08 janeiro 2020

um texto de Luísa Semedo sobre o racismo

 

Raramente vi um texto tão claro, equilibrado e sintético sobre o cancro social que é o racismo. Para ler e guardar.
[e para complementar com um comentário do Miguel Vale de Almeida, explicando porque é que não podemos dizer que não somos racistas, e que a formulação correcta, caso aplicável, é: "sou contra o racismo".] Da Luísa Semedo, no Facebook, 7.1.2020
Estava aqui a pensar que as únicas vezes que fui assaltada foi por pessoas brancas na Lapa e na Feira da Ladra. Que de todas as vezes que levei porrada na escola ou na rua foi por homens jovens e adultos brancos (todos por ódio racista). Que ainda hoje tenho uma verdadeira fobia de máscaras porque quando era criança vi imagens do KKK e entendi que para além de insultados e brutalizados também éramos assassinados em outras partes do mundo. Percebi também em criança que durante séculos os negros foram escravizados, torturados e mortos por brancos. Que inúmeras mulheres negras, “mulatas”, foram violadas por homens brancos. Não me esqueço quando era miúda de uma frase de um familiar por aliança, branco, que com um olhar porco me disse “cabritinhas como tu eram muito apreciadas quando estava na guerra” e “o meu amigo.... é preto, mas não é como os outros que merecem um tiro na cabeça”.
A brutalidade racista continua ainda hoje com a violência policial e os ataques terroristas da extrema-direita em vários países do mundo. Sei bem que no imaginário coletivo os corpos negros são mais resistentes, inclusive ao terror que constitui o racismo, mas é falso. O corpo negro sente da mesma maneira, chora da mesma maneira, tem medo da mesma maneira. Racismo é terrorismo e é mais do que perplexidade, é traumatismo. Da mesma forma que não temos o privilégio de olhar para um pai extremoso tatuado na TV e não entender de imediato que estamos perante um neonazi, também não temos o privilégio de ouvir a história de um rapaz cabo-verdiano que teria sido espancado por um grupo com ferros, paus e cintos e não pensar em racismo de uma forma ou de outra. É natural, a isto se chama ter uma experiência traumática. Esta imagem de linchamento convoca de imediato imagens que conhecemos perfeitamente, que estão gravadas a ferro quente no nosso ser. Pesadelos que tivemos enquanto crianças e adultos. Ninguém que seja sério pode afirmar neste momento o que aconteceu ao jovem Luís Giovani, e talvez nunca chegaremos a saber a verdade. A motivação racial pode estar tanto na origem do ato como na intensidade do golpe desferido. O Giovani já cá não está para contar. Os agressores dirão aquilo que lhes apetecer. E os agressores até podem ser negros, não é isso que importa aqui. O que importa é porque é que nas nossas cabeças de pessoas racializadas ouvimos “jovem negro agredido com paus e ferros” e não podemos deixar de pensar em ódio racial. É porque sofremos de um traumatismo individual e coletivo. E esse traumatismo chama-se racismo. Habituámo-nos a calar estas coisas porque “ai e tal a vitimização”, “ai e tal lá vem o racismo”. Mas quem não quiser entender que não entenda... O silêncio não nos beneficia.
Revolta-me cada vez mais quando nos chamam de racistas e identitários. Os identitários são os que defendem a superioridade racial, os que nos animalizam, que consideram que não pertencemos à mesma esfera da humanidade, que aspiram à nossa erradicação da face da terra, que nos agridem por sermos como somos, sem qualquer outro motivo. Sem qualquer outro motivo! Compararem a luta antirracista a estes energúmenos é um insulto, e é um insulto racista. Quando andarmos por aí constituídos em milícias de tatuagens, máscaras e armas na mão à “caça ao branco” aí voltamos a falar. E nem falo aqui da questão do racismo estrutural ou institucional. Comparar a luta pela Igualdade à luta pela Desigualdade é no mínimo desonesto. O sistema de hierarquização de pessoas é extremamente resiliente, toma sempre novas formas. Estas vergonhosas equivalências ou inversões da realidade operadas até por autoproclamados “aliados” (os idiotas úteis que participam na conservação daquilo que pensam combater), para preservar privilégios e calar vozes, é só mais uma dessas formas.
Compreende-se que é enervante para uma pessoa branca ouvir falar de racismo, sente-se incluída de repente numa estranha categoria, ainda por cima sem provas neste caso. É injusto, é desesperante... Pois é... É o que as pessoas racializadas vivem há tanto tempo. Sabemos perfeitamente que não é agradável.” Não somos todos uns criminosos racistas!”, dizem-nos. Claro que não, e é por disso termos consciência que apesar de tudo o que foi feito ao longo dos séculos e que continua a ser feito, não andamos por aí à “caça ao branco” de forma vingativa e ainda menos porque achamos ser superiores. Temos o privilégio de ter acesso a uma história múltipla, complexa, profunda do que é ser branco através da nossa convivência, através do acesso à cultura e história das pessoas brancas, através também das nossas lutas conjuntas. Felizmente não nos é imposta uma “história única” como bem nos explica a Chimamanda Ngozi Adichie*, felizmente não nos é imposta uma história sobre brancos como a que é imposta sobre os negros que são ou escravos ou gangsters, passivos ou agressivos sem grande profundidade interior. Razão mais do que necessária para ouvir mais, conversar mais, ler mais. Ainda não chegámos enquanto espécie a fazer coincidir o “somos todos seres humanos” biológico com o social. Vamos continuar a trabalhar juntos para que isso seja um dia uma realidade. Entretanto, queremos justiça para o Luís Giovani. #QuemMatouGiovani ? #JusticeForGiovani

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