14 abril 2013

no reino das piranhas



Manhã do terceiro dia na Pampa. Pois lá entrámos de novo no barco, pois lá nos pusemos de novo a caminho, rumo a nova aventura. Levávamos anzóis para pescar piranhas, que o Feizar tinha preparado.
Numa curva larga do rio, o Einar fez um sinal ao Matthias e este atirou-se à água. Estavam combinados: se houvesse golfinhos, o Matthias podia dar uns mergulhitos. Todos os outros lhe seguiram o exemplo, menos eu, que pensara que não precisava de fato-de-banho para ir pescar piranhas, e o tinha deixado em casa.
Gostei desta maneira muito leve de gerir o tempo: não há programas marcados, faz-se o que apetece.
Parece que a coisa tem nome, e é "férias".

Seguimos depois para a parte do rio onde há piranhas. Antes, o Einar apresentou-nos o Pepe, o caimão de uma lodge perto da nossa. Um caimãozão de mais de quatro metros, com uma bocarra com mais de cem quando a abre a sério.




Depois de apreciar devidamente o Pepe, que em menos de nada devorou uma galinha que a cozinheira da lodge nos tinha dado, sentámo-nos no barco, cada um com o seu fio de pesca, num braço do rio junto a um cais, à sombra de árvores enormes. Os macacos vieram ver o que fazíamos.




E que fazíamos nós? De linha na mão, conversávamos com o Einar e ríamos alto. Pescadores de água doce...

O Einar contou de visitas que organiza à selva, à comunidade dele. Uma aldeia pequena, com umas oitenta pessoas. Diz que se desce aquele rio cerca de duas horas, e se faz uma caminhada de três horas pelo meio da selva. É preciso ter cuidado com certos perigos, diz ele, por exemplo com o puma. Se aparecer um puma, ele está preparado: tem uma seta com um veneno que o mata logo ali. E nós podemos estar descansados: antes de o puma tocar num dos seus turistas, vai ter de o matar a ele.
Ora aqui está um interessante dilema, pensei eu. Se o Einar se deixar matar para proteger um turista, deixa o grupo todo à mercê da selva. Não seria melhor dar esse turista ao puma, para poder salvar os outros? Perguntei-lhe.
Ora bem: índios da Amazónia não são dados a grandes dilemas filosóficos. Para ele não há dilema nenhum - a primeira coisa que faz é ensinar toda a gente a sobreviver na selva, caso ele lhes falte.

Depois falámos das piranhas. Queríamos saber se é mesmo verdade que as piranhas podem matar uma pessoa, e ele afirmou, peremptório: podem devorar uma vaca inteira em menos de cinco minutos. Mostrou-nos uma cicatriz no dedo, à volta da cabeça do polegar. "Uma vez", disse ele, "pesquei uma piranha e resolvi reaproveitar o anzol. Quando me preparava para lho tirar da boca, ela espetou os dentes e quase me decapitava o polegar. Pus a carne na posição normal, improvisei uma ligadura, tratei com uma planta que conheço da selva, e safei o dedo. É disto que elas são capazes."

Comecei a falar mais alto, a ver se espantava alguma piranha que quisesse aparecer por ali. Tinha graça, tinha, nós pescadores diletantes a pescar um bicho daqueles para dentro do nosso barco cheio de pés nus...

Regressámos pela última vez à lodge, àquele cais com cadeirões e redes onde tínhamos passado horas tão boas.



O gato estava estendido no seu posto habitual, ao sol. Cinquenta centímetros acima dos caimões e das piranhas. Estes espaços partilhados com o perigo de vida faziam-me uma certa confusão, até me ter lembrado dos carros que percorrem velozmente as nossas cidades. Nós também vivemos a meio metro de uma morte possível, e também aprendemos a conviver com isso.


Regressámos da pescaria de mãos a abanar, mas as cozinheiras tinham um plano B, e deram-nos um óptimo almoço. Depois fizemos apressadamente as malas para partir. Não sei que é que a Christina e o Joachim disseram na cozinha, que ouvi gargalhadas enormes no dormitório onde fazia um último controle. Saímos daquele sítio mágico com os últimos ecos do riso, e a voz alegre das cozinheiras "a Christina, hahaha, a Christina...".

Foram mais de duas horas de barco e três de jipe para regressar a Rurrenabaque. No caminho de barco encontrámos os animais do costume: aves-do-paraíso, macacos, tartarugas enormes, papagaios...
Durante a viagem de jipe encontrámos fundos sulcos na lama, agora terra seca, que tornaram a viagem ainda mais desconfortável. E uma família de capivaras.


Rurrenabaque é a tal cidade com meia dúzia de habitantes que nos pareceu insuportavelmente buliçosa, após três dias de tanto sossego. O nosso hotel ficava mesmo em frente ao início do parque nacional do Madidi, do lado de lá do rio Beni. Do nosso lado havia uma piscina e um relvado - uma paisagem muito estranha no meio da selva. Será que um dia se lembram de fazer lá um campo de golfe? E será que dava para o arquitecto fazer uma piscina com cores mais adequadas ao local?


Era sexta-feira santa. Os cafés e restaurantes não serviam álcool por motivos religiosos. Em compensação, não tinham qualquer problema em servir carne. Devem ter feito gazeta à catequese nessa parte do programa, imagino. Por sorte, encontrámos um restaurante que servia mojito disfarçado de refresco, como no tempo da Lei Seca. Vá lá que não o serviram em chávenas de chá.


No dia seguinte partíamos ao meio-dia. Eu ainda queria aproveitar a manhã para fazer uma pequena incursão na selva, no parque nacional Madidi, mas a família opôs-se: os rapazes queriam dar uns mergulhos na piscina, a Christina queria ir fazer compras. Se me deixassem mandar... talvez tivesse sido uma manhã engraçada, mas seria sobretudo um stress. Melhor assim.

2 comentários:

Gi disse...

Helena, adorei ler esta tua reportagem mas parece-me que é o mais próximo que pretendo chegar de uma visita à Bolívia ;-)

Helena disse...

hahahaha
Eu gostei tanto destes dias!
Mas espera aí que já te conto do altiplano, e do Messi a tentar meter golos sem tirar a cabeça de entre os joelhos, e assim. :)
(E Machu Picchu, espera aí que já te conto de Machu Picchu!)