Olá, Rita e Carla
fizemos as malas em Berlim no meio de um calor infernal. Farta de levar metade da casa comigo sempre que viajo, deixei lá todos os casacos. Chegámos ao Porto, chovia torrencialmente e estava frio. Isto é tempo que se apresente?
Já desisti de tentar acertar na roupa que devo levar para Portugal. Ao pé de Vila do Conde há um outlet...
Para ir de Viana a Guimarães decidimos poupar o dinheiro da auto-estrada e da SCUT e fomos pelos Gerês...
Entre Germil e Brufe há uns meandros da estrada (de uma estrada que nem existe no mapa) que me deixam sempre alvoroçada. É bem verdade: não há caminho para a felicidade. A felicidade é aquele troço da estrada. Essa é a parte de sabedoria que ainda falta ao Buda, mas eu já sei.
Depois ponho aqui as fotos.
24 junho 2012
correio das ilhas III (1)
Olá, Rita
olá, Carla
que é que vocês não me pedem sorrindo que eu não faço chorando?
Pois é: difícil resistir à vossa pressão. Cá vamos nós para nova série do correio das ilhas.
Mas esporádico, esporádico - quero mesmo ficar o mais possível longe da internet.
Beijos, Helena
olá, Carla
que é que vocês não me pedem sorrindo que eu não faço chorando?
Pois é: difícil resistir à vossa pressão. Cá vamos nós para nova série do correio das ilhas.
Mas esporádico, esporádico - quero mesmo ficar o mais possível longe da internet.
Beijos, Helena
20 junho 2012
de volta ao Triângulo das Bermudas
Vou passar as próximas semanas entre a macieira, o diospireiro e a figueira (e entre o mar, a montanha, a família e os amigos).
Se não aparecer por aqui, provavelmente é sinal de andar noutras minhas sete quintas.
(sete quintas, sete quintas: acabei de descobrir que sou uma latifundária)
trufas!
Assim sem pensar muito, diria que o pior inimigo da mulher são as trufas que comprei em Bruxelas. E o segundo pior inimigo da mulher são as calças de cintura baixa.
(quem teria sido o sociopata que inventou as calças de cintura baixa?)
Desde a triste figura em que ontem saí à rua até ao próximo biquíni não há mais trufas, nem pão branco, nem batatas, nem cerveja, nem açúcar.
(Vão ser dois dias muito duros)
(quem teria sido o sociopata que inventou as calças de cintura baixa?)
Desde a triste figura em que ontem saí à rua até ao próximo biquíni não há mais trufas, nem pão branco, nem batatas, nem cerveja, nem açúcar.
(Vão ser dois dias muito duros)
o expresso do paraíso (5)
(daqui)
O pequeno-almoço na Pousada de Cascais foi excelente - o melhor que tive nos hotéis do grupo Pestana. Com o mar à minha frente. Só era pena chover tanto, e eu estar atrapalhada por causa de uma entrevista que ainda faltava fazer, mesmo antes de sairmos para o avião.
A entrevista resumiu-se a uma sessão fotográfica, e à promessa de que o Wladimir Kaminer escreveria um pequeno texto sobre Portugal para a revista Wink.
Saímos para o aeroporto, debaixo de chuva torrencial. Não sei como, ainda não tínhamos saído de Cascais e já estávamos embrenhados numa conversa profunda sobre religião. Falámos de Taizé (mais umas frases dessas, e ainda combinamos uma visita à Borgonha...) e da fé. O Wladimir entendia que a fé se vive a título pessoal - ninguém entra no céu num autocarro de excursões. Eu ia falar da diferença entre misticismo e religião, mas chegámos ao aeroporto e fomos atropelados pela vida real.
Despedimo-nos. Voltei para o centro da cidade com os meus trinta pacotes. Entre eles as gadanhas e as empadas de galinha compradas em Estremoz, já um bocado amassadas por terem servido inadvertidamente de almofada num power nap durante uma travessia do Alentejo.
Encontrei-me com amigos.
Melhor dizendo: encontrei-me nos amigos.
Terminei o dia num sofá confortável, debaixo de uma manta partilhada, numa conversa entremeada dos "entãos" que me desatam. Quando algum dia escrever uma definição de lar-doce-lar, não me posso esquecer disto: uma manta partilhada, "entãos", confidências e sorrisos.
Foi o quinto dia.
O sexto continuou tão bom como o anterior. Regressei à Alemanha, e a partir do sétimo dia descansei.
Que bem precisava.
***
Uma semana mais tarde fomos jantar com os Kaminer. Enquanto eu tentava recuperar do cansaço da viagem, o Wladimir já tinha ido a Estrasburgo, a Praga, e a uma conferência de imprensa por causa do Matthias Rust que ele deixara chegar à Praça Vermelha, vinte e cinco anos antes.
Havia que preparar o grande projecto para o Verão de 2013. Ao fim de uma hora, o Joachim já estava a apostar com o Wladimir a sua melhor garrafa de vinho. Tive de intervir: o Chateau Latour do ano do nascimento da Christina?! Apostaram a segunda melhor garrafa de vinho. Já não sei em quê, e eles provavelmente também não.
A meio do serão o Matthias e o Wladimir começaram uma enorme discussão sobre fé. Com quem o Wladimir se foi meter... O Matthias não cede, continua a argumentar, a desmontar os argumentos contrários. Quando é comigo, para não dar o braço inteiramente a torcer, costumo acabar a discussão com um "ah, cala-te cala-te, não me lembro de te ter perguntado a opinião...". Ele ri-se, e eu preservo algum amor-próprio.
O Wladimir Kaminer não conhece este truque, pelo que continuava a discutir com ele. Já estávamos em frente ao táxi, já bocejávamos desesperadamente, mas eles: ora um ora o outro. Até que pedimos que acabassem a discussão por esse dia, e o Wladimir começou a sorrir como quando se lembra de uma história. Era uma história: perguntaram a um filósofo, um russo que foi para Inglaterra, o que mais temia. Ele respondeu: o fim da conversa.
19 junho 2012
o expresso do paraíso (4)
Ao pequeno-almoço, o Wladimir Kaminer pôs-se a ler uma folha com notícias frescas da Rússia. "Olhem para isto", dizia ele, "tudo a correr às mil maravilhas, tudo sob controle, um povo feliz, um país fantástico." Contra tudo o que seria de esperar, perante notícias tão positivas, estava visivelmente preocupado. Imaginei que o jornal seria escrito pelo próprio Putin, que bem conhece o registo certo para contar a verdade ao povo. Mas há gente assim, que nunca se dá por satisfeita, por muito que os políticos do seu país se esforcem.
O director do Pestana Palace tinha-me mostrado o hotel com todo o detalhe, e eu fiz o mesmo para o casal Kaminer. Contei-lhes a história do cacau mais valioso que o ouro, mostrei-lhes os salões que o cacau pagou, a capela com uma passagem secreta para as cavalariças (depois da capela da quinta do Carmo, ocorreu-me que em Portugal, pelos vistos, as capelas não são apenas ponto de chegada, mas também e sobretudo de partida - e cada qual sabe de si e onde tem o seu amor), a cozinha tradicional, a sala de jantar feita com madeiras preciosas de importação proibida, que chegaram a Portugal por meio de um ardil: mandou-se fazer um navio no Brasil, e quando chegou a Portugal foi desmantelado para fazer aquela sala... (porque é que eu me rio com estas artimanhas, quando devia era ficar chocada?)
À saída, o director apareceu para cumprimentar os hóspedes, saber da estadia, oferecer um livro com a história do hotel (e a mim um das pousadas, ai, agarrem-me! que tem lá pousadas tão bonitas). Talvez o fizesse por profissionalismo, mas pareceu-nos genuinamente simpático - a um domingo de manhã! Abençoada empresa que conta com tal director.
Partimos para Óbidos. Ao chegar à vila, o telefone tocou: era o Paulo Almeida, que estava por ali, e tinha uma horinha para passear connosco. Se isto não é sorte! De modo que subimos à Pousada guiados pelo Paulo, que falou da Óbidos das rainhas, e especialmente da rainha Santa Isabel.
No restaurante, tinham reservado uma mesa junto à melhor janela para nós - o Kaminer diria mais tarde: "trataram-nos como reis, e ainda nos mostravam que se sentiam honrados pela nossa presença!"
Serviram-nos um excelente almoço. A Olga pediu-me para fotografar o polvo no prato dela.
Como habitualmente, o escritor sublinhava o tema da conversa com um brinde a propósito. As entradas vieram, deliciosas, e com elas o primeiro brinde, "- Ao cozinheiro!", falámos do que ainda queríamos fazer nesse dia e brindámos à nossa viagem, depois às auto-estradas vazias, e por aí fora.
Em algum momento contei o comentário de um músico polaco, que toca numa orquestra berlinense, o tipo de comentário que é sempre recebido em silêncio pelos alemães: "o Hitler, em comparação com o Estaline, era um menino do coro". Falámos da guerra, da crueza de Estaline ao mandar os rapazes para a carnificina, e o Kaminer ergueu o seu copo: "A essas vítimas, impedidas de estar aqui connosco". Ia tocar o meu copo no deles, mas travaram-me, e em vez disso deixámos cair algumas gotas de vinho na toalha. A sala encheu-se do silêncio de muitos milhões de russos.
Estávamos atrasadíssimos para o concerto em Mafra, pelo que não pudemos visitar a Pousada com calma. O director, de uma extrema amabilidade, levou-nos até à porta, e pelo caminho ia apresentando o edifício e a sua história. O inevitável aconteceu: chegados ao pátio, ficámos na conversa. As janelas namoradeiras, por cima do portão, interessaram a Olga. Queria saber se a rainha namorava ali, se era o rei.
- O rei, explicou o director, costumava ter os seus arranjos fora do castelo. A rainha lá teria de se arranjar com a prata da casa...
- O rei por fora, repetiu a Olga, e a rainha em casa, entretida a transformar pão em rosas e rosas em pão, pão em rosas e rosas em pão.
Nunca me tinha ocorrido que aquele milagre também se podia fazer em inversão de marcha.
O director falou ainda dos quartos nas torres do castelo, que desta vez não nos pôde dar porque já estavam reservados. Mas que se combinarmos com tempo... Pouco depois, no carro, combinámos com tempo: marcámos a data para a próxima viagem a Portugal, no verão de 2013.
Saímos a toda a velocidade pelas calçadas da vila - ou seja, saímos à velocidade possível para os sapatos de salto alto da Olga. O director resolveu acompanhar-nos até ao carro. Apontava os monumentos, as características particulares da arquitectura das casas, contava as histórias da terra. Eu traduzia, ofegante.
Na auto-estrada, enquanto eu lutava contra o atraso (sempre a 120 km/h, claro), o Kaminer contava histórias. Por exemplo, a daquele czar sanguinário, que ao ver aproximar-se a morte se encheu de medo das contas que teria de prestar do lado de lá, e deu ordens para que nas igrejas se rezasse por alma das suas vítimas. O problema é que as orações pelas almas precisavam de um nome, e ele perdera a conta até ao número daqueles que mandara matar, quanto mais ao nome deles. Pelo que mandou que se redigisse uma nova oração, "Senhor, pedimos-te por aqueles que Tu bem sabes."
Descontando a parte de desresponsabilização do homem, que não se dá ao trabalho de detalhar o seu exame de consciência, e manteve as almas das vítimas no mesmo registo de indiferença com que lhes roubou a vida, gosto da formulação, porque também eu rezo assim: "Olha, meu Deus, só sei que nada sei, e que tudo isto é muito maior que eu. Por isso te peço que faças o que achares melhor. Só isso."
O programa da visita em Mafra foi organizado pela Leonor Barros. Logo à saída da auto-estrada confirmámos que estávamos em boas mãos: o marido da Leonor estava à nossa espera, para nos indicar o caminho mais rápido para o centro da cidade. E no parque de estacionamento, completamente cheio, a mãe da Leonor ofereceu-nos o seu próprio lugar. A generosidade das pessoas que nos ajudaram durante esta viagem não pára de me surpreender. "Is this real life?"
Entrámos na igreja, para assistir a um concerto dos seis orgãos. Já ouvi muitos concertos de órgãos, mais ou menos potentes, mais ou menos antigos. Mas nunca assistira a um concerto em que o órgão soa ora mais longe, ora mais perto, ora em diálogo com outros. Quem se terá lembrado de fazer uma igreja em sistema de áudio multi-canal no séc. XVIII?
No fim do concerto, Dinarte Machado, o organeiro que recuperou os seis órgãos históricos, contou as trocas e baldrocas que os adormeceram no tempo, fazendo com que apenas um deles tivesse sido objecto de modernizações. À volta dele juntou-se um grupinho de pessoas a ouvir, muito interessadas. É pena não se contarem estas histórias. Procurei na internet, e só encontrei menções superficiais, "órgãos históricos", "premiados", "concerto de seis órgãos". Mas porque não contam eles o que é realmente interessante, os órgãos desmontados e esquecidos, o trabalho de refazer o puzzle, o beijo do organeiro que os desperta cem anos depois, ainda na flor da idade e por descobrir?
Seguimos para as entranhas do palácio, subimos ao topo da igreja, onde eu mostrei que não olho a meios quando se trata de tentar uma boa fotografia:
E acabo por fazer esta porcaria que mais parece uma sonda de Marte:
Para nossa grande surpresa, levaram-nos até ao terraço sobre a igreja.
Os Kaminer repararam mais uma vez nas flores que nascem das pedras. Hei-de mostrar-lhes certos caminhos da minha aldeia, ladeados de muros de pedra cheios de margaridas.Passeámos pelo palácio (o Lutz e o Wladimir sempre sempre sempre em animada conversa), entrámos na biblioteca.
Não, tenho de escrever isto melhor: entrámos na Biblioteca.
Mostraram-nos livros de horas com belíssimas iluminuras, livros da alta Idade Média com gravuras de paisagens de vários países europeus - todos iguais. Extraordinária sabedoria dos antigos, que souberam ver a monotonia da Europa muito antes de se inventarem os regulamentos da União Europeia.
Perdido no meio daquela sala enorme, o Wladimir comentou que esse espaço o enchia de tristeza, porque imaginava quantas pessoas teriam ali trabalhado tanto, e delas já nem o pó restava. Respondi: às tantas, ainda vamos descobrir que estão muito melhor agora...
Olhou-me sem chão. "És uma fundamentalista do optimismo!", disse em tom quase zangado, e virou costas.
A fotografia de grupo revela algo que os antigos clientes do Quase em Português já sabem há muito: o Lutz é um iluminado.
Mais tarde, no restaurante da Ericeira, sobre o pôr-do-sol no mar, o Wladimir Kaminer voltaria a falar da igreja, do palácio e da biblioteca.
- Aquela biblioteca lembrou-me uma que não lhe fica atrás, comentou. A de St. Gallen.
O Lutz riu-se:
- Não lhe fica atrás, é uma bela maneira de dizer...
- Uma vez, continuou o Kaminer, visitei essa biblioteca com o director. As salas iam ficando cada vez mais pequenas, e as chaves cada vez maiores. Ele perguntou-me se eu queria ver algo realmente especial, e eu, que não acreditava que houvesse alguma coisa ainda mais especial para ver, anuí. Entrámos numa salinha pequena, e ele pôs-me na mão um dos primeiros manuscritos de um evangelho.
Foi nesse momento que eu caí das nuvens. No meu entusiasmo, pensara que o poderia levar a encontrar em Portugal os lugares encantados que sonhara quando vivia ainda preso na União Soviética. Pensara levá-lo muito além de Tralalá. Nem me ocorreu que algum director de biblioteca tivesse tido essa ideia antes de mim. É muito triste ter nascido assim demasiado tarde.
Nessa noite fomos dormir à Pousada de Cascais. Era tarde, estávamos muito cansados, chovia torrencialmente. Mas mal entrámos na Pousada, sentimo-nos a salvo: foram buscar as nossas malas ao carro, estacionaram-no, levaram a nossa bagagem para o quarto. Enquanto avançávamos pelo corredor, fui trocando algumas frases com o desgraçado que puxava o carrinho com as minhas vinte malas (não perguntem, nem eu entendo).
- O que é que tu fazes às pessoas, que elas ficam todas com um ar radiante?, perguntou o Wladimir.
- Eu?!
- É, pois!, corroborou a Olga. Tão sorridentes, tão amáveis. Nunca vi empregados de hotel tratarem uma pessoa com tanta simpatia.
- Na Alemanha também te tratam assim?
Caí outra vez das nuvens. Nunca me tinha ocorrido que fosse possível ser tratada de outra maneira. Mas ele tinha razão: não é normal um empregado puxar um carrinho tão carregado como aquele e continuar todo sorridente a fazer conversa, para mais àquela hora tardia.
Dizem que viajar alarga os horizontes, mas falta acrescentar que é quando se viaja com a Olga e o Wladimir Kaminer. Capazes de ver o surreal que há na vida dos outros, na minha.
Do corredor dos nossos quartos via-se a piscina coberta, que parecia ao ar livre por cima do mar. Hei-de lá voltar para perceber melhor o fenómeno. Hei-de lá voltar porque a Pousada é linda, e a cama era boa para um sono de mil anos.
Foi o quarto dia.
**
Algumas destas fotografias são minhas, outras da Margarida Parente, outras da Leonor Barros.
carta da Christina
A Christina tem de juntar 1800 euros em donativos para levar para a sua escola na Bolívia.
A carta que escreveu aos amigos a pedir que contribuam começa assim:
Esse momento chegou agora!
Quero fazer um ano de serviço social, não para mudar o mundo, porque sou demasiado pequena para isso, mas para ajudar outras pessoas na medida do meu possível. Tenho a certeza que o projecto que escolhi me vai permitir fazer essa experiência. Uma experiência que me vai enriquecer e influenciar de futuro a minha maneira de pensar. É-me extremamente importante partir à descoberta do outro lado do nosso planeta, e sobretudo conhecer um modo de vida bem diferente do alemão, este mundo onde tudo existe e tudo se pode ter.
(...)
A carta que escreveu aos amigos a pedir que contribuam começa assim:
Como alguns de vocês já sabem, em Junho de 2012 concluí o ensino secundário! Agora surge a pergunta: que vem a seguir? Decidi fazer um ano de voluntariado de serviço social no estrangeiro. Nesta carta quero contar-vos como cheguei a essa decisão, e também como é o país e o projecto aos quais me vou dedicar em breve.
Há cerca de três anos houve uma sessão na minha escola, em Berlim, onde apresentavam um projecto de construção de poços de água numa aldeia do Burkina Faso. Era aos então finalistas do secundário que se dirigiam, pedindo que participassem como voluntários nesse projecto. Mas eu decidi nessa altura que faria um ano de serviço social depois de terminar o Abitur.
Quero fazer um ano de serviço social, não para mudar o mundo, porque sou demasiado pequena para isso, mas para ajudar outras pessoas na medida do meu possível. Tenho a certeza que o projecto que escolhi me vai permitir fazer essa experiência. Uma experiência que me vai enriquecer e influenciar de futuro a minha maneira de pensar. É-me extremamente importante partir à descoberta do outro lado do nosso planeta, e sobretudo conhecer um modo de vida bem diferente do alemão, este mundo onde tudo existe e tudo se pode ter.
agarrem-me, que eu vou!
Concerto de Encerramento das Festas de Lisboa
Milton Nascimento, Ana Moura, Carminho e António Zambujo
Orquestra Metropolitana de Lisboa
Cesário Costa direção musical
Sábado, 30 de junho, 22h00, Alameda D. Afonso Henriques
***
Haverá malucos no Porto (e em Ponte de Lima) em número suficiente para encher um carro e dar um saltinho a Lisboa para assistir a isto?
caminhos da arte
Na semana passada andei a animar um grupo de franceses. Melhor seria dizer: na semana passada andei a divertir um grupo de franceses com o meu francês enferrujado. Em troca, convidaram-me para assistir a um curso relâmpago sobre a evolução da arte europeia, com uma expert que veio expressamente de Paris para isso. Uma delícia.
Começámos na Gemäldegalerie. Do muito que contou, retive especialmente os motivos das anatomias femininas de Lukas Cranach o velho.
Esse espertalhão, dizia, decidiu começar a pintar as mulheres nuas. Para não parecer o que era, e que ele bem sublinhava pela posição corporal dinâmica e dengosa (ela própria oscilava o corpo em sss graciosos, os malandros do grupo riam e incitavam "encore! encore!"), retirava-lhe as capilaridades - excepto na cabeça - e pespegava-lhe um cupido de outro reino.
De Cranach para Picasso: o necessário salto para uma plataforma diferente da do cinema e da fotografia. A mulher cubista, vista de prismas vários, inteiramente real: tufos de pêlos nas axilas.
Começámos na Gemäldegalerie. Do muito que contou, retive especialmente os motivos das anatomias femininas de Lukas Cranach o velho.
Esse espertalhão, dizia, decidiu começar a pintar as mulheres nuas. Para não parecer o que era, e que ele bem sublinhava pela posição corporal dinâmica e dengosa (ela própria oscilava o corpo em sss graciosos, os malandros do grupo riam e incitavam "encore! encore!"), retirava-lhe as capilaridades - excepto na cabeça - e pespegava-lhe um cupido de outro reino.
(daqui)
Mas porquê estas proporções anatómicas? Como se terá ele lembrado de representar a mulher não como ela era, mas com um peito tão minúsculo e as ancas assim desenvolvidas?
Porque a Itália estava muito longe, e era difícil ter acesso aos exemplos romanos de representação do feminino; porque a estética é sempre uma construção, e as alterações dão-se em saltos relativamente pequenos; porque ele se limitou a desenhar nu o corpo que corresponderia aos vestidos que na época se pintavam.
Porque a Itália estava muito longe, e era difícil ter acesso aos exemplos romanos de representação do feminino; porque a estética é sempre uma construção, e as alterações dão-se em saltos relativamente pequenos; porque ele se limitou a desenhar nu o corpo que corresponderia aos vestidos que na época se pintavam.
De Picasso para Rothko - agora sei a chave para abrir aquele quadro vermelho que está na Neue Nationalgalerie. A chave não abre o quadro, abre-me a mim. Já não estamos na Idade Média, quando os quadros tinham funções pedagógicas e informativas. A arte contemporânea pede de nós mais do que ser meros alunos aplicados tentando apreender o saber debitado pelo professor.
(daqui)
O museu seguinte era o Hamburger Bahnhof, o de arte contemporânea. Não pude participar nessa parte porque meti umas horas de licença de maternidade para ir assistir à entrega dos diplomas de Abi do ano da Christina. Mas não perco pela demora: a expert parisiense gostou do modo como apresentei a cidade, e vai contactar-me quando trouxer a Berlim outros grupos. Mais uns vinte anitos, e vou ficar uma especialista em arte europeia explicada num excelente francês.
Também nos levou ao memorial do Holocausto. Ela explicou: aqui não há lugar para o patético. É um memorial completamente despojado, onde se evoca a História sem adereços que nos reenviem para os caminhos já percorridos. Este despojamento é algo típico dos berlinenses, e torna a cidade revitalizante. “Reenergizante”, dizia ela.
Lembrei-me então do que o Gonçalo M Tavares disse na apresentação do seu livro "Jerusalém":
- Escrever é cortar, cortar, cortar.Amanhã vou para Portugal. Na quinta-feira procurarei nas livrarias de Viana do Castelo alguns dos seus livros. Talvez encontre neles um vermelho de Rothko.
18 junho 2012
se quiserem comprar acções da tal empresa de lenços de papel...
...comprem por vossa conta e risco, já não tenho a certeza de ser uma grande oportunidade de mercado.
Hoje o meu coro deu o seu último concerto, depois fomos jantar, depois despedimo-nos, e nem uma lagriminha. Nem uma, nem sequer quando cantámos aquele maldito Irish Blessing (mas concentrei-me muito na contagem do "may God hold you in the pa-a-a-a-alm of his hand", nessa parte esteve por um fio)
O melhor momento foi no Veni Domine, de Mendelssohn. Nessa peça eu canto com os mezzo-soprano, ou seja, quase sempre sozinha. Outra contralto achou que essa era também a sua voz, e juntou-se a mim. Começámos a cantar, mas não cantávamos o mesmo. Às tantas, achei que tinha de ter mais espírito de equipa, e tentar acompanhá-la, embora me parecesse muito estranho. Mas, ora bem, temos de saber ser team players, não é assim?
Não, não é assim. Chegámos ao fim da peça, e demo-nos conta que ela tinha vindo cantar a parte mezzo-soprano quando afinal só conhecia a do contralto...
(como é que o nosso maestro nos aturava?)
A seguir ao Veni Domine cantámos o Laudate Pueri, também de Mendelssohn. Tal e qual como no vídeo, só um bocadinho mais criativo.
Disseram-me que há um site com a lista dos coros que há em Berlim. São novecentos. Para os experimentar todos, vou ter de cantar de segunda a sexta durante três anos e meio.
O melhor é começar por definir critérios de excelência, para fazer uma primeira triagem. A ver se me arranjam fotografias dos maestros em fato de banho.
Hoje o meu coro deu o seu último concerto, depois fomos jantar, depois despedimo-nos, e nem uma lagriminha. Nem uma, nem sequer quando cantámos aquele maldito Irish Blessing (mas concentrei-me muito na contagem do "may God hold you in the pa-a-a-a-alm of his hand", nessa parte esteve por um fio)
O melhor momento foi no Veni Domine, de Mendelssohn. Nessa peça eu canto com os mezzo-soprano, ou seja, quase sempre sozinha. Outra contralto achou que essa era também a sua voz, e juntou-se a mim. Começámos a cantar, mas não cantávamos o mesmo. Às tantas, achei que tinha de ter mais espírito de equipa, e tentar acompanhá-la, embora me parecesse muito estranho. Mas, ora bem, temos de saber ser team players, não é assim?
Não, não é assim. Chegámos ao fim da peça, e demo-nos conta que ela tinha vindo cantar a parte mezzo-soprano quando afinal só conhecia a do contralto...
(como é que o nosso maestro nos aturava?)
A seguir ao Veni Domine cantámos o Laudate Pueri, também de Mendelssohn. Tal e qual como no vídeo, só um bocadinho mais criativo.
Disseram-me que há um site com a lista dos coros que há em Berlim. São novecentos. Para os experimentar todos, vou ter de cantar de segunda a sexta durante três anos e meio.
O melhor é começar por definir critérios de excelência, para fazer uma primeira triagem. A ver se me arranjam fotografias dos maestros em fato de banho.
insider trading: comprem acções da "Tempo - lenços de papel"
Pois lá fomos nós até ao Lago Constança, pois lá parámos uns minutos em Weimar para dar um beijinho a amigos cujas filhas eram pequenitas amorosas quando mudámos para Berlim e agora estão umas adolescentes lindas de olhos brilhantes, pois lá seguimos caminho com o coração a transbordar: a vida que nos acontece.
Os nossos amigos - os meus mais antigos amigos na Alemanha - não queriam festejar as bodas de prata. Que uma festa custa muito dinheiro, que andam a poupar para uma há muito sonhada viagem à Nova Zelândia, e tal, e coisa. Mas nós soubemos dar-lhes a volta, e que os amigos levam a comida, e que nós oferecemos o champanhe, e que podem festejar no salão da igreja, e eles acabaram por decidir fazer uma festa. Em boa hora, porque foi inesquecível.
Nem se preocuparam em comprar roupa nova, nem em grandes ostentações. A decoração da sala foi feita por uma amiga, com seixos e paus das margens do lago. A comida e as bebidas foram trazidas pelos amigos, a própria celebração foi feita pelas pessoas do seu grupo de oração - o pastor estava presente, mas só participou na benção (um momento lindo: os noivos num círculo de amigos que ia rodando; o que estava em frente aos noivos dizia a sua benção, e os que estavam ao lado deles pousavam uma mão nos seus ombros).
Passei dois dias de lagriminha ao canto do olho. Uma pessoa vê todas aquelas manifestações de amor, de amizade, de criatividade, de entrega e generosidade - e comove-se, caramba.
Pelo meio ríamo-nos da falta de comunicação na família: passaram o tempo a surpreender-se uns aos outros, com algo que tinham preparado em segredo. A mulher para o marido (lagriminha, lagriminha - como é que ela conseguiu dizer aquilo tudo sem desatar a chorar é que é um mistério para mim!), o marido para a mulher (lagriminha, lagriminha), os filhos para os pais, a Christina a tocar guitarra e a cantar com a sua voz cheia e segura (lagriminha), um amigo peruano a trazer em mil instrumentos um bocadinho da sua terra para o nosso meio, a peça de teatro escrita especialmente para o casal, as pessoas sentadas na mesa onde havia lápis, cola e papel para preparar um álbum de recordações com as fotos que todos tinham trazido. O kiwi feito por uma das filhas para recolher dinheiro para a viagem à Nova Zelândia. Etc.
E no dia seguinte a Christina a despedir-se deles com muitos abraços, porque já só os vê daqui a um ano. Desconfio que conheço uma mãe que lá para princípios de Agosto vai apanhar uma desidratação.
Portanto: comprem acções da "Tempo" - nas próximas semanas o consumo de lenços de papel vai explodir.
Os nossos amigos - os meus mais antigos amigos na Alemanha - não queriam festejar as bodas de prata. Que uma festa custa muito dinheiro, que andam a poupar para uma há muito sonhada viagem à Nova Zelândia, e tal, e coisa. Mas nós soubemos dar-lhes a volta, e que os amigos levam a comida, e que nós oferecemos o champanhe, e que podem festejar no salão da igreja, e eles acabaram por decidir fazer uma festa. Em boa hora, porque foi inesquecível.
Nem se preocuparam em comprar roupa nova, nem em grandes ostentações. A decoração da sala foi feita por uma amiga, com seixos e paus das margens do lago. A comida e as bebidas foram trazidas pelos amigos, a própria celebração foi feita pelas pessoas do seu grupo de oração - o pastor estava presente, mas só participou na benção (um momento lindo: os noivos num círculo de amigos que ia rodando; o que estava em frente aos noivos dizia a sua benção, e os que estavam ao lado deles pousavam uma mão nos seus ombros).
Passei dois dias de lagriminha ao canto do olho. Uma pessoa vê todas aquelas manifestações de amor, de amizade, de criatividade, de entrega e generosidade - e comove-se, caramba.
Pelo meio ríamo-nos da falta de comunicação na família: passaram o tempo a surpreender-se uns aos outros, com algo que tinham preparado em segredo. A mulher para o marido (lagriminha, lagriminha - como é que ela conseguiu dizer aquilo tudo sem desatar a chorar é que é um mistério para mim!), o marido para a mulher (lagriminha, lagriminha), os filhos para os pais, a Christina a tocar guitarra e a cantar com a sua voz cheia e segura (lagriminha), um amigo peruano a trazer em mil instrumentos um bocadinho da sua terra para o nosso meio, a peça de teatro escrita especialmente para o casal, as pessoas sentadas na mesa onde havia lápis, cola e papel para preparar um álbum de recordações com as fotos que todos tinham trazido. O kiwi feito por uma das filhas para recolher dinheiro para a viagem à Nova Zelândia. Etc.
E no dia seguinte a Christina a despedir-se deles com muitos abraços, porque já só os vê daqui a um ano. Desconfio que conheço uma mãe que lá para princípios de Agosto vai apanhar uma desidratação.
Portanto: comprem acções da "Tempo" - nas próximas semanas o consumo de lenços de papel vai explodir.
16 junho 2012
la vita va
Quando o Joachim e eu começámos a namorar, os pais dele tinham acabado de celebrar as bodas de prata.
Este fim-de-semana vamos ao lago Constança, festejar as bodas de prata de amigos nossos.
Ninguém os mandou casar aos quinze, é verdade, mas é em momentos assim que percebo que, mais que uma sucessão de dias muito ricos, é a vida nos está a acontecer.
Este fim-de-semana vamos ao lago Constança, festejar as bodas de prata de amigos nossos.
Ninguém os mandou casar aos quinze, é verdade, mas é em momentos assim que percebo que, mais que uma sucessão de dias muito ricos, é a vida nos está a acontecer.
15 junho 2012
se isto não é motivo para uma mãe se orgulhar...
A Christina chegou ao fim do secundário. Fez o "Abi", e até o fez com muito melhor nota do que esperávamos, tendo em conta o que a vimos trabalhar. Parece que a Justiça não existe (tanto melhor...).
O Abi alemão é toda uma instituição. O exame (vários exames escritos e uma prova oral) é um pouco assustador, e os alunos vão lutando contra o medo e a tensão: não de cotovelos disciplinadamente enterrados na mesa, mas em inúmeras festas e outros eventos. Há a semana temática (todos os dias vão para a escola mascarados segundo um determinado tema, "cartoon", "chulos e badalhocas", etc.), há o dia em que pregam partidas aos professores perante a risota geral da escola, há as inúmeras festas - e há o baile do Abi. Que foi na sexta-feira passada.
A Christina saiu com uma amiga por essa Berlim em busca de um vestido de baile. Começou pela Valentino, onde foi tratada com displicência. Miúdas de 18 anos, de jeans esfarrapados...
Seguiu para a Armani, onde a trataram um pouco menos mal.
Numa delas viu este vestido, fez a fotografia, mas custava mais de dois mil euros e ela não comprou.
A verdade é que o poderia ter feito, porque há tempos recebeu uma indemnização de um dentista que cometeu um erro grave, e tem esse dinheiro à sua disposição. Se as meninas da Valentino soubessem que quem vê jeans esfarrapadas não vê contas bancárias...
Da Armani foram para a Dolce & Gabbana, onde foram extraordinariamente bem tratadas. A vendedora procurou entre todos os vestidos da loja aquele que melhor lhes ficaria, de tal maneira que a Christina quase ficou com pena de não lhe comprar nenhum - ela merecia. Mais tarde cruzaram-se de novo na rua, a vendedora reconheceu-as e continuava extremamente simpática.
(Se um dia um dentista me pagar uma indemnização, e se me apetecer meter-me em futilidades, já sei que é para começar na D & G do Ku'damm)
No dia seguinte a Christina pediu-me uma carteira emprestada, a minha melhor, e vestiu umas calças sem rasgões. Foi a outras lojas, e acabou por comprar um vestido muito bonito, que custava menos de um décimo do primeiro que experimentara na Valentino.
Esperta, a miúda: começou por ver o state of the art, e depois foi às lojas dos mortais escolher um segundo óptimo.
Na festa andava feliz, muito segura de si mesma, fartou-se de dançar, sempre rodeada de amigos - palradoras elas, sorridentes eles (coitados dos rapazes alemães, a emancipação feminina está-lhes a roubar espaço vital...). Faltou apenas um voto para ser eleita rainha do baile.
Se isto não é motivo para uma mãe se orgulhar! Mas o maior motivo é este: podia ter comprado um vestido de luxo, e comprou apenas um vestido igualmente bonito, mas a um preço muito mais razoável.
13 junho 2012
a minha insularidade em oásis transformada
Ontem, ao fim da tarde junto à Porta de Brandemburgo, havia uma sala cheia de gente a saborear as palavras de Gonçalo M Tavares. A alemã ao meu lado, de auscultadores para ouvir a tradução simultânea (da Sarita Brandt, que deve ter feito um trabalho excepcional, a avaliar pelas reacções do público), volta e meia olhava para mim e abria um sorriso enorme, ou largava exclamações do género "este homem é arrebatador - parece que já entendeu algo essencial".
(Eu toda orgulhosa, parecia o ministro Relvas: muito contentinha por poder mostrar ao mundo que Portugal tem "activos humanos" de tanta qualidade...)
Na representação da Comissão Europeia em Berlim, a um passo do Parlamento alemão e da Chancelaria, o escritor falou da Democracia em risco. Por um lado, vítima da pobreza e do desemprego: pessoas pobres não podem participar na Polis porque têm problemas mais imediatos para resolver diariamente; o desemprego é muito mais que uma mera questão contabilística, porque os desempregados não estão em condições de participar activamente na vida política do país. Por outro, vítima de opções sem visão que põem em causa o futuro - a propósito das opções a nível da Cultura, deu o exemplo de alguém que troca uma árvore com uma maçã por um cesto com cinco maçãs. A curto prazo, parece-lhe que fez uma troca vantajosa: lucrou quatro maçãs...
Falando das referências que deviam conduzir as opções dos governantes, citou Hans-Christian Andersen: "pediram-me para rezar, e eu só me lembrei da tabuada". Lembrou também a atitude oposta: "pediram-me para dizer a tabuada, e eu só soube rezar" (hehehe, mais um que ainda não percebeu que Portugal existe por obra e graça da Nossa Senhora...)
Tantos temas que gostaria de debater com ele! O desemprego dos jovens, por exemplo: pode ser um mal que resulte em bem, um reajustamento democrático. Veja-se o que se passou na escola da Fontinha, e a ocupação subsequente de um quartel de bombeiros abandonado. A acção destes jovens desempregados do Porto que ocupam edifícios devolutos para os recuperar e prestar serviços culturais gratuitos à população mais pobre tem um enorme potencial subversivo. Perante actos de tal generosidade, não há como defender o respeito pela propriedade privada e pela autoridade. Se eu fosse ao Rui Rio, e quisesse manter o status quo, arranjava rapidamente tachos de animador cultural para essa gente toda. É aburguesá-los, senhores, encher-lhes o papinho. Caso contrário, ainda germinam aqui sementes de revolução entre a arraia miúda: «Os pequenos aos grandes depois que cobraram coração se juntavam todos em um, contra eles, chamavam-lhes traidores, cismáticos, que tinham a parte dos Castelhanos, para darem o Reino a cujo não era... E era maravilha de ver que tanto esforço dava Deus neles e tanta cobardice nos outros que os castelos que os antigos reis por longo tempo, jazendo sobre eles com força de armas, não podiam tomar, os povos miúdos mal armados e sem capitão, com os ventres ao sol, antes do meio-dia os tomavam por força». (Fernão Lopes)
Ou o exemplo das maçãs, que imediatamente me lembrou um abaixo-assinado em defesa de uma rádio cultural, de que falei aqui há tempos: "A Rádio Cultura deve estar virada para o ouvinte; não lhe deve ser demasiado banal nem o deve contentar, mas despertar o seu interesse, mostrar conexões e oferecer perspectivas invulgares. A Rádio Cultura dá vida a um conceito abrangente de cultura."
A sessão continuou. Gonçalo M Tavares referiu-se ao leitor como "a segunda parte do livro".
Bom, se os livros são um "monte você mesmo", como os móveis da IKEA, penso que deviam ser vendidos um pouco mais baratos. Melhor ainda: será que se disser ao meu livreiro que vou ler aquele livro à noite, cinco minutos antes de adormecer, ele me faz um bom desconto por me estar a vender um livro de má qualidade?
(Helena Araújo, Lda. - a produzir disparates desde há quase meio século)
Contou também o seu processo de produção: cortar, cortar, cortar. Reduzir quinze páginas a quatro. Essa foi a parte em que corei um bocadinho, ao lembrar-me do tamanho dos meus posts (este, por exemplo).
O moderador fez então um comentário muito interessante: o Gonçalo M Tavares também é poeta. Dichter, em alemão. Palavra que tem a mesma raiz de verdichten (comprimir, condensar).
Leram algumas passagens do livro. A tradução é da Marianne Gareis, e pareceu-me de tal elegância e fluidez que cheguei a imaginar que o original não conseguiria estar tão bem. Já me aconteceu isso há tempos, quando essa tradutora leu uma passagem de "As Intermitências da Morte" e eu tive de resistir ao impulso de comprar o livro em alemão...
No fim da sessão ela contou um pouco sobre o difícil trabalho de ser fiel à ideia de compressão do texto, e escrever em alemão frases igualmente despojadas. Para quem conhece os hábitos de exactidão desta língua, desde logo expressa nos milhentos prefixos que permitem fixar o preciso sentido de um verbo, entenderá o esforço que é pedido ao tradutor para manter o texto o mais aberto possível.
(Aqui está um momento de raro significado simbólico: a Alemanha de cócoras em frente a Portugal, rendida à sua produção cultural, com o Parlamento Europeu como pano de fundo.)
Depois da sessão, juntou-se um grupinho que raptou o Gonçalo M Tavares para o levar ao concerto do Carlos Bica e do Norberto Lobo. Fomos jantar à Turquia (na Karl-Marx-Strasse), depois corremos para o concerto no Altes Finanzamt, que é um espaço de cultura underground daqueles tipo isto-só-visto. Claro que a sala estava a abarrotar (desde que criaram redes de passagem de informações como o grupo Portugueses em Berlim no facebook e o cartaz da Berlinda.org, eles parece que são mais que as mães) pelo que eu tive de me ir sentar no chão bem à frente, junto aos músicos. Sou mesmo uma pessoa azarada.
Um belo concerto: a guitarra a combinar lindamente com o contrabaixo, e aqueles dois músicos em perfeito diálogo mudo. Mas estou outra vez a repetir evidências.
Gostei especialmente da concentração no olhar do Norberto Lobo quando observava o Carlos Bica, e dos momentos em que começava a cantar. Em suma: mais um concerto demasiado curto.
Depois fomos para os lados da Arábia beber cerveja belga e bávara no Yuma Bar, e conversar até muito depois das tantas. Quem corre por gosto...
...no dia seguinte arrasta-se com um cansaço que não se acredita.
"Dia de Portugal celebra-se pela última vez: Para o ano será o Dia do Quintal da Merkel"
Veio no Imprensa Falsa.
Não é apenas falso, é errado.
Para o ano, será o Dia do País do Feitor.
Porque Portugal não tem um governo, tem um feitor. E esse é realmente o maior problema.
Não é apenas falso, é errado.
Para o ano, será o Dia do País do Feitor.
Porque Portugal não tem um governo, tem um feitor. E esse é realmente o maior problema.
12 junho 2012
a minha insularidade já não é o que era
Lembram-se daquele concerto que estava esgotadíssimo na Culturgest, o Carlos Bica e o Norberto Lobo? Pois bem: acontece hoje outra vez, aqui mais perto de mim.
Antes disso, o Gonçalo M Tavares apresenta o seu "Jerusalém" a dois passos da Porta de Brandemburgo.
E acabei de descobrir que nas próximas férias vou finalmente poder estar num concerto da Marta Hugon.
(Juntando ao concerto no foyer da Filarmonia para onde irei daqui a bocadinho, e à Russendisko que foi no sábado passado - e nem às paredes confesso o que o Kaminer me disse, mas ainda estou aqui com um sorriso de orelha a orelha; e também não conto que o Joachim foi ajudar as mocinhas da caixa, e veio de lá com um sorriso de orelha a orelha, e chocolates russos, e se calhar até já arranjou um empregozito para alguns sábados à noite. Juntando ao dia extraordinário que passei no Poesiefestival, na semana passada, etc. - a minha insularidade está cada vez melhor, é o que vos digo.) (Agora só faltava a Rita dizer que em breve vem cá passar uns dias, mas isso já era pedir demais.)
raízes
Era Verão, andaria eu talvez pelo terceiro ano da Faculdade, e um grupo de amigos juntou-se na casa da minha avó, numa aldeia minhota. Lembro-me de muitos risos. De nos deitarmos no terreiro, a seguir ao jantar, de só haver estrelas à nossa volta. De nos estendermos preguiçosamente numa clareira de dunas na praia a ler poemas em voz alta. Os poemas que na época nos falavam: "adeus" e "poema à mãe" do Eugénio de Andrade, toda a Sophia.
Depois acabámos os cursos, foi cada um ao seu trabalho, à sua vida, a poemas e autores novos, outros.
Há alguns meses, uma dessas amigas esteve uns dias em Berlim. Ao passear com ela no Outono do parque dos palácios de Potsdam, ao vê-la fotografar os dragões do pagode chinês para mostrar a uma miúda que conheço desde que nasceu e é fervorosa adepta do FCP, ao ouvir a sua rendição incondicional "tenho de reconhecer que há momentos de sublime que são verdade!", voltei quase trinta anos atrás, àquelas dunas na Foz do Neiva. Senti um borbulhar de felicidade pela vida que desde sempre tocou de sublime as nossas histórias entrelaçadas, e uma enorme gratidão por estas raízes fundas na minha terra que me sustentam nos confins do mundo.
Os poemas mudaram. Hoje fui apresentada a este:
A terceira miséria é esta, a de hoje.
A de quem já não ouve nem pergunta.
A de quem não recorda. E, ao contrário
Do orgulhoso Péricles, se torna
Num entre os mais, num entre os que se entregam,
Nos que vão misturar-se como um líquido
Num líquido maior, perdida a forma,
Desfeita em pó a estátua.
Hélia Correia, A Terceira Miséria, 2012
Novos temas. Já não temos vinte anos. O que permanece: a exigência - a capacidade de se maravilhar - a confiança no poder transformador das nossas mãos - o riso - - -
(A.P.: queres continuar a lista?)
11 junho 2012
o 10 de Junho de 2012 em Berlim
Há tempos surgiu a ideia de organizarmos no dia 10 de Junho uma sardinhada para os portugueses que moram em Berlim. Até se pensou em fazer um desfile de Zés Pereiras e tal pelas ruas da cidade, mas por sorte rapidamente voltámos a pôr os pés no chão - ia ser um pouco ridículo fazer tal cortejo nesta cidade no day after ao 1-0 da nossa tristeza.
O projecto, que quase foi posto de lado por nos parecer que não teria participação das pessoas, acabou por ser agarrado por dois entusiastas, que compraram o grelhador, arriscaram comprar duas caixas enormes de sardinhas e mais o carvão, e andaram a fazer publicidade de soleira da porta para aqueles que não costumam passar pelo grupo "Portugueses em Berlim" no facebook.
O resultado foi melhor ainda do que podíamos ter sonhado: dezenas de portugueses provenientes de grupos que raramente se cruzam, alguns alemães que falam português e gostam do nosso país, boa comida, muita troca de conversas, miúdos felizes a correr pelo parque à nossa volta. E as sardinhas estavam de comer e chorar por mais. O chouriço grelhado no púcaro também.
Uma alemã que se doutorou em Coimbra trouxe a sua guitarra portuguesa e tocou músicas de Carlos Paredes para nós. Por pouco não soltava uma lagriminha de comoção, ao ouvir aqueles acordes tão absolutamente nossos no parque Monbijou, no centro de Berlim.
Já combinámos que em Agosto há mais. Agora que lhe tomámos o gosto...
E como de costume, quando as coisas são perfeitas é possível sempre fazer melhor: apareceu uma massagista que nos esteve a desfazer as tensões nas costas. Saímos de lá a levitar.
O projecto, que quase foi posto de lado por nos parecer que não teria participação das pessoas, acabou por ser agarrado por dois entusiastas, que compraram o grelhador, arriscaram comprar duas caixas enormes de sardinhas e mais o carvão, e andaram a fazer publicidade de soleira da porta para aqueles que não costumam passar pelo grupo "Portugueses em Berlim" no facebook.
O resultado foi melhor ainda do que podíamos ter sonhado: dezenas de portugueses provenientes de grupos que raramente se cruzam, alguns alemães que falam português e gostam do nosso país, boa comida, muita troca de conversas, miúdos felizes a correr pelo parque à nossa volta. E as sardinhas estavam de comer e chorar por mais. O chouriço grelhado no púcaro também.
Uma alemã que se doutorou em Coimbra trouxe a sua guitarra portuguesa e tocou músicas de Carlos Paredes para nós. Por pouco não soltava uma lagriminha de comoção, ao ouvir aqueles acordes tão absolutamente nossos no parque Monbijou, no centro de Berlim.
Já combinámos que em Agosto há mais. Agora que lhe tomámos o gosto...
E como de costume, quando as coisas são perfeitas é possível sempre fazer melhor: apareceu uma massagista que nos esteve a desfazer as tensões nas costas. Saímos de lá a levitar.
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