05 dezembro 2012

apontamentos à margem deste tempo (2)

A propósito de um artigo de opinião em que alguém defendia que o ensino deve ser pago segundo as possibilidades de cada um, lembrei-me dos anos que vivemos em San Francisco. De dois detalhes, nomeadamente: eu a olhar para os sem-abrigo e pensar que me podia acontecer também a mim (um temor que não me ocorre na Alemanha) e que um dos motivos mais importantes para regressar à Europa foi  não termos dinheiro para pagar as escolas dos miúdos. Lembro-me bem do alívio que foi saber que podíamos contar com um Estado que cuida o melhor possível dos nossos filhos, independentemente de nós estarmos doentes ou desempregados, ou nos dar para a toxicodependência, ou assim.

Gosto de viver num sistema político que tem preocupações sociais, e não aceita como ordem natural das coisas que as pessoas vão viver para debaixo da ponte, ou fiquem sem o tratamento médico de que precisam, ou não dêem aos seus filhos a melhor escola possível. Ainda não é perfeito, é é alvo de muitos ataques (nomeadamente por inépcia dos políticos e por abuso de parte dos seus utilizadores) - o que simplesmente implica que redobremos os esforços para o melhorar.

Claro que podia tentar o American Way, o trabalhar para viver e o dar um tiro na cabeça quando chegar à idade da reforma sem reforma e sem poder pagar os meus tratamentos médicos. Podia. Mas prefiro o Estado Social europeu.

No entanto, aceito que haja pessoas que preferem viver sem uma rede de solidariedade institucional. Para agradar a gregos e troianos, sugiro o seguinte: em vez de gastarem tempo e esforço a reformar os Estados europeus na direcção do neoliberalismo, fazemos um novo tratado de Tordesilhas - o neoliberalismo do lado de lá, o Estado Social do lado de cá. Os neoliberais convictos mudavam-se para os EUA, onde teriam muito por onde ser realizarem plenamente (nomeadamente a reformar o neoliberalismo americano, que dá demasiados subsídios e apoios às empresas, o que é absurdamente contrário à teoria e à retórica do sistema). Na Europa ficavam apenas os que acreditam e apostam no Estado Social, e estão dispostos a encontrar soluções criativas para o tornar sustentável no futuro.
Seria interessante comparar a evolução dos dois sistemas.

(É agora que os meus amigos americanos vão deixar de me falar. Calma, amigos, isto era apenas um exercício de redução ao absurdo. Pronto, reconheço: era também um certo desejo de mandar os missionários do neoliberalismo para a escuridão do ventre de onde nunca deveriam ter saído. Desculpem, amigos!) (Talvez o melhor fosse criar um país novo só para neoliberais. Talvez o centro dos EUA, os Estados que votam Republicanos. E unir os Estados que votam Democratas num país rumo ao Estado Social.) (Ainda o dia vai a meio, e já eu resolvi praticamente todos os problemas dos países ocidentais...)

11 comentários:

jj.amarante disse...

Presunção e água benta, cada qual toma a que quer. Então resolveu os problemas todos dos países ocidentais sugerindo para o efeito uma nova guerra de secessão nos Estados (por enquanto) Unidos da América (do Norte que também há a do Sul)? Tsk, tsk, tsk...

Luna disse...

Este texto resume muito bem a minha resposta à pergunta "mas se tens o green card, porque é que não tentas antes ir para os estados unidos?".

(isso e os 12 dias de férias anuais)

Gi disse...

A minha reacção é um bocadinho como a do jj.amarante. Porque nessa tua tentativa de resolução falta o busílis: de onde vem o dinheiro para o Estado Social?
Ai.

Helena disse...

jj. amarante,
pensava que o último parêntesis deixava bem claro que a minha sugestão não era para levar a sério.

Luna,
nem mais. Isso, e os 12 dias. Ainda bem que alguém me compreende! :)

Helena disse...

Gi,
Na Alemanha e na Suécia, por exemplo, o dinheiro para o Estado Social vem dos impostos e das contribuições, e pelos vistos tem sido suficiente.
Em Portugal é mais complicado, porque parece não haver estrutura produtiva (e correspondentes impostos) que possa sustentar um Estado Social mais amplo.
Penso que se o Estado Social for um desígnio indiscutível de um país, as pessoas estarão em condições de encontrar soluções para o tornar possível. O problema é quando começa a haver dúvidas, e os adeptos do "utilizador/pagador" e do "menos Estado" começam a ganhar terreno, e a optar por soluções mais fáceis (que geralmente passam por um Estado que se retira da sua responsabilidade social e desloca os recursos para o apoio às empresas - muitas vezes, para o apoio à mera conjuntura empresarial).

A história de nos EUA haver menos Estado é uma ilusão: o Estado gasta imenso dinheiro com as empresas (e os mais cínicos dizem que o governo dos EUA nem sequer hesita em fazer guerras para dar melhores condições às suas empresas); onde há menos Estado é no apoio às pessoas, sobretudo aos mais desprotegidos.

jj.amarante disse...

Nisto do texto escrito faz falta a entoação para se ver melhor quando se está a falar a sério. Eu tinha visto que a sua sugestão não era para ser levada a sério, tão pouco o era o meu comentário, que acabava em "tsk, tsk" com o propósito de explicitar um tom irónico.

Helena disse...

jj.amarante,
não há dúvida: falta mesmo a entoação!
Sabe de que me lembrei agora? Daquela vez que protestei contra o golpe baixo da mesa de lanche cheia de petiscos portugueses.
cá vamos coleccionando um belo acervo de mal-entendidos! ;-)

Gi disse...

Obrigada, Helena, explicaste muito bem.
Eu penso que em Portugal, se não houvesse tanta corrupção e tanto compadrio, talvez o dinheiro chegasse onde é preciso.
Ou então será por haver pouco dinheiro que há corrupção e compadrio.
Agora não chega a lado nenhum porque ninguém quer investir nestas condições.
Isto está mesmo muito complicado.

Helena disse...

Gi, eu não sei o que é preciso para Portugal ter um Estado Social com um bom nível, nem quanto se perde em fugas aos impostos, nem nada disso.
Mas pelo que se vai vendo, parece que está a haver uma espécie de complot para passar o serviço público para os privados. Não que fique mais barato assim, mas dá muito a uns quantos.
E depois há todos os casos de corrupção e de desresponsabilização.
Mas o problema começa logo ao micro-nível: quem estaria capaz de denunciar um colega corrupto? Não conhecemos nós todos casos de truques em que alguém ganha dinheiro e o Estado (ou os utentes de um serviço) é lesado?
Em Portugal não se denuncia.

Gi disse...

É verdade. Mas sabes, eu lembro-me de que, quando era criança, um dos principais defeitos que se podia ter era ser queixinhas.
Depois, tivemos os informadores da PIDE.
Acho que isso nos marcou a todos.

Além disso, perante as denúncias ao macro-nível ;-) que não levam a nada, o micro-nível ;-) não sente vontade de avançar.

É tudo a ver com os exemplos de cima.

Helena disse...

Pois claro: somos alérgicos à palavra denúncia (e muito mais à acção) e achamos mesmo que não vale a pena perseguir o peixe miúdo quando o graúdo é que come a sério.
E nunca mais saímos daqui. É mesmo muito complicado.