30 dezembro 2014

Filarmonia: duas vezes e um zilhão num só dia




Levantei-me cedo para levar o Fox à rua antes de sair para o ensaio geral na Filarmonia. O Matthias, que ia controlar as entradas, bateu-me à porta da casa de banho: que havia muita neve, que não convinha ir de bicicleta no nosso bairro ainda por limpar, e se eu o podia levar de carro a uma avenida mais central, para ele continuar depois de bicicleta. Vesti-me rapidamente, saímos a toda a velocidade que a neve permitia (mais valia desligar o motor e empurrar o carro...). Mesmo nas avenidas centrais havia demasiada neve, pelo que o levei à Filarmonia, que estava lindíssima no meio da neve e a brilhar ao sol, e voltei para casa o mais depressa que o piso deslizante permitia. Juntei o restante pessoal, e lá fomos para o ensaio geral.

(Na próxima vida posso ser condutora de táxi. Ou... alto! pensando bem, parece que é o que me calhou ser nesta.)

**

Por volta dos seus quatro anos, andava o Matthias numa pré-escola Montessori, veio ter comigo e começou a dizer, muito concentrado: "há unidades, dezenas, centenas, milhares, milhões e zilhões. Zilhões é mais do que eu posso contar, e é quanto gosto de ti"
(sim: foi o momento mãe muitíssimo babada e por muitos motivos) 

O Menahem Pressler a tocar o adágio do concerto nº23 para piano de Mozart foi um zilhão: muito mais do que posso contar.
O abraço que ele e o Simon Rattle deram, também.
Seria boa ideia instalarem um desumidificador na Filarmonia, nunca se sabe, as madeiras e assim...




Este concerto vai ser transmitido em directo pela ARD amanhã, dia 31, às 17:35 (ora alemã; 16:35 em Portugal). O Menhaem Pressler é imperdível. O resto do concerto é apenas o altíssimo nível a que os filarmónicos nos habituaram.


a verdadeira artista


A verdadeira artista vai limpar a neve em frente à casa sem fechar o casaco e sem luvas.
(Diz que é bom para o sistema imunitário, e além disso forma o carácter.)


28 dezembro 2014

dois amigos

Eu sossegada a trabalhar ao computador, a casa sossegada porque não estava cá mais ninguém...
...E eis que começo a ouvir uma barulheira na sala. Eram a Noomi e o Fox a brincar de volta de um cadeirão:










O Fox metia-se debaixo do cadeirão, a Noomi ia atrás dele, ele fugia pelo outro lado, ela rastejava até conseguir sair (por sorte não se lembrou de se pôr em pé e pronto), dava a volta e recomeçavam.



Eu a olhar, a rir e a fotografar. Sem me lembrar que isto dava um vídeo daqueles bons para encher o facebook. Não tenho jeito nenhum para a vida na internet.


27 dezembro 2014

Natal feliz








Conseguimos pôr a árvore de pé e fazer a decoração um bom par de horas antes da Consoada. 

Por ter um cão enorme cá em casa, muito dado a alegrias e poderosas abanadelas de rabo, optei por pôr o presépio em cima do piano. Por trás do piano há vários quadros de nus femininos, e um deles tão explícito que a Christina até me pediu para disfarçar um bocadinho, por causa de pessoas mais sensíveis que possam frequentar a nossa casa. Disfarcei a nossa "origem do mundo" com orquídeas, pior a emenda que o soneto.
Pois foi lá que pus o presépio, mas até para mim é uma alegoria demasiado forte ter uma "origem do mundo" a servir de cenário ao presépio. De modo que não iluminamos muito a sala, pode ser que ninguém repare. A sagrada família não vê - os pais estão de costas para as poucas-vergonhas, e o menino Jesus só tem olhos para nós, que é ao que vem.



(As velas acima da linha de alcance da cauda da Noomi, e um recipiente cheio de água ao lado, porque nunca se sabe...)




Este Natal temos cá a minha sogra e a família de quem eu fui au-pair há quase um quarto de século. Éramos dez pessoas à mesa, e todos ajudaram a preparar o jantar (só estragaram um bocadinho a cozinha magnífica). Sabe tão bem sentar-me a uma mesa cheia sem o cansaço de a ter enchido sozinha!

A cantoria tradicional junto à árvore com as velas acesas correu mais que bem: chorámos a rir. Já nem me lembro porquê, mas chorámos a rir enquanto cantávamos aquelas canções lindíssimas, como Adeste Fideles e Es is ein Ros'entsprungen. O menino Jesus deve ter gostado. Mesmo quando cantámos "Ovi lacht" ("o Ovi ri" em vez de "oh, como ri!") na Noite Feliz.
Depois a Christina cantou The Twelve Days of Christmas, que me deixa sempre surpreendida e encantada, porque apesar da letra dificílima e da melodia nada fácil, ela consegue dar a esta canção uma poesia que passou ao lado do Bernstein num CD que cá temos. (Porque é que eu não consigo deitar fora os CDs que me irritam?)

Também rimos ao ler o Evangelho, porque o Joachim não se tinha preparado e ia começar a ler a extensa genealogia de Jesus. Desatámos todos a protestar, mas eu aproveitei a deixa para falar das tataravós de Jesus, a prostituta e a estrangeira, de modo que eles aprenderam algo que não sabiam e eu pude fazer um brilharete com uma das poucas coisas que sei (sou um bocadinho como o Adrian Mole, uma especialista em indústria norueguesa de curtumes, e fico sempre contente quando arranjo audiência para os meus temas tão interessantes).

Sobre as prendas, a única coisa que vale a pena mencionar é que as melhores são as feitas à mão, e as cartas que escrevemos para as acompanhar. Numa sociedade de abundância, o mais valioso que se pode oferecer é o tempo e o amor posto na confecção de um presente. Ficámos todos muito impressionados com a prenda que a "minha menina au-pair" deu ao irmão - um rolo de "papel" de cozinha costurado: uma longa tira de quadrados com um lado de felpo absorvente e outro lado de tecido colorido, presos com velcro uns aos outros, e enrolados como um rolo de papel. Horas e horas e horas de trabalho para oferecer ao irmão, que algum dia comentara que os rolos da cozinha são um enorme desperdício de papel.



(Esta não é a minha casa, mas fotografei para copiar no próximo ano: uma corda com os saquinhos dos presentes de advento, e por cima uma fieira de luzes. Tão simples e tão bonito.)

 

No dia 25 fomos à missa da comunidade de língua portuguesa, com músicas africanas e tradicionais portuguesas. O padre ofereceu-nos uma bela homilia, com alguma escatologia natalícia: a parte em que lembrou que Jesus não nasceu num cantinho idílico como nos habituámos a imaginar o presépio, mas num estábulo a tresandar a esterco de vaca: o pior sítio que se podia imaginar.
No fim cantámos Noite Feliz em alemão e português. Em alemão bem foi. Mas o português deu-me uma tareia, porque de repente tinha outra vez cinco anos, era enfim meia-noite e avançávamos num grupo enorme com os avós, os tios e a criada-avó Bina pelo corredor estreito para a sala onde estava o pinheiro, e o Pai Natal deixara os presentes. A voz segura e clara da minha mãe cantava "Dorme em paz, ó Jesus" sem a mínima hesitação naquele fá agudo. Tudo era perfeito como é perfeito o Natal aos cinco anos, e tudo estava tão irrecuperavelmente longe. Mas logo a seguir veio a estrofe em alemão, e eu recuperei o pé.





E ao terceiro dia  - ontem - nevou. A seguir o céu abriu-se muito azul. Fui ao quarto do Matthias (que esteve na conversa com os outros até às quatro da manhã) buscar o Fox e levei-o a passear na sua primeira neve do ano.  
Depois a neve derreteu.
Esta manhã havia "flores de gelo" nas janelas. O sol arrumou com elas num instante.
Estes dias quatro-estações são um bocadinho estranhos.
Mas foram dias felizes, isso sem dúvida.

(Apesar de certas picadas venenosas, não digo de quem. Só para que conste que no nosso Natal também houve veneno familiar como no de todas as famílias normais. Por sorte não veio de alguém que me seja realmente importante.)



24 dezembro 2014

a lovely idea



Já nem me lembro bem que impulso me levou a pedir amizade ao Frederico Lourenço no facebook, mas garanto que foi um dos melhores impulsos que tive em 2014.
(Mesmo sem conhecer os seus critérios de amizades facebookianas, deixo aqui uma recomendação: tentem. Se ele aceitar, podem crer que acabei de vos dar um belo presente de Natal.)

Há dias havia no seu mural um post sobre o Natal:

Quem leu o famoso romance “Brideshead Revisited” de Evelyn Waugh lembrar-se-á de uma conversa entre Charles e Sebastian sobre a fé, em que Charles se afirma não-crente e exprime a sua estranheza perante o facto de o amigo acreditar na lenda do Natal (com Reis Magos e burrinho junto da manjedoura). Diz Charles: “but my dear Sebastian, you can’t seriously believe it all... I mean about Christmas and the star and the three kings and the ox and the ass”. Ao que Sebastian responde: “oh yes, I believe that. It’s a lovely idea”. Ora o Natal é para muitos de nós o contrário de uma “lovely idea”. 

O texto continua com críticas àquilo em que transformaram o Natal, e o sofrimento dos que não cabem no estereótipo desta festa.
E depois:

O sentido está alhures. Para mim, pessoalmente, o sentido está na “lovely idea” de que fala Sebastian em “Brideshead Revisited”. Não preciso de acreditar que o menino deitado na manjedoura é filho de Deus para reconhecer a espantosa beleza da ideia de que o filho de Deus pudesse imaginariamente estar deitado num estábulo de animais, calmamente observado por um burro e por um boi. Também não preciso de acreditar na virgindade da mãe que o deu à luz para achar “a lovely idea” a noção de que uma virgem pudesse engravidar e parir uma criança. A ideia das virgens que engravidam não é exclusiva, como se sabe, da mitologia cristã. Já na Ilíada há um herói troiano, nascido por partenogénese, que é morto no campo de batalha. Também Homero, portanto, achou tal possibilidade “a lovely idea”. No romance de Evelyn Waugh, Charles indigna-se (carinhosamente, claro) com Sebastian, retorquindo que não se pode justificar a fé religiosa com base na “beleza” da ideia do Natal. “But you can’t believe things because they’re a lovely idea”, remata. Sebastian, impávido, responde: “but I do. That’s how I believe”. Mas ao mesmo tempo a lenda do Natal na mitologia cristã tem o seu reverso, que – longe de ser “lovely” – é tragicamente ilustrativo da condição humana. Se o facto de o filho de Deus não ter vindo ao mundo no mais esplendoroso palácio da terra (mas sim na palha de um estábulo) sugere a mais requintada das verdades poéticas, já o massacre dos inocentes ordenado por Herodes faz soar uma nota amargamente realista, visto que genocídios e massacres pautam desde sempre a história da humanidade. Deus decidiu vir ao mundo? Então o mundo é isto: é um lugar onde um bebé recém nascido não só não tem abrigo condigno como está imediatamente na iminência de ser morto (quase) à nascença. Mais tarde, nesse mesmo menino já crescido, cuspir-lhe-ão em cima. Troçarão dele, arrancar-lhe-ão a roupa, fustigá-lo-ão de forma cruel, crucificá-lo-ão. Este “Deus” não veio ao mundo para ser recebido como Deus, mas como um marginal, um criminoso, um “pobre de Cristo”. Sinceramente, eu não sei se acredito em Deus. Mas se há “lovely idea” alguma vez imaginada por alguém, tem de ser esta. Sebastian tinha razão. E nesta ideia, sim, é possível acreditar. 

(Vêem porque é que eu digo que a amizade facebookiana do Frederico Lourenço seria um belo presente para este Natal?)

Recupero parte do comentário que lá deixei:

Vejo o Natal como uma lupa: torna maior o que é. Quem está bem sente-se melhor, quem está mal sente-se ainda pior. Não é por acaso que a taxa de suicídios aumenta nesta altura. Também odeio o que fizeram do Natal: as decorações, as músicas horríveis (como se não houvesse música belíssima), a orgia de presentes, o stress das comezainas... Tenho a sorte de viver numa família funcional e num país onde é possível encher esta época de poesia: a calma, a música de Bach, os passeios nas florestas cobertas de neve, o pinheiro com velas verdadeiras, o aroma de cera de abelhas a espalhar-se pela casa...
Sendo cristã, acolho o sentido simbólico do Natal, o que torna estes dias mais especiais. O Evangelho não é um relato factual, é mais como o Manoel de Barros dizia: só 10% é mentira, o resto é inventado. A Bíblia é uma intuição do divino traduzida em linguagem simbólica. Quanto mais se mergulha nela, mais interessante fica. Por exemplo, em Mateus a cena da natividade começa com uma longa lista de antepassados de Jesus, entre os quais se encontram uma prostituta e uma estrangeira. O evangelista apresenta-nos um Deus que, ao entrar na condição humana, é descendente de rejeitados e rejeitado antes de nascer (ninguém dá abrigo à mulher em trabalho de parto). A violência começa muito antes do massacre dos inocentes, e é uma violência quotidiana, que mal notamos. A paz que Jesus traz para o presépio já toca esta violência da nossa sociedade: o Deus humano faz-se na carne dos mais pobres, dos mais frágeis, dos rejeitados.

Não sei se o autor de Humans of New York é cristão, mas entendeu inteiramente o sentido simbólico do Natal. Está a organizar para Nova Iorque uma lista de pessoas que estão sozinhas nesta época, e outra com pessoas que convidam desconhecidos para passar o Natal com eles. Com um detalhe comovente: diz que as pessoas não precisam de se intimidar - estar sozinho no Natal não significa que a pessoa não tem amigos, mas que as circunstâncias conspiraram contra ela. Como disse, não sei se este homem é cristão, mas o seu gesto torna a "lovely idea" viva entre nós.

Antes que me perguntem: sim, convidámos algumas pessoas sozinhas para passar o Natal connosco. E não, não são desconhecidos. Estamos a caminho, mas ainda não tocámos o presépio...
A "lovely idea" não é apenas algo reconfortante - é um desafio brutal.


aos amigos que me escrevem a desejar Bom Natal



Aos amigos que me escrevem a desejar Bom Natal:

Desculpem, mas para o Natal ser bom não posso ficar ao computador a retribuir os votos. Agradeço a todos, e retribuo aqui: que tenham um tempo de Natal preenchido com alegria e o calor da presença de quem vos é importante.

O meu Natal convosco vai acontecendo ao longo do ano, sempre que nos encontramos em conversas boas.

Obrigada!


23 dezembro 2014

o Natal está quase quase a rebentar aí...

...e ainda não ouvi uma única vez música do bailado Quebra-Nozes. Viva!!!

Em troca, hoje passaram esta na rádio. Não é bem música de Natal, mas é assim que me quero por estes dias. A ver se o Natal chega tranquilo, em vez de nos rebentar em cima.



(Estamos 9 cá em casa, e mais um cão dez vezes maior que o Fox. O Foxinho, o valente, defende os seus brinquedos como um herói. E depois, o malcriado, passa pelo outro cão a rosnar, e vai todo lampeiro ao saco dos brinquedos do outro.) (Estamos a criar um sociopata...)


enganos

 


Por causa de músicas destas é que comprei bilhetes para o Pat Metheney, e quase com um ano de antecedência. Que veio a ser afinal dois anos de antecedência, porque não reparei bem na data. Em suma, andei quase dois anos toda contente a sonhar com esse concerto (em alemão, isto é uma autêntica instituição da cultura sentimental, e chama-se Vorfreude) - e para quê? Para ele tocar apenas o lado B de si próprio - as suas músicas mais agitadas, de que não gosto tanto.
Enquanto ele não volta a Berlim (e sozinho, para a Vorfreude ser muito maior), vou ficando por aqui. Stille Freude.

num pátio das traseiras

Parece que o Natal é já daqui a dois dias, e não me apetece.
Ainda quero ficar um bocadinho na noite de ontem: uma festa de aniversário louca q.b., num sítio secreto de Berlim.
Não me deixam fazer publicidade, pelo que conto apenas que é...
...pensando bem, deixo apenas as fotos. Imagine cada um o que quiser.

(Ao tirar fotografias de longe, por momentos pareceu-me que tinha o seu quê de presépio.)
(E por falar em presépio... ai! daqui a dois dias é Natal!)
 








(tentar fotografar uma yurt às escuras, só mesmo para quem acredita em milagres...)





 (fora da yurt há ainda este recanto forrado a tapetes - admiro a capacidade dos berlinenses de fazer espaços "schabby" com um ar realmente genuíno, muito descontraído e acolhedor)

(a mesa da festa: queijos franceses, azeitonas com anchovas, patés de vegetais portuguesas - não faltou nada) (quer-se dizer, garrafinhas de Douro tinto podiam ter sido mais algumas...)


21 dezembro 2014

o rapaz vai-se estragar


Não fui ao concerto de homenagem ao Abbado. Continuo na minha maratona para acabar o álbum do ano. Era suposto ser um presente de Natal, e não de Páscoa...

O Matthias chegou por volta das onze, depois do trabalho na Filarmonia. Tinha uma notícia menos boa (vendeu muitos programas mas não recebeu nenhuma gorjeta) (é bem verdade que os filhos mudam as mães: tantas vezes comprei um programa, e nunca me lembrei de dar gorjeta - sabia eu lá!) e uma que lhe dava muita satisfação (é o autêntico Speedy Gonzalez do bengaleiro, acabou o segmento dele muito antes dos outros).

Queria mostrar-me uma música, pediu por uns minutos a minha atenção. Larguei o álbum, e fui passear com ele pelo youtube. Procurava na sinfonia nº5 de Sibelius uma passagem específica.
"Olha para estas trompas!" - e cantava também, as mãos dançavam a melodia.
(Curioso, o meu pai fazia isto no carro - o Matthias repete um gesto que nunca viu.)

Não estava satisfeito com aquela gravação, que era com o Bernstein.
(Curioso, o Matthias repete esta minha espécie de desamor ao Bernstein sem nunca termos falado disso.)

Disse que na Filarmonia, apesar de a estar a ver apenas no écran do foyer, esta passagem tinha muito mais força.

Esta passagem:
 


O rapaz vai-se estragar. Até fins de Janeiro vai passar quase todas as noites e várias tardes naquela casa a ouvir os concertos daquela orquestra. Vai ganhar esquisitices, vai ficar habituado ao luxo.

(Ainda bem.)


20 dezembro 2014

agarrem-me, que eu acho que vou largar o stress do Natal para ir a um concerto de homenagem ao Claudio Abbado

(foto)

E se eu largasse o stress da época e fosse ao encontro da beleza? Afinal de contas, é Natal!

Aviso, só para quem está em Berlim: hoje há um concerto de homenagem ao Abbado com a Isabelle Faust e a Sabine Meyer (entre outras estrelas, claro) na Jesus-Christus-Kirche (aquela de acústica tão fantástica que os filarmónicos fizeram lá muitas gravações superlativas).

Às oito da noite, gratuito.
O resto está aqui, em alemão:

Kammermusik für Claudio

Werke von BACH und MOZART

Isabelle Faust (Violine) Lorenza Borrani (Violine), Diemut Poppen (Viola),
Ludwig Quandt (Violoncello), Alois Posch (Kontrabass),
Sabine Meyer (Klarinette), Lucas Macías Navarro (Oboe).

20.12.2014, 20 Uhr
Jesus-Christus-Kirche, Dahlem
Eintritt frei, Spenden erbeten


neve!

Ena, está a nevar!
(e eu a pensar que este ano íamos ter um Natal sem neve)

(ai! não tenho pá da neve para limpar o passeio, e ainda não combinei com o vizinho do lado que dividimos o custo da empresa que lhe faz isso, e ele entretanto fez uma cerca que mais parece o muro de Berlim aqui mesmo ao fundo do nosso jardim que é mais pequeno que certos canteiros de centros comerciais, e agora o Joachim está a sentir um ataque de claustrofobia, mas não podemos fazer nada porque ele tem todo o direito a levantar uma cerca daquele tamanho, e quem, como nós, pespegou com uma casa enorme a fazer sombra a um vizinho durante a manhã e ao outro vizinho durante a tarde não tem nada que se queixar dos muros alheios, em todo o caso enquanto o Joachim não se conseguir conformar o melhor é não combinar nada com ele, de modo que, ai!, deixa-me ir a correr - mas devagarinho, para não escorregar - comprar uma pá da neve)


mirones

 

Passou agora mesmo uma raposa em frente à nossa casa, e o Fox ficou histérico. Seriam saudades dos primos, ou instinto de caçador?
Apesar dos vidros triplos a raposa ouviu-o e parou no passeio, a olhar para nós. É um bocadinho estranho ter uma raposa no passeio em frente à casa a olhar para mim, sentada à mesa a trabalhar.
Acho que hoje à noite o Fox vai passear de trela. É bem capaz de largar à desfilada atrás da raposa, este maluco.
(Não é a primeira vez. Há anos estava a trabalhar numa casa num bosque junto ao lago Tahoe, e passou um lobo. Parou no meio do jardim cheio de neve fofa, ficou a olhar longamente para mim, e depois seguiu caminho.
Parece que os animais selvagens adoram ver-me trabalhar.)


19 dezembro 2014

sem surpresa



A alegria e naturalidade deste tango neste lugar: não me surpreenderia encontrar aí Jesus a dançar com Maria Madalena. Por contraste, ocorreu-me a surpresa e o embaraço de "As Sandálias do Pescador", quando o papa decide vender as riquezas da Igreja para ajudar os famintos. Impensável, inimaginável.

O mundo mudou: ninguém ficaria surpreendido se este papa resolvesse vender aos museus as vaidades dos Barberini, Bórgia, Medici & Cª, e transformar a Santa Sé numa extensão dos abrigos de Lampedusa.


17 dezembro 2014

letter from home




(esta última foto com efeito "tartaruguinha", mas eu só fui levar o Fox à rua, 
não fui fotografar de máquina de profissional e tripé e tudo)




o Correio da Manhã a desinquietar a maldadezinha que há em mim

(foto)

O raixparta do Correio da Manhã abriu-me o dia com uma notícia sobre uma terrível frente de frio, 3 graus negativos em Setúbal, 0 graus negativos em Sintra (nestes casos, quando é zero é negativo, não me queiram corrigir), coisas assim. Que o Natal só seria suportável no Algarve, com 8 graus.

E eu então esfreguei as mãos de maldadezinha, e fui chatear um amigo lisboeta que me tinha dito há tempos que Berlim tem um inverno que não se pode.

O Correio da Manhã à tarde veio dizer que não. Que vem uma frente quente, e que o Natal este ano parece que vai ser escaldante.

Gulp. Eis que de um golpe só revelei que (1) a maldadezinha também me assiste, (2) leio o Correio da Manhã * e, o mais grave de tudo, (3) acredito no que leio!

Devia ter dado mais atenção às canções horrorosas que me ensinaram na infância. Estava escrito: "por ser má fui infeliz".

(Agora fico à espera de novas peripécias para entender finalmente o sentido profundo de "atirei o pau ao gato-to-to")



(*) Em minha defesa direi que não leio o Correio da Manhã. Mas uma amiga tinha falado de uma notícia muito reles que envolvia um antigo chefe de Estado, e eu fiquei curiosa para saber quem seria a pessoa (pronto! já me desgracei outra vez!) e calculei que, se era reles, provavelmente estava no Correio da Manha. Não encontrei a tal notícia, mas escorreguei com grande estardalhaço nesta sobre a frente fria. Também estava escrito: Deus castiga! Parece que sim, parece que sim. Mas eu tinha esperanças que nesta época do ano lhe desse o espírito natalício...

(eh, lá! Será que estão a privatizar o céu, e o diabo já tem interesses maioritários nos sectores da Compaixão e do Perdão? Isso explicava tanto o meu comportamento como a mesquinhez do castigo.)

(hehehe, eis como no espaço de um post consigo confessar o crime, mostrar arrependimento e arranjar um bode expiatório!)


16 dezembro 2014

dizem que a juventude não sei quê, mas eu, pela amostra...



Por exemplo, ontem: de manhã, encontrei um recado do Matthias pousado no teclado do meu computador:

"Olá minha querida mãe!
Por favor, podes arrancar-me violentamente da cama entre as 11 e o meio-dia? Tenho uma entrevista para um emprego na Filarmonia.
(Portanto: trata-se de bilhetes gratuitos para ti!!! ;)  )"


Como se tratava de bilhetes gratuitos para mim, acordei-o às onze menos cinco. Ele disfarçou-se de rapaz-homem, de camisa preta e sapatos elegantes, e lá foi, e lá voltou com o emprego.
Perguntei-lhe se tinha dito que já tinha muita experiência em eventos culturais, e ele disse que sim, que falou logo no Cinemagosto.
"Vês como és recompensado por ajudares a tua mãe?", comentei eu. "Por isso, agora vai arrumar a cozinha."

Não foi, a ingrata criatura. Diz que tem de ir tratar de uns papéis de burocracia alemã que eu nem sei o que são, ou se já existem cá em casa.

Fez 18 anos há meia dúzia de semanas. Anda a tratar de todo o processo para ir fazer um ano de serviço voluntário na Costa Rica, arranja os seus jobs sem ajudas - e muito menos cunhas - dos pais, trata sozinho de todas as questões burocráticas, e volta e meia arruma a cozinha sem eu lhe pedir.

Enfim, é verdade que os pais não o ajudam muito, mas a irmã - que passou por tudo isto há dois anos - tem dado bons conselhos e um apoio inestimável. Olho para estes dois, e penso numa frase que ouvi há muitos anos: "é bom ter filhos pequenos, mas não há maior prazer que ter filhos adultos".

(a fotografia foi feita pela Christina durante a "Fahrradsternfahrt" - uma manifestação de ciclistas berlinenses na qual participaram os dois)


15 dezembro 2014

o justo e o pecador


A ler notícias sobre o café em Sidney ocupado por alguém que dizem ser um fundamentalista islâmico, fico pasmada com a rapidez de certas respostas: em meia dúzia de horas organiza-se numa mesquita uma oração ecuménica que reúne um imã, um rabino e um padre; cerca de 40 organizações representantes de muçulmanos emitem um comunicado a condenar aquele acto de violência e a apelar à unidade dos australianos.
Alguns muçulmanos são atacados na rua, e em resposta surge no twitter um movimento de solidariedade para acompanhar no espaço público pessoas cuja aparência as possa pôr à mercê do ódio étnico e religioso.

Que mundo é este nosso? Porque é que as pessoas de determinada religião são sujeitas ao medo, porque é que têm de se justificar?
Como católica, não sinto a menor necessidade de me justificar perante o mundo quando uns tresloucados cristãos cometem crimes em nome da sua fé (por exemplo, se matam um médico de uma clínica de abortos). Sabemos todos distinguir entre religião e crime. Por isso mesmo, estes gestos de auto-defesa por parte de alguns muçulmanos deixam-me embaraçada e muito envergonhada. Se, perante um louco que invade um café e faz umas dezenas de reféns, os muçulmanos sentem necessidade de se mostrar publicamente ao lado de representantes de outras religiões, é porque nós, os das sociedades de matriz cristã que nos temos em tão boa conta, não sabemos distinguir o trigo do joio.


("Ah, mas e se um cristão fizesse uma coisa destas num país muçulmano, ai, aí é que ia ser o bom e o bonito!", dirão. Talvez sim, talvez não - não sei. Mas a ideia era fazermos o melhor que podemos, em vez de nos andarmos a nivelar pelo pior que pensamos dos outros.)