Conseguimos pôr a árvore de pé e fazer a decoração um bom par de horas antes da Consoada.
Por ter um cão enorme cá em casa, muito dado a alegrias e poderosas abanadelas de rabo, optei por pôr o presépio em cima do piano. Por trás do piano há vários quadros de nus femininos, e um deles tão explícito que a Christina até me pediu para disfarçar um bocadinho, por causa de pessoas mais sensíveis que possam frequentar a nossa casa. Disfarcei a nossa "origem do mundo" com orquídeas, pior a emenda que o soneto.
Pois foi lá que pus o presépio, mas até para mim é uma alegoria demasiado forte ter uma "origem do mundo" a servir de cenário ao presépio. De modo que não iluminamos muito a sala, pode ser que ninguém repare. A sagrada família não vê - os pais estão de costas para as poucas-vergonhas, e o menino Jesus só tem olhos para nós, que é ao que vem.
(As velas acima da linha de alcance da cauda da Noomi, e um recipiente cheio de água ao lado, porque nunca se sabe...)
Este Natal temos cá a minha sogra e a família de quem eu fui au-pair há quase um quarto de século. Éramos dez pessoas à mesa, e todos ajudaram a preparar o jantar (só estragaram um bocadinho a cozinha magnífica). Sabe tão bem sentar-me a uma mesa cheia sem o cansaço de a ter enchido sozinha!
A cantoria tradicional junto à árvore com as velas acesas correu mais que bem: chorámos a rir. Já nem me lembro porquê, mas chorámos a rir enquanto cantávamos aquelas canções lindíssimas, como Adeste Fideles e Es is ein Ros'entsprungen. O menino Jesus deve ter gostado. Mesmo quando cantámos "Ovi lacht" ("o Ovi ri" em vez de "oh, como ri!") na Noite Feliz.
Depois a Christina cantou The Twelve Days of Christmas, que me deixa sempre surpreendida e encantada, porque apesar da letra dificílima e da melodia nada fácil, ela consegue dar a esta canção uma poesia que passou ao lado do Bernstein num CD que cá temos. (Porque é que eu não consigo deitar fora os CDs que me irritam?)
Também rimos ao ler o Evangelho, porque o Joachim não se tinha preparado e ia começar a ler a extensa genealogia de Jesus. Desatámos todos a protestar, mas eu aproveitei a deixa para falar das tataravós de Jesus, a prostituta e a estrangeira, de modo que eles aprenderam algo que não sabiam e eu pude fazer um brilharete com uma das poucas coisas que sei (sou um bocadinho como o Adrian Mole, uma especialista em indústria norueguesa de curtumes, e fico sempre contente quando arranjo audiência para os meus temas tão interessantes).
Sobre as prendas, a única coisa que vale a pena mencionar é que as melhores são as feitas à mão, e as cartas que escrevemos para as acompanhar. Numa sociedade de abundância, o mais valioso que se pode oferecer é o tempo e o amor posto na confecção de um presente. Ficámos todos muito impressionados com a prenda que a "minha menina au-pair" deu ao irmão - um rolo de "papel" de cozinha costurado: uma longa tira de quadrados com um lado de felpo absorvente e outro lado de tecido colorido, presos com velcro uns aos outros, e enrolados como um rolo de papel. Horas e horas e horas de trabalho para oferecer ao irmão, que algum dia comentara que os rolos da cozinha são um enorme desperdício de papel.
(Esta não é a minha casa, mas fotografei para copiar no próximo ano: uma corda com os saquinhos dos presentes de advento, e por cima uma fieira de luzes. Tão simples e tão bonito.)
No dia 25 fomos à missa da comunidade de língua portuguesa, com músicas africanas e tradicionais portuguesas. O padre ofereceu-nos uma bela homilia, com alguma escatologia natalícia: a parte em que lembrou que Jesus não nasceu num cantinho idílico como nos habituámos a imaginar o presépio, mas num estábulo a tresandar a esterco de vaca: o pior sítio que se podia imaginar.
No fim cantámos Noite Feliz em alemão e português. Em alemão bem foi. Mas o português deu-me uma tareia, porque de repente tinha outra vez cinco anos, era enfim meia-noite e avançávamos num grupo enorme com os avós, os tios e a criada-avó Bina pelo corredor estreito para a sala onde estava o pinheiro, e o Pai Natal deixara os presentes. A voz segura e clara da minha mãe cantava "Dorme em paz, ó Jesus" sem a mínima hesitação naquele fá agudo. Tudo era perfeito como é perfeito o Natal aos cinco anos, e tudo estava tão irrecuperavelmente longe. Mas logo a seguir veio a estrofe em alemão, e eu recuperei o pé.
E ao terceiro dia - ontem - nevou. A seguir o céu abriu-se muito azul. Fui ao quarto do Matthias (que esteve na conversa com os outros até às quatro da manhã) buscar o Fox e levei-o a passear na sua primeira neve do ano.
Depois a neve derreteu.
Esta manhã havia "flores de gelo" nas janelas. O sol arrumou com elas num instante.
Estes dias quatro-estações são um bocadinho estranhos.
Mas foram dias felizes, isso sem dúvida.
(Apesar de certas picadas venenosas, não digo de quem. Só para que conste que no nosso Natal também houve veneno familiar como no de todas as famílias normais. Por sorte não veio de alguém que me seja realmente importante.)