27 fevereiro 2025

o fenómeno Alice Weidel: uma mulher lésbica à frente de um partido homofóbico (2)

No post anterior partilhei um trabalho académico sobre o fenómeno Alice Weider. Neste, partilho um texto que está no site da Campact (aqui, em alemão):


"Eu não sou queer"

Em setembro de 2023, a líder da AfD afirmou numa entrevista: “Não sou queer, sou casada com uma mulher que conheço há 20 anos”. E tem toda a razão: porque queer é uma auto-designação positiva para pessoas que não são heterossexuais e/ou cisgénero (ou seja, que se identificam com o género que lhes foi atribuído à nascença). 

O que não é, definitivamente, o caso de Weidel; não há qualquer sinal de uma imagem lésbica positiva nesta mulher de 44 anos. Pelo contrário: é uma mulher populista, profundamente conservadora e de direita, que vive com outra mulher e tem filhos - mas que tem pouco em comum com o resto da comunidade. Exalta-se quando fala contra as pessoas trans, exprime-se em termos de “disparates de género” e quer proteger as crianças de uma “cultura pop trans idiota”. 


A AfD é um partido homofóbico - por dentro e por fora

Uma mulher à frente da AfD: à primeira vista, isto é surpreendente - especialmente se ela for também lésbica. Afinal, a AfD é, de longe, o partido mais homofóbico do Parlamento Federal. Um olhar sobre o seu programa de base demonstra-o. Neste, o AfD coloca o pai, a mãe e a criança no centro da sua política familiar e alerta para a destruição da imagem tradicional da família. Na escola, rejeita a “ênfase unilateral da homossexualidade e da transexualidade nas aulas”; as crianças não devem tornar-se “o joguete das inclinações sexuais de uma minoria barulhenta”. 

Em 2019, o grupo parlamentar tentou revogar o direito ao casamento de gays e lésbicas através de uma moção. Sem sucesso, uma vez que todos os outros grupos parlamentares votaram contra. O manifesto eleitoral para as eleições de 2021 para o Bundestag continuou a ser alegremente anti-queer: a cirurgia de mudança de sexo para menores deve ser proibida, as crianças dos jardins de infância devem ser protegidas da "loucura de género" e uma "família verdadeira" precisa de um pai e de uma mãe.

O tom das mensagens de chat do grupo parlamentar da AfD também não deixa dúvidas quanto à homofobia descarada dos membros do partido. Tratam por "ela" homossexuais masculinos, e chegaram a referir-se a um político homossexual como "uma abertura de ânus radicalmente má". 


Alice, a poster girl

Em tal ambiente, como é que Alice Weidel conseguiu chegar ao topo do partido? Em primeiro lugar, porque os seus preconceitos e tiradas retóricas se enquadram muito bem no programa da AfD. Agita contra os transexuais e critica  o direito à autodeterminação da identidade de género: "Nos tempos que correm é possível escolher o nosso género uma vez por ano, masculino, feminino ou até mesmo diverso". Por outro lado, a presença desta mulher  lésbica na AfD sugere que, ao fim e ao cabo, o partido não é assim tão horroroso como se diz. Como é que podemos ser homofóbicos quando até temos uma lésbica no topo? Como token ou manobra de diversão, é suposto ela ajudar o partido a chegar a eleitores queer - pelo menos aos conservadores. 

A boa notícia: as coisas não funcionam assim. É o que sugerem os dados da Universidade de Giessen. Um grupo de investigadores analisou a forma como as pessoas queer votaram nas eleições federais de 2017 e 2021. O resultado: quase ninguém votou no AfD. Em 2017, foram apenas 2,7 por cento - pelo menos no grupo inquirido - e apenas 2,6 por cento em 2021. Em comparação, os Verdes receberam mais de 50 por cento dos votos das pessoas queer

No entanto, a AfD vai continuar a tentar captar o interesse dos eleitores gays e lésbicas no futuro. Vai pôr os muçulmanos e a comunidade queer uns contra os outros; vai tentar usar actos de violência homofóbica - alegados ou reais - cometidos por refugiados para criar uma onda de rejeição; vai conseguir chegar a gays e a lésbicas conservadores com as suas posições contra as "manias de género". 


Alice Weidel e o seu AfD são um problema - e não apenas para as pessoas queer

As políticas homofóbicas da AfD também têm consequências para o resto da população. A sua retórica estridente altera o tom de um debate que muitos gostariam de conduzir de forma objectiva - a disputa sobre a Lei da Autodeterminação é apenas um dos muitos exemplos. A nível estadual, em particular, está a permitir a entrada de políticos que são abertamente homofóbicos e transfóbicos nos parlamentos - e que se manifestam abertamente tanto no hemiciclo como nas redes sociais. O seu discurso de ódio atinge um público cada vez mais vasto.

As políticas do AfD estão cheias de contradições e o seu ódio pode afetar toda a gente: gays, lésbicas, pessoas com deficiência, muçulmanos e refugiados. Só se nos mantivermos unidos poderemos actuar contra a viragem à direita e o iminente sucesso eleitoral do AfD. Temos de resistir. Não apenas quando somos afectados pessoalmente, mas sempre que Alice Weidel e companhia puserem em causa a humanidade e os direitos humanos - seja qual for o alvo em causa no momento. 


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