27 setembro 2019

à atenção dos portugueses da diáspora

Atenção, portugueses da diáspora:

Se ainda não votaram, tratem disso agora e metam logo o envelope na caixa do correio. Tem de sair do vosso país amanhã sem falta.

As experiências que tenho ouvido:
- É preciso empurrar o boletim de voto para um dos lados do envelope, para poder dobrar a outra extremidade;
- NÃO SE ESQUEÇAM DA FOTOCÓPIA do documento de identificação
- É preciso paciência e cola para fechar o envelope (que é a folha onde se lêem as instruções)


Ah, já agora: o Estado português gastou uns bons milhões a enviar as cartas a cada um de nós, para que possamos participar na vida democrática do nosso país. Esses milhões são dinheiro dos contribuintes portugueses. Eles - contribuintes e Estado - fizeram a parte deles. Temos agora umas horitas para fazer a nossa parte.

Era isto.

the Greta Thunberg Helpline



Às vezes precisamos do humor para conseguir aguentar a fealdade do mundo.




"Drake"

Ontem, a palavra mágica na Enciclopédia Ilustrada era Drake. Mas qual deles/delas?
Nick Drake, Molly Drake, Francis Drake estavam no pelotão da frente.

Escolhi o pirata. Ou melhor: o momento em que descobri que isto de ser ou não ser pirata também é questão de opinião...

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Em Point Reyes, umas milhas a norte de San Francisco, há uma #Drake Bay, e uma placa a informar que Sir Francis Drake ali ficou durante algum tempo quando andava a fazer a sua viagem de circum-navegação. O que me espantou foi o tom comedido e - ouso dizê-lo - elogioso do texto. Não é maneira de falar de um pirata que espalhava o terror por todos os mares do mundo!
No estrangeiro há muitas placas informativas assim: dão cabo dos alicerces das narrativas nacionais.
Para mais, não encontrei na zona nenhuma placa a informar que o nosso fantástico Sebastião Rodrigues Soromenho também por lá passou uns anos depois, quando andava a mapear o mundo. Mas, coitado, foi apanhado por uma terrível tempestade, perdeu toda a sua carga de seda e porcelana, e teve de escapar para sul tão rapidamente que nem reparou na Bay Area para a pôr no seu mapa (mas se calhar passou por lá numa hora de nevoeiro, e por isso é que não viu nada).

Uma década depois de ter recuperado do choque de descobrir que há muito quem não chame pirata ao Francis Drake, fiz umas férias felizes na Costa Rica. O Matthias estava lá a fazer um ano de voluntariado, e nós fomos ter com ele. Um dos momentos mais especiais da viagem foi na Bahía Drake (pronunciar: dráqué). Mas não encontrei lá nenhuma placa sobre o homem, para me informar se ali era pirata ou não.

Caso não tenham mais nada que fazer hoje, e estejam curiosos, podem ler aqui: pura vida.

26 setembro 2019

à atenção dos emigrantes portugueses

Atenção, portugueses no estrangeiro: não se esqueçam de enviar o vosso envelopezinho com o voto e a fotocópia do cartão de cidadão ou do bilhete de identidade!

Já agora, aproveito para deixar uma sugestão àqueles que não querem votar, ahem, no Bloco de Esquerda, e/ou que acham que de qualquer modo não vale a pena votar porque no fim já se sabe que são eleitos dois deputados do PS e dois do PSD: pensem na possibilidade de voto útil. Se votarem num partido mais pequeno (sei lá, por exemplo, ahem, o Livre) contribuem para esse partido atingir os 50.000 votos que lhe permitem o acesso aos fundos de apoio à actividade partidária.

(Agora: pensem na nossa fama, e não dêem o tal voto útil aos nacionalistas, OK? Até o diabo se ria se visse emigrantes a votar em partidos cujo lema principal é "vai prá tua terra!")

(Sobre o Bloco de Esquerda: os seus actos falam por si, e de tal modo que têm alguma probabilidade de eleger um deputado no círculo europeu. Resultado também da tão falada "fuga de cérebros", hehehe, haja ao menos alguma vantagem nas tragédias enormes que nos acontecem)

(Sobre o Livre, e roubando o texto de uma amiga de facebook: o Livre é um partido de esquerda, verdadeiramente ecologista e europeísta. Não há outro com estas características no país. Qualquer dúvida, podem informar-se visitando a página do partido e lendo o programa, bem como o código de ética e os princípios orientadores do partido: www.partidolivre.pt )

"café"

Por terem falado do Majestic, no Porto, é que me lembrei da tragédia dessa casa: só têm #café de saco. Cimbálino que é bom, bai no Batalha (que por sinal fica uns blocos mais à frente).

O pessoal de Lisboa ri-se muito do cimbálino do Porto. Como se a bica deles (será vica? raixparta o acordo ortográfico: se havia de acabar com a distinção entre os vv e os bb, foi meter-se com as nossas ricas consoantes mudas!) tivesse origem mais nobre.

Cimbálino, derivado do nome da máquina que o Majestic escolheu não ter (devem ter muitos amigos, devem, mas hão-de ser todos turistas).

Mudando ligeiramente de foco (e delirando um bom bocado, previno já): antes da globalização dos sabores, bastava o sabor do café para sabermos em que país estávamos. Se o café soubesse a água de lavar a chávena do expresso, era alemão. Se soubesse a água de lavar a chávena do expresso com açúcar, era das pampas dos EUA. Mas depois apareceram as La Cimbali, apareceu o Starbucks, as pessoas puderam tornar-se mais exigentes, e ir por aquelas ousadias do "duplo curto com chávena escaldada se faz favor". Sim, sim, vai pedir isso no Majestic, e já vês o que te respondem.

Cujo Majestic é capaz de voltar a ter ainda mais sucesso justamento por causa do seu café de saco. Sabem aquela coisa do relógio parado que está certo duas vezes por dia? Pois é: anda por aí um movimento revivalista que afirma a pés juntos que o melhor café é o mais simples.

E mais não digo. Desculpem qualquer coisinha, mas é que hoje ainda só bebi uma chávena de palavra mágica.

22 setembro 2019

...e então veio a Greta




Greve pelo clima em Berlim, 20 de Setembro de 2019. Enquanto o governo trabalhava febrilmente para apresentar o "pacote do clima", o centro da cidade enchia-se de manifestantes e muitas ruas eram bloqueadas. A organização diz que havia cerca de 270.000 pessoas. 
Cerca de 270.001, diria eu, que também lá estive. E como custou a chegar! Os transportes públicos estavam a abarrotar de gente com cartazes, foi preciso deixar passar vários comboios até conseguir lugar num.

Tentei chegar à Porta de Brandeburgo, vindo da Potsdamer Platz, mas só consegui chegar ao fim do memorial do Holocausto. Desci pelo meio do Tiergarten, e só na terceira entrada consegui ir para o meio da 17 de Junho.

Um ambiente extraordinário, pessoas de todas as idades (desde os bebés em carrinhos ou ao colo dos pais até ao grupo de idosos muito bem instalado nas suas cadeiras). Havia grupos de infantários, que avançavam dentro de um espaço delimitado por cordas seguradas pelos educadores. Havia miúdos das escolas, havia jovens profissionais a fazer greve nesse dia, havia reformados com os netos. 

A criatividade dos cartazes impressionou-me. Para onde quer que olhasse, havia sempre algum realmente especial. Aqui deixo uma pequena amostra.

"Uma pessoa sozinha não pode mudar nada", dizia metade da Humanidade. E então veio a Greta!"



Grupo de alunos em frente à chancelaria.

 
Uma pequena parte dos manifestantes a avançar na direcção da Friedrichstrasse.





"O caso é realmente grave: o meu chefe mandou-me para a manifestação!"







































"Já era giro ter futuro"
"O que é que devo dizer aos meus filhos?"



"Passem para cá o nosso futuro! Salvem a terra!"








"O nosso futuro está a derreter!"


21 setembro 2019

"volkswagen" ou: o que há num nome

Os meus sogros casaram no princípio dos anos sessenta, e o primeiro carro que tiveram foi um #Volkswagen que, bem vistas as coisas, começou a ser comprado pelos pais de um deles em finais dos anos trinta. Aliás, a ideia já vinha de 1934, quando Hitler disse que era preciso criar um “carro do povo”, um “Volkswagen”. O que há num nome: sempre que dizemos “Volkswagen”, estamos a usar uma palavra muito cara ao regime nazi.

Era importante para o regime manter o povo em estado de boa disposição e confiança no futuro, alegre e contente. Uma medida estratégica para aumentar o grau de entusiasmo pelo regime era criar a possibilidade de as famílias comprarem um carro a preço relativamente acessível, e que conseguisse ir aos 100 km/h nas auto-estradas que começavam a atravessar todo o país. Ferdinand Porsche foi encarregado de preparar um protótipo.

A ideia de fazer um “carro do povo” já tinha ocorrido antes à indústria automóvel alemã, mas os custos de produção tornavam o projecto irrealista. Ora, o regime nazi interessava-se pouco pelos factos. Se Hitler queria, a obra fazia-se. Para isso, encarregaram a organização KdF ("Kraft durch Freude", "força pela alegria" - um dia hei-de investigar os paralelos entre esta "Força pela Alegria" e a FNAT portuguesa) de criar um carro para o povo, a que na altura deram o nome de “carro-KdF”.
E foi assim que em finais dos anos 30 os avós do meu marido fizeram um contrato com a KdF, pelo qual todas as semanas depositavam pelo menos 5 marcos numa conta-poupança especial; quando a poupança atingisse os 750 marcos o nome deles seria inscrito numa lista de espera para receberem o carro.

A fábrica dos carros_KdF começou a ser construída a 26 de Maio de 1938, e pouco depois, a 1 de Julho, deram início à construção da cidade para albergar os operários e as suas famílias, à qual chamaram "cidade do carro-KdF perto de Fallersleben". A guerra começou um ano depois, e as instalações fabris foram usadas para produzir não os carros-KdF, mas outros veículos mais úteis na guerra (os meus sogros dizem que não apenas as instalações foram desviadas para a guerra, mas também o dinheiro poupado).

Em 1945, os títulos de aforro para comprar este carro foram anulados. Em 1948 foi criada uma associação de antigos aforradores do carro-KdF, que agora se chamava “Volkswagen”, com o fim de reaver as poupanças. As hipóteses de sucesso eram muito reduzidas, uma vez que a produtora de automóveis nunca chegou a receber esse capital, porque as poupanças tinham sido depositadas no Banco do Trabalho, que entretanto fora extinto pela administração militar soviética. Apesar de tudo, os esforços da associação tiveram algum sucesso: a Volkswagen fez um acordo com os seus vendedores para estes não cobrarem a percentagem do stand aos compradores que fossem detentores dos títulos de poupança da KdF, o que significava um desconto de cerca de 15%. Os avós do meu marido passaram os seus direitos ao jovem casal, e foi assim que os meus sogros conseguiram comprar o seu carocha (melhor dizendo: o seu primeiro – e único – carro inspirado num design de Porsche). Eles, e mais 63.408 compradores, dos 325.444 aforradores registados em 1942.

No fim da guerra, a cidade que nascera em finais dos anos 30 à volta da empresa “Carro do Povo” trocou o nome: de “cidade do carro-KdF perto de Fallersleben” para “Burgo do Lobo” (Wolfsburg). Ora, “lobo” era um nome que Hitler gostava de dar a si mesmo. Muitos dirão que ali havia um burgo chamado Wolfsburg desde a Idade Média, e é verdade. Mas: ou em finais da guerra não havia tempo nem energia nem cabeça para pensar no embaraço dessa confusão, ou então talvez tenha ocorrido a alguém essa possibilidade, e talvez o antigo nome tenha sido recuperado justamente por alguém ter reconhecido o seu enorme potencial.

17 setembro 2019

"invasão soviética da Polónia"

Faz hoje oitenta anos que começou a invasão soviética da Polónia, ao abrigo de um acordo secreto no âmbito do Pacto Molotov-Ribbentrop de não-agressão entre a URSS de Estaline e a Alemanha de Hitler. É este o tema do dia na Enciclopédia Ilustrada.

O meu contributo:

Quando morava em Weimar tinha uma empregada que era polaca, casada com um alemão da antiga RDA. Ela era muito alegre e conversadora, e eu gostava muito de lhe ouvir as histórias e os comentários sobre um mundo ainda muito desconhecido para mim. Numa dessas conversas contou-me que durante décadas tinha trabalhado na casa de uma família famosa de Weimar, que morava umas casas acima da minha. Tinham um retrato de Estaline no escritório, revelou, e sempre que lhe ia limpar o pó o que tinha era vontade de lhe cuspir em cima.
- A minha mães costumava dizer que, comparados com os soldados russos durante a guerra, os soldados alemães eram uns cavalheiros. Ui! Nem é bom pensar nisso: o que eles faziam às mulheres, tantas atrocidades que cometeram!
- Chamar "cavalheiros" aos nazis é um bocado exagerado, não acha? E então aquela lista que os nazis fizeram, com quase cem mil nomes de intelectuais, médicos, juristas e artistas que deviam ser assassinados após a invasão, para decapitar a sociedade polaca?, perguntei eu.
- Ora, os alemães queriam matar os judeus, e calhou de os judeus serem essa elite...
Com esta é que me calou, que uma pessoa tem de saber reconhecer os sinais da inutilidade de um debate.
Mas hoje, uns bons quinze anos depois desta conversa, fui pela primeira vez ler mais sobre o que foi a #invasão_soviética_da_Polónia, e compreendi finalmente de que é que ela se queixava: massacres como os de Katyn (que a URSS negou até 1990) - deportações em massa para a Sibéria (em carruagens de gado, por vezes com 40 graus negativos) - troca de populações forçada, em grande escala e e em condições terríveis - proibição de os deportados poderem regressar às suas regiões de origem.
Sabemos tanto sobre os crimes nazis, e tão pouco sobre o sofrimentos dos povos/países ocupados pela URSS na mesma época.


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Partilho também um contributo do Cristovam Duarte (penso que retirado daqui):




Mathilde conhece uma jovem freira polonesa que escapou do convento para procurar ajuda médica para uma das noviças. Quando Mathilde, uma mulher sem fé, decide por fim acompanhá-la, encontra uma situação inimaginável. aquando a #invasão_sovietica_da_polonia, os soldados soviéticos invadiram um convento de clausura beneditino e violaram as freiras. E, como se isto não fosse causa suficiente de dor e vergonha, muitas delas engravidaram.
Agnus Dei” é um filme que devia ser visto por todos aqueles que ministram aconselhamentos aos outros.

15 setembro 2019

descolonizar genealogias


(Na imagem: como em todas as sessões que vi até agora na qual participa um palestrante brasileiro, é exibido um cartaz exigindo a libertação de Lula. No caso, é Luiz Ruffato quem ergue o cartaz.)


Ontem fui assistir à conversa entre Grada Kilomba, José Eduardo Agualusa e Luiz Ruffato sobre "descolonizar genealogias", no âmbito do 19º Festival Internacional de Literatura de Berlim.

O programa rezava assim: "Current genetic research shows that the traces of sexual crimes committed under European colonial rule are inscribed in DNA. Luiz Ruffato [BRAZIL] has often commented on these crimes. The writers Grada Kilomba [PT/ D] and José Eduardo Agualusa [ANGOLA/ MOZAMBIQUE/ PT] also engage with Portuguese colonial history. In his novel »The Book of Chameleons«, Agualusa tells the story of a genealogist who invents new family trees for his clients."

A conversa tomou outra direcção. Teria gostado de os ouvir falar sobre o tema proposto, mas não dei a tarde por perdida. Pelo contrário. Gostei especialmente das intervenções da Grada Kilomba, sobre a descolonização ainda por fazer: o trabalho de desinstalar, desmantelar, reinventar. Por exemplo na questão linguística: a língua portuguesa continua cheia de vestígios de um sistema de pensamento colonial que ainda não foi confrontado e muito menos deu lugar a um reajustamento fundado na dignidade do ser humano. O moderador da mesa, Michael Kegler, interrompeu-a para comentar que essa questão lhe dá muitas dores de cabeça no seu ofício de tradutor literário: como traduzir para a língua alemã os termos da língua portuguesa que ainda não passaram por um processo de descolonização linguística? 

[   E eu a pensar com os meus botões: palavras e frases como "semítico", "judiar", "pareces judeu!", "ciganadas", "que paneleirice!", "não sejas maricas!" seriam difíceis de traduzir para alemão. A tradução literal seria impensável. Ou não? Quer dizer: será que é obrigação do tradutor literário encobrir a realidade linguística da cultura do texto original? Ou deve exibir em todo o seu esplendor o racismo, o anti-semitismo, a homofobia presentes na linguagem?
Deve optar por exibir, mesmo sabendo que a exposição ganhará uma forma de certo modo enviesada, resultante da diferença de velocidades no debate sobre estas questões?
Uma tradução literal faz com que o texto de chegada não seja comparável ao texto de partida porque as respectivas sociedades se encontram em fases diferentes do trabalho de revisão do poder da língua como hábito de opressão. Um exemplo: se um alemão dissesse com palavras alemãs o equivalente literal de um "ciganagem" ou um "não sejas judeu!", estaria a pôr-se deliberadamente numa posição de provocação extrema, porque na sociedade alemã há consenso sobre a terrível carga negativa daquelas expressões. Mas o português que fale assim não está a provocar - está simplesmente a usar as palavras que aprendeu e se usam normalmente no seu país. Ou seja: na versão alemã, o carácter da personagem que tivesse este tipo de discurso seria muito diferente do carácter da mesma personagem no original português. Em alemão, algo como um neonazi; em português, boa pessoa.
Mas também a decisão oposta, a de não traduzir literalmente, tem consequências. Mesmo que os portugueses não se dêem conta da carga opressiva das palavras que usam, quer dizer, mesmo que "não façam por mal", essa carga opressiva e ofensiva está presente e actuante. Ao eliminar certas palavras, trocando-as simplesmente pela palavra alemã que transmite a ideia subjacente ao texto (traduzir "maricas" com se fosse "medricas", por exemplo), o tradutor está a colaborar no branqueamento das práticas linguísticas de banalização de um discurso opressor de certos grupos.
A questão, no fundo, não é o personagem de um romance dizer determinadas palavras. A questão é todo um país que não quer ver problema algum no uso daquelas palavras.
Por estas e por outras é que nunca hei-de ir longe como tradutora literária: a minha vontade era traduzir literalmente, e fazer uma curta introdução para explicar que naquele país é normal falar assim.
Um último apontamento: curiosamente, ao procurar exemplos, não pensei logo em expressões que ofendessem os negros. As primeiras que me ocorreram revelam o que mais me preocupa: anti-semitismo, anticiganismo, homofobia. O racismo contra os negros expresso nas palavras que usamos não parece estar no meu radar. O que é, mais uma vez, sinal de ignorância em relação a este tema. E escusam de se rir de mim, porque o problema não deve ser só meu. O que mais se ouve em Portugal é a convicção de não sermos um país racista. Pois não, não somos: enquanto não tivermos a vontade e a coragem de olhar de frente para o problema, podemos continuar a acreditar alegremente que somos os colonizadores mais fofinhos do mundo.  ]

Voltando à sessão de ontem: por sorte, Grada Kilomba deu exemplos que me revelaram essa realidade que, de tão naturalizada, já nem notamos. "Mestiço" é a palavra usada tanto para o cruzamento de pessoas de etnias diferentes como para o cruzamento de animais de raças diferentes. "Mestiço", "cabra" e "cabrito" provam que as palavras foram (e são) usadas para animalizar seres humanos em função da cor da sua pele. E é aqui que estamos hoje, ainda.

A Lusofonia também foi um tema importante de debate: quando usamos esta palavra - e quantas vezes a usamos com orgulho! - não temos qualquer consciência da carga de violência que ela encerra. Vários continentes que falam a mesma língua significa que em todas essas terras um poder colonizador aniquilou a cultura e a língua existentes. E para além da língua e da cultura, a própria identidade das pessoas, obrigadas a trocar o nome da sua família por um apelido português. Arrasar o passado das pessoas, arrasar a sua cultura, arrasar a sua língua. Pior ainda: dado que muitas das vítimas da colonização não puderam aprender o português em toda a sua plenitude, as suas possibilidades ficaram limitadas, reduzindo-lhes o lugar na sociedade ao parco conhecimento da língua que lhes foi imposta.

Luiz Ruffato deu um exemplo do mesmo fenómeno, embora de menor dimensão: quando o Brasil entrou na II GM do lado dos Aliados, os países de origem de grande parte da sua população passaram a ser o inimigo: alemães, italianos, japoneses. Os brasileiros desses grupos nacionais foram proibidos de falar a sua língua de origem. Os homens, que trabalhavam fora de casa, conseguiram adaptar-se facilmente. Mas as mulheres, circunscritas ao espaço familiar onde só se falava o idioma do país de origem, perderam a voz. A sua própria avó deixou de falar em público, porque só sabia falar italiano e corria o risco de ser presa.

A sessão acabou sem debate com o público, e foi pena. Gostaria muito de perguntar ao José Eduardo Agualusa como se concilia o discurso de descolonização com a posição do branco que se assume como produtor de cultura angolana.

14 setembro 2019

ainda temos a alegria



"O Brasil sob Bolsonaro" foi o tema de duas palestras a que assisti ontem no Instituto Cervantes, no âmbito do Festival Internacional de Literatura de Berlim.

[E para que ninguém me acuse de só avisar sobre estas coisas depois de elas acontecerem: hoje, às quatro da tarde na nova galeria na Ilha dos Museus, é a vez de José Eduardo Agualusa, Luiz Ruffato e Grada Kilomba falarem sobre os vestígios coloniais no ADN cultural e biológico.] 

Não tomei notas, pelo que faço um resumo de memória:

Na primeira sessão, Perry Anderson abordou o contexto brasileiro que tornou possível o fenómeno Bolsonaro (a crise económica, o aumento da corrupção dos políticos, a cínica perícia que conseguiu concentrar em Lula o ódio à corrupção que de facto grassa em todos os partidos, a falência do sistema jurídico, etc.). Luiz Ruffato trouxe números: em que grupos está a maioria dos apoiantes de Bolsonaro (são tantos, que mais vale dizer quais não são: a maioria dos negros, e a maioria dos jovens entre os 16 e os 24 anos), e o resultado dos primeiros oito meses de discurso fascista do sistema Bolsonaro: o aumento da violência (especialmente contra negros e contra mulheres), o aumento do número de assassinatos cometidos pela polícia e, mais assustador ainda, o aumento do número de suicídios entre os jovens e a assustadora quantidade de pessoas que querem fugir do seu próprio país. Djamila Ribeiro falou da incapacidade de reconhecer o genocídio contra negros que tem estado em curso, das lutas do feminismo negro e da urgência do agir.

A segunda sessão juntou Rafael Cardoso (historiador da arte, escritor - e anoto aqui o livro que quero ler: "O Remanescente"), Márcia Tiburi e Leonardo Tonus a conversar em modo de perguntas que lançavam uns aos outros.

Sabem aquela sensação de belo-horrível? Foi esta sessão: as frases e as ideias com que se referiam à ascensão do fascismo no Brasil eram simultaneamente um exercício brilhante de inteligência e um prazer estético. A conversa foi perccorrendo os temas da capacidade do fascismo se reinventar e regressar, da repetição de algo que há menos de meia dúzia de anos seria impensável imaginar, do modo como os cidadãos se vão habituando aos horrores noticiados dia após dia, do exílio e das formas de resistência. Falaram de Leibniz (o efeito corrosivo do medo e da tristeza) e de Adorno (a poesia depois de Auschwitz) e da dificuldade de ser quando se está marcado para o extermínio.

Uma intervenção tocou-me especialmente: a de Leonardo Tonus, sobre o que se pode fazer neste contexto de marasmo e caos. Continuando a citar de memória: disse que se pode aprender algo importante com os europeus, e deu o exemplo da reacção ao ataque ao Bataclan. O professor da Sorbonne, que dera consigo paralisado e chocado, a chorar desamparado no meio da cozinha, recebeu no domingo à noite uma mensagem da direcção da Universidade a exigir que todos os professores fossem dar as aulas no dia seguinte, como previsto. E ele foi. Às oito da manhã estava à frente da sua turma a falar de literatura do séc. XVIII, apesar de cinco dos seus alunos terem sido assassinados três dias antes. 

"Ainda temos a alegria", disse ele. "A questão não é sobre a possibilidade da poesia depois de Auschwitz. Havia poesia em Auschwitz! Mesmo que pareça uma ideia tonta, o céu continua azul e os pássaros continuam a chilrear. Não podemos desistir. Nestes tempos tão difíceis continuarei a escrever, nem que tenha de o fazer com o meu próprio sangue. E vocês também: escrevam nas paredes da vossa casa o poema "mãos dadas", de Carlos Drummond de Andrade. Espalhem a alegria."


MÃOS DADAS

Não serei o poeta de um mundo caduco
Também não cantarei o mundo futuro
Estou preso à vida e olho meus companheiros
Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças
Entre eles, considero a enorme realidade
O presente é tão grande, não nos afastemos
Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas
Não serei o cantor de uma mulher, de uma história
Não direi os suspiros ao anoitecer, a paisagem vista da janela
Não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicida
Não fugirei para as ilhas nem serei raptado por serafins
O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes
A vida presente

Carlos Drummond de Andrade