Li numa revista qualquer (isto sou eu a tentar escapar a uma possível multa) que uma jovem alemã pediu ajuda aos seus amigos sírios para mudar de casa em Berlim. Eles disseram que sim, e ela foi buscá-los na carrinha de mudanças. Como só havia três lugares à frente, alguns foram no compartimento da carga. Sabem como é, é só dez minutinhos, e vai conduzir com calma e segurança, e é mais prático assim - essas coisas que se dizem em casos destes.
Correu tudo muito bem.
No fim, quando já estavam todos sentados à volta das pizzas habituais nestes trabalhos, um deles comentou que aqueles dez minutos no compartimento de carga tinham sido horríveis.
A gente sabe - até sabe que alguns deles têm pesadelos todas as noites por causa da "via sacra" que fizeram da Síria à Alemanha -, mas acaba por esquecer. De tanto se habituar a vê-los como iguais, esquece que estão marcados pelo terror da morte.
30 março 2018
"martírio" (2)
Esta manhã, Frederico Lourenço escreveu no facebook:
"De alguma forma, a imagem da crucificação de Jesus propõe à nossa consideração uma espécie de sinédoque visual do sofrimento humano: é a parte abarcável que nos põe em confronto com um todo inabarcável – pois desse todo fazem parte as masmorras da Inquisição, da Gestapo e da KGB; dele fazem parte genocídios de povos inteiros; dele fazem parte as tragédias de hoje na Síria e no Iraque; dele fazem parte toda a fealdade hedionda do ser humano.
Pensarmos, pois, com toda a nossa compaixão no homem de Nazaré pregado na cruz é, assim, uma pequena tentativa de abarcarmos o inabarcável. É darmos um nome a um sofrimento que é global, milenar e anónimo."
Este texto serve bem para explicar porque é que o símbolo do cristianismo tinha de ser uma cruz. Mas o meu problema com "a compaixão no homem de Nazaré pregado na cruz" é o risco de esquecermos todos os outros, e todas as outras cruzes.
Repito o post que publiquei há um ano na Enciclopédia Ilustrada:
Um refugiado amigo do meu filho contou-lhe alguns dos momentos terríveis que passou na Turíngia. Por exemplo: estar fechado numa casa cercada por neonazis enfurecidos. Ou não poder sair à noite nem para ir à bomba de gasolina mais próxima, porque havia grupos de neonazis à espera, para dar uma tareia a algum refugiado que saísse do centro para ir à loja de conveniência.
Acompanho as estatísticas dos ataques a refugiados na Alemanha, sei que este ano - e ainda só vamos no quarto mês - já houve 9 ataques incendiários a centros de refugiados, e 15 casos de violência com danos corporais. Mas uma coisa é conhecer os números, e outra coisa é sentir o medo, o pavor de se saber cercado por brutamontes que alimentam a sua violência com ódio xenófobo. Tenho ideia do que será esse medo: uma vez assisti a uma marcha de 200 neonazis ao lado da minha casa. Estava a algumas dezenas de metros deles, numa perpendicular da rua em que desfilavam, e não era o objecto directo do seu ódio. Mesmo assim, senti um medo terrível. Ontem, quando o meu filho contava as histórias do seu amigo, lembrei-me dos urros que ouvi nesse desfile, e por uns momentos estive dentro da pele daquele homem. Como é que os refugiados aguentam estas tensões? E como é que aguentam viver sem condições mínimas, durante meses e anos à espera de uma decisão do Estado sobre a sua permanência neste país ou o repatriamento? Como é que aguentam a decisão de serem repatriados - para o Afeganistão, por exemplo - porque o seu país não é considerado "assim tão perigoso"?
Sei, de outros amigos dos meus filhos que já aprenderam alemão e arranjaram um bom trabalho, como é o choque ao receber a carta que os obriga a regressar ao seu país. No lugar deles, tentaria todos os esquemas possíveis para ir ficando. Tanto mais que são tratados como meros peões no difícil jogo político de cedências e equilíbrios possíveis.
Hoje é Sexta-feira Santa. Falamos tanto do sofrimento de Jesus Cristo, e esquecemos tão facilmente o sofrimento horroroso, o medo, a angústia, o desespero destes que precisam da nossa ajuda. Fui à igreja, ouvi o padre na homilia mencionar o martírio de Jesus, e citar o pedagogo Pestalozzi, que terá dito que o sofrimento tanto pode elevar o ser humano como pode torná-lo selvagem. Fiquei a pensar que há algo de hipócrita no modo como acusamos aqueles que acabam transtornados pelos sofrimento. Como se esse sofrimento fosse inteiramente alheio à nossa vontade e responsabilidade. Falo das armas das quais eles fogem, tantas delas fabricadas e vendidas por empresas europeias. Falo dos conflitos dos quais eles fogem, em grande parte causados por uma gestão egoísta e arrogante dos nossos interesses. Falo do ódio e do racismo com que se deparam ao chegar à Europa, e falo do comodismo com que viramos costas e ignoramos o seu martírio. É muito mais fácil chegar à Semana Santa e pensar no que Jesus sofreu, vai para 2000 anos, para a redenção dos nossos pecados...
"De alguma forma, a imagem da crucificação de Jesus propõe à nossa consideração uma espécie de sinédoque visual do sofrimento humano: é a parte abarcável que nos põe em confronto com um todo inabarcável – pois desse todo fazem parte as masmorras da Inquisição, da Gestapo e da KGB; dele fazem parte genocídios de povos inteiros; dele fazem parte as tragédias de hoje na Síria e no Iraque; dele fazem parte toda a fealdade hedionda do ser humano.
Pensarmos, pois, com toda a nossa compaixão no homem de Nazaré pregado na cruz é, assim, uma pequena tentativa de abarcarmos o inabarcável. É darmos um nome a um sofrimento que é global, milenar e anónimo."
Este texto serve bem para explicar porque é que o símbolo do cristianismo tinha de ser uma cruz. Mas o meu problema com "a compaixão no homem de Nazaré pregado na cruz" é o risco de esquecermos todos os outros, e todas as outras cruzes.
Repito o post que publiquei há um ano na Enciclopédia Ilustrada:
(fonte)
Um refugiado amigo do meu filho contou-lhe alguns dos momentos terríveis que passou na Turíngia. Por exemplo: estar fechado numa casa cercada por neonazis enfurecidos. Ou não poder sair à noite nem para ir à bomba de gasolina mais próxima, porque havia grupos de neonazis à espera, para dar uma tareia a algum refugiado que saísse do centro para ir à loja de conveniência.
Acompanho as estatísticas dos ataques a refugiados na Alemanha, sei que este ano - e ainda só vamos no quarto mês - já houve 9 ataques incendiários a centros de refugiados, e 15 casos de violência com danos corporais. Mas uma coisa é conhecer os números, e outra coisa é sentir o medo, o pavor de se saber cercado por brutamontes que alimentam a sua violência com ódio xenófobo. Tenho ideia do que será esse medo: uma vez assisti a uma marcha de 200 neonazis ao lado da minha casa. Estava a algumas dezenas de metros deles, numa perpendicular da rua em que desfilavam, e não era o objecto directo do seu ódio. Mesmo assim, senti um medo terrível. Ontem, quando o meu filho contava as histórias do seu amigo, lembrei-me dos urros que ouvi nesse desfile, e por uns momentos estive dentro da pele daquele homem. Como é que os refugiados aguentam estas tensões? E como é que aguentam viver sem condições mínimas, durante meses e anos à espera de uma decisão do Estado sobre a sua permanência neste país ou o repatriamento? Como é que aguentam a decisão de serem repatriados - para o Afeganistão, por exemplo - porque o seu país não é considerado "assim tão perigoso"?
Sei, de outros amigos dos meus filhos que já aprenderam alemão e arranjaram um bom trabalho, como é o choque ao receber a carta que os obriga a regressar ao seu país. No lugar deles, tentaria todos os esquemas possíveis para ir ficando. Tanto mais que são tratados como meros peões no difícil jogo político de cedências e equilíbrios possíveis.
Hoje é Sexta-feira Santa. Falamos tanto do sofrimento de Jesus Cristo, e esquecemos tão facilmente o sofrimento horroroso, o medo, a angústia, o desespero destes que precisam da nossa ajuda. Fui à igreja, ouvi o padre na homilia mencionar o martírio de Jesus, e citar o pedagogo Pestalozzi, que terá dito que o sofrimento tanto pode elevar o ser humano como pode torná-lo selvagem. Fiquei a pensar que há algo de hipócrita no modo como acusamos aqueles que acabam transtornados pelos sofrimento. Como se esse sofrimento fosse inteiramente alheio à nossa vontade e responsabilidade. Falo das armas das quais eles fogem, tantas delas fabricadas e vendidas por empresas europeias. Falo dos conflitos dos quais eles fogem, em grande parte causados por uma gestão egoísta e arrogante dos nossos interesses. Falo do ódio e do racismo com que se deparam ao chegar à Europa, e falo do comodismo com que viramos costas e ignoramos o seu martírio. É muito mais fácil chegar à Semana Santa e pensar no que Jesus sofreu, vai para 2000 anos, para a redenção dos nossos pecados...
29 março 2018
mitos e outros momentos históricos
Comecei a ouvir Os Dias da História (aqui), sobre a descoberta do "exército de terracota na China, e quase punha o dedinho no ar para dizer que já lá estive. E que até falei com um dos lavradores que fez a descoberta, e até lhe comprei o livro que escreveu a contar como descobriu, e até lhe pedi um autógrafo.
E que até tenho uma foto com ele.
Mas, depois de ouvir o Paulo Pinto, fiquei desconfiada: se calhar não era um dos lavradores, se calhar era um actor pago para fazer aquela figura, e para me pôr a mim a fazer figura de turista papalva...
(por sorte a foto era diapositivo, um dos milhares que trouxe da China, duvido que alguma vez a volte a encontrar)
25 março 2018
pediram-me para escolher textos do blogue para ler no tal programa
Chega uma pessoa às filmagens, com um discurso mais ou menos alinhavado sobre o modo como o blogue começou, e pedem-lhe para escolher textos do blogue para ler.
Sei lá que textos escolher! São todos como filhos.
Quer dizer: são todos como enteados. Já não me lembro de praticamente nada do que escrevi.
Percorro o blogue ao acaso. Olha este: gosto. E mais este: também gosto. E este: eu escrevi isto?! caramba, saiu-me mesmo bem.
Mais me valia propor à TV um programa tipo "maratona de blogue". Começava a ler a eito, e eles iam passando de uma câmara para a outra. Não lhes custava quase dinheiro nenhum. Provavelmente também não tinham público nenhum, excepto meia dúzia de centenas de resilientes. Mas, ora bem: eu também não tenho mais público, e continuo por aqui. :)
De modo que agora vou pensar nos tais textos, mas (será o Freud a fazer das suas?) só me ocorrem os mais antigos, os que foram apagados por engano há um bom par de anos.
Sei lá que textos escolher! São todos como filhos.
Quer dizer: são todos como enteados. Já não me lembro de praticamente nada do que escrevi.
Percorro o blogue ao acaso. Olha este: gosto. E mais este: também gosto. E este: eu escrevi isto?! caramba, saiu-me mesmo bem.
Mais me valia propor à TV um programa tipo "maratona de blogue". Começava a ler a eito, e eles iam passando de uma câmara para a outra. Não lhes custava quase dinheiro nenhum. Provavelmente também não tinham público nenhum, excepto meia dúzia de centenas de resilientes. Mas, ora bem: eu também não tenho mais público, e continuo por aqui. :)
De modo que agora vou pensar nos tais textos, mas (será o Freud a fazer das suas?) só me ocorrem os mais antigos, os que foram apagados por engano há um bom par de anos.
23 março 2018
enquanto escrevo este post
Atenção, isto é uma estreia: estou rodeada de câmaras, a escrever "em directo" para o blogue. Enfim, era essa a intenção, mas está complicado. Tento alinhavar alguma coisa de interessante, fazendo de conta que não estou rodeada de câmaras que estão a gravar, mas nem consigo pensar. Triste vida. Vou ter de recorrer ao velho truque: fazer de conta que estou a falar para uma amiga, que é quando os textos me saem com mais facilidade. Cá vamos nós:
Olá Paula,
nem queiras saber o que me está a acontecer agora mesmo! Estou a tentar fazer um ar inteligente, sexy, divertido e natural, tudo ao mesmo tempo, para aparecer num programa que vai passar na TV, sobre blogues. Ora bem: não consigo. É um bocado difícil combinar o sexy com o inteligente (emboramente: ontem jantei com uma mulher assim) (oh, diabo: ontem jantei com três mulheres assim!) (ufff, escapei por pouco! era agora que me ia desgraçar de vez!)
e ao mesmo tempo manter um ar divertido e natural. Além disso, não me posso esquecer de estar sempre com as costas direitas, por causa de dar o bom exemplo e para não ficar com a ordem dos médicos ortopedistas à perna, e também porque a Christina me avisou que a roupa que tenho vestida fica mal quando começo a escorregar pela cadeira. Também não me posso esquecer de pôr a mão no queixo volta e meia, para parecer intelectual. Há tempos percebi que esta de pôr a mão no queixo não é bem uma questão de intelectualidade - provavelmente é mesmo só para esconder o queixo duplo.
(Oh pá! Estão agora mesmo a gravar-me de perfil! Será que consigo escrever com uma mão enquanto uso a outra para tapar o queixo?)
(Acabei de descobrir que ter uma câmara a meio metro de mim tem um efeito curioso sobre os meus neurónios: desliga-os.)
Em suma: esta vida de estrela de TV é um stress que nem te digo nem te conto! E assim se acaba um carreira que podia ter sido brilhante, mas não é para mim.
As filmagens continuam. Revelei-lhes que estou a fazer um post enquanto me filmam, e que o tema é variações de "socorro! estou a ser filmada enquanto escrevo, e tenho de fazer ar de inteligente!"
Descansaram-me. Disseram-me "daqui a nada já podes voltar ao normal"
E eu sei lá o que é o normal?...
Agora alguém passou em frente à câmara, de modo que temos de repetir o plano. Toca a escrever mais umas frases. Take number não sei quantos, here we go.
E assim vai a vida.
PS. O Fox tem agora uma conta no Instagram. Apesar de ser um grupo fechado, em dois dias já tem 60 seguidores. Mas são todos humanos. Ele não se importava nada de trocar estes sessenta por uma cadelinha. Coitado, devia ter aberto a conta logo no Tinder, e ir passear para os lados de uma clínica veterinária.
Olá Paula,
nem queiras saber o que me está a acontecer agora mesmo! Estou a tentar fazer um ar inteligente, sexy, divertido e natural, tudo ao mesmo tempo, para aparecer num programa que vai passar na TV, sobre blogues. Ora bem: não consigo. É um bocado difícil combinar o sexy com o inteligente (emboramente: ontem jantei com uma mulher assim) (oh, diabo: ontem jantei com três mulheres assim!) (ufff, escapei por pouco! era agora que me ia desgraçar de vez!)
e ao mesmo tempo manter um ar divertido e natural. Além disso, não me posso esquecer de estar sempre com as costas direitas, por causa de dar o bom exemplo e para não ficar com a ordem dos médicos ortopedistas à perna, e também porque a Christina me avisou que a roupa que tenho vestida fica mal quando começo a escorregar pela cadeira. Também não me posso esquecer de pôr a mão no queixo volta e meia, para parecer intelectual. Há tempos percebi que esta de pôr a mão no queixo não é bem uma questão de intelectualidade - provavelmente é mesmo só para esconder o queixo duplo.
(Oh pá! Estão agora mesmo a gravar-me de perfil! Será que consigo escrever com uma mão enquanto uso a outra para tapar o queixo?)
(Acabei de descobrir que ter uma câmara a meio metro de mim tem um efeito curioso sobre os meus neurónios: desliga-os.)
Em suma: esta vida de estrela de TV é um stress que nem te digo nem te conto! E assim se acaba um carreira que podia ter sido brilhante, mas não é para mim.
As filmagens continuam. Revelei-lhes que estou a fazer um post enquanto me filmam, e que o tema é variações de "socorro! estou a ser filmada enquanto escrevo, e tenho de fazer ar de inteligente!"
Descansaram-me. Disseram-me "daqui a nada já podes voltar ao normal"
E eu sei lá o que é o normal?...
Agora alguém passou em frente à câmara, de modo que temos de repetir o plano. Toca a escrever mais umas frases. Take number não sei quantos, here we go.
E assim vai a vida.
PS. O Fox tem agora uma conta no Instagram. Apesar de ser um grupo fechado, em dois dias já tem 60 seguidores. Mas são todos humanos. Ele não se importava nada de trocar estes sessenta por uma cadelinha. Coitado, devia ter aberto a conta logo no Tinder, e ir passear para os lados de uma clínica veterinária.
08 março 2018
enquanto não chega a primavera
Enquanto não chega a primavera, aqui deixo imagens das gracinhas mais recentes do tempo que faz em Berlim. As manhãs geladas, congelados os nenúfares que sobraram do Verão, e o Fox a ir-se embora mais uma vez. Não será uma triste vida, mas é a vida.
Cheguei a Portugal ontem, quase hoje. Deram-me canja verdadeira, e tangerinas colhidas no dia, tão pequenas e imperfeitas que pensei que seriam coisa de imitação, de loja chinesa mesmo muito barata. Nada disso: tinham o sabor das tangerinas do quintal da minha avó.
Portanto: entre ontem e hoje, cheguei a casa.
07 março 2018
dizem que é virtual
Daqui a bocadinho saio para férias em Portugal. Como não consigo abstrair do tempo que está em Berlim - ou, pior: como não sei que tempo faz em Berlim (em poucas horas passou de oito graus negativos para oito graus positivos, num dia andava o pessoal a patinar nos lagos gelados e no dia seguinte os jardins despertaram em primavera, agora está a nevar, daqui a bocadinho logo se verá) - fui pedir ajuda ao facebook:
Ora cá vamos nós outra vez, ver se o facebook serve para alguma coisa bla bla bla
Peço aos amigos portugueses que me digam, por favor: o que tinham hoje vestido, e em que região de Portugal estavam?
(não preciso de saber as cores - é mais tipo "camisola de lã de gola alta", "camisola interior Thermo-tebe", collants DEN 120, t-shirt de manga curta, etc.) (tenho de fazer a mala para ir passar uns dias a Portugal, e não consigo abstrair da neve que ainda hoje aqui caiu)
Desde já muito obrigada!
(Sim, sei da chuva: não sei se leve um escafandro, se leve um fato de mergulho)
Depois fui-me deitar. Esta manhã tinha cerca de trinta respostas, para várias regiões do país. Já sei perfeitamente o que devo meter na mala.
Às vezes lembro-me daquele cartoon de um velório onde só estavam o falecido e duas pessoas, e uma diz para a outra: "não entendo... tinha mais de 2000 amigos no facebook!"
Ora bem: não precisam de vir ao meu velório (if any, claro)
Momentos como este no facebook já me bastam.
Ora cá vamos nós outra vez, ver se o facebook serve para alguma coisa bla bla bla
Peço aos amigos portugueses que me digam, por favor: o que tinham hoje vestido, e em que região de Portugal estavam?
(não preciso de saber as cores - é mais tipo "camisola de lã de gola alta", "camisola interior Thermo-tebe", collants DEN 120, t-shirt de manga curta, etc.) (tenho de fazer a mala para ir passar uns dias a Portugal, e não consigo abstrair da neve que ainda hoje aqui caiu)
Desde já muito obrigada!
(Sim, sei da chuva: não sei se leve um escafandro, se leve um fato de mergulho)
Depois fui-me deitar. Esta manhã tinha cerca de trinta respostas, para várias regiões do país. Já sei perfeitamente o que devo meter na mala.
Às vezes lembro-me daquele cartoon de um velório onde só estavam o falecido e duas pessoas, e uma diz para a outra: "não entendo... tinha mais de 2000 amigos no facebook!"
Ora bem: não precisam de vir ao meu velório (if any, claro)
Momentos como este no facebook já me bastam.
06 março 2018
mais uma dúvida existencial
Estou a ser atacada por uma tablete de chocolate com menta, mal me distraio, zimbas, lá me salta mais um bocado para a boca.
Alguém sabe se a menta engorda?
Alguém sabe se a menta engorda?
mais um lamentável plágio
Isto o roubo de propriedade intelectual na internet está cada vez pior. Então eu tenho a ideia de pôr os berlinenses a patinar, e vão os da Amesterdão (os amesterdanenses? os amesterdianos?) e copiam logo ali a minha rica ideia?
Está mal.
Está mal.
05 março 2018
catrapum, ai!
Vários dias de temperaturas negativas, e depois chuva. Berlim acordou com uma fina placa de gelo sobre as ruas e os passeios. Ontem queixei-me de não ver a patinagem no lago. Hoje vai haver patinagem por todos os lados...
Se calhar era boa ideia embrulhar-me em plástico de bolhas de ar antes de ir passear o Fox.
04 março 2018
auto-insularidade
Hoje esteve um dia lindíssimo de sol e céu azul. A minha vizinha ofereceu-se para passear o Fox esta tarde - o que me deu muito jeito, porque ando há que dias a correr atrás de atrasos vários - e chegou muito tempo depois, contando que o Fox lhe fugiu pelo lago gelado e avançou desaustinado pelos jardins que fazem fronteira com a água, e ela meteu-se ao gelo para ir atrás do bicho, mas não teve medo que se quebrasse porque ia por lá uma enorme animação, com imensa gente a fazer patinagem.
Isto é uma triste vida: aqui ao lado de casa estava a acontecer uma cena de inverno tipo escola de pintura holandesa do séc. XVII, e eu sentada ao computador a correr atrás do atraso. Cada vez tenho mais jeito para me auto-insularizar...
(Repito a foto de ontem, vertendo uma lagriminha pela foto que me falhou: a de hoje, do mesmo lugar, cheio de gente a patinar.)
(Repito a foto de ontem, vertendo uma lagriminha pela foto que me falhou: a de hoje, do mesmo lugar, cheio de gente a patinar.)
03 março 2018
oito graus negativos
Havia oito graus negativos quando o Fox e eu fomos dar a primeira volta do dia. Levei gorro, mas nada de luvas nem de ceroulas. Hehehehe, comparada comigo, a Elsa do Frozen não passa de uma figurinha de desenhos animados.
Por estes dias, ouço estrondos abafados no lago: uma espécie de suspiros da água a lutar contra as massas de gelo. Algumas placas soltam-se, erguem-se e quebram. Tudo aquilo parece estranhamente vivo. Um dia destes talvez consiga gravar esses sons. Hoje, fiz apenas fotografias das cicatrizes no gelo, e também uma do Fox, para quem perguntou como estão as suas orelhas.
Depois de regressar, fui à internet ver que temperatura fazia lá fora. O Matthias apanhou-me a caminho do computador, e riu-se: "no meu tempo", disse ele, "para saber o frio que fazia abria-se a janela dois segundos".
O que me lembrou uma história antiga, que fui repescar aos confins deste blogue. Esta, de 2006:
Ao pequeno-almoço, ainda na penumbra da madrugada (sim, que quem como nós mora quase na Sibéria levanta-se mais ou menos a meio da noite para ir para a escola), o Matthias olhou pela janela e comentou:
"vejo que hoje vai estar quente, não preciso de vestir o casaco"
e eu desatei a pensar que crianças alemãs são vinho de outra pipa, e onde terá ele aprendido a prever o tempo?, e será da forma das nuvens?, será a direcção do vento?, será a luz?
Aí, ele interrompeu os meus neurónios que já iam a duzentos
"Vês ali aquela mulher? Vai pela rua abaixo sem casaco."
Pierre Boulez Saal
(fonte)
Acabei de reparar que a Pierre Boulez Saal faz amanhã um ano, e ainda não a conheço.
Como é que um ano passou tão depressa?!
Esta é a nova sala de música de câmara de Berlim, com projecto de Frank Gehry e trabalho de acústica de Yasuhisa Toyota, num antigo armazém da Ópera de Unter den Linden. Com os trabalhos de restauro e modernização da Ópera, o armazém ficou devoluto, e Barenboim aproveitou-o para instalar a sua Barenboim-Said Akademie e criar um espaço moderno de música de câmara. A sala é modulável para permitir mudar o tamanho do palco ou criar encenações inovadoras, tem forma elíptica, com o palco no centro, e uma galeria que parece pairar sobre a plateia. Se a arquitectura da Filarmonia de Paris me impressionou especialmente por essa sensação de blocos suspensos no ar, mais um motivo tenho para ir conhecer este projecto de arquitectura.
Pela newsletter vou sabendo o que acontece: iniciativas muito variadas, desde Rattle e Kožená até uma sessão gratuita de poesia síria, para o público berlinense se familiarizar com a música daquela língua. E, claro, Barenboim - como maestro e como pianista -, já que esta é a sua sala.
Mas há sempre algum motivo de força maior (e por vezes também a inércia, que é a maior das forças) que me vai fazendo adiar a estreia. Em suma: dá Deus as nozes, etc.
Em minha defesa aqui declaro que Deus exagera na quantidade de nozes que me dá! Se trocasse algumas das nozes por dias de 48 horas, isso é que era.
(Rica e mal-agradecida, eu sei...) (melhor seria terminar este post rapidamente, antes de me desgraçar de vez)
Neste site há um vídeo no qual Frank Gehry fala deste seu projecto, do trabalho com Barenboim e da reacção de Pierre Boulez ao saber da sala que ia ter o seu nome. E neste site há um pequeno filme sobre o que foi este primeiro ano da sala.
02 março 2018
quatro graus negativos
Quatro graus negativos, mas aqui a artista viu o céu azulíssimo e o magnífico sol e saiu sem luvas nem gorro.
Fique registado que quando se anda 2 km com quatro graus negativos e um bocadinho de vento as orelhas ficam hirtas, mas não caem ao chão a tilintar como um pedaço de gelo.
(Até parece que estou a entregar o meu corpinho à ciência...)
Harvey Weinstein nos Óscares 2018
(fonte: Variety)
Durante este fim-de-semana estará exposta no Hollywood Boulevard, perto do teatro onde decorre a gala de atribuição dos Óscares, uma escultura de Weinstein sentado numa chaise longue, feita pelos artistas plásticos Joshua "Ginger" Monroe e Jesus. Espertinhos: deixaram espaço no sofá para as pessoas se sentarem, fazerem selfies, e porem no facebook ou no instagram. A escultura chama-se "Casting Couch", que é o nome dado à prática de os poderosos exigirem a prestação de favores sexuais em troca de benefícios profissionais. O Hollywood Reporter explica bastante bem a instalação e a intenção dos autores.
Ao pesquisar o uso do termo em português encontrei um texto de um antigo professor universitário que tem outra definição de "casting couch": segundo ele, "é a expressão que traduz o fenómeno da prestação de favores sexuais em troca de benefícios profissionais", e dá exemplos da universidade, tais como alunas que lhe apareciam com decotes completamente despropositados pensando que assim conseguiriam boas notas.
Ora aqui está algo que convém esclarecer: o #metoo é sobre poderosos a exigir a prestação de serviços sexuais em troca de uma oportunidade de trabalho, ou sobre deliberadas ofertas de favores sexuais para atingir determinado objectivo? É que nos comentários que tenho lido por aí, há muita gente a confundir uma coisa com a outra.
Nos dois casos, contudo, não há margem para dúvidas quanto ao comportamento da parte que faz jeitinhos em troca de favores sexuais: é sempre responsável de ter abusado do seu poder a favor dos seus próprios interesses, e não dos da instituição que lhe outorga esse mesmo poder. Independentemente da definição de "casting coach", quem concede benefícios profissionais em troca de favores sexuais não é o profissional adequado para o lugar que ocupa.
como voltar ao "local do crime" de cabeça levantada
Lembram-se do caso dos envelopes trocados, na gala de atribuição dos Óscares de 2017? Jimmy Kimmel, que era o apresentador, afirmou que nunca mais voltava àquele palco. Um ano depois, vai estar lá outra vez. E fez este vídeo para dar o dito por não dito.
Não há dúvida: rir é o melhor remédio.
01 março 2018
a "hipocrisia dos progressistas"
Queria falar deste tema há já algum tempo, mas a Berlinale meteu-se pelo meio, e uma pessoa não dá vazão. Aconteceu no Governo Sombra de 4.2.2018: o Pedro Mexia falou de uma nova lei em Amesterdão que impede as pessoas que visitam o red light district de olhar para as senhoras nas montras. As pessoas têm de ficar de costas, para manter o respeito. Disse ele:
"Estamos a falar de senhoras nuas ou seminuas, numa montra com uma luz
vermelha por cima, expostas aos clientes. Mas o que é badalhoco: é o
olhar." (aqui, ao minuto 58:10)
Se tivesse sido apenas isto, era uma boa piada à maneira do Governo Sombra. Mas a introdução ao tema - acusando a "hipocrisia dos progressistas" - e o aparte "lá está: todas as semanas temos leis para comentar" transformam uma piadinha em mais um exemplo da famosa estupidez dos tempos que correm. Antes que a Bárbara Reis junte esta piada ao seu rol de casos estapafúrdios do politicamente correcto, cá vamos aos factos:
Para começar, não é uma lei. É um regulamento para os profissionais que andam com grupos turísticos na cidade. Perante o aumento brutal do número de turistas em Amesterdão e do consequente incómodo para quem lá vive ou trabalha, as autoridades municipais viram-se obrigadas a impor regras que permitam a coexistência mais ou menos pacífica entre os da terra e os visitantes. Para os guias que levam grupos de turistas ao Wallen, o tal famoso red light district, impõe-se o seguinte:
- Tours must be finished by 11:00 PM at the latest.
- Groups are not allowed to stand still at locations that may be particularly prone to traffic, like the canal bridges along Oudezijds Achterburgwal and store entrances during opening hours.
- Taking photos of sex workers is prohibited, and guides have to ensure that groups stand with their backs to the sex workers.
- Speakers or megaphones, shouting, and alcohol and drug use are prohibited during the tours.
- Before the tour starts, the guide must instruct the tour groups to show respect for local residents, businesses and sex workers.
O que mais me choca nestas regras é que tenha sido preciso escrevê-las. Em princípio, é óbvio que os turistas não podem perturbar a ordem pública, e que devem respeitar as pessoas do bairro. Também me parece óbvio que aqueles que ganham a sua vida com visitas guiadas ao bairro deviam ser os primeiros a velar para que o seu negócio não colida com os interesses que fazem do local um ponto de atracção turística. Chama-se a isso: "não matar a galinha dos ovos de ouro".
Quando visitei esse bairro pela primeira vez recomendaram-me muito que deixasse a câmara fotográfica no fundo do saco, porque me arriscava a que me partissem a câmara, ou a cara, ou ambas. De cada vez que lá vou, repetem o aviso. De modo que não tenho qualquer dúvida sobre o que pode começar a acontecer naquelas ruas se os guias aparecerem com grupos de dezenas de turistas e os deixarem ficar pespegados em frente às montras a olhar demoradamente para as mulheres e para os clientes. E não vejo qualquer "hipocrisia dos progressistas" no facto de um Estado impor regras para tentar conciliar interesses antagónicos no espaço público, em vez de deixar que uma das partes resolva o assunto à bofetada.
É certo que tudo aquilo é sórdido. Mas será que a sordidez do contexto basta para desculpar um olhar despudorado? A resposta pode ser dada por um miúdo de seis ou sete anos - como foi dada pelo meu filho, quando comentou que não gostava nada de ir à sauna, porque "tinha de se concentrar muito para não ver". Que é como quem diz: independentemente do contexto, a nossa atitude é comandada pela nossa educação e pela nossa ética.
Estima-se que cerca de metade dessas mulheres de Wallen não se prostitui de livre vontade. Algumas foram apanhadas pelas redes mafiosas na Europa de Leste, que as trazem para o centro da Europa prometendo-lhes trabalho e uma vida melhor. Em algum momento são violadas, forçadas à prostituição, e ameaçadas de que, se fugirem ou forem à polícia, alguém contará na aldeia delas que são putas, cobrindo-lhes a família de vergonha. Outras trabalham para pagar as dívidas e as despesas dos proxenetas, a que elas chamam namorados. Nos dois casos, é dificílimo ao aparelho do Estado ajudar as vítimas, porque elas são as primeiras a recusar o auxílio estatal.
Perante realidades tão sórdidas, o mínimo que se pode fazer é não olhar para essas mulheres como se fossem uma mercadoria.
Digam lá, a sério: é normal e aceitável um grupo de turistas estar parado na rua, em frente a uma mulher seminua, a apreciar e a comentar o corpo dela? E a olhar também para o cliente, a assistir à negociação, a apreciar com que cara sai depois de ter passado os tais quinze minutos com ela? Independentemente da sordidez de todo aquele ambiente: parece-vos estranho que a Câmara estabeleça padrões de comportamento para os guias que lá levam turistas? Não seria muito mais estranho que a Câmara se demitisse, e deixasse a situação evoluir para confrontos violentos entre as pessoas do bairro e os turistas?
Se tivesse sido apenas isto, era uma boa piada à maneira do Governo Sombra. Mas a introdução ao tema - acusando a "hipocrisia dos progressistas" - e o aparte "lá está: todas as semanas temos leis para comentar" transformam uma piadinha em mais um exemplo da famosa estupidez dos tempos que correm. Antes que a Bárbara Reis junte esta piada ao seu rol de casos estapafúrdios do politicamente correcto, cá vamos aos factos:
Para começar, não é uma lei. É um regulamento para os profissionais que andam com grupos turísticos na cidade. Perante o aumento brutal do número de turistas em Amesterdão e do consequente incómodo para quem lá vive ou trabalha, as autoridades municipais viram-se obrigadas a impor regras que permitam a coexistência mais ou menos pacífica entre os da terra e os visitantes. Para os guias que levam grupos de turistas ao Wallen, o tal famoso red light district, impõe-se o seguinte:
- Tours must be finished by 11:00 PM at the latest.
- Groups are not allowed to stand still at locations that may be particularly prone to traffic, like the canal bridges along Oudezijds Achterburgwal and store entrances during opening hours.
- Taking photos of sex workers is prohibited, and guides have to ensure that groups stand with their backs to the sex workers.
- Speakers or megaphones, shouting, and alcohol and drug use are prohibited during the tours.
- Before the tour starts, the guide must instruct the tour groups to show respect for local residents, businesses and sex workers.
O que mais me choca nestas regras é que tenha sido preciso escrevê-las. Em princípio, é óbvio que os turistas não podem perturbar a ordem pública, e que devem respeitar as pessoas do bairro. Também me parece óbvio que aqueles que ganham a sua vida com visitas guiadas ao bairro deviam ser os primeiros a velar para que o seu negócio não colida com os interesses que fazem do local um ponto de atracção turística. Chama-se a isso: "não matar a galinha dos ovos de ouro".
Quando visitei esse bairro pela primeira vez recomendaram-me muito que deixasse a câmara fotográfica no fundo do saco, porque me arriscava a que me partissem a câmara, ou a cara, ou ambas. De cada vez que lá vou, repetem o aviso. De modo que não tenho qualquer dúvida sobre o que pode começar a acontecer naquelas ruas se os guias aparecerem com grupos de dezenas de turistas e os deixarem ficar pespegados em frente às montras a olhar demoradamente para as mulheres e para os clientes. E não vejo qualquer "hipocrisia dos progressistas" no facto de um Estado impor regras para tentar conciliar interesses antagónicos no espaço público, em vez de deixar que uma das partes resolva o assunto à bofetada.
É certo que tudo aquilo é sórdido. Mas será que a sordidez do contexto basta para desculpar um olhar despudorado? A resposta pode ser dada por um miúdo de seis ou sete anos - como foi dada pelo meu filho, quando comentou que não gostava nada de ir à sauna, porque "tinha de se concentrar muito para não ver". Que é como quem diz: independentemente do contexto, a nossa atitude é comandada pela nossa educação e pela nossa ética.
Estima-se que cerca de metade dessas mulheres de Wallen não se prostitui de livre vontade. Algumas foram apanhadas pelas redes mafiosas na Europa de Leste, que as trazem para o centro da Europa prometendo-lhes trabalho e uma vida melhor. Em algum momento são violadas, forçadas à prostituição, e ameaçadas de que, se fugirem ou forem à polícia, alguém contará na aldeia delas que são putas, cobrindo-lhes a família de vergonha. Outras trabalham para pagar as dívidas e as despesas dos proxenetas, a que elas chamam namorados. Nos dois casos, é dificílimo ao aparelho do Estado ajudar as vítimas, porque elas são as primeiras a recusar o auxílio estatal.
Perante realidades tão sórdidas, o mínimo que se pode fazer é não olhar para essas mulheres como se fossem uma mercadoria.
Digam lá, a sério: é normal e aceitável um grupo de turistas estar parado na rua, em frente a uma mulher seminua, a apreciar e a comentar o corpo dela? E a olhar também para o cliente, a assistir à negociação, a apreciar com que cara sai depois de ter passado os tais quinze minutos com ela? Independentemente da sordidez de todo aquele ambiente: parece-vos estranho que a Câmara estabeleça padrões de comportamento para os guias que lá levam turistas? Não seria muito mais estranho que a Câmara se demitisse, e deixasse a situação evoluir para confrontos violentos entre as pessoas do bairro e os turistas?
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