27 maio 2014

logo se vê

Começo a desconfiar que sou uma nulidade a organizar coisas, e a culpa é do estribilho "logo se vê".
O pintor só tem tempo de pintar a casa justamente na altura em que a empresa de mudanças a está a esvaziar, e - numa de "logo se vê" - combino com ele que a empresa vai esvaziando os quartos um a um, e ele vai atrás a pintá-los, vamos indo e vamos vendo, com certeza que no fim tudo corre bem. O pintor diz que sim, mas quando entra na nossa casa cheia de tralha e carregadores, sugere-me que ligue ao senhorio e pedir que adie alguns dias a entrega da casa (como é que eu não me lembrei logo disso?!). O senhorio também deve ser do tipo logo se vê, porque não tem planos fixos para a casa no dia 1 de Junho, e autorizou.
Na casa nova, os homens entram com caixas e móveis, e eu estou à porta a dizer para onde vai tudo aquilo, mas infelizmente desta vez não tive tempo de sonhar a disposição dos móveis na casa nova, de modo que depois da cena gaga em que dizia "o móvel chinês? ahem, fica no rés-do-chão, ah, espere, talvez no segundo andar", mando tudo para um quarto que por enquanto não é preciso. Depois vai ser bonito, transportar tudo para o sítio certo. Mas, lá está: logo se vê.
Pior ainda: para montar as estantes é preciso espaço (e ainda tenho de arranjar um homem que as corte, porque têm em altura 1 cm mais do que deviam). Se enchemos primeiro as divisões com as caixas de livros, não há como montar as estantes depois. De modo que os livros estão a ficar todos naquele tal quarto do andar de baixo, e eu vou passar um mês a descer as escadas e a subi-las de novo carregando centenas de livros. A vantagem é que no fim desse mês vou estar com um maravilhoso corpo de bikini.
Começo a desconfiar que descobri o segredo das, digamos, mocinhas que são um bocadinho lentas de entendimento e têm um corpo escultural, que vão para os concursos das misses. Também devem ser do tipo logo se vê, e depois coitadas lá tem de carregar os livros todos pelas escadas acima.

Ontem na casa nova:



Hoje na casa velha:



Daqui a nada desligam-nos os computadores, e estou aqui desesperada à espera do desenho final da cozinha que vai ser encomendada em Portugal. Se não vier agora, sei lá quando vou ter internet para ver e decidir e encomendar finalmente. Em todo o caso: vou andar pelo menos três meses a cozinhar na cozinhinhinha do Matthias, e a comer três andares acima. Se me preocupo? Ora essa! Logo se vê. 
Praias de Portugal, este verão é que ides ver o que é bom, hehehe.
PS: O Fox anda tristinho, tristinho. Passa o dia na casa dos vizinhos, que são amorosos, mas sente-se abandonado e não percebe nada do que está a acontecer à casa que até agora era o seu mundo. Já lhe expliquei que é para bem dele, e que quando tivermos o jardim com relva e cercas (para ele não ir para os jardins dos vizinhos, que ainda nos vai arranjar inimigos naquela rua) vai ver que valeu a pena todo este sofrimento, mas ele olha para mim de orelha murcha e choraminga um bocadinho. 


26 maio 2014

já começou a mudança, e eu, que estou a trabalhar desde as cinco da manhã, vim aqui fazer um intervalinho, mas volto já para os trabalhos forçados, não se preocupem

Um após outro, já quatro homens percorreram o apartamento, e a cada nova sala ficam mais incrédulos. Não sei, mas parece-me que vai ser um longo dia.
(E talvez seja boa ideia eu desaparecer quando for a altura de carregar as caixas dos livros, porque quando vimos que os caixotes estavam a esgotar começámos a optimizar a ocupação do espaço...)

 

 



PS: Se a gratidão matasse, podiam começar a encomendar flores para o meu enterro. Os amigos que nos vieram ajudar, e ontem ficaram aqui até estar praticamente tudo feito, foram, bom, nem tenho palavras. E mais: quando viram que eu estava como o tolo no meio da ponte, sem saber para onde me virar, discretamente trataram de resolver tudo sozinhos. Esta manhã levantei-me às cinco, para fazer o resto - e só então descobri com detalhes a qualidade do trabalho que fizeram ontem sem o menor alarde.
A Christina também foi  incrível: depois do trabalho (tem um job que a obriga a levantar-se às seis da manhã) veio para cá e trabalhou até à meia-noite. E o Matthias, que tem o último exame do secundário amanhã, regressou de um encontro de preparação do ano de trabalho voluntário na América Latina, e ficou a ajudar enquanto foi preciso.
A minha sorte é que a gratidão não mata.


momento nostalgia


Os brinquedos dos miúdos. Os livros infantis. Provavelmente gastamos em brinquedos e livros o suficiente para comprar um carro. Ora bem: melhor nisso que em tabaco. Além disso, fui feliz (sim: sou daquelas mães que compram os brinquedos mais para se desforrarem da sua própria infância do que).
Os miúdos queriam dar imensos livros à Oxfam. Eu é que não consigo ser tão mãos-largas como eles, sobretudo quando se trata dos livros para os mais pequeninos. Cada um deles carrega muitas horas especiais que passámos juntos.


25 maio 2014

quero estes

Alguém tem o número de telefone deles?
(Não desfazendo, claro claro, dos amorosos que me estão a ajudar. Foi um deles que me passou o link - e não sei se é para ler alguma coisa nas entrelinhas...)




blogolinho de ouro

Amanhã é o dia da mudança. Não sei o que é que a nossa tralha tem, que fartamo-nos de encher caixotes mas ela continua a aparecer por todos os lados.
A nossa sorte são os amigos: os que se ofereceram para ajudar, os que vieram porque lhes pedimos. Todos fantásticos (só é pena a tralha lhes trocar as voltas também a eles) - mas o blogolinho de ouro vai para o Sebastião B., que conheci na festa de Natal dos Portugueses em Berlim, ficou meu amigo no facebook, e quando me viu por lá a contar das andanças da casa ofereceu-se logo para ajudar. E depois ainda dizem que o facebook não sei quê talicoisa.

Volto para os caixotes. Se nos próximos dias não aparecer aqui, é porque estou sem internet.
Ou então, é porque os caixotes acabaram comigo antes de eu ter conseguido acabar com eles...


já fui votar e...

Já fui votar, e marquei a minha cruz com tanta força que quase ia furando o papel.
Não há dúvida: os extremos tocam-se. Tanta era a convicção, que esteve em risco de desembocar em voto nulo.


em quem vou votar hoje



Quais castigar este ou aquele, quais "malditos eurocratas de Bruxelas", quais "eles são todos iguais", quais " deixa ganhar os anti-europeístas só para dar uma lição a estes palermas", quais quê.

Por estes dias tenho pensado muito numa frase do Jean Paul: "Só se dá valor às coisas depois de as ter perdido" - ou depois de ter viajado para países onde não existe aquilo que é normal no nosso quotidiano. No meu caso, os anos nos EUA e as viagens à China e à Arménia fizeram-me ver com muita clareza o valor das coisas que ainda temos. 

Hoje faço questão de dar o meu contributo para que no Parlamento Europeu haja um grupo forte de deputados a orientar a Europa na direcção em que eu a sonho. 


23 maio 2014

TTIP - é fundamental ir votar no próximo domingo!



Por estes dias um jornal alemão tem uma série sobre aquilo que é típico da Europa e é apreciado pelos não-europeus. A ideia é fazer ver às pessoas o que é especial na UE, mas que, por tão evidente, nem sequer é notado. Um dos artigos que li falava de chineses que moram em cidades onde não se pode respirar, que receiam ser envenenados pelos alimentos que compram nas lojas (depois do escândalo do leite em pó contaminado, alguns tentam vir à Alemanha comprar o leite em pó para os seus bebés), e cujo grande sonho é viver na Europa, onde não têm de se preocupar com a qualidade do ambiente e dos produtos que consomem, porque os Estados cuidam disso.

Recentemente, em conversa com um amigo americano, dei-me novamente conta das diferenças extraordinárias de mentalidade entre os EUA e a Europa. Ele pura e simplesmente não conseguia entender, e muito menos acreditar, que as pessoas podem escolher andar de bicicleta em vez de carro, para ter dinheiro suficiente para comprar carne biológica em vez daqueles cocktails de antibióticos e hormonas que são a carne barata nos supermercados.

Tenho-me lembrado muito disso a propósito do TTIP. Como será retroceder nas conquistas de uma certa mentalidade europeia, e ter de ir para o supermercado com uma tabela de produtos químicos para estudar atentamente todas as etiquetas dos produtos, de modo a ter a certeza que não incluem nenhum químico perigoso para a saúde humana? Como será passar a viver o pesadelo chinês (e também o americano) sem sair do nosso próprio país?

Há dias falei do TTIP, num post que suscitou comentários muito interessantes e informativos (podem ver aqui). Entretanto, o programa Monitor  (aqui, em alemão), do primeiro canal da televisão pública alemã, apresentou uma pequena reportagem onde explica que isto vai muito além dos frangos desinfectados com cloro e de vermos a nossa natureza destruída no pleno respeito pelos critérios legais americanos.
O TTIP, preparado à porta fechada e sem informação para os Parlamentos, vai fazer tabula rasa dos valores que fazem da nossa Europa um lugar especial: a defesa do consumidor, a defesa do ambiente, os serviços de interesse público assegurados pelo Estado. Se este acordo passar, os valores que nos são importantes vão passar a ser defendidos à custa de muito dinheiro dos contribuintes, em indemnizações pagas às empresas americanas que terão, nos termos do acordo, o direito de fazer no nosso continente o que podem fazer nos EUA.
Para piorar, a Comissão Europeia quer fazer passar o TTIP à margem dos Parlamentos nacionais. Só os deputados do Parlamento Europeu, eleitos directamente por nós, podem travar este acordo. E no próximo domingo há eleições para o Parlamento Europeu.

Pergunto: perante estes factos, continuam a achar que "isto é mais do mesmo", e que "eles são todos iguais", e que "o Parlamento Europeu não tem nada a ver connosco e assim como assim é uma cambada de inúteis que só se preocupa com o tamanho dos pepinos", e que "como o PS é tão mau ou pior que o PSD não vale a pena ir votar" e que "não vale a pena votar porque de qualquer maneira estamos sempre tramados"?

Voto na Alemanha, e tenho muita escolha: Os Verdes, os Linke, os Piratas e mais quatro partidos rejeitam o TTIP. Os socialistas e o CSU (partido bávaro coligado com o CDU) não são inteiramente contra, mas têm algumas reservas.
Em Portugal, e salvo erro, até agora só o LIVRE parece estar preocupado com isto. Não conheço esse partido suficientemente bem, mas o facto de alertar para este problema já me bastaria como sinal positivo da sua atenção a problemas fundamentais dos europeus. E pergunto-me o que é que estão a fazer os outros partidos - será que continuam a perder tempo nos seus joguinhos de salão provinciano, quando o jogo europeu é tão mais importante?

(Há momentos em que me apetecia incluir medidas drásticas na Democracia. Por exemplo: quando as empresas americanas começarem a exigir milhares de milhões de indemnização por terem perdido lucros, esse dinheiro havia de ser pago apenas por quem não votou para estas eleições europeias.) (Isto já me passa, não se preocupem.)


estou assim:

Encho uma caixa a pensar na solução para os roupeiros. Vou à internet ver preços de portas de correr. Encho outra caixa, lembro-me que ainda não encomendei a parte da cozinha que vem de Portugal, telefono para Portugal. Encho mais uma caixa. Diapositivos, já vou em quatro caixotes de diapositivos! Quando é que vamos ver todos estes diapositivos? Caixa seguinte. Olha um livro emprestado - toca a escrever ao dono, a ver como faço para devolver. Outra caixa. Ai, é preciso reservar o restaurante para hoje à noite. Duas caixas, deixa cá ver como vai ser a cozinha do Matthias, deixa cá ver se o Mike já lá foi colar o azulejo que falta para podermos pôr os móveis. Mais uma caixa, olha olha, aqui está o meu disco externo de segurança, que guardo escondido dos ladrões porque tem as nossas fotografias, deixa-me cá pôr a gravar as dos últimos dois anos. Onde diabo estará o cabo do disco? Estes são os dos telemóveis, não servem. Ah, espera, é o mesmo da impressora - esse não, o outro. OK, deixa-o lá a contar os gigas, e no entretanto mais uma caixa. 2013, setenta e um gigas, quando é que vamos ver todas estas fotografias? Pronto, já está, tem para duas horas. Volto às caixas. Será que já temos água em casa? Tenho de perguntar, e depois tenho de arranjar quem vá limpar a casa este fim-de-semana. Caixa seguinte.

...

Intervalinho: a filha do Tolan, que tem oito meses e mal sabe dizer "mamã" e "papá", diz "carrega, Benfica!" com todo o entusiasmo. Tão querida! Não sei se soube escolher bem o clube, mas, coitadita, aos oito meses ainda se é muito dependente dos pais e não se tem grande margem para escolher em liberdade. Em todo o caso, eu, se fosse aos senhores do Benfica, dava-lhe já o cartão de ouro, ou a medalhinha, ou o terço, ou lá o que é. Merece.


e agora saia uma cozinha ali para a mesma casa, se faz favor


O camião chegou pontualmente às seis e meia da manhã, e eu já lá estava a descarregar as peças de cozinha que comprei ontem na IKEA.
As coisas começaram por correr muito mal, porque o camião desatou a patinar na areia. O condutor já queria ir à vida dele, mas depois aceitou fazer uma última tentativa, atacando por outro lado do terreno. Deixou o camião a quase um metro de distância da porta de entrada, de modo que fomos buscar umas tábuas para se fazer uma ponte.
Fui buscar cafés para eles, e deram-me uma bolachinha em cima do copo de papel - foi aí que percebi que estou a mudar para um bairro ligeiramente mais fino do que o actual. Aimêdês, desconfio que vou ter de andar todos os dias disfarçada de senhora, vai ser um stress.
Quando voltei, mais de metade da cozinha já estava dentro de casa. Os homens protestaram um bocado, disseram que a ponte improvisada não tinha condições nenhumas e estava mesmo a gritar por um acidente, e que quem trabalha assim não está coberto pelo seguro, porque nenhum seguro paga negligência e burrice, mas foram simpáticos e fizeram. Agradeci-lhes muito, e depois pus-me a rezar para que não acontecesse acidente nenhum. Enquanto rezava continuei a descarregar o carro (sou muito multi-tasking) e entretanto começaram a chegar todos os outros operários, que me ajudaram a carregar as coisas mais pesadas.
Os electricistas admiraram-se por a garagem vir sem as ligações eléctricas, e telefonei ao arquitecto, que também já estava a trabalhar às sete da manhã.
Às oito da manhã os móveis estavam prontos: desempacotados e encostados à parede. Na segunda-feira vem o carpinteiro que vai montar tudo - e algo me diz que posso levar as coisas deste frigorífico directamente para o novo. O camião foi-se embora às oito e um quarto, o que deixou o vizinho todo contente, porque estava mesmo a precisar daquele espaço para descarregar o seu próprio camião. O da escavadora foi simpático e disse que esperava mais uma horinha antes de começar a fazer os alicerces das escadas. O vizinho também foi simpático, e deu-nos electricidade para os do chão continuarem o trabalho enquanto os electricistas desligam a corrente eléctrica para instalarem o contador. O vizinho controlou se a garagem estava ligeiramente inclinada, para a água do chão poder escorrer para fora, e por sorte estava (e eu com cara de "é tão triste andar a fazer uma casa sem saber nada destes detalhes..."), e depois perguntou-me se a nossa máquina para aquecer a casa está ligada a uma corrente eléctrica mais barata (depois pergunto ao arquitecto, assim como assim agora já é demasiado tarde para corrigir, e é mesmo muito triste andar a fazer uma casa sem saber nada destes detalhes).
Depois fui levar uns papéis do Joachim ao ginásio de fisioterapia onde se tratam os jogadores do Hertha, disfarçadamente enchi os olhinhos de pernas fantásticas, e a seguir fui para casa com os croissants frescos para o pequeno-almoço com a minha sogra, que veio cá para o concerto do Aznavour e hoje faz anos. Eram oito e meia da manhã, e estavam a dar as notícias: em consequência da decisão do Tribunal Constitucional alemão, o tribunal não-sei-quê aceita a co-adopção homoparental, e na Holanda o Geert Wilders vai levar uma capilota monumental nas eleições europeias. O dia começa bem.











22 maio 2014

saia uma garagem ali para a casa do canto, se faz favor


Uma hora foi o tempo que levou a chegar o camião, fazer a manobra complicada para se meter entre as casas, largar a garagem, ajustar a porta, dar os papéis, e ir-se embora. Eram três da tarde, e já era a quarta garagem que estava a pousar no seu destino.







Por isso, sobrou-me tempo para ir comprar umas panelinhas para o fogão novo, e umas portas novas para a cozinha velha da IKEA. Tive de ir a duas IKEAS, mas consegui encontrar as últimas portas Årsta ainda existentes em Berlim. E porque será que vão acabar com este modelo, que é completamente atemporal? É o problema do costume: nunca ninguém me pergunta nada.





good news, bad news, good news



Good news: acabei de vender o fogão de sala.

Bad news: os palermas da IKEA estão a mudar o sistema da cozinha. Parvalhões. Tenho de ir lá a correr ver se ainda consigo comprar umas portas brancas para os móveis que tenho, e mais uns que me faltam, e mais isto e mais aquilo. Como se não tivesse aqui 200 caixotes para encher.

Good news outra vez:  hot dogs da IKEA, here we go again!


(mas antes vou à obra fotografar a chegada triunfal da garagem, diz que é à uma da tarde)


senhor diabo, pode reduzir o fogo aí nesse döner kebap

Sabem aquilo que eu disse no post anterior, sobre o destino de quem inventou o Sistema Operativo em Tempo Real?
Pois parece que afinal esse sistema funciona: acabaram de me ligar da expedição que vai entregar a cozinha. Eu ontem tinha-lhes pedido se por muito favorzinho se podiam levantar mais cedo e ir entregar a nossa cozinha antes de irem entregar a que estava agendada para as sete da madrugada, e eles pois que sim, às seis e meia da manhã lá estarão.

Parece-me um milagre. Agora só falta resolver a quem o atribuir, e mandar relatório para o Vaticano. Mais uns anitos, e habemus mais um sanctum. Por mim, até podia ser eu. Depois destes dias, acho que mereço.


parece que sim

Parece que vamos mudar mesmo na próxima segunda-feira. Tenho andado a fazer fotografias para mostrar como avança, mas quando chego a casa para as pôr no blogue já estão desactualizadas. Volto à casa, faço mais fotografias, e zimbas, assim vai a vida. Portanto: o que se segue já deixou de ser verdade há mais ou menos 47 minutos.


Já temos chão em mais de 2/3 da casa:


Já temos torneiras (ainda falta um pequeno detalhe, a água, mas não sejamos esquisitinhos):





Já temos portas:



(montaram-nas todas em meia manhã - e só uma é que abre para o lado errado...) (descobri quando os homens ainda lá estavam: a porta da casa de banho de serviço abre para dentro, de modo que é preciso fazer algum jogo de cintura para passar à volta da porta e chegar à sanita. Como sou pateta, pensei: "as pessoas gordas vão ter de usar outra casa de banho". Nem me ocorreu dizer aos homens que pusessem a porta a abrir para fora. Pergunto-me agora se isto é um reflexo do desenrascanço português: perante um problema, procurar uma solução para desenrascar em vez de parar, pensar e refazer para ficar bem.)

Ainda tenho de ver como é com a ligação telefónica e a televisão. E a água, já agora, que nem só de internet se vive.

Hoje vêm entregar a garagem. Amanhã vêm entregar uma parte da cozinha - a parte rolls royce, que vem de Portugal, ainda não está encomendada. Como ainda não temos escadas exteriores, o camião que traz a cozinha vai chegar junto à porta, para descarregar directamente para dentro da casa. Têm de vir cedo e ser rápidos, porque o homem da escavadora vai estar à espera que se vão embora para fazer as fundações de cimento para as escadas. Na segunda-feira, às sete da manhã chegam as escadas (vêm da Turíngia, que era da RDA: o pessoal lá trabalha incrivelmente bem, e por um preço muito razoável), e vão ser aparafusadas a toda a velocidade - enquanto cá em casa os homens vão carregando os nossos tarecos para dentro do camião.

Como se não bastasse para complicações, o homem que vai montar a cozinha chega à casa às sete da manhã, e tem de esperar que os pintores fechem este sulco na parede e no tecto (na cozinha, claro):


Provavelmente não vai ter de esperar muito, porque os pintores estarão com pressa: têm de vir para o apartamento de onde vamos sair, e pediram para já termos um quarto vazio às sete da manhã, para começarem logo a pintar enquanto nós esvaziamos o resto da casa.

Quem inventou o Sistema Operativo em Tempo Real deve estar agora no inferno a ser grelhado às voltinhas como um döner kebap...

(E agora vou encher caixas, que é o meu parafuso neste processo de produção, além de fazer fotografias, controlar se estão a fazer tudo como eu queria, resolver os problemas que aparecem, e dormir o mais depressa que consigo.)


18 maio 2014

diz que vamos mudar de casa de amanhã a oito




  


Mudamos 15 anos demasiado tarde: ali por finais dos anos 90, o que o Matthias e a Christina não teriam dado para ter duas escavadoras no quintal!


Mudamos um mês demasiado cedo:

As escadas de acesso à casa:



A cozinha:



As casas de banho (ainda sem água):




O chão:



E assim vai a vida.
Acabo o intervalinho, e volto para as caixas (de amanhã a oito temos os camiões à porta de casa às 7 da manhã; os pintores vêem à mesma hora, e vão pintando as paredes à medida que as divisões se vão esvaziando). Já que estou de mangas arregaçadas, aproveito e limpo também as desgraças que o Fox vai deixando por aí (está com diarreia, o pobrezinho), e mostro Berlim aos amigos americanos que nos vieram visitar, e mais isto e mais aquilo. 
Esta semana dava-me jeito que o Calvin me emprestasse aquela máquina que inventou para fazer sósias seus. Quatro ou cinco de mim, dava-me jeito. 


17 maio 2014

programas e listas para as eleições europeias 2014 (post do Insurgente)


“Aliança Portugal” (coligação PSD e CDS-PP): ProgramaLista.
Partido Socialista – PS: ProgramaLista.
“Coligação Democrática Unitária” (coligação PCP e PEV): Programa PCP e Programa PEVLista.
Bloco de Esquerda – BE: ProgramaLista.
Partido da Terra – MPT: ProgramaLista.
Partido pelos Animais e Natureza – AN: ProgramaLista.
Movimento Alternativa Socialista – MAS: ProgramaLista.
LIVRE – L: ProgramaLista.
Partido Operário de Unidade Socialista – POUS: ProgramaLista.
Partido Comunista dos Trabalhadores Portugueses – PCTP/MRPP: ProgramaLista.
Partido Nacional Renovador – PNR: ProgramaLista.
Partido Democrático do Atlântico – PDA: ProgramaLista.
Nova Democracia – PND: não encontrei online Programa; Lista (via site da CNE).
Portugal Pro-Vida – PPV: ProgramaLista (via site da CNE).
Partido Trabalhista Português – PTP: não encontrei online Programa; Lista (via site da CNE).
Partido Popular Monárquico – PPM: não encontrei online Programa; Lista (via site da CNE).
Agradeço que quem tenha informação adicional ou correcções a apontar, as indique nos comentários a este post.
Adenda: agradeço ao Cláudio Carvalho, ao Filipe S. Henriques, ao Miguel Noronha, aoJoão Cortez e a Ana Matos Pires as informações fornecidas.


Fonte: http://oinsurgente.org/2014/05/12/programas-e-listas-partidarias-para-as-eleicoes-europeias/

16 maio 2014

os concertos mais esperados


Esta semana estão cá os amigos americanos que nos costumam vir acelerar o ritmo da vida cultural, já de si bastante vivaço. Trocando por miúdos: um concerto de dois em dois dias - e só não é mais porque daqui a 10 dias estamos a mudar de casa, e uma pessoa não é de ferro.

O primeiro concerto foi o mais esperado, literalmente: comprei os bilhetes em 2012, pensando que era para Maio de 2013. Chegou Maio de 2013, e vi que afinal eram para Maio de 2014. Pat Metheney, no Tempodrom. A sala não encheu muito, e no final o público aplaudiu com muito menos endurance que os velhinhos da Filarmonia. Esta gente jovem, esta gente jovem...
Já passava das dez e meia da noite, e as pessoas começaram logo a sair. Coitado do Pat Metheney e da sua banda: tiveram de se despachar a vir ao palco para os encores (fizeram quatro), porque corriam o risco de chegarem lá e darem com a sala vazia.
Foi um bom concerto, se querem saber a minha opinião, embora eu prefira as músicas mais calmas do Pat Metheney e eles tenham feito questão de encher o público de energia. Um público ingrato, valha a verdade, que não retribuiu essa energia em palmas. Tivesse ele feito o concerto só com as músicas que me agradam, e ia ver o que é gratidão!

O segundo foi Castor et Pollux, uma ópera de Rameau, na Komische Oper. Decididamente, ópera não é o meu caso. No fim, segredei ao Joachim que não devíamos aplaudir com muito entusiasmo, não fosse dar-se o caso de eles voltarem a cantar tudo outra vez.
Os nossos amigos estavam deslumbrados. Que adoraram cada segundo da música, que o fagote era excepcional, que todos os músicos tinham estado muito bem, que no fim só lhes apetecia ouvir tudo mais uma vez. Nós ouvíamo-los, muito caladinhos.

O terceiro é amanhã, e ando há meses a sonhar com ele: Dido e Eneias, de Purcell, com coreografia de Sasha Waltz.





Uma óptima distracção para os problemas que a casa tem dado, para as caixas que ando a encher, para o quebra-cabeças que é a cozinha fantástica-maravilhosa que virá de Portugal, e mais duas ou três coisinhas super urgentes e super importantes que tenho andado a fazer.


TTIP - por favor, digam-me que isto é mentira!



Esta semana recebi uma mensagem de um amigo, alertando para o problema do acordo de livre comércio entre os EUA e a UE, também conhecido por TTIP. O meu filho já tinha falado disto - de facto, já me tinha mostrado uma discussão interessantíssima que tinha tido com amigos no facebook (um dia destes traduzo, só porque fiquei impressionada com miúdos de 17 anos a discutir a questão de mais ou menos Estado citando bibliografia - no facebook!) - e resumiu tudo com a frase "se não quisermos ter no nosso mercado frangos de cloro, vamos ter de indemnizar as empresas americanas que os vendem".
Também já tinha lido por aí umas coisas, mas a mensagem que recebi esta semana é assustadora.
Porque é que assunto não está a ocupar as primeiras páginas dos jornais?

Passo a traduzir a mensagem que recebi:



O cerne da questão: este acordo inclui uma cláusula de protecção dos investimentos. Parece algo inócuo, mas de facto é inacreditável. Vejamos alguns exemplos reais: 

Exemplo 1: O governo do Uruguai emite leis antitabagistas mais rigorosas. Com base na cláusula do acordo que protege os investimentos, a empresa Philip Morris está a processar o Estado, devido aos lucros que perde. O valor em causa atinge 14% do PIB do Uruguai. 

Exemplo 2: Devido a preocupações ambientais, a província canadiana Quebec decide não autorizar o fracking. A empresa americana Lone Pine processa o Estado canadiano em 250 milhões de dólares, devido à quebra de lucros esperados, com base no NAFTA de 1994 (acordo de livre comércio entre o México, o EUA e o Canadá).  

Exemplo 3: A Alemanha decide abandonar a energia nuclear. O grupo Vattenfall processa o Estado em 3,5 mil milhões de euros (para comparação: a cidade de Lübeck não tem dinheiro para consertar os telhados das suas escolas primárias), com base na "Carta Energética Europeia".

Todos estes processos decorrem em tribunais internacionais de arbitragem. Tanto quanto sei, só há um número limitado de consultórios de advocacia (cerca de 30) capazes de participar nestes processos. Umas vezes estão do lado da acusação, outras do lado da defesa, outras na cadeira do juiz. O pagamento do seu trabalho é principesco. Ainda não consegui entender como é que estes tribunais são formados. Os processos decorrem à porta fechada, as decisões são vinculativas, não há possibilidade de revisão. Os tribunais de arbitragem são instituições que se posicionam acima das nossas Constituições e dos nossos tribunais. Infelizmente, tenho de reconhecer que só agora, no âmbito do TTIP (ou seja: também tenho estado a dormir) me dei conta de que já há um extraordinário número de acordos bilaterais de protecção do investimento firmados secretamente entre a Alemanha e outros países - secretamente, porque a opinião pública nunca os autorizaria. Neste momento corremos o risco de, com base no TTIP, firmar um acordo destes, com um enorme alcance e de forma praticamente irreversível.
Em minha opinião, os eleitores que não estiverem agora atentos tomam para si a culpa do que vier a acontecer. Estamos perante um instrumento que os grandes grupos vão poder utilizar para manipular os políticos dos Estados afectados, tendo em conta o valor descomunal das indemnizações que podem ser obrigados a pagar. Os interesses dos cidadãos passarão de forma muito clara para segundo plano - e isto irrita-me de tal modo, que decidi tomar a iniciativa de alertar publicamente para este problema.


Pontos adicionais: este não é o único risco do TTIP. Grupos de protecção do ambiente e dos consumidores temem que em muitos casos os níveis standard de protecção possam descer. É possível que a UE passe a aceitar alimentos geneticamente manipulados, carne tratada com hormonas, e fracking - por exemplo. O tratado permite facilitar às grandes empresas a realização de lucros na área da distribuição de água, da saúde e da educação, à custa da população. As privatizações devem ser facilitadas (para mais informações, ver aqui, em alemão)    
O TTIP é praticamente irreversível: uma vez assinados, não poderão ser alterados pelos políticos eleitos. Cada alteração tem de ser aprovada por todas as partes envolvidas. A Alemanha não pode abandonar este tratado, porque quem assina é a União Europeia.
Por este motivo, apelo a todos vocês para que aproveitem as eleições europeias para mudar a direcção. Os partidos já disseram mais ou menos qual é a sua posição, e o CAMPACT fez uma síntese, na qual se vê quais são os partidos alemães que recusam liminarmente o TTIP (Verdes, Linke, Piratas, Freie Wähler). 



E agora, cá para nós, portugueses:

Isto não é verdade, pois não?
Se é verdade, porque é que ninguém fala disso?
E vocês, cada um de vocês - no próximo domingo vai votar, ou vai aproveitar o bom tempo para ir à praia, dizendo que "eles são todos iguais, o meu voto não atrasa nem adianta"?


12 maio 2014

como a lava que corre



E se nesta altura, em que não tenho tempo para nada, me dessem bilhetes para ir ver a Elīna Garanča, que devia eu fazer?
Fiz o que devia, pois claro: disse-me que era domingo, e que também tenho direitos, e tal, e fui.

Um concerto inesquecível.

A Elīna Garanča canta como se fosse fácil. Uma pessoa nem repara na técnica, na dificuldade da peça, nada. Quase diria que canta como a água que corre, mas pecava por defeito: estaria a omitir o calor da voz, as nuances que mistura nas notas com tal intensidade e variação que mais lembra a cor do fogo contido na lava. Como a lava que corre - com a diferença que a lava destrói, e esta voz, à sua passagem, deixa apenas o assombro da beleza.
Por falar em beleza: esqueci-me de levar os binóculos. Estava no bloco B, bem à frente, mas para ser perfeito devia estar sentada no palco a deslumbrar-me com a graça desta mulher. E a lindeza dos seus vestidos - mudou no intervalo, a Christina e eu não conseguimos chegar a acordo sobre qual era o mais bonito.
(Eu não acredito que já estou a falar dos vestidos, ainda antes de dizer que o pianista, Roger Vignoles, foi extraordinário!) (Onde anda a Caras, que ainda não me empregou para chefe de redacção? E CEO e tudo o resto, menos a parte dos serviços administrativos, que para isso não tenho tanto jeito.)

Cantou Robert Schuman, Alban Berg e Richard Strauss.

Do Liederkreis de Schuman gostei especialmente dos Lieder der Braut, e - para quem quer saber tudo - do Lied der Braut I. É que ontem era dia da mãe aqui na Alemanha, e soube-me bem ouvir aquele poema tão bem cantado.

 Mutter, Mutter glaube nicht,
 weil ich ihn lieb' all so sehr,
 daß nun Liebe mir gebricht,
 dich zu lieben, wie vorher.

 Mutter, Mutter! seit ich ihn liebe
 lieb' ich erst dich sehr.
 Laß mich an mein Herz dich zieh'n,
 und dich küssen, wie mich er!

 Mutter, Mutter! seit ich ihn liebe,
 lieb' ich erst dich ganz,
 daß du mir das Sein verlieh'n,
 das mir ward zu solchem Glanz.

(A noiva diz à mãe que, apesar de apaixonada, continua a amá-la como antes, e agora mais ainda, pois foi a mãe quem lhe deu a vida para viver tão grande alegria. )



De Schumann cantou também a série "Frauenliebe und Leben":






Alban Berg não é propriamente dos meus compositores favoritos. Ao ler no programa que os "Sieben frühe Lieder" só não acabaram no caixote do lixo porque a mulher dele não deixou, tive vontade de fazer uma piadinha de mau gosto sobre as mulheres que se metem no trabalho dos maridos. Ainda bem que não fiz, porque a Elīna Garanča fez-me mudar a opinião. Obrigadinha, ó Frau Berg!









Seguiram-se cinco dos Sechs Lieder de Richard Strauss, como este "Allerseelen" (tão triste),



e muitos aplausos, e ela a voltar ao palco duas vezes: para cantar "Morgen!", de Richard Strauss,



e uma canção do seu país, "Fecha os olhos e sorri", que ela anunciou com um sorriso maroto e orgulhoso:



No fim aplaudi com muito entusiasmo, à espera que ela fizesse sete encores como o Jonas Kaufmann, ou ao menos só mais um: Beim Schlafengehen do Strauss.
Mas nada, triste vida. A ver se no próximo concerto se lembra disso. Por mim, estava bem capaz de lhe dar uma segunda oportunidade...
(Depois do concerto de ontem, estava bem capaz de nunca mais a largar de vista!)


as últimas testemunhas




Por falta de tempo, nem sequer folheei o programa do festival de teatro dos Berliner Festspiele deste ano. Uma pessoa não é de ferro, e este é o mês em que a casa está a acabar de ser construída (e se tem dado dores de cabeça!) e em que tenho encaixotar toda a nossa tralha, excepto aquela a que der outro destino - e dar destino é o que custa mais tempo. Como se não bastasse, chegam amanhã dois amigos da América, no sábado mais dois, e quando eles se forem embora vem a minha sogra para o concerto do Aznavour e para festejar o seu aniversário connosco. Acordo a meio da noite a pensar na vida, e a pensar como vou conseguir dar conta de tudo isto, e com tanta insónia acabo até a sonhar que não consigo dormir. Haverá pesadelo mais cansativo que este de sonhar que se está acordado na cama a pensar na vida?

Em suma: não tenho tempo para nada, e muito menos para folhear programas de festivais de teatro em Maio. Não folheei, mas ele veio ter comigo. Acabei de saber que vão passar "As Últimas Testemunhas":

Six Holocaust-survivors are seated on stage, in silence, behind a transparent curtain. Their only seemingly expressionless faces are projected on to the screen, while four younger actors read the stories of their lives and suffering. Photos from 1930s Vienna appear: masses of people cheering the Nazis, images from the camps, showing dead bodies and lost individuals; finally – scenes of the liberation. The men and women are between 80 and 100 years old. After their story has been told, they come to the front of the stage and deliver a very personal message. All this is staged with great delicacy, avoiding theatre effects and garnish; it is narrative in the best meaning of the word – and so avoids any dutiful contortions of memory combined with an automatic dismay. “The final witnesses” is a powerful yet fragile (theatre) document.

Não tenho tempo, tenho em casa visitas que não falam alemão (uma, por acaso, é judia) e algo me diz que esta é uma peça de teatro que vai acabar comigo. Mas é possível não ir ver?


11 maio 2014

dois aleluias para um domingo

1. Eric Whitacre
Já falei dele pelo menos duas vezes aqui: I e II.
Hoje, e porque é domingo, e porque me apetece, deixo aqui duas versões do seu "Aleluia":






2. Fox
Fomos levar uns móveis à casa nova, e enquanto os descarregávamos o Fox foi explorar a rua - que ele é um cão português e gosta de partir em busca do desconhecido. Nós costumamos deixar, porque na rua quase não passam carros, e os que passam vão muito devagar.
Daí a nada saí da casa, vi o Matthias e o Fox a conversar com uns vizinhos, e o meu telemóvel tocou. Era uma senhora do "Tasso", uma espécie de SPA, a dizer que tinham encontrado o nosso cão Fox.
Isso mesmo: em menos de cinco minutos, pessoas atentas desconfiaram de um cão sozinho na rua, viram o número na medalha da coleira e telefonaram ao Tasso, e de lá ligaram-me a mim, que nem me tinha apercebido de que o Fox tinha chegado à esquina da rua.

Aleluia! Isto é que é vizinhos simpáticos, e boa organização!


10 maio 2014

a importância dos nomes



Arzach ou Nagorno-Karabakh?
Arzach era a décima província do Reino Arménio, de 189 a.C. a 387 d.C.
Por alturas da passagem do primeiro milénio era o Reino de Arzach, um dos poucos territórios arménios que conseguiram manter alguma autonomia após as invasões dos séculos XI a XIV.
No decorrer das ocupações e partilhas de territórios entre as grandes potências vizinhas (Pérsia, Rússia, Império Otomano) a região ganhou o nome dado pelos ocupantes, Nagorno-Karabakh, e acabou oferecida por Estaline ao Azerbaijão, juntamente com outros dois territórios dos arménios.

Arzach ou Nagorno-Karabakh? Que nome, que lado escolho? O da inviolabilidade das fronteiras, independentemente do modo como foram formadas, ou o do direito à autodeterminação dos povos? Olho para este povo que não desiste da sua identidade, apesar de tantos séculos na condição de minoria perseguida e massacrada, e escolho Arzach.

E que nome escolho para as cidades e aldeias, os rios e as montanhas no leste da Turquia? Os antigos nomes geográficos de origem arménia, curda e assíria foram substituídos por nomes turcos, impostos por comissões expressamente criadas para o efeito. O mesmo aconteceu com os nomes de raízes gregas, búlgaras e árabes.

Os nomes científicos não foram poupados a este ímpeto nacionalista: a Vulpes vulpes kurdistanica é agora simplesmente Vulpes vulpes. A Ovis armeniana é agora Ovis orientalis anatolicus, e a Capreolus capreolus armenius é Capreolus capreolus capreolus. Porque "a raposa é a nossa raposa, e a ovelha é a nossa ovelha", explicava em 2007 Osman Pepe, o ministro do Ambiente, ao jornal Sabah. É verdade que essa mudança só está em vigor na Turquia (o que deve criar complicações interessantes num mundo científico sem fronteiras) mas não deixa de ser um fenómeno curioso.

E nós? Escolher usar um nome ou o outro é também a escolha entre pactuar ou não com este processo de branqueamento linguístico que - a par da destruição dos vestígios arquitectónicos e artísticos - culmina o processo da limpeza étnica.


e depois a luz

A luz em Yerevan: intensa nas folhas de primaveris de verde tenro, fazendo brilhar as fachadas de tufa arménia. A luz na placidez das esplanadas. A luz na Praça da República. Na menina que faz figurinhas para a mãe fotografar com o telemóvel. Nos plátanos da avenida Machtots. Nas tulipas brancas junto à escultura do Rodin que ninguém vê, porque está no meio de uma rotunda muito movimentada. 
Ninguém vê? Três portugueses atravessam a rua a correr, com equipamento de filmagem e tudo. O dever, o dever.
E explicar isso depois ao polícia que ralhou forte e feio, e não falava inglês?