15 fevereiro 2015

Berlinale 2015 - Paridan az Ertefa Kam



O filme "Taxi" esgotou bem antes de eu ter olhado para o programa da Berlinale. Pelo que procurei outro filme iraniano, já que gosto muito da subtileza desse cinema.
Paridan az Ertefa Kam (A Minor Leap Down) estava anunciado como a história de uma mulher grávida que descobre que o filho morreu e se revolta contra o silêncio à sua volta. No filme que vi, é ela quem se encerra no silêncio e inicia um movimento centrífugo de destruição. Um filme opressivo sobre a impossibilidade do diálogo e a projecção como armadilha.

O público não gostou. Os aplausos foram escassos e breves.

Saí do cinema a pensar que este ano ando com azar na Berlinale. Mas depois ocorreu-me que talvez fosse este o filme cuja equipa não foi autorizada a sair do Irão. De viver há tanto tempo em sociedades livres, já me esqueci da necessidade de alegorias. Afinal, este feto a apodrecer no ventre de uma mulher em negação bem podia ser uma crítica ao regime iraniano. E a sua resposta ao marido - "tu não aguentarias conhecer a verdade" - bem podia ser uma parábola do paternalismo perverso de um sistema que destrói pensando proteger. E a naturalidade com que o marido aceita a realidade - "o meu filho morreu" - bem podia ser um sinal de que os protegidos afinal não precisam de protecção.

(Eu sou aquela que já chegou a tentar encontrar filosofias profundas nos diálogos do Rambo, dêem-me um desconto...)


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