26 agosto 2013

os pontos nos ii


Carlos Azevedo, no The Cat Scats:
"Fiquei chocado com algumas coisas que li nas últimas horas a propósito da morte de António Borges. Não falo de respeito e também não sugiro que as pessoas sejam hipócritas; falo apenas de uma coisa tão simples como decoro."

Luís Januário, no facebook:
"Nenhuma morte pode ser festejada. Miguel Unamuno já disse isso uma vez a um general enlouquecido. Os que se congratulam com a morte de um homem não estão ao meu lado em nenhuma luta. Envergonho-me deles." 

Rui Bebiano, no facebook:
"Não tinha vontade de tornar a este assunto abjeto, que já tratei lá para baixo. Mas a repetição das enormidades empurra-me para isso. Congratular-se com a morte de alguém de quem discordamos frontalmente no plano político só confirma, em relação a quem o faz, do que essa pessoa será capaz se um dia tiver o poder, em nome de um programa ou de uma convicção, de dispor da vida dos que dela discordarem. Já tivemos tempo de aprender com aquilo que a brutalidade da História a tal respeito nos ensinou." 

Pergunto-me se as reacções à morte de António Borges foram uma desbunda que deu na internet (desinibição tóxica, para citar o Público), ou se aconteceram mesmo na vida real. Lembro episódios semelhantes - o Saramago e a Thatcher, por exemplo. As pessoas têm cada vez menos vergonha de exibir em público os seus mais baixos instintos.

(E não resisto a mandar um comentário à parte para o meu clube: para quando uma Pastoral da Internet?)

(foto)

9 comentários:

Rita Maria disse...

Acho que também é sintoma de uma certa verborreia: tendo morrido alguém que não podem nem querem lamentar, as pessoas viram-se para o outro extremo e festejam. É como se se tivessem esquecido que também podem simplesmente ficar caladas.

Helena disse...

A culpa é do facebook, com aquela insistência: "em que estás a pensar?"
;-)

mdsol disse...

Exactamente, Rita Maria!

Carlos Azevedo disse...

Helena, a propósito da desinibição tóxica, para além da verborreia que a Rita Maria refere (e eu subscrevo o comentário que ela efectuou), penso que há muita cobardia. Muitas pessoas permitem-se escrever aquilo que jamais diriam frontalmente.

Carlos Azevedo disse...

(neste caso, frontalmente a um familiar)

Helena disse...

O João Lopes tem hoje um post muito interessante sobre este fenómeno. No fundo, resumo-o a isto: trolls.
Só existem na internet. E nem se dão conta da clivagem de personalidades.
(bem, deixa-me não cuspir muito para o alto... ;-) )

http://sound--vision.blogspot.de/2013/08/antonio-borges-e-miseria-das-redes.html

Carlos Azevedo disse...

Segui o teu link, li-o e subscrevo-o.

Rita Maria disse...

Eu tenho algumas dúvidas da especificidade da internet. Acho que acontece outra coisa - agora, face a qualquer acontecimento, eu ouço ou leio a opinião de muitas pessoas que antes não tinham voz.

Mas já dantes andava de autocarro, apanhava táxis ou tentava perceber o sucesso dos partidos populistas ou da televisão-lixo, pelo que acho que no fundamental mudou muito pouco, as pessoas já diziam essas coisas e já as diziam em pessoa, assinando com a sua presença em vez de por baixo.

O que acontece é que agora não podemos tão bem fazer de conta que o nível do debate seja mais elevado do que aquilo que é.

Ah, não, espera, podemos: fazemos de conta que é assim só na internet.

Helena disse...

Rita, parece-me que tens toda a razão. Não queres fazer um post?
É pena perder-se esse comentário aqui nesta caixa.