Do tanto que se disse sobre João Canijo no momento em que a sua morte nos sacudiu, fiquei especialmente tocada pelas palavras do Vasco Pimentel e do Marco Martins. Por isso as partilho aqui.
Vasco Pimentel (no facebook)
O JOÃO CANIJO.......
Tínhamos exactamente a mesma idade. Houve uma data de anos em que, mais filme, menos filme, o João estava em todos os filmes onde eu também estava. Foram muitos, e quase todos muito bons. Quando começou a fazer os filmes dele levou-me atrás, e eu fui sem hesitar. Era uma pessoa muito intensa e atormentada, embora disfarçasse bastante bem. Auto-retratou-se em todos & cada um dos filmes que fez, embora também disfarçasse bastante bem. O conjunto dos filmes dele é as duas coisas ao mesmo tempo: a alma que ele carregava consigo e a máscara com que a encobria.
Muito obrigado, João.
Marco Martins (no instagram):
Comecei a fazer cinema com o João e, com ele, tive o privilégio de assistir à descoberta, à intransigência, à obsessão que devem moldar um artista. A ética da estética ou a estética da ética. O trabalho incansável de um artista com uma alma profundamente negra e sem esperança de redenção. Trágico e existencialista, zangado com o seu país, com a sua condição. Comecei a trabalhar com o João no período mais difícil do seu percurso, perdido em séries de televisão, a preparar projectos sem saber se os ia algum dia filmar. Aprendi também isso, a persistência, continuar sempre, a utopia. O João acolheu-me e ensinou-me enquanto ele próprio explorava. Procurava um método, procurava, procurava, procurava. Trabalhava incansavelmente com os actores, o texto, a câmara e a matéria. Tive uma sorte tremenda. Obrigado João. Obrigado. O Cinema do João é sempre incômodo, tem sempre alguma coisa para dizer, que não queremos ver . Ele explorava, investigava actores, e partilhava essa exploração (que maravilhosos são os actores nos seus filmes). O trabalho incansável de um artista intransigente, com uma alma dilacerada, na criação de uma espécie de realismo híbrido, cru, que doía. Cinema. Cinema elevado a uma espécie de emoção crua e vibrante. Cinema torturado, como ele era, sempre com aqueles olhos brilhantes e sorriso. Cinema sem pose. Trabalho de câmara incansável, barroco e visceral. Por vezes era como sangue, como cuspo. Cinema que doía nos olhos, na alma. Uma intensidade visceral, um cinema sujo e imperfeito que pedia aos atores volume máximo. Cinema incompreendido, claro. Muitas vezes. Que bom. Que duro. Mas finalmente também o reconhecimento veio. Veio também o Urso, mas podia não ter vindo. O Cinema não é sobre isso. O cinema do João andava em contraciclo com o mundo. Que sorte nós tivemos.
Obrigado, mestre e amigo.
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