04 maio 2013

"precisamos de um sistema monetário europeu"

(Mais uma tradução do Speedy Gonzalez - nomeadamente, na parte em que traduzi "reale Aufwertung" e "reale Abwärtung" por aumento e redução do valor real: não tenho a certeza que seja este o vocabulário usado por economistas. Mas hoje é sábado, e o sol fantástico mesmo aqui ao lado no beiral da janela desperta o Speedy Gonzalez que há em mim.)  


Terça-feira, 30 de Abril de 2013

PRECISAMOS DE UM SISTEMA MONETÁRIO EUROPEU


A pressão sobre a política europeia da chanceler alemã tem vindo a crescer. Depois de Barroso, o presidente da Comissão Europeia, foi a vez de Enrico Letta - o político que o presidente italiano Napolitano escolheu para formar governo - rejeitar a política de austeridade de Merkel, porque conduz ao desastre. Há muito que os políticos europeus não sabem como resolver o problema. A situação económica piora de mês para mês, e o nível de desemprego atinge proporções tais que começa a pôr em causa as estruturas democráticas. 

Os alemães ainda não se deram conta de que, mais tarde ou mais cedo, a miséria económica levará os europeus do Sul, incluindo os franceses, a defender-se da hegemonia alemã. Em particular o dumping salarial alemão, que constituiu desde o início da união monetária uma violação do espírito dos tratados, provoca problemas. Merkel despertará do seu sono self-righteous quando os países europeus que estão a passar dificuldades devido ao dumping salarial alemão se unirem, para forçar uma viragem na crise que seja feita à custa da economia de exportação alemã. 

A moeda única teria podido durar se os Estados envolvidos tivessem políticas salariais concertadas, baseadas na produtividade. Por acreditar que esta coordenação salarial seria possível, nos anos 90 pronunciei-me a favor do Euro. Mas as instituições de coordenação, em especial o diálogo macroeconómico, foram minadas pelos governantes. Fomos enganados pela esperança de que a introdução do Euro exigiria lucidez económica a todas as partes envolvidas. Presentemente, o sistema saiu dos eixos. Segundo Hans-Werner Sinn (em texto recente no Handelsblatt), para tentar recuperar uma competitividade aproximadamente equilibrada, os países como a Grécia, Portugal ou a Espanha teriam de se tornar entre 20% e 30% mais baratos que a média europeia, e a Alemanha 20% mais cara.  

Contudo, os anos mais recentes têm mostrado que não é possível levar a cabo tal política. Um aumento de valor real por meio do aumento dos salários, como seria necessário na Alemanha, seria inviabilizado pelas associações de empresários alemães e pelo bloco neoliberal de partidos que lhe obedecem (CDU/CSU, SPD, FDP e Verdes). No Sul da Europa, e até na França, uma redução do valor real por meio da redução dos salários, feito à custa de cortes nos rendimentos num valor entre os 20% e os 30%, conduz à catástrofe - como já estamos a ver na Espanha, na Grécia e em Portugal. 

Se não é possível aumentar ou reduzir o valor real por este modo, então será necessário desistir da moeda única e regressar a um sistema que, tal como o que antecedeu a união monetária, permita valorizações e desvalorizações. Trata-se, essencialmente, de tornar possível a valorização e a desvalorização de modo controlado, no quadro de um regime de câmbio definido pela UE. Numa primeira fase será ainda inevitável proceder ao controle dos movimentos de capitais, para regular os fluxos de capital. A Europa já deu este primeiro passo no Chipre. 

Na fase de transição teremos de ajudar os países a manter a sua moeda, que com certeza perderá valor. A intervenção do BCE permitirá evitar uma queda abrupta.

Uma condição indispensável para o bom funcionamento de um sistema monetário europeu é a reorganização do sector financeiro à imagem das Caixas de Poupança, e a sua severa regulação. É preciso acabar com os "casinos".

A passagem para este sistema, que permite valorizações e desvalorizações controladas, devia ser feita em etapas. Na Grécia e no Chipre podia ter-se começado. Neste processo, temos de ter em conta a experiência já adquirida no âmbito da serpente monetária europeia, bem como do sistema monetário europeu.

3 comentários:

Gi disse...

Parece que vamos acabar a sair todos do euro.. Podiam ter aceite essa hipótese mais cedo.

Maria do Ceu disse...

E quais serão as consequências políticas dessa "saída controlada"?

Será possível manter o sonho de PAZ na Europa se, de novo, se agigantarem as rivalidades económicas?

E mesmo que não seja viável o regresso aos sécs. XIX/XX, qual será o embate das tensões sociais, agora que o mosaico civilizacional no interior da Europa é cada vez mais diversificado?

Estou em "estado de perguntação"...

Júlio de Matos disse...



Muito interessante. Obrigado pela tradução.

Afinal, como dizia o Zé Mário, houve aqui alguém que se enganou!

Se o Óscar Lafontaine agora tiver mais razão do que em 99, então estamos perante um sarilho de proporções homéricas, se não mesmo bíblicas.

Ai dos meus filhos...