20 dezembro 2016

Berlim, 20.12.2016 - dança dos espíritos bem-aventurados

As irmãs italianas que compõem o duo Gazzana dedicaram o Lunchkonzert de hoje à memória das vítimas, e fizeram votos para que a música nos trouxesse alguns momentos de paz. Tocaram, entre outras, Hommage à J.S.B., uma composição de Valentin Silvestrov de 2009.
O encore foi a "dança dos espíritos bem-aventurados", de Gluck (a parte que no vídeo começa a 1:45).
Enquanto ponho as fotografias vou ouvindo - escolheram muito bem a música para esta tristeza.






Hoje a música espalhava-se no foyer da Filarmonia nítida e limpa como a luz depois de uma borrasca. Ou talvez não fosse no foyer, apenas em mim.
Depois do concerto, já no autocarro, reparei que as bandeiras da Filarmonia estavam a meia haste: Berlim, Alemanha, União Europeia.




O mercado de Natal da Potsdamer Platz estava fechado. Aliás: todos os mercados de Natal em Berlim estão fechados, e todas as bandeiras a meia haste. Os letreiros luminosos nas ruas e no metro exibem apenas uma frase: "De luto, e com as vítimas e todos os afectados."
 

O mercado de rua na Wittenbergplatz estava aberto. Parei na barraquinha de comida turca e russa. A senhora que me serviu o Börek disse que não tinha tido muitos clientes, mas que a vida tem de continuar, apesar de estarem todos cheios de medo. Olhei em volta, testando as possibilidades de ataque.



 



 "Em silenciosa memória. Também nos podia ter atingido a nós. O terror de direita no nosso país é tão perigoso como os perigos do exterior. Vamos permanecer juntos, todos unidos."








"De luto pelas vítimas. 
Pensando nos feridos. 

Pela nossa liberdade
e pelos valores
que não deixaremos que nos roubem."



"...e PAZ na TERRA"





Do outro lado da rua, o passeio estava parcialmente fechado. Uma polícia recolhia as flores e velas das pessoas, e ia pondo junto ao cartaz "Même pas Peur!"



Um homem perguntou a um polícia se era mesmo verdade que o condutor ainda andava fugido. O polícia disse que não tinha informações. Aproximei-me, e o homem desatou a dizer coisas sem nexo: claro que não podia ser aquele, como é que havia de se pôr tão depressa na Coluna da Vitória? De certeza que tinha cúmplices, alguém que veio ao lado, de carro, e lhe deu boleia  logo a seguir ao ataque. Que isto só se resolvia se todos pudéssemos ter armas.
Felizmente não temos! Ia ser ainda pior, disse eu.
Ele virou-se para o polícia: vocês têm esses coletes, não vos pode acontecer nada...
Depende da arma, disse o polícia, e sorriu.
Agradeci-lhe o seu trabalho, desejei-lhe ao menos algumas horas de Natal tranquilas, e ele sorriu outra vez.

Apanhei o autocarro para voltar para casa. O condutor estava a ouvir instruções dadas pelo intercomunicador por alguém com uma voz muito calma e agradável, que inspirava segurança. Depois avisou-nos: às três da tarde, todos os autocarros vão parar e fazer um minuto de silêncio pelas vítimas.
Fizemos o minuto de silêncio sem olhar para os outros. Même pas pleurer.

Quando entrei no autocarro seguinte, ouvi de novo a voz que dava indicações aos motoristas. Em tom seguro e apaziguador dizia o que fazer perante determinadas reacções dos passageiros ("...e nesse caso, levem a coisa com humor"), e como se devia processar a passagem de turno.

Entretanto acenderam-se as luzes de Natal no Ku'damm. O consolo da normalidade.

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