(daqui)
Este post da Rita Dantas é tão bom, e os comentários tão ilustrativos, que recomendo vivamente a sua leitura.
Ia comentar lá, mas acrescento aqui:
1. Há alguns anos falámos desse tema neste blogue, a propósito de um "ksssss" que um homem me sibilou numa rua em Portugal. Em Portugal, claro - dos países que conheço, é o único no qual os homens fazem "kssss" quando passam por uma mulher. Alguém comentou na altura que há mulheres que gostam, porque se sentem apreciadas. Gostava muito de poder inscrever esse comentário num registo qualquer de humor, mas desconfio que não era. Pode ser que haja por aí malucos que pensam que largar um kssss ao passar por uma mulher é serviço público. Convinha levá-los a tribunal para lhes dissipar todas as dúvidas.
2. Em Portugal não se fala do assédio sexual de que as mulheres são vítimas, e que começa já no início da adolescência. É fundamental chamar isto pelo nome: violência sexual. No caso de as vítimas serem menores (e são, inúmeras vezes) tem de ser punido com ainda maior severidade. Por que motivo não o é? De onde vem este silêncio e este deixar as garotas abandonadas à sua má sorte?
(Há dias dei comigo a atravessar automaticamente a rua para não ter de passar por uma casa em obras. É que nem pensei - e já vou a caminho dos cinquenta, e moro num bairro onde não há assédio sexual na rua. Não havia o mínimo perigo, mas fui movida por um reflexo condicionado treinado há muito tempo, que me surpreendeu por se revelar tão fora do seu contexto. Agora, que falo nisso, relembro o nojo das cenas quotidianas a caminho da escola secundária: as bocas ordinárias, o riso alarve dos grupos de rapazes, a mão furtiva que tocava a minha pele e me deixava uma sensação de sujidade horrorosa.)
3. É uma questão cultural, sem dúvida - e a prova dos nove pode ser tirada na Wikipedia, lendo o mesmo verbete em línguas diferentes. Ou mudando de bairro em Berlim, e observar o modo como "a rua" olha para uma mulher jovem vestida à maneira ocidental (não estou a dizer seminua, mas simplesmente sem lenço nem gabardine nem burca nem nada disso). Passei por essa situação com a minha filha, quando fomos de metro de Charlottenburg a Neuköln. A viagem dura cerca de meia hora, mas parecia outro continente - na Karl-Marx-Strasse, ela ficou chocada com o modo como alguns homens assediavam as mulheres. Burgessos, insistentes, brutais. Ela não conhecia isso. Eu conhecia, mas já nem reparava. Cresci em Portugal, aos 12 anos tive de aprender a andar couraçada pelas ruas.
4. Parabéns pela tua atitude, Rita! Nada como envergonhar esses minorcas inseguros que tiram prazer de um cobarde jogo de poder.



