"A vitória de António José Seguro não trouxe sobressaltos. Trouxe um silêncio espesso. O silêncio que permanece quando tudo correu como devia mas não como gostaríamos. Não houve catarse, nem aquela sensação rara de que o futuro abriu uma fresta. Houve contenção e prudência. Houve um país a escolher não cair.
É pouco? Não. Mas também não é motivo para descanso.
Estas Presidenciais não foram um referendo a um homem. Foram um teste de resistência ao "sistema" para ver até onde é que aguenta antes de ceder por dentro. A Constituição não apareceu nos boletins mas esteve presente no gesto, naquele movimento quase automático de quem, perante o ruído, procura o eixo.
Seguro venceu porque representa o contorno reconhecível da República. Nada de promessas inflamadas nem rasgos visionários. Continuidade. Previsibilidade. Um certo aborrecimento institucional que, em tempos de gritaria, se transforma subitamente num bem precioso.
Mas seria um erro grosseiro ler estas eleições como um simples triunfo da estabilidade. Foram também (e talvez sobretudo) uma montra e uma experimentação. Um ensaio geral feito à vista de todos. Um laboratório eleitoral onde quem perdeu não saiu derrotado no essencial.
É evidente que André Ventura não concorreu para ganhar Belém. Concorreu para aparecer e para medir. Para testar a elasticidade do país. Para perceber até onde pode esticar o discurso sem rasgar o tecido democrático. As Presidenciais ofereceram-lhe exactamente isso: um ambiente controlado, onde o voto é moral antes de ser governativo; e simbólico antes de ser executivo. O espaço perfeito para experimentar tensão, agressividade, confronto institucional, sabendo que a rejeição presidencial não equivale, automaticamente, a rejeição governativa.
Ventura saiu destas eleições mais instruído do que entrou. Aprendeu onde a rejeição é sólida e onde começa a ser porosa. Percebeu que há um tecto mas também que esse tecto não é de betão armado. E, sobretudo, confirmou o verdadeiro alvo da sua estratégia: o PSD. O Chega já não disputa apenas margens; disputa hierarquias. Quer saber até que lugar pode subir no pódio da direita, empurrando os outros para baixo. Estas eleições deram-lhe dados.
É aqui que a omissão da direita democrática deixa de ser um detalhe táctico e passa a ser um problema político sério. PSD, IL e CDS atravessaram esta campanha como quem acredita que a democracia é um dado adquirido, uma paisagem fixa, garantida pela força da tradição. Preferiram a neutralidade bem-penteada à palavra incómoda. Apostaram que o eleitorado faria o trabalho sujo por eles.
Fez. Mas isso não os absolve.
Porque a Constituição não se defende por delegação. Defende-se quando se recusa normalizar quem a trata como entrave ocasional. Quando se diz, sem rodeios nem jogos semânticos, que há limites que não se relativizam, não por dogma mas por memória histórica. A democracia não se mantém viva por inércia. Mantém-se porque alguém, em algum momento, decide não olhar para o lado.
Há algo de profundamente inquietante no facto de esta eleição ter sido salva por um reflexo cívico enquanto tantos responsáveis políticos optaram por uma prudência que roça a abdicação. Como se a democracia fosse um mecanismo automático. Não é.
A Constituição da República Portuguesa nasceu de um medo concreto e de uma urgência real. Foi escrita para travar abusos, não para ser testada ciclicamente por quem mede até onde pode ir.
Estas eleições mostraram duas coisas importantes ao mesmo tempo: que essa resistência ainda existe e que já não é consensual nem confortável.
Seguro será, tudo indica, um Presidente de gestos pequenos, palavras medidas e fidelidade institucional quase monástica.
Mas talvez, neste momento e tendo em conta a conjuntura, seja exactamente esse o maior acto político: ficar onde é preciso ficar."
Sem comentários:
Enviar um comentário