mesmo estando a poupar a voz para o concerto da noite, levou-nos a um estado de encantamento tal que por vezes não conseguimos impedir-nos de aplaudir, apesar de sabermos bem que não é desejado num ensaio.

Regressei a casa feliz, indiferente ao frio e saboreando quase embriagada a luz clara que desenhava todos os contornos com nitidez. Estou com vontade de voltar lá amanhã, e tentar o milagre de um bilhete vendido à porta. Diz que o Natal é tempo de milagres. Ou isso, ou esperar por terça-feira e assistir na Arte. Ou no Digital Concert Hall.


muito amor

Depois de uma semana a comemorar longamente à mesa o amor e a amizade que nos temos, ocorre-me mais um nicho de mercado: alguém que invente suspensórios para collants!

(sim: temo-nos mesmo muito amor)

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Adenda: no facebook fizeram-me muitas sugestões de truques para resolver o problema, para gáudio de alguns cavalheiros que lá passaram. Até houve quem me mostrasse uma imagem do Superhomem, para eu ver como ele resolveu o seu problema. Só faltou mesmo sugerirem uma dieta relâmpago...

Deixo aqui o meu protesto, para o caso de passar por aí alguém (que conheça alguém que conhece alguém) ligado a produtores de collants:

A quem sugeriu meias a 3/4 e assim: moças, vocês não sabem o que estão a dizer. Com as temperaturas do inverno berlinense, ia precisar de usar cuecas calção em lã para não desgraçar os rins, ou a bexiga, ou sei lá o quê.
A quem sugeriu collants dois t
amanhos acima: e porque não collants com, digamos, corte imperial? Os produtores que poupam material na parte da cintura deviam ser obrigados a usar os seus próprios collants (mas sem calças para segurar).A quem sugeriu todos aqueles truques de "pôr por cima isto e aquilo": obrigadinha. Gostava que os produtores de collants pensassem em resolver os nossos problemas, em vez de termos de ser nós a tratar de resolver os problemas que eles nos criam.



25 dezembro 2019

no primeiro dia de Natal...




Como tenho a certeza que nem dormiram a pensar como nos teremos arranjado sem pinheiro de Natal, apresso-me a informar: o nosso hibisco de Natal ficou bastante aceitável, e cantámos "oh Hibiskus, oh Hibiskus, wie grün sind deine Blätter" em vez do "Oh Tannenbaum" que é sempre motivo para debates acalorados, porque os abetos têm agulhas e não folhas, ai mas e tal, ai tal e coisa, mas em sendo um hibisco, não há dúvida: são folhas, e são verdes, ponto.
Quer dizer: as do nosso hibisco volta e meia descaem-se para amarelas, mas a culpa é dele, que nunca está satisfeito com a quantidade de água que lhe dou.

Em termos musicais, foi um autêntico Alfa e Ómega: se o ano passado tínhamos a acompanhar-nos ao piano o teclista de uma banda famosa dos EUA, este ano ninguém fui eu quem assumiu a função, porque os outros, bem mais aptos, não se quiseram chegar à frente. Mas eles, além de preguiçosos são queridos, e apesar das minhas tropeçadelas em busca da nota e do acorde certos, obrigando-os a cantar aos solavancos, ainda se lembraram de agradecer a minha generosidade. Gente bem-educada é vinho de outra pipa, é só o que vos digo.



As coisas melhoraram quando o Joachim e a Christina fizeram o seu habitual a cappella: The Twelve Days of Christmas. Só que este ano a Christina tinha uma novidade: trocou o antigo poema por uma lista de conquistas feministas:


Escrevo a canção por extenso - podem tentar cantar acompanhando a música do vídeo:

On the first Feministmas my true love gave to me
a grope-free Christmas party.

On the second Feministmas my true love gave to me
No tampon tax
and a grope-free Christmas party.

On the third Feministmas my true love gave to me
Male allies
No tampon tax
and a grope-free Christmas party.

On the fourth Feministmas my true love gave to me
Proud working moms
Male allies
No tampon tax
and a grope-free Christmas party.


On the fifth Feministmas my true love gave to me
EQUALITY!
Proud working moms
Male allies
No tampon tax
and a grope-free Christmas party.


On the sixth Feministmas my true love gave to me
Shame free breastfeeding
EQUALITY!
Proud working moms
Male allies
No tampon tax
and a grope-free Christmas party.

On the seventh Feministmas my true love gave to me
Gender bias broken
Shame free breastfeeding
EQUALITY!
Proud working moms
Male allies
No tampon tax
and a grope-free Christmas party.

On the eighth Feministmas my true love gave to me
No bullshit diets
Gender bias broken
Shame free breastfeeding
EQUALITY!
Proud working moms
Male allies
No tampon tax
and a grope-free Christmas party.

On the ninth Feministmas my true love gave to me
No body shaming
No bullshit diets
Gender bias broken
Shame free breastfeeding
EQUALITY!
Proud working moms
Male allies
No tampon tax
and a grope-free Christmas party.

On the tenth Feministmas my true love gave to me
No victim blaming
No body shaming
No bullshit diets
Gender bias broken
Shame free breastfeeding
EQUALITY!
Proud working moms
Male allies
No tampon tax
and a grope-free Christmas party.

On the eleventh Feministmas my true love gave to me
Reproductive freedom
No victim blaming
No body shaming
No bullshit diets
Gender bias broken
Shame free breastfeeding
EQUALITY!
Proud working moms
Male allies
No tampon tax
and a grope-free Christmas party.

On the twelfth Feministmas my true love gave to me
Fair rights and wages
Reproductive freedom
No victim blaming
No body shaming
No bullshit diets
Gender bias broken
Shame free breastfeeding
EQUALITY!
Proud working moms
Male allies
No tampon tax
and a grope-free Christmas party.
 
No ano passado começámos a reduzir os presentes daquele exagero de cálculo exponencial para um presente por pessoa. Estou em crer que estamos a assistir ao início de uma bela tradição: cada um de nós põe na mesa o presente que trouxe, e depois começamos a lançar os dados (dois): quem tiver um seis, pode escolher o seu presente. Quando todos têm um presente, desembrulhamos. Depois começa a roubalheira a contra-relógio: nova rodada, mas desta vez quem tiver um seis pode trocar o presente que tem com outro que lhe apetece mais. Quando os dez minutos chegam ao fim, para mim começa o Natal verdadeiro: depois de todos os oooooh e nãããooo e hehehehe que ouvimos nas trocas e baldrocas, sabendo perfeitamente quem gostava de ter o presente que eu roubei, ofereço-lho.   

Os dias têm estado feiosos, de chuva. Mas hoje fomos passear na mesma na floresta Grunewald. Meia Berlim teve a mesma ideia: a floresta fervilhava de famílias a esmoer o jantar de ontem.





24 dezembro 2019

a verdadeira artista...

A verdadeira artista...
...põe os amigos alemães a fazer as sobremesas portuguesas.

(e já vão com sorte que hoje não me apetece rabanadas)




para contrabalançar o resto



em repeat
(porque nos faz falta uma música verdadeira para contrabalançar o nosso hibisquinho de Natal)

"donativo"



Há dias, o tema na Enciclopédia Ilustrada foi "donativo".
Sem grande tempo para escrever um post como lá se exige, larguei alguns apontamentos ao correr da pena.

Ontem reli-os, e parei mais tempo no décimo, sobre ser capaz de ver o rosto de Jesus Cristo nas pessoas que têm a mais miserável existência. Por ser Natal, demoro-me um pouco mais neste. O Jesus em que acreditamos não veio ao mundo para nos proporcionar momentos especiais em família, muito menos o kitsch natalício e o conforto de um presépio armado na sala. Aquele cujo nascimento comemoramos agora veio para nos desinstalar, para nos abrir os olhos, para nos convidar à exigência, para nos abrir ao amor - a nós próprios (quantas vezes somos o nosso maior inimigo), e aos outros, especialmente aos que preferiríamos ignorar ou até desprezar.

O donativo dos cristãos tem de ser muito mais que a esmola generosa. Sem amor, não é cristão.

"E ainda que distribuísse todos os meus bens para sustento dos pobres, e ainda que entregasse o meu corpo em sacrifício, não tivesse amor, nada disso terá significado."  (primeira epístola de Paulo aos coríntios, 13, 1-13)

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Se me permitem, alguns apontamentos soltos sobre #donativo:

1. A minha avó "tinha um pobre" (para usar uma expressão do António Lobo Antunes: "arranje-me um pobre, mas que venha sem tuberculose, que esses morrem muito") que vinha pedir aos sábados. Punha-se em frente à janela da cozinha a rezar o pai-nosso em voz muito alta, até que a minha avó o ouvia, enchia rapidamente um cesto com chouriço, presunto e broa, que baixava pela janela até à rua, pendurado por uma corda. O pobre pegava nas coisas, dizia mais umas rezas, e seguia. Eu adorava todo aquele folclore.
Também havia o Emílio, o maluquinho da aldeia. Entrava em todas as casas com à-vontade de primo, e em todas recebia dinheiro. "Que fará ele com tudo o que lhe dão?", perguntava-se a aldeia. Suspeitavam que ele teria um fortuna algures, mas davam na mesma.

2. Dou a muitos dos que me pedem. Devia dar mais, e mais vezes. Sinto-me mesquinha quando me pedem e não dou. Devia dar mais, mesmo sabendo que é para comprar uma droga qualquer. Penso: e se fosse eu? Não queria estar na situação de ter de pedir para comprar droga.

3. Em frente ao nosso supermercado em San Francisco havia um pedinte simpático, sempre o mesmo. Por mania minha, em vez de lhe dar dinheiro dava-lhe algumas das coisas que acabara de comprar. Uma vez quis dar-lhe metade da minha baguete fresquinha. Ele sorriu, e disse que não podia aceitar porque tinha diabetes. Senti uma enorme vergonha pela minha arrogância de querer decidir o que ele comeria, em vez de lhe dar dinheiro para ele comprar o que quisesse.
Já os meus filhos eram (são) bem mais sábios. Numa daquelas vezes em que os deixei no carro enquanto "ia a correr comprar pão e leite" (sim, ainda não sabia que nos EUA é expressamente proibido deixar miúdos daquela idade sozinhos no carro, mesmo que seja apenas por "um minutinho"), ao sair do supermercado dei com o sem-abrigo a sorrir de forma diferente. Quando nos cruzámos, elogiou muito os miúdos. Olhei para eles: estavam no carro, muito ocupados a juntar todas as moedas que encontravam nos seus próprios bolsos e no carro, contavam-nas na palma da mão e olhavam para o senhor, procuravam mais, voltavam a contar...
(Está bem, está bem, escusam de ralhar comigo: nunca mais os deixei sozinhos no carro!)

4. Há uma série de anedotas sobre senhoras que dão dinheiro a um pobre e lhe dizem para não ir gastar no primeiro bar (numa delas, a resposta é: "vejo que é entendida - o vinho do segundo bar é muito melhor"). Aprendi há muito que os donativos que dou não me dão direitos sobre a pessoa que recebe. Dar tem de ir a par com o respeito pela liberdade do outro.

5. Conheço bem as teorias: o Estado é que devia fazer. Mas hoje e agora, perante esta pessoa que tem fome, ou que precisa de beber uma cerveja, ou que precisa de sabe-se lá que droga, enquanto o Estado não faz temos de fazer nós. E convém que o saibamos fazer com a dignidade necessária. Para humilhação, já basta ter de pedir.

6. Tenho sentimentos muito contraditórios em relação aos bandos organizados de pedintes. Imagino que vivam em condições próximas das de escravatura. Mas será que o meu donativo as ajuda, ou - por tornar o negócio rentável - perpetua a exploração?
Houve uma fase em que surgiram em Berlim pessoas a pedir contando histórias de extrema necessidade. Respondi a uma delas que duas ruas mais à frente era o escritório da Caritas, e que com certeza a poderiam ajudar. Afastou-se na direcção contrária.

7. Odeio as campanhas de donativos para o banco alimentar nos supermercados. Isso é uma maneira de o supermercado aproveitar a nossa solidariedade para vender ainda mais. Acharia bem se o supermercado se oferecesse para duplicar todos os donativos: por cada saco de arroz que eu der, o supermercado junta-lhe outro.

8. Uma vez pus de lado 20 euros para pagar um jantar no restaurante, mas ofereceram-me o jantar. No regresso a casa passei por um músico-pedinte e não lhe dei nada. Ainda hoje penso que lhe devia ter oferecido os 20 euros que já tinha dado por perdidos. Porque é que aceito que me dêem, mas não dou com a mesma generosidade?

9. Muitos sem-abrigo berlinenses têm cães. Geralmente são cães amorosos, com ar feliz e muito bem tratados. Sinto uma certa tendência a dar mais quando vejo um cão, e a seguir sinto vergonha deste impulso.

10. Uma vez ouvi uma senhora da minha antiga paróquia a falar do trabalho que fazia para os sem-abrigo. Dizia ela: "se não fores capaz de ver Jesus Cristo nessa pessoa, mais te vale nem começar a tentar ajudar. O que os salva é sentirem-se reconhecidos como seres humanos."

11. Confesso que tenho dificuldade em reconhecer Jesus Cristo naquelas pessoas marcadas pela maior indigência.
Mas talvez haja esperança para mim: há tempos passei por um homem sentado no chão, a pedir. Queria dar-lhe algum dinheiro, mas só tinha moedas de 2 e 5 cêntimos. Dei-lhas, e sorri enquanto pedia desculpa por ser tão pouco. Ele começou a pedir insistentemente: "não pare de sorrir! não pare de sorrir!"
Senti-me feliz por - mesmo que inadvertidamente - lhe ter dado justamente aquilo que lhe fazia mais falta.

12. Nestes apontamentos usei várias vezes a palavra "vergonha". Provavelmente sinal do embaraço mútuo nesta relação assimétrica. A existência de pedintes, de donativos e de dadores é algo que envergonha a nossa condição de humanos. Sendo - infelizmente - necessária, saibamos ao menos praticá-la com dignidade.

23 dezembro 2019

agora sim, começou o Natal

Começar o Natal na Kammermusiksaal: Oratória de Natal de Bach com dois coros infantis, um deles com miúdos talvez de seis anos, a cantar como os anjos no presépio. Mais a minha soprano berlinense favorita, a Marie Luise Werneburg. Mais uma orquestra de instrumentos barrocos. Mais o Stefan Kahle (que canta assim) a cantar a parte do Alto.

O Natal já podia acabar aqui, e já tinha sido bom.



Aqui uma cena do ensaio dos miúdos (provavelmente são outros, porque o filme já tem 5 anos, e eles crescem num instante, é assim que nos pomos velhos):



Ao meu lado estava um rapaz com sapatos com dedos, e tirei o meu sapato para lhe mostrar as minhas meias.



Depois, ao chegar a casa, tinha uma surpresa na caixa do correio: o livro "Os Dias da História", do Paulo de Sousa Pinto - o livro do meu programa favorito de rádio na Antena 2. Um ano inteirinho de acontecimentos importantes. Só tem um erro: no dia dos meus anos, não fala de mim. Fala da inauguração daquele Canal do Suez, aquele pechisbeque que não interessa a ninguém.
Mas pronto, perdoo-lhe.


aquele stress antes de começar o Natal

Tenho um trabalho urgente, exigente e chato que tem de estar pronto antes do Natal.
(Dava-me tanto jeito se este ano adiassem o Natal até pouco antes da Páscoa...)

Valha-me ao menos a música certa para me acompanhar enquanto vou aviando os parágrafos.



E esta:



(que seria de mim sem a Grimaud para me acalmar a ansiedade deste jogo Heleninha x Natal, no qual estou a meter golos na própria baliza como se não houvesse amanhã?)
(não acreditem em tudo o que digo aqui, olhem que isto é apenas a internet!)
(basta acreditarem nisto: Grimaud 💓💓💓💓💓, pronto)
(e quando vai de rabo de cavalo para os concertos:  💓💓💓💓💓💓💓💓💓💓💓💓 )





A luta continua:










22 dezembro 2019

um sétimo homem


A deitar contas à vida, dou-me conta de que este foi o melhor livro que li em 2019.
Podem comprar à confiança. Se não gostarem, deixem lá, ficamos amigo/as na mesma.

Quer dizer: pensando bem, aquela coisa de "ficamos amigo/as na mesma", olhem, não sei se consigo garantir... (é por causa do Rui Veloso, e do seu "não se ama alguém que não ouve a mesma canção")

Podia começar a elogiar o livro (a qualidade literária, a análise sociológica, a análise económica, a poesia, o humanismo, as imagens), mas vejam vocês e tirem as vossas conclusões. 
Se gostarem, digam-me em troca qual foi o vosso livro favorito em 2019, para eu ir espreitar. 
Se não gostarem, digam-me em troca qual foi o vosso livro favorito em 2019, para eu não ir espreitar...


20 dezembro 2019

kitsch de Natal

Esta manhã ia-me desgraçar no Boden, que está com saldos de 50% - ia-me desgraçar à grande e à francesa, mas por sorte estava tudo esgotado.

Maravilhosa sociedade de consumo, que me permite choques de adrenalina sem mandar a minha conta bancária para a psiquiatria.

(Não, senhores, não tenho uma neta secreta. É cá coisas, não preciso de explicar tudo. E também não, não sou maluca a ponto de ir fazendo um enxovalzinho por conta de eventuais netos.)




19 dezembro 2019

estes filhos




Estes dois têm agora 22 e 25 anos, e anteontem vieram dormir a nossa casa para fazerem uma surpresa ao pai na madrugada do seu aniversário: acordá-lo a cantar, com as prendas, as velas e o bolo - a nossa tradição familiar.

Há muitos anos ouvi um pai dizer que o maior prazer da vida é ter filhos adultos. Entendo cada vez melhor esse sentimento.

(O Fox também veio, claro, e de manhã levei-o ao lago, enquanto os miúdos retomavam o sono depois do pequeno-almoço. Não chegámos nem a metade do caminho: o Fox quis voltar para casa, porque estava cheio de medo que o Matthias se fosse embora sem ele.)

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As fotos foram-me lembradas esta manhã pelo facebook. Publiquei-as lá há alguns anos, com o seguinte texto:

No parque do museu Kröller-Müller, em 2011. Viagem à Holanda com dois adolescentes: muitas horas no carro e mais horas ainda em museus. Diz que a adversidade treina o carácter. A estes dois, treinou a capacidade de se rir da e com a mãe que lhes calhou em sorte.

O Matthias foi há dias para a Itália, passar algum tempo com a irmã. A Christina escreveu pouco depois que não têm passeado muito, porque ele levou o computador e fica em casa a estudar. E ela? Estuda também, e comenta "este rapaz é uma boa influência para mim".
Coisas boas da vida: irmãos.

(Algo me diz que tenho neste bom entendimento uma culpa parcial. Do tempo em que me vinham fazer queixinhas, e eu os mandava para o quarto falar um com o outro até terem decidido que castigo é que cada um deles merecia.)

(Se querem saber tudo:
nos EUA, eles andaram numa escola que tinha um método fantástico: a peace table. Quando havia um conflito entre dois miúdos - mesmo miúdos de 3 anos -, sentavam-se frente a frente a uma mesa, com a mão sobre o coração, e conversavam sobre o que tinha acontecido ("eu senti", "eu pensei") (o que me lembra outra muito engraçada; a Christina, praí aos nove anos, dias depois de ter uma sessão sobre comunicação não violenta, voltou para casa toda contente a dizer que tinha conseguido formular uma "mensagem-em-eu" (tradução super rápida, espero que percebam a ideia) numa discussão com uma amiga. E que frase? Esta maravilha de comunicação não violenta: "EU acho que tu és parva").
Voltando ao assunto: quando eles me apareciam a fazer queixinhas "ela fez-me isto! / mas ele antes fez-me aquilo!" e eu percebia que ia ser bem enrolada por ambos, mandava-os para o quarto discutir o que tinham feito e que castigo merecia cada um. Geralmente diziam "deixa lá, afinal não é preciso". Outras vezes iam mesmo conversar, e daí a bocado vinham-me dizer os castigos - que geralmente tinham pesos diferentes.)


mais notícias da minha aldeia

Estou (mais uma vez) a pensar que Berlim tem quase 4 milhões de habitantes, e eu me sinto numa aldeia.

Há dias, por exemplo: no regresso do ensaio do coro, no centro da cidade entrei no autocarro onde vinha uma vizinha nossa (o mais interessante desta coincidência: é a chefe de um projecto da Siemens com um orçamento de 3 mil milhões de euros; claro que tinha dinheiro para pagar o táxi, mas usar o autocarro é menos mau para o clima. No caminho para casa contou-me que tem um híbrido com capacidade de bateria suficiente para levar a filha à escola, ir trabalhar, e voltar para casa - é quanto basta; e estão a pensar vender o carro do marido porque a família não precisa de dois carros).

Ou ontem, por exemplo: tentei comprar bilhetes para o Oratório de Natal na Kammermusiksaal, no dia 23, e já estavam praticamente esgotados na venda online. Em desespero de causa telefonei para o escritório da agência. Apresentei-me com o apelido do Joachim, porque os alemães ficam um bocado à rasca quando ouvem "Araújo" ao telefone, e a senhora riu-se: "ah, que bom ouvi-la de novo! Somos vizinhos do Matthias!", e eu "em Wedding?" e ela "não, em Zehlendorf" - estava a falar do ex-marido de uma prima do Joachim. O apelido é raríssimo (não deve haver mais de 50 deles na Alemanha inteira) e em Berlim há logo dois com nomes iguais.

Hhavia bilhetes, e até a um preço bem aceitável.
Já disse que Berlim me parece uma aldeia? Eles mandam os bilhetes para casa das pessoas, juntamente com a factura para pagar.


O que se segue já não é sobre Berlim ser uma aldeia, mas também é importante: agora que já comprei os 8 bilhetes que queria, em lugares bons e a preços entre 14 (crianças e estudantes) e 19 euros, aviso quem estiver em Berlim que o melhor do vosso Natal pode começar já no dia 23 de Dezembro às 15:30. Cantam os Cantores Minores e o Monteverdi-Chor Berlin, e também a minha queridíssima solista soprano Marie Luise Werneburg.
O telefone é: 030 80908070
(Não me pagam comissão, mas deviam)

 

pinheirinho de Natal

Este ano resolvemos não comprar um pinheirinho de Natal. 
(A culpa é da Greta, que nos obriga a abrir os olhos para os nossos hábitos de depredação do planeta)
Em vez de ter um pinheiro de Natal, vamos ter uma anedota: o hibisco da sala decorado com velas e outra tralha natalícia. 
Está fora de causa ir comprar um pinheiro, mas confesso que a o hibisco me está a deixar um pouco, como direi, desinstalada.
E de repente dei comigo a pensar: uma amiga minha já comprou um, já o tem em casa - mas vai passar o Natal a Portugal. E se eu lhe fosse pedir o dela emprestado? 
(acho que a última vez que tive uma ideia assim boa foi no dia seguinte a festejar os meus 50 anos, quando pensei abrir uma lojinha de ramos de flores em segunda mão...)

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Se morasse em Portugal, tinha boa solução: alugar um "pinheiro bombeiro". Pelo que me contaram, é uma solução para
aproveitar os «pinheiros» que são cortados para desbaste para prevenção de incêndios, e depois serão transformados em biomassa, que serve simultaneamente para angariar fundos para bombeiros.

Mais informações aqui: https://www.rnters.com/pinheirobombeiro

17 dezembro 2019

parece o facebook


"Isto parece o facebook!" foi o comentário revoltado e triste ouvido a uma visitante da casa de Max Liebermann, ao ler esta carta dirigida ao pintor, na altura em que fora nomeado director da Academia das Artes de Berlim:



                                                                                                                Berlim, 6 de Agosto de 1924
                                                                                                                W 15 Fasanenstraße 15



Para o senhor (professor) Max Liebermann
                                          Berlim, W. 7 Pariser Platz 7

Graças à sua capacidade tipicamente judaica de se insinuar, conseguiu o lugar de director de um Instituto Superior de Artes alemão, que é de todos o menos merecido por um judeu untuoso como você. 


Todos os alemães estão profundamente revoltados com esta usurpação infundada e esta pouca vergonha. Pode ter a certeza de que muito em breve rebentará a tempestade, e toda a escumalha mentirosa de judeus será rapidamente varrida da Alemanha, mas você será enforcado porque conspurcou a arte alemã. De facto, você só chegou tão alto devido à ajuda dos percevejos judeus que usaram o dinheiro deles para lhe pagar. O enorme movimento alemão contra o judaísmo parasita e fraudulento já não está disposto a aceitar passiva e calmamente os seus actos maléficos e criminosos, antes conseguirá, com a maior precisão e energia, exterminar para sempre essa corja. A nossa paciência chegou ao fim. No que lhe diz respeito, não lhe concederemos tempo algum para se regozijar com este triunfo. Se dentro de 8 dias não prescindir voluntariamente do cargo de que se apoderou de forma insolente, do mesmo será

v i o l e n t a m e n t e 
 afastado.


Assinado: Seidl  


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Parece o facebook, e parece os comentários nos jornais: a identificação de um inimigo ao qual se atribuem parasitismo e intenções malignas em relação a "nós" (os políticos, os refugiados, os migrantes, os ciganos, os negros de certos bairros), a ilusão de que se fala em nome de todo um povo, o apelo à violência ("e ninguém lhe dá um tiro?"), a redução de humanos a substantivos colectivos de animais ou a pragas de insectos.

Já vimos aonde é que esta linguagem, aliada a um contexto de instabilidade da Democracia, pode levar. Hoje em dia já vemos esta linguagem banalizada no espaço público, e o seu uso - consciente ou involuntário - é um importante instrumento do insidioso ataque às Democracias que está a ser conduzido "com a maior precisão e energia".

Se fosse hoje, o Herr Seidl residente na Fasanenstraße nº 15, um dos bairros mais chiques da Berlim daquela época, responderia às críticas que alguém dirigisse aos termos desta carta alegando que tem o direito de dizer o que pensa porque esta corja esquerdista ainda não conseguiu acabar com a liberdade de expressão, e que nenhuma ditadura do politicamente correcto o impedirá de dizer as coisas como elas são e como têm de ser abertamente ditas.

Que não haja dúvidas: este tipo de discurso dos Herr Seidl do nosso tempo faz parte de uma estratégia de destruição da Democracia e das impressionantes conquistas em termos de incorporação dos valores humanísticos que as sociedades fizeram após o pesadelo da segunda guerra mundial. Temos obrigação de tomar medidas para proteger o mundo do século XXI e de evitar que se repitam as catástrofes do século XX. Neste vídeo, Sacha Baron Cohen reflecte sobre algumas medidas possíveis e urgentes.  



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À margem do tema do post, deixo mais alguma informação sobre as perseguições de que o pintor Max Liebermann foi alvo por ser judeu.




16 dezembro 2019

Joseph Wulf




A pequena exposição que está neste momento a decorrer na casa da Conferência de Wannsee (que mencionei aqui) é sobre Joseph Wulf, um judeu nascido em Chemnitz no seio de uma família de abastados comerciantes polacos. Aos cinco anos foram viver para Cracóvia, onde Wulf cresceu e começou a estudar para rabino, embora preferisse ser escritor. Herdeiro de várias culturas, em casa falava alemão, polaco e iídiche com a mulher, e polaco com o filho. A invasão da Polónia mudou a sua vida abruptamente: começou a lutar na resistência. Capturado, conseguiu sobreviver a dois anos em Auschwitz. Fugiu durante uma marcha da morte. A mulher e o filho também conseguiram sobreviver ao Holocausto, escondidos na quinta de um lavrador. Mas perdeu a restante família: pai, mãe, irmão, cunhada e sobrinha.

Depois da guerra, fez parte do grupo que fundou a Comissão Central de Histórica Judaica na Polónia. O grupo coligiu documentos dos nazis e depoimentos de milhares de testemunhas, e recuperou o célebre arquivo Ringelblum do gueto de Varsóvia, para deixar aos vindouros memória do que foi o Holocausto. Com a ascensão do comunismo polaco muitos dos membros desse grupo viram-se forçados a abandonar a Polónia. Joseph Wulf acabou por se fixar em Berlim, onde iniciou um trabalho pioneiro de pesquisa sobre o Holocausto na Alemanha Federal. Apesar de ter publicado inúmeros livros muito importantes sobre a Alemanha nazi e o Holocausto, nenhuma Academia lhe ofereceu um lugar estável de investigação. Pior ainda: acusavam-no de não ter a devida imparcialidade, por ter sido vítima directa do fenómeno que estudava. Ele respondia: "não sou imparcial, mas sou objectivo!" Um dos seus maiores opositores era Martin Broszat, director do Instituto de História Contemporânea de Munique - que aderira ao partido nazi em 1944.

Em 1965 Joseph Wulf propôs que a casa onde decorrera a conferência de Wannsee se tornasse um lugar de memória do Holocausto e um centro de documentação. A ideia foi recusada pelos governos tanto alemão como berlinense. Heinrich Albertz, um dos ministros do governo de Berlim, argumentou: "The Senate’s view is that the past will not be overcome by setting aside a house, worth more than a million Marks, which is now a domicile for schoolchildren. One would have to set aside many houses to isolate every building that was a venue for horrors. One should be more concerned with the people responsible for the horrors committed in these houses." E um outro político berlinense foi ainda mais incisivo: "não queremos locais de culto do macabro". O memorial e o centro de documentação só viriam a ser inaugurados bem mais tarde, em 1992, no cinquentenário da conferência.

Por essa altura já Joseph Wulf tinha partido há muito. A perseguição aos judeus e os anos que passara em Auschwitz tinham-no traumatizado profundamente. E não estava sozinho: só nos anos setenta é que a Alemanha começou a despertar para a necessidade de dar apoio psicológico especial às vítimas  dos campos de concentração e extermínio. A morte da sua mulher, em 1972, constituiu um duro golpe do qual não se conseguiu restabelecer. Em 1974 suicidou-se, atirando-se da janela do seu apartamento junto ao Ku'damm, em Berlim.

Uns meses antes escrevera ao seu filho uma carta em jeito de testamento. Aqui a deixo, tal como a fotografei na exposição, em inglês: o grito de um desesperado consciente da loucura do mundo.






a História ao pequeno-almoço

Por estes dias tivemos a visita de uma amiga que vem de uma família com uma geografia complicada: polacos que viviam na Checoslováquia e foram apanhados pela tormenta da invasão alemã, na altura em que Hitler soube capitalizar o descontentamento dos alemães dessa região para se apoderar do país.

Ao pequeno-almoço, na nossa cozinha cheia de sol, a conversa vagueou pela memória desses tempos sombrios que a família dela transporta consigo.

Quando a Alemanha nazi começou a dominar a Checoslováquia, foi instituída uma sociedade com vários níveis: no topo os alemães da Alemanha, a seguir os alemães da Checoslováquia, depois os checoslovacos que falavam alemão. No limite de sub-humanos estavam os polacos, e a seguir vinham os judeus. O avô da nossa amiga, sendo polaco, viu-se obrigado a declarar-se adepto de Hitler para conseguir sobreviver. A estratégia deu-lhes algum alívio durante uns tempos, mas viria a ser paga com a vida de alguns membros da família quando se criou o Volkssturm (exército de civis recrutados mais ou menos à força) e os adeptos de Hitler foram obrigados a servir de reforço ao exército alemão contra o exército vermelho.

Um tio-avô da nossa amiga, homem mais teimoso e defensor dos princípios, atreveu-se a virar o retrato de Hitler contra a parede da sua loja, onde devia estar exposto. Uma ex-namorada denunciou-o aos nazis, e estes invadiram a casa dele para o matar à frente da família. Deixaram o cadáver exposto na rua durante 24 horas para que servisse de lição a todos os outros.

Lembrei a conversa que tive há muito tempo com uma polaca que vivia há décadas em Weimar. Ela louvava os alemães e tinha asco aos russos. Eu não entendia aquela transigência com a Alemanha, que preparou uma lista com quase cem mil polacos importantes que deviam ser executados logo após a invasão. "Os nazis queriam quebrar a coluna vertebral do país!", disse eu. "Ora, ora! Eles queriam era apanhar os judeus, e calhou de muitos deles serem intelectuais, professores, médicos e políticos", respondeu ela.

"Pois, não é por acaso que Auschwitz foi construída na Polónia", comentou a nossa amiga. "Ao longo da História, a Polónia ganhava as batalhas mas paradoxalmente saía sempre a perder. As fronteiras do país eram desenhadas a lápis. O povo sofria imenso, e no meio de todas aquelas tragédias cometeu o terrível erro de se virar contra o elo mais fraco - os judeus. Fizeram deles o bode expiatório. Pelo que não houve muita resistência ao Holocausto levado a cabo pela Alemanha em território polaco. Mais tarde, a ordem que resultou da segunda guerra mundial, que pôs a Polónia sob a alçada da URSS, deu origem a um ditado terrível: antes violada pelos alemães que libertada pelos russos".


tudo o que cabe num domingo

Ontem estava um domingo extraordinariamente bonito para o Dezembro berlinense. Só faltava mesmo a neve a cobrir tudo, mas essa senhora há 3 anos que não dá grandes ares da sua graça por aqui.

Tínhamos amigos de visita por cá, e levámo-los a uma voltinha clássica dos dias bonitos: o lago Wannsee.



Começámos pela casa de Max Liebermann. Estamos quase no Natal, mas não há sinais de a neve ter alguma intenção de vir até Berlim. No jardim havia um carreiro de couves de Bruxelas, por sinal bem viçosas. Ao lado de outro, de couves com folhas avermelhadas. Jardim de pintor é assim: uma paleta de cores.

(nota mental: da próxima vez fotografo do jardim para a casa, para não apanhar aqueles carros estacionados na rua)



Não se vê bem, mas a casa foi desenhada de modo a que quem se senta no banco branco atrás da fotógrafa deixe que o olhar vagueie pelos canteiros - que no verão transbordam com as cores das flores, dos frutos e dos legumes - até ao fundo deste caminho, e atravesse a casa de encontro ao deslumbrante azul do lago.



No meio do caminho havia bétulas, havia bétulas no meio do caminho - sei há anos que estão ali, e surpreendem-me sempre.


Esta fotografia não presta para nada, mas a cena era bonita: os cormorões ao fundo do quintal a saborear o sol de Dezembro.



Esta fotografia não presta para nada, mas a cena era bonita: um humano ao fundo do quintal a saborear o sol e a luz deste domingo de Dezembro.









A exposição que está neste momento na casa do Liebermann não é grande coisa. Admito que, ao fim de dez anos a tentarem encontrar temas para exposições que tenham a ver com o Liebermann ou com o Wannsee, o material comece a escassear.
Distraí-me a fotografar o jardim a partir da janela de uma das salas.


Deste lado do lago Wannsee fizeram uma urbanização de luxuosas mansões com jardim até ao lago e embarcadouros privados.


Da casa do pintor judeu Max Liebermann à casa da Conferência de Wannsee é um passeio curto. Costumamos levar os amigos a ambas. Mas descobrimos ontem que a casa da Conferência de Wannsee está em obras. Reabre no dia 20 de Janeiro, com a exposição inteiramente remodelada.
"E a foto da Leni Riefenstahl?", perguntei eu.
"Não sei. A exposição vai ser muito interactiva, é tudo o que me disseram", respondeu a senhora da recepção.
Mania de mexer em equipas que ganham, pá!

Subimos ao andar de cima, o do centro de documentação, porque havia lá uma pequena exposição. Enquanto subia, reparei pela primeira vez no trabalho de ferragem das escadas. Um trabalho de luxo, numa mansão de luxo.

Em Janeiro de 1942 decorreu aqui uma reunião com representantes de vários departamentos, com o objectivo de "afinar agulhas" para o Holocausto. Em vez de uma convocatória autoritária, os participantes receberam um convite para um aprazível pequeno-almoço numa mansão junto ao lago Wannsee: o luxo como isco para predispor as pessoas a colaborar no Horror.
A pequena exposição que está no primeiro andar da Casa da Conferência de Wannsee é sobre Joseph Wulf: um tema que merece um post só para ele.



O meu restaurante favorito no Wannsee tem uma inovação que lhe tirou toda a graça: um enorme toldo iluminado sobre o terraço junto ao lago.
Dizem que não há amor como o primeiro, mas que fazer quando o primeiro amor já não é quem era?



Um bocadinho de kitsch no Ku'damm.
(que seria do Natal sem o kitsch?...)
(um tempo mais sossegado, diria eu)


 
Para terminar o domingo em grande: Kammermusiksaal.




François-Xavier Roth e a Mahler Chamber Orchestra (que, se percebi bem, é a extensão adulta da Gustav Mahler Youth Orchestra; quando algum músico desta chega àquele ponto em que nem com a melhor das boas vontade se lhe consegue chamar "jovem", pode ir reviver os bons velhos tempos na orquestra dos seniores)


Havia Haydn, mas como não há almoços grátis tivemos de gramar também com um Ligeti. E um Martinu, mas essa peça tinha uma energia muito boa, passou-se bem.

Além de que tivemos direito a solo do Stefan Dohr: Des canyons aux Étoiles, de Olivier Messiaen.



14 dezembro 2019

visitas


Só para que saibam: a minha manhã de sábado começou com um simpático a tocar piano aqui na sala ao lado (Debussy, Chopin, ...) e continuou com uma conversa sobre o piano propriamente dito e depois ele disse que este Steinway o convida a improvisar, e eu disse "be my guest" (o que é uma lapalissade, porque ele já é), e assim vai...
(Se chegar atrasada à festa de Natal dos portugueses de Berlim, que é hoje, a culpa é, digamos assim, da minha hospitalidade)

12 dezembro 2019

"vagão"

Do dia de "vagão" na Enciclopédia Ilustrada trago um post meu e dois outros de que gostei especialmente:


I.
De Maria Esteves:

Ainda
Dentro de vagões selados
andam nomes pelo país,
quanto ao sítio para onde vão
e quando é que descerão
não me perguntem, não digo, não sei.
.
O nome de Nathan vai aos murros no tablado,
o nome de Isaac vai cantando alucinado,
o nome de Sara grita por água para o nome
de Aarão que morre de sede.
.
Não saltes em movimento, nome de David,
tu que és nome à tragédia condenado,
a ninguém atribuído, sem morada,
pesado em demasia para usar neste país.
.
Demos ao nosso filho um nome eslavo,
que aqui nos são contados os cabelos,
que aqui se separa o bem do mal
pelo recorte das pálpebras e pelo nome.
.
Não saltes. O filho será Lech.
Não saltes. Não é altura ainda.
Não saltes. Qe a noite se propaga como um rir
e arremeda nos carris o bater dos rodados.
.
Uma nuvem de gente lá foi pelo país,
de grande nuvem chuva pouca e uma lágrima,
chuva pouca e uma lágrima,
chuva pouca e uma lágrima, tempo seco.
Ao bosque negro conduzem os carris.
.
Estrondo de rodas. Bosque, denso bosque.
Estrépito no bosque dos gritos suplicantes.
Estremunhada escuto noite fora
matraquear o silêncio no silêncio.
Wislawa Szymborska (Polónia), PAISAGEM COM GRÃO DE AREIA. Tradução de Júlio Sousa Gomes. Relógio D'Água.
.
Não poderia deixar passar a palavra do dia, #vagão, sem aqui trazer este poema, por demais pungente, que nos dá a ver o horror, o supremo horror, vivido pelos deportados que, sufocando de medo, sede, angústia e tudo o mais que nem ousamos imaginar, eram levados para os campos da morte, ou para o "bosque negro", onde o menor mal era a morte.
Os transportes ferroviários foram tão importantes na Alemanha nazi que a wikipedia tem uma página que lhes é dedicada, "Ferrovias do holocausto". Ele há coisas!
Não apaguem a memória!


II.
De José Praça:

No memorial de Yad Vashem em Jerusalém, dedicado às vitimas do Holocausto, encontra-se o vagão de Birkenau, junto ao qual se pode ler este poema do israelita de origem alemã Dan Pagis (1930-1986). A terrível simplicidade de um discurso abruptamente interrompido, deixando à imaginação do leitor as causas do corte e a sequência do seu raciocínio. Por vezes, o horror descreve-se assim.
_________

Escrito com lápis num #vagão fechado

Aqui neste vagão
sou Eva
com o meu filho Abel.
Se tu vires o meu outro
filho Caim, filho do homem,
diz-lhe que eu...

Dan Pagis

Foto do site do Memorial de Yad Vashem.




 
III.
O meu contributo:



  (foto: daqui)

Como já muitos disseram, a palavra #vagão traz uma associação imediata ao Holocausto. Mas, estranhamente, a primeira associação que fiz foi ao vagão da pedreira de Buchenwald – que não é um vagão, é um carro com rodas de ferro. Algum curto-circuito nas minhas sinapses olhou para aquele carro e viu nos braços dos prisioneiros de Buchenwald a locomotiva e os carris que lhe faltavam.

Também pensei no filme “Lion – a Longa Estrada para Casa”. Viram? A cena em que o miúdo entra para o vagão de um comboio parado e adormece é de partir o coração.

Mas não tenho como fugir ao tema do Holocausto.

A estação berlinense de S-Bahn que uso com mais frequência é a de Grunewald. Um bairro de luxo, uma praceta linda, uma estação com uma entrada muito bonita. Raramente passo por aquela porta sem me lembrar das centenas de judeus que todas as semanas, às vezes várias vezes por semana, desfilavam pelas ruas do bairro com os poucos haveres que lhes permitiam transportar. Passavam em frente aos palacetes (alguns dos quais eles próprios tinham frequentado – embora esse detalhe não seja aqui chamado, porque a dignidade humana não depende da riqueza e da cultura de cada um), e ao chegar à praceta, no exacto lugar por onde eu passo várias vezes por semana, dava-se o golpe: em vez de usarem a entrada dos seres humanos, eram obrigados a subir a rua inclinada que dava acesso à plataforma das mercadorias. Os moradores daquele bairro de privilegiados eram testemunhas regulares da ignomínia, e eu transporto a memória dela.

No Museu do Holocausto em Washington d.C. entra-se para a exposição atravessando um vagão usado no transporte dos judeus e de ciganos. É uma experiência chocante, que começa pela surpresa do seu tamanho diminuto e o esforço de imaginar o que seria tantas dezenas de pessoas viajando de pé, comprimidas umas contra as outras, em viagens intermináveis a uma média de 20 km/h, porque o comboio, já de si lento, era obrigado a dar prioridade a todos os outros comboios.

Os primeiros vagons usados no Holocausto eram antigas carruagens de terceira classe, do séc. XIX. Mas as janelas grandes permitiam muitas fugas, e os bancos reduziam a capacidade de transporte, pelo que os nazis trocaram aquelas carruagens por vagões de mercadorias.
Nem todos os vagões eram de transporte de gado (e nestes, os nazis fecharam os respiradouros com tábuas, para evitar as fugas), e a cruel realidade é que as pessoas eram transportadas em condições mais próximas das de mercadorias inertes do que das de animais. Mas o nome que foi dado aos vagões da deportação foi “vagão de gado”: pelo poder simbólico do nome, e pelo destino comum dos animais e das pessoas vítimas desses transportes: o matadouro industrial.