08 outubro 2012

Praga (3)

Meditações numa manhã de sábado em Praga:

* É preciso revolucionar a Arte. O nosso tempo anda perdido em conceitos estéticos completamente decadentes, desumanos, irreais. O Rubens é que sabia, e chegou o momento de voltar aos verdadeiros valores da nossa humanidade:


Mais concretamente, estes:



* Há muitos, muitos anos, trabalhava eu em planeamento regional, na área do turismo, cruzei-me na rua com uma antiga amiga, dos tempos da escola secundária, que me convidou para casa dela. O seu companheiro era um fotógrafo de guerra americano, que em algum momento desgraçado perdera as duas pernas. Passava o dia em casa à sua espera, numa cadeira de rodas. As próteses jaziam pelo chão, no meio de garrafas vazias. Tentei ignorar o ambiente sórdido, e começámos a conversar. Quando soube que eu trabalhava na área do turismo, largou em cima de mim toda a sua amargura: que Portugal pouco tinha para oferecer, que as estradas não prestavam (naquela altura, ainda nem auto-estrada Porto-Lisboa havia), que a Peneda-Gerês nada valia em comparação com os parques nacionais americanos, ou os Alpes, ou o Nepal, e que praias boas eram não sei onde, e cultura não sei onde mais. Eu brandia-lhe os prospectos da DGT com toda a verve, mas ele retorquia com dez sítios no mundo onde tudo isso era muito melhor.
Eu tinha 25 anos, e uma fé cega no que fazia. De modo que misturei a mensagem, o mensageiro, as próteses e as garrafas tudo no mesmo saco, e fui à minha vida. Às vezes lembro-me dessa conversa: em frente à ilha nos Alpes onde Nietzsche viveu, nos parques nacionais dos EUA, ou agora, no fim-de-semana passado, por estar sentada numa praça lindíssima em Praga. Mas - respira fundo, vai à luta! - ainda agora era capaz de lhe provar por a+b  que no Porto também há praças assim bonitas. E é para não falar em Ponte de Lima!
(ahem, pareço o Fox, esse cão de bolso, a ladrar para cães grandes: cheio de coragem, mas em movimentos de marcha atrás...)

* Uns dias antes desta viagem, a Olga e o Wladimir Kaminer tinham-nos dito que locais devíamos visitar. Eles conhecem bem Praga, gostam muito da cidade, e sugeriram que atravessássemos a ponte Karlov e passeássemos do outro lado do rio.
Sentada em frente a um magnífico cappuccino e um bolo divino, olhei para as arcadas das casas naquela praça: lembravam a praça do Giraldo, em Évora.


Portanto: convidei o casal Kaminer para ir a Portugal convencida que os levava para além de Tralalá - a lugares como eles nunca se lembrariam sequer de sonhar -, e levei-os a Évora...
...onde lhes mostrei uma praça como eles estão fartos de conhecer.
Só vos digo que o momento em que uma pessoa cai em si própria é sempre muito triste.

(Mas eles querem voltar a Portugal, já temos as férias agendadas e tudo, fartam-se de perguntar pelo Lutz. Pelo que posso começar a laborar numa teoria nova sobre Tralalá e o que se encontra no fim do arco-íris: não é o caldeirão de moedas de ouro, são as pessoas.)

19 comentários:

teardrop disse...

À medida que vou vendo as fotografias e lendo o que escreves fico cada vez com mais vontade de conhecer a cidade!

Carla R. disse...

:D
Olha, eu sei que não sou a única, que eu própria já o fiz antes, que se calhar até já estás farta, mas : obrigada por este post !
Pela proposta de revolução de arte (sim ! sim !), pela comparação em letras pequenas da tua atitude com a do fox, pela conversa sobre a comparação de riquezas patrimoniais (o teu mercado em Berlim é igual ao meu mercado aqui do bairro. Mas é tão diferente, tão diferente! E, além disso, aqui o do bairro, não vende erva, nem tem as mesmas histórias, olha, e não te tem a ti).
Cá um abraço, Helena.

Helena disse...

Acredito, e não me admiro! :)
Também eu tenho vontade de voltar lá, e conhecer melhor.

Helena disse...

Esta caixa de comentários tem as suas armadilhas. O "acredito e não me admiro" era para a teardrop. Enquanto o escrevia, a Carla entrou a falar de erva e tal, e eu, sem dar conta, apareço aqui a responder como se fosse maluquinha.
Que talvez seja, não vamos discutir isso, mas desta vez a culpa foi da caixa de comentários e não minha.

Helena disse...


Carla, como é que se faz um smiley com sorriso do tamanho do mundo?
É para ti.
A manhã naquele mercado foi realmente especial. E aquele terraço lisboeta onde descobriste a minha filha, também.
(tens a certeza que não tens um arco-íris pequenino dentro do teu bolso?)

A. Castanho disse...




Claro. É tudo uma questão de escala...


Ainda ontem estive numa Praia deslumbrante, que não deve nada às melhores que há em qualquer parte do Mundo e com um dia de Verão esplendoroso!


Apenas a catorze mil quilómetros a Oeste de Bora Bora, dez mil a Norte de Ipanema, uns seis mil a Leste de Cancun, trezentos a Norte da Ponta de Sagres e a uns 500m a Oeste de uma conhecida (e também muito aprazível) figueirinha.


Felizmente, ninguém a conhece fora da Ibéria (havia alguns espanhóis, deliciados...) e por isso mesmo é que ela estava tão apetitosa (aceito três palpites e aviso desde já que não a recomendaria em pleno Agosto...)

Helena disse...

Passo!
Qual é essa praia? (prometo que não conto a ninguém)

Gi disse...

A. Castanho, um palpite: Praia de Galapos, na Arrábida.

A. Castanho disse...



Helena, a Gi leva a biciclete! E os meus, parabéns pelo bom gosto.


Agora vê lá a quem é que vais confiar esta micro-pérola de conhecimento...

Helena disse...

Gi,
toma lá: vais de bicicleta para a praia!

(e eu trato de anotar isso para planos do próximo ano. Ouve: é mesmo assim bom? Justifica levar lá o Kaminer, que é co-dono de um hotel numa ilha da Croácia?)

A. Castanho disse...



Revisão de matéria dada: depende!


Em pleno Verão, num dia não útil, é totalmente desaconselhado (ver comentário três pisos acima...)!


Mas talvez numa Segunda-feira de manhã, antes do nascer do Sol (que aqui nasce quase sobre o mar - o que já é uma significativa diferença em relação à Dalmácia, onde o Sol nasce bem atrás das costas de quem estiver virado para o Adriático e só sai lá detrás dos cumes já manhã bem alta...), como aperitivo para uma grande caminhada na Serra em busca dos cubículos dos eremitas e do famoso Mosteiro (posso arranjar-te um guia de montanha), ou até um passeio de barco no Sado, em busca de golfinhos, não será o supra-sumo do Turismo cultural da "Mitteleuropa", mas é algo de tão simples e verdadeiramente natural, que geralmente só se consegue, nesta pureza, noutros Continentes...

Helena disse...

Temos de falar - preciso do nome desse guia de montanha. Já me convenceste. :)

A. Castanho disse...



É um grande amigo meu, ainda no Domingo estivémos com ele, lá na Praia (depois de ele ter andado a manhã inteira pela Serra a passear o seu pachorrento Castro Laboreiro...).


Não precisas de te preocupar mais. Ele faz caminhadas na Arrábida todas as semanas, conhece todos os percursos e é apenas uma questão de acertares num fim-de-semana normal dele, mas isso é coisa que se organiza com facilidade um mês ou dois antes, no máximo.


Com alguma sorte, ainda vos vai convidar lá para casa, a tempo do pôr-do-Sol (e já não posso dizer mais nada, para não ser indiscreto...).

calita disse...

Ui, esta caixa de comentários é para embrulhar e levar para casa :)

calita disse...

P.S O Kaminer tem um hotel numa ilha da Croácia?!?!?!?!?!

Helena disse...

Calita,
tem, tem. Contei aqui: http://conversa2.blogspot.de/2012/05/o-expresso-do-paraiso-3.html

calita disse...

Não sei como me escapou esse post, eu que estive na Russendisko, mas agora que o li ainda gosto mais do Kaminer e da Olga.
E concordo que a capela dos ossos é uma cena para não deixar uma pessoa dormir durante alguns meses.
Hei-de dormir nesse hotel da Croácia.

snowgaze disse...

este blogue e' uma perdicao, estou sempre a acrescentar destinos turisticos 'a minha agenda.
Helena, ou eu percebi mal ou tralala' e' onde houver uma boa historia :) (ja' li, gostei muito, dei ao miudo para ler tambem e entretanto a minha mae roubou-mo... e' bom sinal ;)). aquela de paris e' absolutamente genial, quem diria. :)

Helena disse...

Calita,
já somos duas a querer ir à Croácia.
Este fim-de-semana estive a ver fotografias feitas por amigos - que maravilha!

Snowgaze,
pois é, Praga é mesmo para não perder.
Que giro esse livro ser apreciado por pessoas de 3 gerações diferentes!
Entretanto saiu o deste ano, o Onkel Wanja, e já o estive a folhear. Cheira-me que vou gostar.