19 janeiro 2013

a visita do tio Vânia (2)



Tradução rapidíssima (rapidíssima!) de um excerto do livro "A Visita do Tio Vânia" (Onkel Wanja kommt), de Wladimir Kaminer:

Eu nem sequer sabia se aquela igreja ainda estava a funcionar, ou se era um museu. Hoje em dia, muitas igrejas oferecem programas culturais: nelas podem actuar bandas punk, artistas usam o espaço para fazer exposições. Os padres modernos apoiam todos os tipos de fé. Tentam atrair os poucos crentes, os que têm outras crenças, e até começaram a tolerar os não-crentes praticantes. Estão dispostos a fazer tudo para que a igreja não fique vazia.
Muitas vezes sou convidado para um evento numa igreja: para ler, ou até para fazer a russendisko no altar. Já aceitei algumas vezes, sentindo-me mal. Sentia vergonha. Em particular por causa do público. Se eles decidiram ir a uma igreja, pensava eu, será para estar perto de Deus, ou ao menos do padre, e não da russendisko. Recentemente voltei a pensar nisso, em Hannover, na antiga Igreja de Lutero, agora Igreja da Juventude, e falei com os meus anfitriões sobre essa preocupação.
"Queremos ter esta igreja aberta à vida. Aqui dentro deve ser como lá fora", foi a resposta da pastora.
E um jovem teólogo, cujo nome, a crer no crachat que trazia, era Thorsten, abanava a cabeça em sinal de assentimento. Por isso mesmo tinham à venda não apenas chá de frutas, mas também álcool. O álcool é uma droga socialmente aceitável, o que quer dizer que é uma parte da vida, diziam eles. Atormentado pela minha consciência, pedi logo uma aguardente. Mas a pastora só tinha cerveja e vinho no bar da igreja - pelos vistos, aguardente ainda não era socialmente aceitável que baste. O jovem teólogo foi-me buscar ao quiosque do lado uma grande garrafa de Brandy. O público começou a encher a igreja; a pastora, o teólogo e eu ficámos à porta a fumar um cigarro.
"Há muito tempo que não tínhamos aqui tanta gente", congratulavam-se os meus anfitriões. Apesar do Brandy, eu ainda sentia escrúpulos.
"Será que é correcto dançar na casa de Deus", murmurei indeciso.
"Olhe, não se preocupe mais com isso", interferiu o jovem teólogo. "Nós assumimos a responsabilidade. Jesus também fez festas. Sim, senhor! Expulsou os vendedores do templo e organizou festas."
"Mas eu não sou Jesus", retorqui.
Aquele evento parecia-me algo como uma cantina vegan a oferecer um belo lombo de porco assado para angariar clientes. A ténue fronteira da tolerância eclesial parecia desenhar-se entre o vinho e a aguardente, entre a russendisko e um festival gothic. Nessa noite, em Hannover, tentei pôr música suave - folk, reggae, baladas. O público teve várias reacções: uns foram-se logo embora, outros ficaram imóveis num canto, à luz das velas, alguns saltavam como doidos no estrado de dança da igreja. A pastora e o teólogo estavam bem-dispostos, radiantes. No escuro, três jovens russas disparavam o flash das suas câmaras fotográficas. De lá de cima, pareceu-me, da alta cúpula da igreja, chegavam sinais amáveis: que cada um seria perdoado, que para cada um haveria risos, lágrimas e luto - e mais não era preciso. Naquela noite a igreja funcionou, penso eu. Mas como se distingue uma igreja que funciona de uma igreja-museu? A cidade de Colónia ofereceu às comunidades estrangeiras muitas igrejas que estavam abandonadas - croatas, polacos, búlgaros e outros imigrantes. Em troca de cuidarem da igreja, tinham o direito de celebrar semanalmente um serviço religioso na sua língua materna. Num abrir e fechar de olhos aquelas igrejas tornaram-se pequenos guetos onde se reuniam as pessoas de uma tradição, uma língua, um país.
Enquanto criança e jovem, vivi completamente à margem desta problemática das religiões. Não tive qualquer educação religiosa, e começo a gaguejar quando me fazem perguntas sobre judaísmo, cristianismo ou qualquer outro -ismo. Os meus pais nem ateístas eram. Estavam demasiado ocupados com as questões quotidianas do ser, e faltava-lhe tempo para pensarem a sério no crer. O que lhes permitiu irem vivendo sem depressões, felizes e confiantes.
Em contrapartida, os nossos vizinhos em Moscovo, os Morsin, eram muito religiosos. Tinham dois filhos, André e Alexandre. O André morreu num acidente de carro que ele próprio provocou, estava a conduzir embriagado; o Alexandre trabalhava no Ministério da Energia. Um dia foi para o Afeganistão, para ajudar o governo, comunista nessa época, a construir uma central de alta voltagem, mas esqueceu-se de avisar os pais da data certa da viagem. Um dia, a mãe recebeu um telegrama: "finalmente cheguei, horrivelmente quente aqui. A. Morsin"  A mãe terá concluído que o filho que morrera mandara essa mensagem do inferno, e teve uma crise séria. Desde então, a família é crente.
Os meus pais não conheciam as religiões mais importantes, mas não eram descrentes - pelo contrário, acreditavam em tudo. Acreditavam que era possível ganhar no Loto contra o Estado soviético. Acreditavam nos poderes curativos da aguardente de tramazeira, o meu pai até a produzia. Durante algum tempo, chegaram a acreditar num futuro brilhante no seio do socialismo. E acreditavam em todas as histórias que eu trazia da escola, qualquer uma. Hoje, diria que os meus pais eram um caso grave de crença fácil. Só na área das questões religiosas é que mantinham um certo distanciamento, e optavam por uma grande desconfiança em relação a qualquer tipo de iluminação espiritual ou salvação. Só a contragosto aceitavam a vaga possibilidade da existência de um ou mais deuses. E rejeitavam liminarmente a ideia da vida depois da morte.
No decorrer da evolução da religião na Rússia, que tem tido os seus altos e baixos como uma autêntica montanha russa, nos anos noventa apanhámos com uma fase de renascimento religioso. Para começar, enterraram o ideal de uma sociedade humana e justa, e muitos antigos comunistas ingressaram na Igreja. As pessoas procuravam com maior ou menor desespero um apoio espiritual, e todos encontraram algo - excepto os meus pais. Nos anos noventa, centenas de religiões desabrocharam na Rússia, destacando-se o cristianismo para os mais velhos e o budismo para os mais novos. Às vezes as duas religiões coexistiam na mesma família.
Os nossos vizinhos moscovitas, os pais do Alexandre e do falecido André, tornaram-se cristãos ortodoxos. O pai, um major reformado, que tinha cometido muitos pecados na vida profissional e com certeza também na privada, deixou crescer a barba, mas por precaução não se baptizou logo. Na realidade, como contou ele ao meu pai num ataque de sinceridade, um cristão ortodoxo deve baptizar-se o mais tarde possível, de preferência pouco antes de morrer. Segundo a crença cristã, antes do baptismo és invisível para Deus, pelo menos não como cristão, pelo que só contam os pecados cometidos depois do baptismo. Em contrapartida, tudo o que se fez de errado antes do baptismo, depois deste deixa de contar. Seguindo esta lógica, o major sonhava com a continuação da sua carreira no céu. O seu objectivo era deixar-se baptizar no leito da morte, e seguir para o céu como o mais puro cristão. Nada podia correr mal, tinha pensado em tudo muito cuidadosamente. Só havia um ponto fraco: o risco de uma morte súbita, como no caso do seu filho mais novo, que até mandou do inferno um telegrama de advertência. O que se pode fazer para evitar a morte súbita? Um carro que faz uma curva demasiado depressa, uma pedra que cai do telhado - estes acidentes, que não eram de esperar mas, em teoria, possíveis, envenenavam a fé do major e obrigavam-no a olhar nervosamente em volta a toda a hora. Era extremamente cuidadoso, andava lentamente, concentrava-se quando atravessava a rua, e por sistema não saía de casa depois das seis da tarde.
O seu filho, que entretanto tinha perdido o emprego no Ministério da Energia, não partilhava esta fé - era budista. Não um membro qualquer de uma seita, ou um seguidor de Krishna, como os que nessa altura apareciam em muitos cantos de Moscovo, a desfilar pelas ruas com a cabeça rapada e panos coloridos, entoando um cântico de louvor a Krishna. O filho do major era um budista normal, um budista tradicional a caminho da iluminação do espírito. Para a atingir, tinha de se libertar de todo o stress, bem como do sofrimento, do prazer e das confusões. Um trabalho infernalmente complicado, que tomava todo o tempo daquele homem. Pelo que o filho do major perdeu o trabalho e a namorada.

**

Por mim, continuava a traduzir isto até ao fim do livro (daqui a nada o filho do major vai começar a tricotar na varanda por motivos religiosos) mas o Fox está a pedir para ir à rua, e tenho aí mais uma ou duas coisitas para fazer. Paciência.

9 comentários:

calita disse...

Só duas coisas:
1) O Kaminer está maravilhoso nessa foto, o que só lhe faz justiça (eu vi-o ao vivo, obrigada Carla de Paris, obrigada!).

1.1) A Olga é maravilhosa, há que dizê-lo.

2) Participar na russendisko é uma experiência transcendental (acredito que o álcool ajude, mas não é obrigatório), por isso compreendo perfeitamente a decisão da pastora.

snowgaze disse...

Também vais traduzir este para português? (Eu compro.)

Maria B disse...

Não tenho livros dele, mas a Helena abriu-me o apetite. Estou a ver que vou ter mesmo que dar um dinheirito a ganhar à amazon.de:)

Pelo excerto, parece uma escrita com muito sentido de humor e ao mesmo tempo poética. Gostei muito e claro que soltei uma gargalhada com a do telegrama do inferno:)


Helena disse...

Snowgaze,
era bom, era...
É pena não haver mais livros dele em português.

Maria B,
pois lá terá de ser...
;-)
Gosto muito do sentido de humor dele. Parece ingénuo, mas sabe-a toda.

jj.amarante disse...

A foto dele condiz com o texto, tem o ar maroto dum menino Tonecas.

CCF disse...

Sugiro novo livro traduzido pela Helena e nova volta a Portugal que da última não consegui apanhar nadinha a não ser a reportagem aqui.
~CC~

Helena disse...

Sugestão anotada e aprovada. Se me
deixassem mandar... ;-)

maria lucia disse...

:D
religião é mesmo muito complicado, está excelente o retrato. beijão!

maria lucia disse...

Maria Lucia = Malu