31 janeiro 2013
preciso urgentemente de um manual de etiqueta e boas maneiras
Desde que me disseram que o Clooney anda por aí, comecei a estar mais atenta a homens baixinhos - nunca se sabe.
Esta manhã, estava a chegar à porta da Filarmonia, ouvi falar animadamente em inglês atrás de mim. O Clooney!, pensei, e olhei para trás. Era mais baixo que eu, mas não era o Clooney, era o Dudamel.
Foi nesse momento que senti a falta de um manual de etiqueta actualizado. Num caso destes, quem entra primeiro? Quem abre a porta a quem? É verdade que o Dudamel é um bocadinho mais famoso que eu, mas - que diabo! - hoje eu até ia vestida de senhora e tudo.
Abri a porta, passei à frente, e mantive-a aberta para eles passarem.
Mas continuo sem saber se devia ter esperado ele abrir a porta para eu passar, ou quê. E, já agora: se estivesse a trabalhar com uma pessoa dessas (por exemplo, se fosse a assistente do Simon Rattle) (sonha, Heleninha!) quem devia dar passagem a quem?
Agradeço respostas em breve, porque logo vou a um jantar com alguns VIPs e pode ser que me aconteça mais uma dessas questões existenciais. Só vos digo que é muito complicado ser mulher nestes tempos de emancipação.
***
O Dudamel é um dos maestros de quem se fala para substituir Simon Rattle em 2018. Entre risos, comentávamos que este talvez seja o seu concerto de candidatura. Mostrou estatura para isso: pareceu-me menos exuberante, mas mantém a graciosidade na expressão corporal, e dirigiu com toda a segurança. Há dias perguntava-me como se sentirá um maestro à frente destes músicos, conhecidos entre os melhores do mundo. O Dudamel não deixou margem para dúvidas: quem conduz é ele, e sabe exactamente onde quer chegar.
O Lang Lang continua em plena forma no seu piano-show. Tocou o concerto nº2 para piano de Béla Bartók, peça que combina muito bem com a sua maneira de usar o piano. Um espectáculo por si: o pé a bater o ritmo no chão, o diálogo com o músico dos tímbales ("toma esta" "gosto disso!" "e só para terminar, olha-me isto"), o bate e foge, o estender o corpo para trás para largar duas notas finais de uma frase em pianissimo, a furiosa corrida pelo teclado. Por pouco não punha o piano a saltitar. Um dia há-de conseguir, tenho a certeza.
30 janeiro 2013
diversidade destruída
Faz hoje oitenta anos que o presidente von Hindenburg nomeou Adolf Hitler Reichskanzler dos alemães, depois de o partido deste ter conseguido 33,1 % nas eleições, e não ter havido entendimento por parte dos outros partidos para fazerem uma coligação alternativa.
O que se seguiu é do conhecimento público. Mas hoje li nos jornais alguns detalhes interessantes, que aqui transcrevo:
- Os eleitores estavam extremamente divididos, e cada vez mais extremados - os partidos moderados estavam a perder votos para o partido comunista e o nazi.
- O partido comunista dizia dos judeus que o seu capital estava misturado com o capital dos burgueses, e que era preciso aniquilar ambos. Comentário no jornal: "com um discurso destes, não admira que alguns eleitores optassem directamente pelo original".
- Hitler não se instalou no poder apenas por recurso ao Terror. Mal lhe foi entregue o governo, baixou o preço do acesso à saúde pública, aumentou os salários, criou emprego, reduziu a carga fiscal das famílias. Tudo isso por conta de um enorme endividamento do Estado. Uns meses depois de ter chegado ao poder, era considerado o benfeitor da nação. A ilusão sobre os seus valores era tão grande que algumas pessoas, vítimas da prepotência do sistema, se lamentavam: "se Hitler soubesse disto..."
- Foi o primeiro político a dar importância aos agricultores, o que lhe rendeu grandes juros.
- No princípio, a população reagiu mal à perseguição aos judeus - os alemães tinham uma noção bastante concreta do valor da pluralidade social, e da justiça. Em particular as classes trabalhadoras não viam a necessidade de perseguições desse tipo, e os católicos também não o viam com bons olhos. (Achei interessante terem dito católicos, não cristãos. Terá sido lapso? Será que os católicos fizeram mais barulho, deram mais nas vistas? Por que motivo não referiram aqui os protestantes?)
- Cinco anos mais tarde, a 9 de Novembro de 1938, seriam espectadores passivos do ataque organizado às sinagogas, empresas e casas dos judeus, e ao envio de milhares de pessoas para os campos de concentração.
Em 2013 lembra-se a Machtergreifung (há 80 anos) e a Reichskristallnacht (há 75). Ao longo deste ano haverá em Berlim cerca de 500 exposições e eventos dedicados ao tema "diversidade destruída".
Ora aí está: "diversidade destruída". Um grande tema, extremamente actual.
uma cidade que é um exagero
Pensava eu que já era uma sorte - uma incrível sorte - haver em Berlim uma livraria, a Dussmann, com um andar inteiro só de música clássica, onde a gente vai e pergunta "tem a missa tal de Mozart?" e o empregado responde: "sim, pode escolher ali entre as quinze gravações".
E eis que olho para o programa das óperas em Fevereiro, e descubro que nesse mês há duas Traviatas diferentes. Uma do Neuenfels, e outra do Mussbach.
Esta cidade não exagera nem um bocadinho.
E por falar em Dussmann: hoje o Lang Lang vai apresentar nessa livraria o seu novo CD, com músicas de Chopin. Como é habitual nestes casos, além da conversinha vai também fazer um recital gratuito.
(Mas não vou, porque não tenho tempo e prefiro ir vê-lo amanhã com o Dudamel) (Sim, foi o que eu disse: um exagero.)
29 janeiro 2013
David e Golias
Aqueceu, a alta camada de neve começou a derreter, arrefeceu outra vez, a água transformou-se numa placa lisa de gelo em cima do passeio.
E é aí que o Fox entra em cena: saímos à rua, ele pela trela. Vê um cão ao longe, desata a correr com todo o seu juvenil entusiasmo. E eu a tentar travá-lo, a patinar. Já faltou mais para me estatelar no chão.
No princípio do séc. XXI, o combate entre David e Golias trava-se numa rua de Berlim. E o David nem precisa de fisga.
às vezes dá-me um cansaço...
(Desenho do oblogouavida - concurso para a mascote de uma livraria. Na altura alguém criticou o camaleão, por não ter a cor dos livros. Eu rebati que só quem lê muito consegue encontrar a sua própria cor. Continuo a pensar o mesmo, e assim defino a minha posição em relação à lista de livros da Opus Dei.)
Como se nos faltassem problemas verdadeiros, resolvemos agora embirrar com a lista de livros que a Opus Dei considera perigosos para a boa formação religiosa e moral dos seus membros.
Bem sei que o argumento "temos problemas mais importantes" não colhe, mas este escândalo sobre os "livros proibidos" parece um tema de quando não há tema. Calma, ainda não estamos na Praça da Ópera em Berlim a 10 de Maio de 1933. É apenas Agosto de um ano qualquer.
Tenho andado por aí a debater com pessoas que criticam a lista: eles falam de acesso à cultura e de obscurantismo; eu pergunto como lidar com grupos que têm outras ideologias, outros princípios morais, ou uma vivência religiosa muito forte.
Que é que a nossa sociedade deve fazer, e segundo que princípios e critérios, para impor o serviço militar aos pacifistas, o darwinismo aos criacionistas, as transfusões de sangue às Testemunhas de Jeová, livros do Saramago a quem o considera o anticristo, a descrição queirosiana das imoralidades da sua sociedade a quem quer criar os filhos longe desses maus pensamentos? A nossa sociedade pode - e deve - intervir nas famílias que ensinam aos seus filhos que a Democracia é chão que nunca deu uvas, e que o que é preciso é uma ditadurazinha do proletariado, ou que o futuro pertence à raça ariana?
Onde e como se traça a fronteira entre os limites do poder dos pais e da sociedade na educação e formação dos menores?
Era isto que me interessava discutir, e é o que tenho feito por aí, com pessoas que educada, honesta e inteligentemente defendem o seu ponto de vista. Mas hoje encontrei um comentário de alguém que, para defender a perspectiva da Opus Dei, ofende a autora do blogue. A coberto do anonimato, claro.
Às vezes dá-me um cansaço...
Não será possível falarmos uns com os outros, tentarmos encontrar uma plataforma de coexistência (que não significa nem imposição nem indiferença e ignorância), em vez de nos agredirmos e ridicularizarmos mutuamente?
E porque insisto eu em defender a posição de pessoas com as quais não concordo, pessoas essas que não se ensaiam nada para ofender a coberto do anonimato (como naquele blogue), e que dão aos seus filhos o exemplo de ofender cruelmente aqueles que não cabem nos seus esquemas (os homossexuais, por exemplo)?
***
A propósito, traduzo (rapido, rapido) um texto do diário de Ruth Andreas-Friedrich, que pertencia a um grupo de resistência em Berlim. Em 1939 esse grupo transportava para fora do país pertences dos judeus que fugiam sem poderem levar nada com eles. Esta página do seu diário refere uma dessa viagens ("Amanhã chegaremos a Paris. Finalmente poder falar sem ser em surdina. Sem ter de usar metáforas ou olhar em volta com medo.").
Paris, Domingo 16.07.1939
Durante todo o dia o vaivém no nosso quarto não pára. Amigos, conhecidos, amigos de amigos, conhecidos de conhecidos. Todos querem saber o que se passa na Alemanha, trocar impressões, receber saudações, aliviar a alma. Nem todos continuam como eram antes desta breve, ou longa, separação. É-me difícil falar com alguns deles. Porque é que começaram a pensar que somos simpatizantes dos nazis? Apenas porque regressaremos à Alemanha? Porque dizem agora "nós, judeus" quando antes diziam "nós, amigos"? Não éramos amigos quando os ajudámos a fugir do país? Hitler inventou a separação das raças, e eles próprios reforçam esse discurso quando se reconhecem naquela diferença. Algumas conversas deixam-me muito desanimada. Mas Andrik chama-me à razão.
- Não caias também tu no erro de pensar que todos os judeus são anjinhos. Nem todos aqueles que os nazis transformaram em seus inimigos são amigos nossos. Um ou outro senhor Abraão, Isaac ou Jacob seria alegremente nazi, se o deixassem.
- Mas, os emigrantes...
- Não há "os" emigrantes. Há o amigo A que emigrou, a amiga B que emigrou. O problema central está nas generalizações. Todos os polacos são assim. Todos os franceses são assado. Todos os judeus têm de ser isto e aquilo. Avaliação do carácter segundo um esquema simplista, centenas de milhares numa única gaveta. Se não nos libertarmos desse hábito, nunca chegaremos a bom porto. Nem no que diz respeito ao diálogo entre os humanos, nem à tolerância.
Vejo-me obrigada a dar-lhe razão. E já não exijo que "todos" os emigrantes partilhem os nossos pontos de vista.
28 janeiro 2013
tu não podes comprar o sol
Vídeo recomendado pela Christina - que já não é, definitivamente, a alemãzinha que há seis meses partiu para a América Latina. Diz que nos próximos meses irá à Argentina, e ao Chile, e ao Peru. E já sabe hoje que há-de voltar àquele continente.
manhã de segunda-feira
Ai que pregui...
Enquanto espero que me preparem a nova fornada de frases para traduzir online, perco-me por aqui:
- "Escutar o Absoluto no Ano da Fé" - um encontro, no auditório da Renascença, sobre a vida e a obra de Bach. Historietas e música.
- adventures in pinksugarland (uma fotógrafa que todos os dias põe na net uma imagem dos filhos - começou com lila was here, e passou para este blogue quando o Cole se juntou à Lila. Imagens da maravilha que toca o quotidiano desta família.
Um pequeno resumo neste post: in writing . a birthday, a thank you, a plan and a top ten.
Enquanto espero que me preparem a nova fornada de frases para traduzir online, perco-me por aqui:
- "Escutar o Absoluto no Ano da Fé" - um encontro, no auditório da Renascença, sobre a vida e a obra de Bach. Historietas e música.
- adventures in pinksugarland (uma fotógrafa que todos os dias põe na net uma imagem dos filhos - começou com lila was here, e passou para este blogue quando o Cole se juntou à Lila. Imagens da maravilha que toca o quotidiano desta família.
Um pequeno resumo neste post: in writing . a birthday, a thank you, a plan and a top ten.
27 janeiro 2013
Portugiesendisko
Não somos produtores de vinho do Porto, mas já participámos nas vindimas e nos engarrafamentos da Quinta de Santa Eufémia, e temos de lá recordações tão felizes que quase sentimos como nosso o vinho que esses amigos fazem. Pelo que outro dia nos vangloriámos perante o Wladimir Kaminer de ter um vinho do Porto "daqui" (de trás da orelha) (de onde virá este gesto?), e ele desafiou-nos: se levássemos uma garrafinha desse vinho para a Russendisko, ele passava lá alguma música que nunca lá se ouviu.
Ontem levámos o vinho, um LBV de 2005, e então, pelo meio de músicas como esta
e esta
apareceu esta
e outras, de que gostei mas não me lembro quais eram, porque não as conhecia. Vinham num CD que uma portuguesa lhe deu em Lisboa, quando ele apresentou o seu livro Viagem a Tralalá. De regresso a Berlim, o Wladimir mostrou o CD ao seu sócio da Russendisko, o Yuri; a música foi muito elogiada por ambos. Pelo que provavelmente não foi esta a última vez que a Russendisko teve um bocadinho de Portugiesendisko. E o mais engraçado é que só estando muito atento se percebe que não é russo, mas português.
A certa altura o Wladimir pediu ao Joachim que lhe fosse dar uma ajudinha, porque tinha de sair por uns momentos. Música portuguesa na Russendisko passada por um alemão, e uma amiga nossa a dizer-me "tens de ir pedir um autógrafo ao DJ!". Às vezes a globalização tem piada.
Pequena introdução para quem só agora chegou a este blogue: o escritor Wladimir Kaminer, um russo (entretanto de nacionalidade alemã, não pensem que estas coisas é só no futebol) que vive em Berlim desde 1990 e escreve em alemão, é também animador da Russendisko, no centro de Berlim - uma discoteca com música russa e ambiente alegre e descontraído, no Café Burger (Torstraße 60), no primeiro e no terceiro sábado do mês. Volta e meia aparece lá a televisão, ou um jornalista qualquer, mas de um modo geral o que se vê é gente a dançar aos saltos no meio da pequena sala com papel de parede estilo palácio barroco dos anos setenta, enquanto uma televisão no canto mostra desenhos animados soviéticos, tudo muito bem misturado pelas luzes deslizantes do globo espelhado.
Ontem levámos o vinho, um LBV de 2005, e então, pelo meio de músicas como esta
e esta
apareceu esta
e outras, de que gostei mas não me lembro quais eram, porque não as conhecia. Vinham num CD que uma portuguesa lhe deu em Lisboa, quando ele apresentou o seu livro Viagem a Tralalá. De regresso a Berlim, o Wladimir mostrou o CD ao seu sócio da Russendisko, o Yuri; a música foi muito elogiada por ambos. Pelo que provavelmente não foi esta a última vez que a Russendisko teve um bocadinho de Portugiesendisko. E o mais engraçado é que só estando muito atento se percebe que não é russo, mas português.
A certa altura o Wladimir pediu ao Joachim que lhe fosse dar uma ajudinha, porque tinha de sair por uns momentos. Música portuguesa na Russendisko passada por um alemão, e uma amiga nossa a dizer-me "tens de ir pedir um autógrafo ao DJ!". Às vezes a globalização tem piada.
Pequena introdução para quem só agora chegou a este blogue: o escritor Wladimir Kaminer, um russo (entretanto de nacionalidade alemã, não pensem que estas coisas é só no futebol) que vive em Berlim desde 1990 e escreve em alemão, é também animador da Russendisko, no centro de Berlim - uma discoteca com música russa e ambiente alegre e descontraído, no Café Burger (Torstraße 60), no primeiro e no terceiro sábado do mês. Volta e meia aparece lá a televisão, ou um jornalista qualquer, mas de um modo geral o que se vê é gente a dançar aos saltos no meio da pequena sala com papel de parede estilo palácio barroco dos anos setenta, enquanto uma televisão no canto mostra desenhos animados soviéticos, tudo muito bem misturado pelas luzes deslizantes do globo espelhado.
Requiem para Auschwitz
(a música começa a partir de 2:50)
Hoje, dia da libertação de Auschwitz, a Orquestra Filarmónica de Músicos Sinti e Roma de Frankfurt tocou em Cracóvia o "Requiem para Auschwitz". Na próxima terça-feira tocará na Filarmonia de Berlim. A sala vai estar cheia de altos representantes da sociedade alemã, ao lado de muitos "ciganos" bem integrados. Mas duvido que ao meu lado se sentem alguns daqueles que todos os dias enxotamos nas ruas. A gente esforça-se, mas não aprende a lição até ao fim.
(E é claro que não me refiro apenas à sociedade alemã)
" a água e o saneamento são um direito humano"
O movimento right2water.eu é uma iniciativa de cidadãos europeus para evitar que a água seja tratada como algo privatizável e comercializável . Estão a juntar assinaturas aqui. Queriam recolher um milhão de assinaturas até Setembro. Eu gostaria que conseguissem juntar vários milhões esta semana.
Water and sanitation are a human right!
Water is a public good, not a commodity. We invite the European Commission to propose legislation implementing the human right to water and sanitation as recognised by the United Nations, and promoting the provision of water and sanitation as essential public services for all. The EU legislation should require governments to ensure and to provide all citizens with sufficient and clean drinking water and sanitation. We urge that:
- The EU institutions and Member States be obliged to ensure that all inhabitants enjoy the right to water and sanitation.
- Water supply and management of water resources not be subject to ‘internal market rules’ and that water services are excluded from liberalisation.
- The EU increases its efforts to achieve universal access to water and sanitation.
25 janeiro 2013
Mozart: uma paródia para a Segurança Social
O programa do concerto de hoje na Filarmonia anunciava uma paródia. Uma auto paródia, diziam eles: Mozart parodiando-se a si próprio.
Com tal apresentação, uma pessoa lembra-se do Amadeus e fica à espera do melhor. Mas depois o programa explica: no Léxico Musical de Heinrich Christoph Koch, de 1802, está escrito que "se uma peça para canto é usada para criar outra, com a mesma música mas outro texto, ou um texto noutra língua, esta segunda peça é chamada Paródia". Ou seja: acenaram-me com um "falso amigo", mas não me importei, porque a cantata David Penitente KV 469, com textos em italiano a substituir os alemães, tem a música da Missa em Dó Menor. E como eu gosto desta Missa!
E porquê uma paródia? Porque em 1785, ano em que esta peça foi feita, Mozart se debatia com uma terrível falta de tempo. Vivia o auge do seu sucesso em Viena, era extremamente requisitado como pianista e compositor, corria de um evento para o seguinte. A Wiener Tonkünstler Sozietät, que organizava anualmente um concerto de beneficência a favor das viúvas e dos órfãos dos músicos, encomendou-lhe uma peça. O compositor não tinha tempo para nada, mas estava muito interessado em tornar-se membro dessa Sociedade de mútuo auxílio, pelo que regressou à Missa já quase terminada, aproveitou algumas partes mudando-lhe a letra, e acrescentou outras. Reduce, reuse, recycle - dir-se-ia hoje. E muito bem, porque essa Missa estava votada ao esquecimento. Depois de uma primeira apresentação em Salzburgo, dificilmente teria hipóteses de ser repetida, porque o Kaiser Joseph II só excepcionalmente permitia música deste tipo nas igrejas. E o prazo apertava.
O resultado é David Penitente, com duas árias novas (uma para tenor e outra para a primeiro soprano) e a inclusão dos solistas no final do coro. A peça foi apresentada a 13 e a 15 de Março de 1785, e o maestro foi o próprio Mozart. O problema é que todos os membros da Sociedade eram obrigados a participar, pelo que entre coro e orquestra havia 150 pessoas em palco, com os cantores à frente e a orquestra atrás - o que deve ter dado um efeito, no mínimo, estranho. Talvez por isso lhe chamem paródia, afinal.
Mas a Sociedade ficou muito satisfeita, é o que interessa. Como prestação para a Segurança Social, parece-me que dificilmente se podia fazer melhor. E agora me ocorreu que os empresários portugueses também podiam fazer o mesmo: quando as Finanças vão atrás deles por causa dos pagamentos em atraso, os devedores podiam tentar dar-lhes música. (Enfim, desconfio que é mais um daqueles casos em que inventei a roda com alguns anos de atraso...)
Tudo teria acabado em bem, não fora Mozart ter-se atrasado a entregar uma cópia do seu registo de baptismo, o que fez com que não conseguisse entrar para a famosa Wiener Tonkünstler Sozietät. Por acaso agora gostava de saber se esta, depois de embolsar os concertitos, não cuidou da viúva e do filho do compositor.
A cantata David Penitente e outras peças de Mozart foram interpretadas por estes dias pela Filarmónica de Berlim com o maestro Louis Langrée, as sopranos Jane Archibald (*suspiro*) e Ann Hallenberg, e o tenor Werner Güra. O concerto de hoje, o último com este programa, foi transmitido pelo Digital Concert Hall.
***
Secção Caras
O maestro era simpático. Não interpretava Mozart como me dá jeito, mas era simpático e gracioso. Sorria com covinhas, passou o concerto todo com covinhas. Bem, se eu estivesse a dirigir o Emmanuel Pahud e o Albrecht Mayer, também sorria a fazer covinhas o tempo todo (e é só para mencionar os que estavam lado a lado, mesmo à frente dele). Como será que estes maestros se sentem quando estão naquela sala, a dirigir aquela orquestra? Será um bocadinho como a angústia do guarda-redes antes do penalty, mas durante o concerto inteiro?
A Jane Archibald tinha um vestido assimétrico muito bonito, a Ann Hallenberg tinha um num tecido como eu também tenho e ninguém cá em casa gosta. Não reparei na roupa do tenor, não sei porquê.
Fotografei com o telemóvel, tipo à queima-roupa porque estava a tentar fazer de conta que não era eu, que nem estava ali.
Com tal apresentação, uma pessoa lembra-se do Amadeus e fica à espera do melhor. Mas depois o programa explica: no Léxico Musical de Heinrich Christoph Koch, de 1802, está escrito que "se uma peça para canto é usada para criar outra, com a mesma música mas outro texto, ou um texto noutra língua, esta segunda peça é chamada Paródia". Ou seja: acenaram-me com um "falso amigo", mas não me importei, porque a cantata David Penitente KV 469, com textos em italiano a substituir os alemães, tem a música da Missa em Dó Menor. E como eu gosto desta Missa!
E porquê uma paródia? Porque em 1785, ano em que esta peça foi feita, Mozart se debatia com uma terrível falta de tempo. Vivia o auge do seu sucesso em Viena, era extremamente requisitado como pianista e compositor, corria de um evento para o seguinte. A Wiener Tonkünstler Sozietät, que organizava anualmente um concerto de beneficência a favor das viúvas e dos órfãos dos músicos, encomendou-lhe uma peça. O compositor não tinha tempo para nada, mas estava muito interessado em tornar-se membro dessa Sociedade de mútuo auxílio, pelo que regressou à Missa já quase terminada, aproveitou algumas partes mudando-lhe a letra, e acrescentou outras. Reduce, reuse, recycle - dir-se-ia hoje. E muito bem, porque essa Missa estava votada ao esquecimento. Depois de uma primeira apresentação em Salzburgo, dificilmente teria hipóteses de ser repetida, porque o Kaiser Joseph II só excepcionalmente permitia música deste tipo nas igrejas. E o prazo apertava.
O resultado é David Penitente, com duas árias novas (uma para tenor e outra para a primeiro soprano) e a inclusão dos solistas no final do coro. A peça foi apresentada a 13 e a 15 de Março de 1785, e o maestro foi o próprio Mozart. O problema é que todos os membros da Sociedade eram obrigados a participar, pelo que entre coro e orquestra havia 150 pessoas em palco, com os cantores à frente e a orquestra atrás - o que deve ter dado um efeito, no mínimo, estranho. Talvez por isso lhe chamem paródia, afinal.
Mas a Sociedade ficou muito satisfeita, é o que interessa. Como prestação para a Segurança Social, parece-me que dificilmente se podia fazer melhor. E agora me ocorreu que os empresários portugueses também podiam fazer o mesmo: quando as Finanças vão atrás deles por causa dos pagamentos em atraso, os devedores podiam tentar dar-lhes música. (Enfim, desconfio que é mais um daqueles casos em que inventei a roda com alguns anos de atraso...)
Tudo teria acabado em bem, não fora Mozart ter-se atrasado a entregar uma cópia do seu registo de baptismo, o que fez com que não conseguisse entrar para a famosa Wiener Tonkünstler Sozietät. Por acaso agora gostava de saber se esta, depois de embolsar os concertitos, não cuidou da viúva e do filho do compositor.
A cantata David Penitente e outras peças de Mozart foram interpretadas por estes dias pela Filarmónica de Berlim com o maestro Louis Langrée, as sopranos Jane Archibald (*suspiro*) e Ann Hallenberg, e o tenor Werner Güra. O concerto de hoje, o último com este programa, foi transmitido pelo Digital Concert Hall.
***
Secção Caras
O maestro era simpático. Não interpretava Mozart como me dá jeito, mas era simpático e gracioso. Sorria com covinhas, passou o concerto todo com covinhas. Bem, se eu estivesse a dirigir o Emmanuel Pahud e o Albrecht Mayer, também sorria a fazer covinhas o tempo todo (e é só para mencionar os que estavam lado a lado, mesmo à frente dele). Como será que estes maestros se sentem quando estão naquela sala, a dirigir aquela orquestra? Será um bocadinho como a angústia do guarda-redes antes do penalty, mas durante o concerto inteiro?
A Jane Archibald tinha um vestido assimétrico muito bonito, a Ann Hallenberg tinha um num tecido como eu também tenho e ninguém cá em casa gosta. Não reparei na roupa do tenor, não sei porquê.
Fotografei com o telemóvel, tipo à queima-roupa porque estava a tentar fazer de conta que não era eu, que nem estava ali.
Gisela May na Komische Oper
Gisela May, a famosa intérprete de Brecht/Weill, que nasceu em 1924 e durante mais de trinta anos trabalhou na companhia Berliner Ensemble, esteve ontem na Komische Oper, para nos oferecer os melhores momentos da noite. Momentos inesquecíveis.
Mal entrou no palco, o público levantou-se para aplaudir. E não paravam. Ela fazia-nos sinais, já chega, deixem-me falar, não me atrasem. E começou a falar, sem microfone - um silêncio extraordinário na sala, e a voz daquela mulher de quase noventa anos a encher todo o teatro.
Reproduzo de memória:
"Há tempos, o director da Komische Oper veio falar comigo - que precisavam de mim para animar o público a vir ouvir a música de Kurt Weill. Combinámos que eu viria duas vezes, para cantar um pouco, conversar, e ler algumas passagens da minha biografia. Mas este palco é enorme, era preciso "vesti-lo". Fomos os dois para o "fundus" do teatro, mas ali só encontrámos o guarda-roupa. Fomos então a um armazém de móveis, e descobrimos uma mesa muito catita. De lá fomos para outro armazém, onde havia cadeiras, e trouxemos uma cadeira muito interessante, muito especial. Juntaram as duas peças aqui no teatro, e quando eu me sentei ficava com a mesa à altura do nariz (risos). Ninguém se tinha lembrado de verificar a diferença de alturas. De modo que há dias eu disse ao director: desta vez vamos fazer à minha maneira. Eu trago alguma coisa lá de casa. E trouxe este sofá (sentou-se). Normalmente sento-me aqui deste lado, e ali estendem-se um ou dois gatos, a ver as chatices da televisão comigo."
(nesse momento entrou Ulrich Lenz, o jovem director da ópera de Hannover, que vinha para conversar com a cantora)
- Desculpe interrompê-la - dá-me licença de me sentar no seu sofá?
Ela toda coquete:
- Por quem é! Bem gostava eu que se sentasse nele mais vezes!
Ele ia falar do princípio da sua carreira, e ela começou ainda antes: de como na sua família gostavam de ouvir a Ópera dos Três Vinténs, e de como se lembrava bem de terem de a ouvir em surdina, quando Hitler subiu ao poder, com medo que os vizinhos os denunciassem. "Tempos nada felizes", dizia ela, pensativa. Tinha dez anos.
Ulrich Lenz entrava: e como podia ela adivinhar que se tornaria uma das mais célebres cantoras dessa ópera, que a considerariam a melhor intérprete de sempre de Os Sete Pecados Mortais, que várias gerações associariam o seu nome à Mutter Courage?
Ulrich Lenz entrava: e como podia ela adivinhar que se tornaria uma das mais célebres cantoras dessa ópera, que a considerariam a melhor intérprete de sempre de Os Sete Pecados Mortais, que várias gerações associariam o seu nome à Mutter Courage?
Contou mais: da fuga de Weill e Brecht, das suas dificuldades para recomeçar a vida nos EUA:
"Os textos de Brecht são intraduzíveis. Para manterem em inglês a riqueza do alemão, ficava um inglês que ninguém entendia. Mas eles estavam com a corda na garganta, tinham de ganhar dinheiro. Os nazis, depois de perseguirem os seus artistas e os expulsarem do país, congelavam as suas contas bancárias. Eles no estrangeiro, sem trabalho, sem um tostão! O Brecht ainda se safou, porque a Helene Waigel tinha muito sentido de negócio, tratou logo de transferir os direitos dele para o ocidente. Mas o Weill, coitado..."
Falou também do seu primeiro encontro com a Lotte Lenya, do modo simpático como esta lhe ofereceu o seu próprio papel de Anna em Os Sete Pecados Mortais. Lembrou concertos nos EUA [e eu a pensar: eh, lá, se a RDA a deixava sair do país, como seria a sua relação com o regime? Adiante...] e afirmou que não teria sido difícil levar também os músicos de Berlim, mas os sindicatos americanos faziam o seu trabalho, e diziam que não havia motivo para trazer músicos alemães, que nos EUA também os havia ["músicos de todo o mundo: uni-vos"?] e...
- Ouça lá, eu não estou aqui também para cantar?
Pôs-se de pé, dirigiu-se para o piano, começou a cantar. A voz muito expressiva, ainda muito segura. Ainda inteiramente esta mulher:
O pianista, Adam Benzwi, é um excelente acompanhante: sensível e flexível, murmurava as palavras à medida que tocava as frases musicais. Sem tirar os olhos da Gisela May, muito atento. A meio de uma canção, ela disse "e agora esqueci-me do resto do texto", e ele, sem parar de tocar, sem parar de sorrir, disse-lhe a frase seguinte, ela recomeçou a cantar, ele fazia-lhe de ponto enquanto tocava. Um amor de rapaz. E ainda por cima é bonito (e eu tinha os binóculos, hehehe).
(foto)
(foto)
Saíram do palco de braço dado, ele levava os ramos de flores de ambos, a sala inteira a aplaudir de pé.
O programa incluía outras peças, mas a noite de ontem foi da Gisela May.
Sinto-me grata por tê-la visto ainda esta vez. Não é todos os dias que me cruzo com o século XX.
homempérola
(Roubei no facebook, e muito me admirava se fosse eu a primeira pessoa a quem ocorreu o trocadilho no título - provavelmente estou a plagiar algum desconhecido, olhem, paciência.)
24 janeiro 2013
não sei porquê, mas suspeito que no dia em que comprei este gorro estava convencida que sou uma grande cabeça
Enfim, não se perde tudo: no carnaval posso ir vestida de Maria Antonieta (quando ainda tinha cabeça) (ou Marge Simpson) - já tenho gorro para proteger o penteado.
Em compensação, no dia em que caíram estrelinhas do céu eu tinha os olhos tapados, triste vida. Aqui estão duas, pousadas no cachecol (do lado esquerdo):
23 janeiro 2013
o Chopin é que entende o Fox
O Fox já consegue agarrar a sua própria cauda. Fica um bocado tonto naquela figura de pescadinha de rabo na boca, depois larga a cauda, e recomeça.
berlinda acção social
(Ah, e também tem um cartaz com eventos culturais ligados a temas ou artistas lusófonos, e sorteia bilhetes para esses eventos) (enquanto eu ando por aí a choramingar "se me deixassem mandar...", a Inês Thomas Almeida faz) (e depois ainda me admiro se num dia 10 de Junho qualquer lhe derem a ela a famosa medalhinha que ando a pedir há tantos anos...)
que sorte a minha!
Há dois dias que esta música não me sai da cabeça. Até nos ear worm que me acontecem tenho sorte.
22 janeiro 2013
o Henrique Raposo não é hiperactivo nem mal-educado, tem é falta de óculos para ler um bocadinho antes de começar a falar
A propósito deste texto no Expresso, que hoje foi muito aplaudido nas redes sociais, não resisto a fazer alguns comentários rápidos. Parece-me que o Henrique Raposo está a confundir coisas muito diferentes, a ser demagógico, e a enviar-nos em direcções erradas. A começar pelo título, "as crianças não são hiperactivas, são mal-educadas": ouro sobre azul para pessoas que gostam de teorias simplórias.
Vejamos, por partes:
- Quando a criança sofre realmente de hiperactividade, aquela frase é uma ofensa e uma agressão. Um dos erros frequentes é não perceber a tragédia de uma criança hiperactiva, obrigá-la a comportamentos que ela não consegue ter, dar-lhe permanentemente a sensação de ser chata, insuportável e burra.
- No que diz respeito a crianças que não são hiperactivas, e que se "portam mal": quando eu era criança, corria em liberdade vários quilómetros por dia. Ia a pé para a escola, e passava as tardes em aventuras pela rua e pelos campos com os irmãos, os primos e os vizinhos. Os nossos filhos não têm isso. Na nossa sociedade do medo e da falta de tempo, são levados de carro à escola e movem-se entre o computador e a televisão (estou a exagerar, mas não muito). Como é que crianças que crescem assim podem ser calmas? Claro que o café onde o Henrique Raposo quer ler o jornal não é o sítio certo para as crianças que precisam de movimento. Contudo, a solução para este problema não é dar-lhes um par de chapadas para as educar, é tirá-las do café e largá-las horas e horas a correr ao ar livre, a construir casas em árvores, etc. O problema é que os pais não têm tempo e pachorra para oferecer isso aos seus filhos, neste nosso mundo "perigosíssimo" no qual não se pode nunca largar as crianças de vista.
O nosso estilo de vida é uma violência para as crianças. Elas acabam por desenvolver comportamentos que nos desagradam, e alguns pais correm o risco de confundir isso com hiperactividade (o Henrique Raposo confunde com má-educação). Adultos confusos acalmam as crianças com gotas ou com chapadas, em vez de mudar a sua vida para lhes dar aquilo de que precisam para um crescimento saudável. E é melhor nem falar na escola (é mais fácil dar gotas aos miúdos para que consigam acompanhar o ritmo dos outros, do que ter turmas mais pequenas para que cada criança possa aprender ao seu próprio ritmo). Nos dois casos (família e escola), muitas vezes não estamos perante uma criança mal-educada ou incapaz, mas perante uma criança vítima de um sistema que ignora as necessidades dela.
- Educação moral não se faz à bofetada. Se queremos que uma criança aprenda o respeito pelos outros, temos de começar pelo respeito por ela. Bater numa criança que está a fazer mal a um ser mais frágil (uma pomba, por exemplo) não é educá-la, é amestrá-la. Mas claro que é muito mais fácil dar uma bofetada e continuar a ler o jornal, do que falar com ela calmamente para fazer nascer no seu coração a empatia pelos outros seres.
sete pecados mortais (2)
Uma lista do Gandhi:
Wealth without Work
Pleasure without Conscience
Science without Humanity
Knowledge without Character
Politics without Principle
Commerce without Morality
Worship without Sacrifice
Wealth without Work
Pleasure without Conscience
Science without Humanity
Knowledge without Character
Politics without Principle
Commerce without Morality
Worship without Sacrifice
sete pecados mortais
Dizem muito bem do sistema escolar do antigamente, pois dizem, mas eu ainda fiz a quarta classe no tempo da outra senhora e nem isso me impediu de chegar a mais de metade da vida sem conhecer os Sete Pecados Mortais de Brecht/Weill. Conhecia os do catecismo, vá lá, até os aprendi de cor quando tinha seis anos: gula, avareza, ira, luxúria, preguiça, vaidade e qual era o sétimo? ah, a inveja. Não percebia metade das palavras, mas sabia papagueá-las. E ontem, finalmente, descobri-lhes o avesso, nessa extraordinária peça de Bertold Brecht e Kurt Weill, levada a cena por uma Dagmar Manzel que me deixou rendida.
Brecht e Weill disparam em todas as direcções: contra a igreja católica que impõe às pessoas ideais morais que as alienam de si próprias, contra o capitalismo que transforma a pessoa em mercadoria, e contra a exigência moral da família, tão alheia ao sofrimento.
Dagmar Manzel compõe uma Anna I / Anna II magnífica(s): uma Anna que dança e mima sete cenas de descida aos infernos, enquanto outra Anna a tenta convencer de que esse é um caminho de virtude - esta Anna que canta e fala, e tão bem sabe transmitir ao público as tensões da música de Weill. Optou-se por ter o coro fora do palco, o que aumenta ainda mais a distância da família, o seu "falar de cor" quando pressiona a filha e lhe lembra os seus deveres. E incluiu-se um actor mudo: o foco de luz, que persegue a Anna e lhe foge, dialoga com ela ou a acusa.
À saída só me apetecia louvar a inteligência humana - a de alguns humanos - que produziu tal espectáculo.
[Aviso aos berlinenses: esta peça será repetida amanhã, quarta-feira, na Komische Oper. Ainda deve haver bilhetes. Podem tentar comprar os mais baratos e sentar-se nos lugares melhores - ontem havia muitos livres. Eu não disse isto. Nas cadeiras há ecrãs para ler o texto em alemão, inglês, francês ou turco.]
21 janeiro 2013
concurso Aventar - um agradecimento
Olá companheiros de estrada,
(isto não seria para deixar ficar em francês?...)
apesar do vosso esforço, este blogue não passou à segunda fase do concurso Aventar.
Muito obrigada por todas as vezes que se deram ao trabalho de percorrer aquelas listas intermináveis para oferecer um votozinho aqui ao pasquim. Eu também lá ia, perguntava-me de cada vez "mas o que é que eu estou aqui a fazer?" e ficava sempre admirada por encontrar lá tantos votos. Vocês são uns amores.
Quase como em troca, aqui deixo um presentinho, com a Dagmar Manzel, que acabei de ouvir na Komische Oper a cantar Weill. Esta não é do Weill - chama-se "Irgendwo auf der Welt", é uma canção bonitinha de esperança, dos Comedian Harmonists:
[Correcção: a canção tem letra de Robert Gilbert e música de Werner Richard Heymann - não é dos Comedian Harmonists, apenas se tornou muito famosa na versão destes; os dois autores referidos eram judeus e fugiram da Alemanha em 1933]
No vídeo que se segue está na voz dos Comedian Harmonists:
E aqui têm a maluca da Nina Hagen a dar mais do mesmo, mas muito diferente - e até com tradução para "inglês":
Para o presente ser completo, junto o princípio de um filme sobre os Comedian Harmonists - mais um grupo que o nazismo destruiu, por estar "infiltrado por judeus".
Já só falta mesmo a letra da canção.
Vai em alemão (se tivesse passado à segunda fase, traduzia-a. hihihi)
Irgendwo auf der Welt
Gibt's ein kleines bißchen Glück,
Und ich träum' davon in jedem Augenblick.
Irgendwo auf der Welt
Gibt's ein bißchen Seligkeit,
Und ich träum' davon
schon lange lange Zeit.
Wenn ich wüßt', wo das ist,
ging' ich in die Welt hinein,
Denn ich möcht' einmal recht,
So von Herzen glücklich sein.
Irgendwo auf der Welt
Fängt mein Weg zum Himmel an;
Irgendwo, irgendwie, irgendwann.
Ich hab' so Sehnsucht,
Ich träum' so oft;
Einst wird das Glück mir nah sein.
Ich hab' so Sehnsucht,
Ich hab' gehofft,
Bald wird die Stunde da sein.
Tage und Nächte
Wart' ich darauf:
Ich geb' die Hoffnung niemals auf.
Irgendwo auf der Welt
Gibt's ein kleines bißchen Glück,
Und ich träum' davon in jedem Augenblick.
Irgendwo auf der Welt
Gibt's ein bißchen Seligkeit,
Und ich träum' davon schon lange lange Zeit.
Wenn ich wüßt', wo das ist, ging' ich in die Welt hinein,
Denn ich möcht' einmal recht, So von Herzen glücklich sein.
Irgendwo auf der Welt Fängt mein Weg zum Himmel an;
Irgendwo, irgendwie, irgendwann,
Irgendwo, irgendwie, irgendwann.
(isto não seria para deixar ficar em francês?...)
apesar do vosso esforço, este blogue não passou à segunda fase do concurso Aventar.
Muito obrigada por todas as vezes que se deram ao trabalho de percorrer aquelas listas intermináveis para oferecer um votozinho aqui ao pasquim. Eu também lá ia, perguntava-me de cada vez "mas o que é que eu estou aqui a fazer?" e ficava sempre admirada por encontrar lá tantos votos. Vocês são uns amores.
Quase como em troca, aqui deixo um presentinho, com a Dagmar Manzel, que acabei de ouvir na Komische Oper a cantar Weill. Esta não é do Weill - chama-se "Irgendwo auf der Welt", é uma canção bonitinha de esperança, dos Comedian Harmonists:
[Correcção: a canção tem letra de Robert Gilbert e música de Werner Richard Heymann - não é dos Comedian Harmonists, apenas se tornou muito famosa na versão destes; os dois autores referidos eram judeus e fugiram da Alemanha em 1933]
No vídeo que se segue está na voz dos Comedian Harmonists:
E aqui têm a maluca da Nina Hagen a dar mais do mesmo, mas muito diferente - e até com tradução para "inglês":
Para o presente ser completo, junto o princípio de um filme sobre os Comedian Harmonists - mais um grupo que o nazismo destruiu, por estar "infiltrado por judeus".
Já só falta mesmo a letra da canção.
Vai em alemão (se tivesse passado à segunda fase, traduzia-a. hihihi)
Irgendwo auf der Welt
Gibt's ein kleines bißchen Glück,
Und ich träum' davon in jedem Augenblick.
Irgendwo auf der Welt
Gibt's ein bißchen Seligkeit,
Und ich träum' davon
schon lange lange Zeit.
Wenn ich wüßt', wo das ist,
ging' ich in die Welt hinein,
Denn ich möcht' einmal recht,
So von Herzen glücklich sein.
Irgendwo auf der Welt
Fängt mein Weg zum Himmel an;
Irgendwo, irgendwie, irgendwann.
Ich hab' so Sehnsucht,
Ich träum' so oft;
Einst wird das Glück mir nah sein.
Ich hab' so Sehnsucht,
Ich hab' gehofft,
Bald wird die Stunde da sein.
Tage und Nächte
Wart' ich darauf:
Ich geb' die Hoffnung niemals auf.
Irgendwo auf der Welt
Gibt's ein kleines bißchen Glück,
Und ich träum' davon in jedem Augenblick.
Irgendwo auf der Welt
Gibt's ein bißchen Seligkeit,
Und ich träum' davon schon lange lange Zeit.
Wenn ich wüßt', wo das ist, ging' ich in die Welt hinein,
Denn ich möcht' einmal recht, So von Herzen glücklich sein.
Irgendwo auf der Welt Fängt mein Weg zum Himmel an;
Irgendwo, irgendwie, irgendwann,
Irgendwo, irgendwie, irgendwann.
perguntas simples
Ich habe eine Kuh gehabt
ich hab' die Kuh nicht mehr
ich habe dafür
- Gott helfe mir -
jetzt ein Maschinengewehr.
(...)
Es gibt eine Frage noch
die lässt mir keine Ruh:
Wer hatte vorher
das Maschinengewehr?
Und wer hat jetzt meine Kuh?
Tradução literal:
Eu tinha uma vaca / mas já não a tenho.
Em vez da vaca / tenho agora / - Deus me ajude - / uma metralhadora.
(...)
Há ainda uma pergunta / que não me deixa sossegar: /
Quem tinha antes a metralhadora, / e quem tem agora a minha vaca?
Nesta gravação, a partir de 51:45:
a Paris Hilton da minha rua
O Fox está a crescer, e parece que até começa a ganhar juízo.
Longe vão os tempos em que os operários das obras paravam para nos ver passar.
(hehehe, já não sou a it-girl cá do bairro)
(hahaha, há muito tempo que não escrevia um post tão parvo)
20 janeiro 2013
Kuhhandel, ou: um manifesto político para o nosso tempo
A semana de Kurt Weill na Komische Oper abriu com a opereta Kuhhandel (traduzido: negociatas; literalmente: comércio de vacas). Por uma feliz intuição, comprei bilhetes - sem saber bem ao que íamos, e afinal fomos a um concerto histórico: a primeira apresentação desta opereta em Berlim. Assistimos a um notável espectáculo, e saímos da ópera quase a levitar, quase de rastos. Como é possível oferecer em música tão leve e alegre uma crítica social e política tão corrosiva? Excelente Weill.
Enquanto ouvia, trocava "armas" por "créditos bancários" e parecia-me que era uma peça sobre o nosso tempo. E descobria um Weill sarcástico até dizer chega - por exemplo nas melodias que punha na boca do político: um presidente que dava música ao seu povo, que até parecia acreditar no que dizia, aaah, quase se ouviam os violinos na sua voz, oooh, encantador, excelência! (podem ouvir a partir do 5º minuto, cheio de palavras bonitas como "pátria amada" e "para o bem do povo").
Max Hopp fez um excelente Felipe Chao: desde o ar cínico que mantém durante toda a peça, até à elasticidade corporal com que ocupa o palco inteiro, de forma tão burlesca como natural. É o homem dos mil ofícios, consegue combinar facilmente o papel de comerciante de armas com o de narrador, ora dentro ora fora do enredo. A seguir ao intervalo aparece como o professor que pergunta ao público se entendeu bem a lição, e começa a fazer revisões da matéria dada. O público ri, divertidíssimo, o actor rosna "riam riam, que logo choram", e é já Felipe Chao, leva-nos à casa da Madame Odette, onde Juanita canta para o general.
Ina Kringelborn oferece a sua voz cristalina à causa de uma Juanita sempre pura e ingénua, por maior que seja a sua miséria. Vincent Wolfsteiner faz de Juan a figura mais expressiva desta ópera concertante. E os pais da noiva dão um belo dueto de choramingas que fez o público rir até às lágrimas.
Recorro ao programa para contar um pouco mais sobre esta obra:
A história: os Estados Ucqua e Santa Maria coexistiriam em paz numa idílica ilha dos trópicos, não fora a acção do comerciante de armas, Felipe Chao. Oferecendo presentes ao presidente de Santa Maria, convence-o a comprar armas, que serão pagas com um "imposto sobre o bem-estar". Na aldeia, Juanita Sanchez e Juan Santos vêem-se impossibilitados de casar, porque a vaca deste, que seria o sustento do casal, é confiscada para pagar o imposto. Juan vai trabalhar para a cidade, tentando amealhar para comprar outra vaca. Quando estão de novo prestes a casar, a segunda vaca é também confiscada para pagar uma comissão ao Ministro da Guerra, general Conchaz. Apesar de todos estes impostos, o Estado de Santa Maria não consegue pagar as armas. Felipe Chao concede uma moratória, em troca de movimentos militares que assustem Ucqua, de modo a que também esse país lhe compre armas. Juan é chamado para o exército. Juanita é obrigada a ir trabalhar na cidade, para poder comprar uma vaca. Encontra trabalho na casa da Madame Odette, um estabelecimento de duvidosa moral. Depois de cantar para o general Conchaz, nos festejos do seu golpe de Estado que derruba o presidente, aquele dá-lhe o dinheiro suficiente para pagar meia vaca. Por sua vez, a Juan é prometido um prémio no valor de meia vaca se se disponibilizar para ser a voz do povo num referendo simbólico, em que aceitará o general Conchaz como presidente. Juan aceita. No entanto, no momento decisivo em que deverá gritar "sim!", dá uma bofetada ao general. É condenado à morte por fuzilamento. Mas acontece que as armas que Felipe Chao vendeu não funcionam. O general Conchez proclama a paz, e já nada pode impedir o casamento de Juan e Juanita.
Dança sobre o vulcão - a opereta Der Kuhhandel, de Kurt Weill
(um texto de Pavel B. Jiracek, aqui muito abreviado por mim)
A 21 de Março de 1933, Kurt Weill fugia de Berlim em direcção a Paris. Era o "dia de Potsdam", uma pomposa encenação que dava início a uma nova era: o presidente von Hindenburg, representante da velha ordem, dava a mão a Adolf Hitler como sinal de uma nova aliança. Dois dias mais tarde, estava Weill a chegar a Paris, o parlamento alemão votava a Lei de Concessão de Plenos Poderes que suspendia a constituição de Weimar e dava a Hitler plenos poderes. Assim se selava o fim de uma época na qual Berlim tinha sido uma metrópole pulsante e cosmopolita, cuja agitação interior se espelhava de modo inigualável na música de Kurt Weill.
Goodbye to Berlin
A Berlim da república de Weimar (1919-1933) era uma espécie de laboratório da modernidade, no qual se negociava e testava a coabitação humana depois da catástrofe da primeira guerra mundial. Nela se libertava uma energia criadora, única em todo o mundo, e que atraía artistas de todas as áreas. Muitos pobres vieram também para esta cidade, na esperança de encontrar trabalho e sustento. Mas as possibilidades económicas de Berlim eram limitadas, pelo que sob a superfície animada da cidade se agitavam graves tensões políticas entre grupos extremistas com um peso cada vez maior. Neste clima febril, o judeu Kurt Weill, proveniente de Dessau e com experiência de teatro musical, procurava o som adequado ao seu tempo. O seu professor Busoni tinha-lhe dado como conselho não temer o "banal" e estender as antenas para o "hoje". As antenas de Weill dirigiram-se à rua, à "estrada lavrada do quotidiano". O meio em que vivia inspirava-lhes não apenas os temas, mas também a diversidade de forma e géneros, a partir dos quais ele criou um estilo próprio de canção, "corais a partir do lodo" - como lhe chamou Hans Heinz Stuckenschmidt -, nos quais dá forma musical a pessoas de carne e osso, aos seus problemas e preocupações. Weill estava no pulso do seu tempo.
O trabalho com Bertolt Brecht revelou-se extremamente proveitoso, e foi muito bem acolhido pelo público. Contudo, diferenças de ordem política, artística e pessoal complicaram a relação de tal modo que se viram obrigados a separar-se. A situação política na Alemanha atingiu Weill duramente: grupos nazis de provocação perturbavam os seus espectáculos com distúrbios e a crítica - cada vez mais comprometida com o poder - começou a ser-lhe desfavorável, pelo que não lhe restou outra alternativa senão encarar a realidade de frente e fugir para França.
A vida parisiense
Mesmo antes de emigrar, Weill já era muito conhecido e apreciado em Paris. Não apenas devido à Ópera dos Três Vinténs, mas também por causa de um célebre concerto com peças da Mahagoni e de Der Jasager que dera na Salle Gaveau em 1932. Entre o público encontravam-se famosos representantes da vida parisiense (Strawinsky, Milhaud, Cocteau, Picasso, Léger, Gide e a mecenas princesa Polignac, que logo encomendou a Weill a sua segunda sinfonia).
Nos primeiros tempos em Paris, Weill trabalhou numa encomenda da companhia de ballett de George Balanchine, e na peça Die Sieben Todsünden, último trabalho em colaboração com Brecht. Apesar desse início auspicioso no novo país, esta foi uma das fases mais amargas da vida de Weill: a perda da pátria, o fim do contrato com a sua editora, o congelamento das suas contas bancárias pelos nazis, e o divórcio de Lotte Lenya. Mas Weill não se deixou abater, e começou a trabalhar na sua primeira opereta, Der Kuhhandel. Vambery, um libretista de origem húngara que já tinha trabalhado em Berlim no famoso teatro do Schiffbauerdamm, apresentou-lhe o projecto de uma opereta que o entusiasmou, chegando a escrever a Lotte Lenya: "Estou muito confiante nesta peça, porque há muito não trabalhava com tanta facilidade".
Em Paris, Weill encontrou-se com o espírito das operetas de Offenbach que, nas suas próprias palavras, "é desde há décadas o modo de diversão mais apetecido e rentável, porque corresponde ao gosto de vários grupos sociais, uma vez que tem tudo o que agrada às massas: humor, dramatismo e sentimentalismo - palavra, dança e música."
O que, para muitos, torna as operetas de Offenbach tão especiais, é o que se pressente em surdina sob toda a alegria do espectáculo, e que nos conduz a outros planos. Segundo Karl Kraus, "a verdadeira música destas operetas é a anarquia como a única constituição mundial moral e digna da humanidade". A ordem social estabelecida é posta em causa, sem que seja derrubada. Para Walter Benjamin, estas operetas chegam a ser atravessadas pela utopia da desobediência civil: "O segredo de Offenbach: como no mais pleno absurdo da ordem pública - seja a da alta sociedade, a de um palco de dança ou a de um estado militar - se ousa um olhar sonhador sobre a ordem plena de desordens privadas".
Também na opereta Der Kuhhandel se sonha um sonho de desordem privada por oposição à ordem de um estado militar - e tal como em Offenbach, sente-se que na peça de Weill fervilha sob a superfície uma música anarquista, "verdadeira", que responde com urgência aos acontecimentos políticos da época.
Como não podia deixar de ser: bananas
Dois Estados que coexistem numa ilha: Hispaniola, ilha partilhada pelo Haiti e a República Dominicana; em 1930, Rafael Trujillo conquistou o poder e começou a gerir o país com mão de ferro - como Conchaz. Um lobby de armamento que empurra os países para guerras: a indústria de armas europeia forneceu os dois lados da guerra de Chaco (Bolívia e Paraguai) entre 1932 e 1935.
Contudo, apesar das referências à América Latina, no centro das preocupações de Weill estava o seu próprio país, no qual era evidente o que um ditador autodenominado "homem forte" podia fazer, fascinando multidões com um programa político tão apelativo como "uma vaca para cada um". Nesse país, foram os lavradores aqueles que mais sofreram com a crise económica durante a república de Weimar, e também os que mais rapidamente aderiram à nova força política.
Weill optou por não diabolizar a figura do demagógico general Conchaz. Em vez disso, desloca o monstruoso para o sistema dos executores, mantendo o estilo opereta. No caso, o funcionário judicial que, ao abrigo do seu cargo, executa a penhora da vaca (a partir de 24:15). É aí que encontramos o verdadeiro horror do sistema: no modo como nós próprios quotidianamente nos adaptamos a determinada Ordem. A coragem civil de Juan, quando se rebela contra o sistema e esbofeteia o ditador, revela o carácter anárquico desta peça. Com muito humor brinca-se com o fogo, e este não chega a ser extinto, nem no final, quando tudo se resolve e Juan e Juanita podem enfim casar. O coro sobrepõe-se às outras vozes cantando "Não temos honra, não temos armas. Não temos segurança, oh, que alegria!"
A descoberta de que não há qualquer segurança nas relações políticas, e que estas se podem alterar rapidamente, revela uma verdade que é escandalosa numa opereta. Mas, no fundo, é a única lição a tirar do "dia de Potsdam".
***
Nota sobre o vídeo no início deste post: esta não é a Kuhhandel que está agora na Komische Oper, mas um conjunto de canções que antecederam a versão mostrada em 1935 na Inglaterra. Para tentar agradar ao público inglês, foram tiradas peças fundamentais como a "canção do Faraó", na cena em que Juan trabalha arduamente na cidade. "A Kingdom for a Cow", uma versão mais mansa e em inglês, mais comédia musical que crítica social, não vingou. Weill acabou por se distanciar dela, sem terminar a versão alemã. Depois da morte do compositor, Vambery fez uma revisão do libreto (o comerciante de armas americano passou a ser Felipe Chao, por exemplo), e Lys Simonette, que trabalhara com Weill, completou as partituras. A versão alemã desta opereta foi apresentada pela primeira vez ao público em Bautzen, em 1994. Sobre a versão inglesa, pode-se ler uma crítica (em inglês) aqui. Sobre a peça, mais informações (em alemão) aqui.
Para quem está em Berlim e fala alemão: a opereta passará de novo na Komische Oper na próxima terça-feira, às 19:30.
Weill-Woche na Komische Oper de Berlim
Aviso a quem está agora em Berlim e fala alemão: vejam o que se está a passar na Komische Oper. Dez dias de Kurt Weil, com a opereta Kuhhandel (imperdível!), a ópera Aufstieg und Fall der Stadt Mahagoni, a mistura de canção e dança em Die Sieben Todsünden com Dagmar Manzel, e mais, muito mais.
O concerto Last Tango in Berlin, com a Ute Lemper, é hoje - mas está esgotado. Ainda bem, porque para hoje já tinha planeado outra coisa...
("estão verdes, não prestam, só os cães as podem tragar"...)
19 janeiro 2013
a visita do tio Vânia (2)
Tradução rapidíssima (rapidíssima!) de um excerto do livro "A Visita do Tio Vânia" (Onkel Wanja kommt), de Wladimir Kaminer:
Eu nem sequer sabia se aquela igreja ainda estava a funcionar, ou se era um museu. Hoje em dia, muitas igrejas oferecem programas culturais: nelas podem actuar bandas punk, artistas usam o espaço para fazer exposições. Os padres modernos apoiam todos os tipos de fé. Tentam atrair os poucos crentes, os que têm outras crenças, e até começaram a tolerar os não-crentes praticantes. Estão dispostos a fazer tudo para que a igreja não fique vazia.
Muitas vezes sou convidado para um evento numa igreja: para ler, ou até para fazer a russendisko no altar. Já aceitei algumas vezes, sentindo-me mal. Sentia vergonha. Em particular por causa do público. Se eles decidiram ir a uma igreja, pensava eu, será para estar perto de Deus, ou ao menos do padre, e não da russendisko. Recentemente voltei a pensar nisso, em Hannover, na antiga Igreja de Lutero, agora Igreja da Juventude, e falei com os meus anfitriões sobre essa preocupação.
"Queremos ter esta igreja aberta à vida. Aqui dentro deve ser como lá fora", foi a resposta da pastora.
E um jovem teólogo, cujo nome, a crer no crachat que trazia, era Thorsten, abanava a cabeça em sinal de assentimento. Por isso mesmo tinham à venda não apenas chá de frutas, mas também álcool. O álcool é uma droga socialmente aceitável, o que quer dizer que é uma parte da vida, diziam eles. Atormentado pela minha consciência, pedi logo uma aguardente. Mas a pastora só tinha cerveja e vinho no bar da igreja - pelos vistos, aguardente ainda não era socialmente aceitável que baste. O jovem teólogo foi-me buscar ao quiosque do lado uma grande garrafa de Brandy. O público começou a encher a igreja; a pastora, o teólogo e eu ficámos à porta a fumar um cigarro.
"Há muito tempo que não tínhamos aqui tanta gente", congratulavam-se os meus anfitriões. Apesar do Brandy, eu ainda sentia escrúpulos.
"Será que é correcto dançar na casa de Deus", murmurei indeciso.
"Olhe, não se preocupe mais com isso", interferiu o jovem teólogo. "Nós assumimos a responsabilidade. Jesus também fez festas. Sim, senhor! Expulsou os vendedores do templo e organizou festas."
"Mas eu não sou Jesus", retorqui.
Aquele evento parecia-me algo como uma cantina vegan a oferecer um belo lombo de porco assado para angariar clientes. A ténue fronteira da tolerância eclesial parecia desenhar-se entre o vinho e a aguardente, entre a russendisko e um festival gothic. Nessa noite, em Hannover, tentei pôr música suave - folk, reggae, baladas. O público teve várias reacções: uns foram-se logo embora, outros ficaram imóveis num canto, à luz das velas, alguns saltavam como doidos no estrado de dança da igreja. A pastora e o teólogo estavam bem-dispostos, radiantes. No escuro, três jovens russas disparavam o flash das suas câmaras fotográficas. De lá de cima, pareceu-me, da alta cúpula da igreja, chegavam sinais amáveis: que cada um seria perdoado, que para cada um haveria risos, lágrimas e luto - e mais não era preciso. Naquela noite a igreja funcionou, penso eu. Mas como se distingue uma igreja que funciona de uma igreja-museu? A cidade de Colónia ofereceu às comunidades estrangeiras muitas igrejas que estavam abandonadas - croatas, polacos, búlgaros e outros imigrantes. Em troca de cuidarem da igreja, tinham o direito de celebrar semanalmente um serviço religioso na sua língua materna. Num abrir e fechar de olhos aquelas igrejas tornaram-se pequenos guetos onde se reuniam as pessoas de uma tradição, uma língua, um país.
Enquanto criança e jovem, vivi completamente à margem desta problemática das religiões. Não tive qualquer educação religiosa, e começo a gaguejar quando me fazem perguntas sobre judaísmo, cristianismo ou qualquer outro -ismo. Os meus pais nem ateístas eram. Estavam demasiado ocupados com as questões quotidianas do ser, e faltava-lhe tempo para pensarem a sério no crer. O que lhes permitiu irem vivendo sem depressões, felizes e confiantes.
Em contrapartida, os nossos vizinhos em Moscovo, os Morsin, eram muito religiosos. Tinham dois filhos, André e Alexandre. O André morreu num acidente de carro que ele próprio provocou, estava a conduzir embriagado; o Alexandre trabalhava no Ministério da Energia. Um dia foi para o Afeganistão, para ajudar o governo, comunista nessa época, a construir uma central de alta voltagem, mas esqueceu-se de avisar os pais da data certa da viagem. Um dia, a mãe recebeu um telegrama: "finalmente cheguei, horrivelmente quente aqui. A. Morsin" A mãe terá concluído que o filho que morrera mandara essa mensagem do inferno, e teve uma crise séria. Desde então, a família é crente.
Os meus pais não conheciam as religiões mais importantes, mas não eram descrentes - pelo contrário, acreditavam em tudo. Acreditavam que era possível ganhar no Loto contra o Estado soviético. Acreditavam nos poderes curativos da aguardente de tramazeira, o meu pai até a produzia. Durante algum tempo, chegaram a acreditar num futuro brilhante no seio do socialismo. E acreditavam em todas as histórias que eu trazia da escola, qualquer uma. Hoje, diria que os meus pais eram um caso grave de crença fácil. Só na área das questões religiosas é que mantinham um certo distanciamento, e optavam por uma grande desconfiança em relação a qualquer tipo de iluminação espiritual ou salvação. Só a contragosto aceitavam a vaga possibilidade da existência de um ou mais deuses. E rejeitavam liminarmente a ideia da vida depois da morte.
No decorrer da evolução da religião na Rússia, que tem tido os seus altos e baixos como uma autêntica montanha russa, nos anos noventa apanhámos com uma fase de renascimento religioso. Para começar, enterraram o ideal de uma sociedade humana e justa, e muitos antigos comunistas ingressaram na Igreja. As pessoas procuravam com maior ou menor desespero um apoio espiritual, e todos encontraram algo - excepto os meus pais. Nos anos noventa, centenas de religiões desabrocharam na Rússia, destacando-se o cristianismo para os mais velhos e o budismo para os mais novos. Às vezes as duas religiões coexistiam na mesma família.
Os nossos vizinhos moscovitas, os pais do Alexandre e do falecido André, tornaram-se cristãos ortodoxos. O pai, um major reformado, que tinha cometido muitos pecados na vida profissional e com certeza também na privada, deixou crescer a barba, mas por precaução não se baptizou logo. Na realidade, como contou ele ao meu pai num ataque de sinceridade, um cristão ortodoxo deve baptizar-se o mais tarde possível, de preferência pouco antes de morrer. Segundo a crença cristã, antes do baptismo és invisível para Deus, pelo menos não como cristão, pelo que só contam os pecados cometidos depois do baptismo. Em contrapartida, tudo o que se fez de errado antes do baptismo, depois deste deixa de contar. Seguindo esta lógica, o major sonhava com a continuação da sua carreira no céu. O seu objectivo era deixar-se baptizar no leito da morte, e seguir para o céu como o mais puro cristão. Nada podia correr mal, tinha pensado em tudo muito cuidadosamente. Só havia um ponto fraco: o risco de uma morte súbita, como no caso do seu filho mais novo, que até mandou do inferno um telegrama de advertência. O que se pode fazer para evitar a morte súbita? Um carro que faz uma curva demasiado depressa, uma pedra que cai do telhado - estes acidentes, que não eram de esperar mas, em teoria, possíveis, envenenavam a fé do major e obrigavam-no a olhar nervosamente em volta a toda a hora. Era extremamente cuidadoso, andava lentamente, concentrava-se quando atravessava a rua, e por sistema não saía de casa depois das seis da tarde.
O seu filho, que entretanto tinha perdido o emprego no Ministério da Energia, não partilhava esta fé - era budista. Não um membro qualquer de uma seita, ou um seguidor de Krishna, como os que nessa altura apareciam em muitos cantos de Moscovo, a desfilar pelas ruas com a cabeça rapada e panos coloridos, entoando um cântico de louvor a Krishna. O filho do major era um budista normal, um budista tradicional a caminho da iluminação do espírito. Para a atingir, tinha de se libertar de todo o stress, bem como do sofrimento, do prazer e das confusões. Um trabalho infernalmente complicado, que tomava todo o tempo daquele homem. Pelo que o filho do major perdeu o trabalho e a namorada.
**
Por mim, continuava a traduzir isto até ao fim do livro (daqui a nada o filho do major vai começar a tricotar na varanda por motivos religiosos) mas o Fox está a pedir para ir à rua, e tenho aí mais uma ou duas coisitas para fazer. Paciência.
a visita do tio Vânia
Estou a ler o livro mais recente do Wladimir Kaminer. Volta e meia largo uma gargalhada: "Eh, pá, isto é tão bom! Hahaha!"
Deu-mo há tempos, dizendo que estava muito satisfeito com o resultado. Razões para isso não lhe faltam, e para que ninguém me chame egoísta e torturadora de Tântalos, resolvi traduzir para os clientes deste blogue um pequeno excerto. Quando se traduz, nota-se ainda mais os pequenos detalhes. Por exemplo, a gracinha sobre hoje em dia ser permitido que bandas punk actuem em igrejas. No meio da frase parecia um exemplo como outro qualquer, e só ao traduzir reparei na soda cáustica. Hehehe.
Escolhi um excerto sobre a Fé. O Kaminer, com aquela carinha de "eu?! eu só cá vim ver a bola", consegue em meia dúzia de frases pôr o dedo em algumas feridas interessantes do nosso tempo. E pelo meio faz-nos rir. Não é qualquer um.
Portanto: me aguardem. Daqui a nada, senhoras e senhores, terei o prazer de vos apresentar o mais novo do Kaminer.
alguma coisa está a mudar na Alemanha
Precisava de fotocopiar algumas páginas de um livro que só existe numa biblioteca desta cidade. Telefonei para lá, deram-me o código do livro e disseram-me que podia levantá-lo directamente da estante e fotocopiar.
Eu é que não encontrava a estante, e pedi ajuda à senhora das informações.
- O livro está na cave, disse ela. Tem de o requisitar, demora cerca de meia hora.
- Meia hora? Daqui a meia hora tenho de estar no médico...
- Será melhor então requisitá-lo hoje e vir buscá-lo dentro dos próximos seis dias.
O que tem de ser tem muita força. Encolhi os ombros, disse que sim, e ela, muito simpática, ajudou-me a requisitar o livro. Até que chegámos à parte do cartão da biblioteca, que eu não tinha.
Ela olhou para mim, disse "então vamos ter de recorrer a meios menos convencionais", levantou-se da cadeira e desapareceu. Voltou passados três minutos, trazia o livro, colou-lhe uma etiqueta não sei quê, registou-o e deu-mo. Disse para o meter depois na gaveta das devoluções. Daí a cinco minutos eu estava a sair com as minhas fotocópias, e o livro já ia a caminho da cave.
Estão no bom caminho, os alemães. Por este andar, mais ano menos ano ainda conseguem acabar os aeroportos a tempo.
(Isto sou eu a ceder à tentação de fazer humor rasteirinho. O atraso do aeroporto de Berlim não é resultado da falta de capacidade de improvisação mas de um escandaloso afastamento do tradicional rigor no planeamento. Alguma coisa está a mudar na Alemanha, e é para pior.)
(foto)
18 janeiro 2013
onde está o serviço móvel de recolha de sangue, que nunca aparece quando faz falta?
Já devia ter idade para ter juízo, mas não tenho. A cortar o pão como faço há mais de quarenta anos, com a faca na minha direcção, espetei o bico da faca na palma da mão. O sangue a jorrar como num filme de guerra. Estou em crer que hoje aviava sozinha um hospital inteiro.
E depois, esta cena: sangue fresco e denso a correr-me pelas linhas da vida, do destino e do amor.
Fiquei indecisa entre fotografar esta alegoria, ou ir desinfectá-la e pôr um penso.
Com mais de quarenta anos de atraso, ganhou o bom senso.
pensava eu que estas coisas só aconteciam nesse país ultra fundamentalista que é a Irlanda...
Em Colónia, uma mulher foi drogada numa festa e acordou 14 horas mais tarde sem se lembrar de nada. Para fazer a recolha de provas da violação, foi a um hospital de uma instituição católica . Não foi atendida, nem nesse hospital, nem no segundo ao qual se dirigiu (também católico), porque os médicos pensaram que, se ficasse provada a violação, ela iria querer a pílula do dia seguinte, o que os tornaria em parte responsáveis por um aborto - e temiam perder o emprego.
Claro que os responsáveis do hospital estão chocados e já pediram imensa desculpa. Parece que esta vergonha foi o resultado de uma série de mal-entendidos, alimentados por uma ameaça implícita de despedimento (não seria a primeira vez que acontecia a um médico, num caso semelhante). O que torna o incidente ainda mais grave, porque revela que os empregados de instituições da Igreja Católica têm medo de perder o emprego se prestarem auxílio segundo a sua consciência e normas elementares de humanidade, no caso de estas se oporem a regulamentos ambíguos que traduzem o fundamentalismo moral da Igreja.
E eu que pensava que Cristo tinha vindo cá para nos libertar. Vou ter de reler aquela parte do "dou-vos um mandamento novo" - suspeito que haja por lá umas entrelinhas nas quais ainda não reparei.
(Provavelmente a culpa é do tradutor, como de costume: se não for do Martinho Lutero, há-de ser do São Jerónimo.)
PS. A propósito deste caso, ler também a Helena Ferro de Gouveia.
Claro que os responsáveis do hospital estão chocados e já pediram imensa desculpa. Parece que esta vergonha foi o resultado de uma série de mal-entendidos, alimentados por uma ameaça implícita de despedimento (não seria a primeira vez que acontecia a um médico, num caso semelhante). O que torna o incidente ainda mais grave, porque revela que os empregados de instituições da Igreja Católica têm medo de perder o emprego se prestarem auxílio segundo a sua consciência e normas elementares de humanidade, no caso de estas se oporem a regulamentos ambíguos que traduzem o fundamentalismo moral da Igreja.
E eu que pensava que Cristo tinha vindo cá para nos libertar. Vou ter de reler aquela parte do "dou-vos um mandamento novo" - suspeito que haja por lá umas entrelinhas nas quais ainda não reparei.
(Provavelmente a culpa é do tradutor, como de costume: se não for do Martinho Lutero, há-de ser do São Jerónimo.)
PS. A propósito deste caso, ler também a Helena Ferro de Gouveia.
fifty grades of orange
Eu na cozinha a preparar o jantar, o Matthias sentado à mesa a comer, o Fox sentado no chão a abanar a cauda e a olhar para mim fixamente. Corto um bocado de carne e dou-lhe.
O Matthias comenta:
- Ele domina-te completamente.
(ainda se fosse o Clooney, mas não: deixei-me subjugar por um rafeirito simpático)
O Matthias comenta:
- Ele domina-te completamente.
(ainda se fosse o Clooney, mas não: deixei-me subjugar por um rafeirito simpático)
17 janeiro 2013
BVG forever
Ontem dei boleia a um alemão que vive há anos em Berlim, e comentou que era a primeira vez que entrava num carro, nesta cidade.
Não é terceiro-mundismo, podem crer. É mesmo uma rede de transportes públicos muito boa, e uma cidade que convive bem com bicicletas.
(foto)
16 janeiro 2013
trabalhar ao som de música assim
Hoje vou passar o dia a este ritmo. Quer dizer: a trabalhar a este ritmo.
E se conseguisse encontrar o botão para as 78 rotações, bem jeito me dava.
(este é o momento em que entre os leitores deste blogue se nota uma certa agitação, para se abrir uma espécie de corredor como no Mar Vermelho daquela vez, vocês sabem - de um lado os que sabem o que é isso, "78 rpm", e do outro lado os que só sabem do vinil porque ouviram a avó deles contar)
(Se tivesse tempo, ficava por aqui a falar de outras encarnações. Por exemplo, de quando cheguei à Alemanha, dos empregados da caixa do Aldi que sabiam de cor os preços de cada um dos produtos, e os batiam na máquina registadora a uma velocidade inacreditável. Quais autocolantes com preços, quais quê. Quais códigos de barras, quais quê. Com uma mão empurravam o produto, com os agilíssimos dedos da outra registavam QueijoGouda1,78LeiteMagro0,55Farinha0,32Arroz0,89.
E por aí fora, o carrinho de compras inteiro.)
15 janeiro 2013
é terça-feira, e a Feira da Ladra... (2)
Antes de passar o post que vou roubar por inteiro ao João Lopes, queria deixar um último apontamento em relação ao tema "Pepa. Ou: uma sociedade que caiu na sarjeta" (bem, não prometo que seja o último):
- E que tal aprendermos a criticar os outros como se fossem um filho nosso, ou a nossa avó? Ou, servindo-me de uma receita antiga de dois mil anos, julgar os outros como gostaríamos de ser julgados? (isto é tão flagrantemente óbvio que quase me pergunto se Jesus era mesmo o filho de Deus, ou uma encarnação anterior do Colombo, aquele chato do ovo)
- E que tal aprendermos a criticar os outros como se fossem um filho nosso, ou a nossa avó? Ou, servindo-me de uma receita antiga de dois mil anos, julgar os outros como gostaríamos de ser julgados? (isto é tão flagrantemente óbvio que quase me pergunto se Jesus era mesmo o filho de Deus, ou uma encarnação anterior do Colombo, aquele chato do ovo)
Segunda-feira, Janeiro 14, 2013
Filipa Xavier e Coco Chanel
I. A agitação social em torno do caso Filipa Xavier [ver: Pépa Xavier e as redes sociais] seria apenas um anedota pueril e pouco feliz, não se desse o caso de constituir um sintoma brutal da degradação do nosso tecido social.
II. De facto, vale a pena referir que, sob a designação autoritária, supostamente indiscutível, de redes sociais, há quem considere que faz sentido gastar o seu tempo (e o tempo dos outros) insultando a autora do blog 'Fashion-à-Porter' porque ela manifestou o seu desejo de, em 2013, ter uma mala Chanel... Mais do que isso: monta-se todo um aparato “jornalístico” para expor na praça pública o facto de alguém ter manifestado o desejo de ter um objecto que custa um pouco mais de 3 mil euros.
III. Há várias maneiras de lidar com esta manifestação desse implacável Reino da Estupidez para cujos poderes, há muito tempo, nos alertou o genial Jorge de Sena (não, não está no Facebook...). A mais redutora, mas também a mais linear, é a contabilística. Por exemplo, se eu disser que, ao longo de 2013, adorava poder ir pelo menos três dias por mês a Londres para ir ao teatro, ver exposições e comprar livros... que alternativa me resta? Fazer mea culpa e reconhecer que nem mesmo o valor de várias malas Chanel poderia custear a minha arrogante pretensão? Ou anda por aí alguém que faça questão em ser ainda mais estúpido e considerar que as minhas escolhas, porque são “culturais”, merecem outra atenção? Desculpem lá, mas recuso semelhante protecção: uma belíssima mala Chanel é sempre mais digna que a miséria moralista.
IV. Depois, há a questão da própria quantia. Será que o facto de alguém desejar um objecto de 3 mil euros (se é que a noção de desejo não fica desqualificada face a uma mera vontade de consumo pessoal, corrente em qualquer ser humano) pode ser transformado em barómetro moral de toda uma conjuntura social? Será que a “crise” em que nos obrigam a viver – a ponto de muitos discursos político-económicos parecerem querer legitimar-se a partir da aplicação automática da palavra “crise” – passou a ser uma moral ditatorial a que está sujeito qualquer cidadão que se atreva a exprimir-se em euros?...
V. A conjuntura é tanto mais repressiva – em relação à simples possibilidade de pensar – quanto esta fúria moralista possui as mais discutíveis medidas de indignação. Assim, porque gostaria de poder gastar 3 mil euros, Filipa Xavier é difamada por uma multidão de vozes vingadoras... Isto no mesmo país em que alguns administradores das mais diversas instituições podem ser achincalhados, sem qualquer consideração sobre as qualidades do seu trabalho, por receberem um ordenado de 10 mil euros... Por sua vez, o seleccionador nacional de futebol recebe 64 mil euros por mês e não há uma voz, uma que seja, que venha ao menos perguntar que opções enquadram e justificam tal valor...
VI. Em boa verdade, sou dos que consideram normal que Paulo Bento ganhe 64 mil euros por mês (creio mesmo que, face aos seus congéneres europeus, recebe um ordenado miserável). E não vejo nenhuma razão, moral, política ou simbólica, para transformar o eventual consumo de Chanel por Filipa Teixeira num elemento de reflexão e/ou superação dos nossos dramas sociais e económicos. Julgar que as muito graves limitações do nosso tecido económico se resolvem impondo a Filipa Teixeira que renuncie à sua mala Chanel, eis uma ideia (?) que pode dar muitos polegares ao alto no Facebook, mas que apenas contribui para agravar a fulanização vingativa que começou pelo imaginário do futebol e, pelos vistos, vai contaminando todas as áreas das relações sociais.
VII. Há poucos anos, perante um filme (assaz convencional, a meu ver) sobre Coco Chanel (Coco Avant Chanel, com Audrey Tautou), o país da Internet mostrou o seu deslumbramento perante a elegância da personagem e a excelência do seu universo criativo. Agora, ficamos a saber que basta querer uma mala Chanel para se ser tratada como uma criminosa. Que os “amigos” das redes sociais peguem em 3 mil euros, ponham uma metralhadora nas mãos de Filipa Teixeira, lancem-na contra as barricadas do Mal e corrijam todos os males do mundo – é o mínimo que deles se espera.
é terça-feira, e a Feira da Ladra... (1)
Post roubado por inteiro à Ana Cristina Leonardo:
13/01/13
Da utilidade dos consoantes mudas quando queremos saber do que falamos ou do falam as palavras
13/01/13
Da utilidade dos consoantes mudas quando queremos saber do que falamos ou do falam as palavras
SEXO NO VATICANO
Vaticano
Bento XVI batizou 20 crianças
Onze meninas e nove meninos receberam este
domingo o baptismo, o primeiro dos sete sacramentos, em celebração
presidida por Bento XVI na Capela Sistina, Vaticano.
Filhas de empregados da Santa Sé, os novos
cristãos estavam acompanhadas pelos pais, madrinhas e padrinhos, a quem
o Papa afirmou: «O céu está aberto também sobre as vossas crianças, e
Deus diz: estes são os meus filhos, filhos da minha complacência».
Os pais, sublinhou Bento XVI, são chamados a
fazer crescer os filhos «numa amizade cada vez mais profunda», numa
sociedade que «com frequência considera fora de moda e do tempo aqueles
que vivem da fé em Jesus», refere o jornal do Vaticano, L'Osservatore
Romano.
A celebração ocorreu no dia em que os católicos evocaram o batismo de Jesus.
***
Desculpem o título - era eu a experimentar uma certa maneira de fazer jornalismo...
(a notícia, com um título bem menos espectacular que o meu, vem no site do Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura, um sítio bom para passear)
14 janeiro 2013
pasta italiana e outras reflexões de segunda-feira
Há tempos convidámos o "mestre" do Joachim, um pintor italiano, para vir jantar connosco.
Fiz um esparguete, que me mereceu um comentário céptico do Matthias:
- Achas boa ideia cozinhar pasta para um italiano?
Eu não tinha pensado nisso, e já era tarde para arrepiar caminho. O pintor é bem educado, disse que estava muito bom.
Este fim-de-semana fomos jantar a casa dele, pasta, e eu percebi inteiramente o cepticismo do Matthias: pasta feita por um italiano é outra coisa.
Fiquei a pensar que é muito bom viver num tempo em que a cozinha pode ser um habitat natural dos homens. E também um lugar de alargamento do nosso horizonte gastro-cultural: naquela casa come-se tanto pasta como couscous, doçaria árabe e pratos turcos.
O mundo no qual eu nasci não era assim - alguma coisa está a mudar para melhor.
(foto)
13 janeiro 2013
mais um choque cultural
O Matthias combinou com amigos encontrarem-se hoje cá em casa para fazerem um jogo. Encontro marcado para as três (da tarde de domingo, note-se). Às 15:03 já se estavam todos a rir por causa do único que faltava: "vem atrasado, como de costume".
Por estas e por outras me dou conta do que os alemães devem sofrer comigo...
amor (2)
(Copio para aqui um texto que encontrei no facebook.) (Talvez este condutor de táxi seja uma ficção, talvez este texto tenha sido copiado do livro "Chicken soup for the soul", mas fica aqui na mesma, porque gosto desta ideia do amor suspenso na surpresa dos instantes.)
A NYC Taxi driver wrote:
I arrived at the address and honked the horn. After waiting a few minutes I honked again. Since this was going to be my last ride of my shift I thought about just driving away, but instead I put the car in park and walked up to the door and knocked.
'Just a minute', answered a frail, elderly voice. I could hear something being dragged across the floor.
After a long pause, the door opened. A small woman in her 90's stood before me. She was wearing a print dress and a pillbox hat with a veil pinned on it, like somebody out of a 1940's movie.
By her side was a small nylon suitcase. The apartment looked as if no one had lived in it for years. All the furniture was covered with sheets.
There were no clocks on the walls, no knickknacks or utensils on the counters. In the corner was a cardboard box filled with photos and glassware.
'Would you carry my bag out to the car?' she said. I took the suitcase to the cab, then returned to assist the woman.
She took my arm and we walked slowly toward the curb.
She kept thanking me for my kindness. 'It's nothing', I told her. 'I just try to treat my passengers the way I would want my mother to be treated.'
'Oh, you're such a good boy, she said. When we got in the cab, she gave me an address and then asked, 'Could you drive through downtown?'
'It's not the shortest way,' I answered quickly.
'Oh, I don't mind,' she said. 'I'm in no hurry. I'm on my way to a hospice.
I looked in the rear-view mirror. Her eyes were glistening. 'I don't have any family left,' she continued in a soft voice...'The doctor says I don't have very long.' I quietly reached over and shut off the meter.
'What route would you like me to take?' I asked.
For the next two hours, we drove through the city. She showed me the building where she had once worked as an elevator operator.
We drove through the neighborhood where she and her husband had lived when they were newlyweds She had me pull up in front of a furniture warehouse that had once been a ballroom where she had gone dancing as a girl.
Sometimes she'd ask me to slow in front of a particular building or corner and would sit staring into the darkness, saying nothing.
As the first hint of sun was creasing the horizon, she suddenly said, 'I'm tired. Let's go now'. We drove in silence to the address she had given me. It was a low building, like a small convalescent home, with a driveway that passed under a portico.
Two orderlies came out to the cab as soon as we pulled up. They were solicitous and intent, watching her every move. They must have been expecting her.
I opened the trunk and took the small suitcase to the door. The woman was already seated in a wheelchair.
'How much do I owe you?' she asked, reaching into her purse.
'Nothing,' I said.
'You have to make a living,' she answered.
'There are other passengers,' I responded.
Almost without thinking, I bent and gave her a hug. She held onto me tightly.
'You gave an old woman a little moment of joy,' she said. 'Thank you.'
I squeezed her hand, and then walked into the dim morning light. Behind me, a door shut. It was the sound of the closing of a life.
I didn't pick up any more passengers that shift. I drove aimlessly lost in thought. For the rest of that day, I could hardly talk. What if that woman had gotten an angry driver,or one who was impatient to end his shift? What if I had refused to take the run, or had honked once, then driven away?
On a quick review, I don't think that I have done anything more important in my life.
We're conditioned to think that our lives revolve around great moments.
But great moments often catch us unaware-beautifully wrapped in what others may consider a small one.
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