01 maio 2013

Etchmiadzin



Disseram-nos que era o "Vaticano da Arménia", e fomos ver: no dia 24 de Abril, na celebração com o Catholicos, em memória das vítimas do genocídio arménio.

Durante a cerimónia lembrei-me muito do que um amigo nosso, búlgaro, diz dos católicos: que não temos ritos, que as nossas missas são muito secas. São, sim - comparado com o que lá vi, são muito secas. Várias vezes as pessoas tocaram o chão com os dedos antes de se benzerem; o coro não se limitava a cantar maravilhosamente, também vivia da encenação; vi um homem que passava as costas dos dedos nos quadros com imagens religiosas e os beijava, para depois se benzer; algumas pessoas quase se deitavam sobre um rico exemplar da bíblia, para o beijar devotamente; ou um cortejo a meio da celebração, levando a cruz para ser beijada pelas pessoas.
(Vejo agora, ao escrever, que estas celebrações são muito beijoqueiras)

Também me lembrei muitas vezes da figura que fiz ao ver o jogo Bolívia-Argentina, e de nem me dar conta do que estava a acontecer no campo. É muito triste ser ignorante: bem tentava ver tudo, mas arranjei de estar sempre no lugar errado - se eles fechavam a cortina no altar (sim, fecharam duas vezes, correndo cortinas diferentes - soube depois que há momentos, como a consagração, por exemplo, que o povo não deve ver, e por isso acontecem à cortina fechada) eu estava fora da igreja; se faziam uma procissão à volta de um altar central, eu estava a olhar para o coro; se olhava para o Catholicos no altar, era afinal no coro que estava a acontecer o momento mais forte. Mais ainda: quem era o Catholicos? Pensava eu que era o de mitra à maneira dos bispos católicos, mas no final as pessoas iam era beijar a mão do discretinho que estava vestido de preto. Um googleanço rápido esclareceu-me todas as dúvidas, menos esta: como será que o Marco Pólo se desenrascou na China, sem acesso à internet?

Fiz algumas fotografias. E mais uma vez me dei conta da delicadeza deste povo: em plena celebração, chegavam-se para o lado para eu ter espaço para fotografar. Fosse na Alemanha, e corriam comigo para fora da igreja.





Bispo Artak Tigranian

Catholicos Karekin II



A homilia (será que se chama homilia?) do bispo Artak Tigranian reforçava o que aprendi durante essa semana: os arménios não se rendem. No meio do maior horror, não se entregam ao desalento.
Our history of black pages, tragedies, havoc and destruction, captivity and exile, migration and massacre have never burdened us with the shadow of the death, as we have managed to keep our spirits light and radiant with optimistic visions, as we were and will be a nation devoted to life and light. (aqui)

9 comentários:

Gi disse...

Se cruzarmos os portugueses com os arménios, que tipo de povo se criará?

Helena disse...

Depende que parte dos arménios e que parte dos portugueses se tomava. Até parece aquela anedota: imagine a europa com cozinheiros italianos, polícias ingleses, amantes franceses, matemáticos alemães e sei lá que mais, e depois com isso tudo trocado.

Sabes o que me agradou mais na Arménia? A consciência de que cada um tem responsabilidades para melhorar a situação do país. Lindíssimo. Gostava de ver mais disso em Portugal.

Gi disse...

Hehe... Também me lembro dessa história. E do monstro do Dr. Frankenstein também.

Tem graça, esta manhã, a propósito de nada, veio-me à cabeça a frase do presidente Kennedy, "Ask not what your country", etc.

Helena disse...

"ask not your country"...
Outro dia li a história de um incêndio na floresta, e de um hipopótamo em fuga ver um colibri a recolher água no bico e lhe perguntar o que estava a fazer.
"Estou a fazer a minha parte", foi a resposta.

Gi disse...

Também li essa, já não sei onde.

Helena disse...

às tantas foi no meu facebook... ;-)

Gi disse...

:-D
Só pode!
(Ai a minha cabeça...)

margarete disse...

são cravos que levam nas mãos? a 24 de Abril?
isto anda tudo ligado :)

Helena disse...

São cravos, sim. Imensos. Em vermelho e branco. Mas talvez estejam lá em tão grande quantidade por serem flor da época - será?

Quando cheguei à Alemanha fiquei muito surpreendida porque os cravos são flores usadas praticamente só nos cemitérios. Poucos gostam dessa flor, porque está associada a tristeza. Também não vejo nunca bouquets de flores que incluam cravos.
Fiquei com pena porque sempre adorei cravos - mesmo antes do 25 de Abril.