23 julho 2026

"quarentena"

 

Ontem, a palavra mágica na Enciclopédia Ilustrada foi "quarentena". O que me lembrou esta história:


A invasão da Ucrânia começou numa altura em que a pandemia ainda fazia das suas. Na altura até pensei: "caramba, Putin, uma coisa de cada vez!" Mas o Putin encolheu os ombros e seguiu em frente com os tanques. O Putin a entrar por um lado, e os ucranianos a fugir por outro.

Foi um tempo de grande generosidade, lembram-se?
(Ainda hoje sinto inveja daquelas favas com chouriço que o nosso cozinheiro em Cracóvia fez para quem chegava.) (*)

Em Março de 2022, uma autarquia portuguesa enviou alguns autocarros para ir buscar pessoas à fronteira da Polónia. Lembro-me de estar na mesa eleitoral no consulado de Berlim, naquela cena da repetição dos votos dos emigrantes, porque tinham inutilizado indevidamente os votos por correspondência, e ver a cônsul muito aflita com um quebra-cabeças enorme: num dos autocarros vinha uma mulher com um bebé de um mês de idade, e ao entrar na Alemanha descobriram que ambos tinham covid. Ficaram num hospital em Frankfurt am Oder, mas entretanto já não havia motivo para os ter hospitalizados, e era preciso ir buscá-los, arranjar um sítio onde os deixar até lhes passar a covid, e mandá-los de avião para Portugal.
Vocês não sabem, mas eu, quando não tenho maneira de dizer que não, até pareço boa pessoa. A situação era tão aflitiva que, lá está, não consegui dizer não, e fui no nosso VW-camper, com uma grande tela de plástico entre o banco de trás e os da frente, buscar mãe e filho à fronteira da Polónia. Não me dava jeito nenhum apanhar covid, confesso. Mas pensava que ia num carro igual ao que a Angela Merkel mandou comprar para ficar longe do seu motorista, e coisas assim. No hospital de Frankfurt Oder, a amabilidade e a proximidade das enfermeiras, que não pareciam nada preocupadas por fazer festinhas a um bebé com covid e sem máscara, descansou-me bastante. "Se elas conseguem, eu também hei-de conseguir", pensei.
A viagem decorreu sem problemas, deixei os doentes no Hotel Pestana de Berlim, e nunca mais os vi.

E assim cheguei à #quarentena desta história: os directores do hotel mantiveram um corredor inteiro do edifício sem hóspedes, para deixarem mãe e filho descansadamente a curar-se e a recuperar enquanto foi preciso. Um deles levava-lhes um carrinho com comida, que deixava à porta, e ia depois buscar os pratos vazios.

Já me tinha esquecido deste episódio, mas hoje, ao pensar na palavra mágica do dia, lembrei-me da generosidade mágica daqueles dois directores de hotel.



(*) Nesses dias aflitivos, a comunidade da Enciclopédia Ilustrada juntou algum dinheiro para se associar ao gesto de um dos seus membros, um excelente cozinheiro, que foi para a casa da sua família em Cracóvia preparar refeições para oferecer aos refugiados na estação de caminho de ferro, e se esmerava para lhes dar o melhor possível. Favas com chouriço, por exemplo.

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