"We the people" – é assim que começa o preâmbulo da Constituição dos EUA. O poder político emana do povo: “nós, o povo, (...) decretamos e estabelecemos esta Constituição para os Estados Unidos da América”.
Tal como a democracia na antiga Atenas, é uma ideia extremamente moderna e ao mesmo tempo bastante coxa: “we the people” são os brancos daquele país.
Mas é um começo na direcção certa.
No Parlamento Federal alemão, melhor dizendo, no edifício chamado Reichstag, inscreveram a frase “dem deutschen Volk” sobre a entrada. “Para o povo alemão”. A frase não está lá desde o tempo da inauguração do edifício, porque o Kaiser não quis (“era mesmo só o que faltava!”, imagino eu que terá dito, “como se não bastasse essa mania do parlamentarismo para me irritar, ainda querem trazer para cá o povo!”). Não queria, mas entretanto meteu-se na aventura da Grande Guerra, precisou do apoio popular, e lá tratou de acrescentar essa linda frase para passar a mão pelo lombo dos pagadores de impostos. Para ser mais honesto, bem podia ter mandado afixar antes: “para o contribuinte alemão”.
Não sei se tem alguma coisa a ver com a frase ou não, mas daí a pouco tempo o Kaiser estava a passar à história, e a Alemanha estava a passar a república. Duas décadas depois, os artesãos que tinham feito aquelas letras em bronze e as aplicaram no edifício foram mandados para Auschwitz, porque o “we the people” desses tempos terríveis achava que eles não eram povo.
Entretanto, há muito boa gente que continua a confundir o povo com o contribuinte. Volta e meia, lá vem o argumento dos que pagam e dos que recebem – estes últimos não são bem povo. E também há quem confunda povo com cor da pele. Ainda estão na fase do “we the people” inicial. Alguns séculos de atraso.
Em 2000, quando o Parlamento Federal regressou a Berlim, o artista Hans Haake instalou num pátio do Reichstag uma obra de arte que é um canteiro, alimentado com terra que cada deputado traz da região que o elegeu, e onde se lê “Der Bevölkerung” (para a população), em letras com a mesma fonte da “para o povo alemão” que continua na fachada do edifício. Diálogo e mudança de perspectiva.
Os partidos de esquerda não gostaram, por causa daquela coisa da terra (reminiscência problemática das ideias nazis “sangue e terra”) e os da direita acharam que era até anticonstitucional, porque roubava o Parlamento ao povo alemão. Foram a votos, e a coisa passou à tangente: 260 a favor, 258 contra.
E o que é afinal “we the people”, no caso? O povo alemão ou quem cá mora – inclusivamente eu?
Eu, propriamente dita: vivo aqui há quase 40 anos, e ainda sinto que estou no país dos outros.
Apesar de pagar impostos.
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