05 outubro 2012

Praga (1)


Foi um acaso, algo que nem chega a ter importância, mas que me fez suspeitar que o nosso fim-de-semana seria muito especial: o Joachim, que já estava em Praga há dois dias, foi buscar-me ao comboio, e sem saber em que carruagem eu vinha, calhou de estar justamente em frente à porta por onde eu saí. Uma mera coincidência, um bom auspício.

O hotel ficava muito perto da Torre da Pólvora. Deixámos o meu saco, e seguimos para a praça central, um passeio de dez minutos. Fui invadida pela mesma surpresa que me ocorreu em Budapeste: o que é que esta terra esteve a fazer tantos anos fora da Europa? Ou, melhor: o que é que estivemos nós a fazer tantos anos arredados desta Europa?

Já a viagem de comboio entre Berlim e Praga vale a pena - especialmente a partir de Dresden. Tinha comigo dois guias turísticos da cidade que queria estudar durante as quatro horas e meia da viagem, mas foi impossível. A paisagem é demasiado bela para ser perdida de nariz metido nos livros. O comboio avança ao longo do Elba, junto a enormes penhascos cobertos de árvores, a que se chama "a Suíça saxónica", e continua junto ao Moldava, entre encostas salpicadas de aldeias e burgos. Isso, e este princípio de Outono: não há guia turístico que resista.

Pelo que entrei na cidade sem uma boa preparação prévia. Lera algumas coisas sobre o bairro mais central, o que visitámos nesse dia, mas não estava preparada para mergulhar naqueles mil anos de História europeia largada ombro a ombro (como agora se diz) em pistas de urbanismo e arquitectura.


Começámos pela praça central (a Staromestské námestí - vou ter de escrever os nomes sem os acentos circunflexos invertidos) da cidade velha (Staré Mesto). Subimos à torre da Câmara, o melhor sítio para entrar na cidade: de lá se vê o burgo com a sua catedral, do outro lado do rio,


 e a praça a nossos pés, com os palácios e o monumento de Jan Hus,


aquela maluquice de igreja construída por trás das casas,

(eles não saberão fazer terreiros de igreja como deve ser? imagino como serão as frases idiomáticas checas - em vez de "ainda a procissão vai no adro" dirão "ainda a procissão vai no pátio de trás das casas da frente da Igreja")
(a torre da direita é um pouco mais gordinha, e por isso lhe chamam Adão, a da esquerda é a Eva; pensava eu que esta coisa de homens desmazelados com o peso e mulheres em permanente estado de semi-fome era uma injustiça do nosso tempo, mas não - parece que já vem da Idade Média, triste sina. No Verão, a torre "Adão" faz sombra para a torre "Eva", pelo que esta era usada para guardar mantimentos "em local seco e fresco" - mas não me apetece descobrir a alegoria que o facto possa encerrar)


as pessoas que se juntavam em frente ao relógio astronómico,


as fachadas da rua de Paris, a rua que vai dessa praça central ao antigo gueto judeu, e que está cheia de lojas de luxo

- e sobretudo o sol, sol a rodos nos telhados e nas encostas cobertas de árvores:


Gostei especialmente das calçadas. Como se um bocadinho do meu país tivesse vindo parar a este lado da Europa - ou terá sido ao contrário?



Bateram as seis horas. Na praça, a multidão junto ao relógio astronómico adensou-se.


O público na torre abriu alas para um músico vestido a preceito, que anunciava a hora com uma melodia repetida em cada um dos lados da torre. Havíamos de o ouvir mais vezes nos dias seguintes, enquanto passeávamos pelas ruas da cidade antiga.


Descemos para a cidade, usando as rampas ao longo da paredes da torre. Mas também podíamos ter usado o elevador: uma torre medieval com elevador, não é todos os dias!


Dessa praça seguimos para uma praceta linda, a Malé Námestí, e continuámos pela rua Karlova na direcção da ponte Karlov. Não é preciso perguntar o caminho, basta irmos avançando com a multidão. Atravessámos a famosa ponte, como não podia deixar de ser, e quando chegámos a meio parámos junto ao crucifixo. O meu guia informava que aquela inscrição dourada em hebraico está ali desde fins do séc. XVII, e foi paga com a multa de um judeu que não descobriu a cabeça ao passar em frente ao Cristo. Nela se lê: "santo, santo, santo é o Senhor" (diz o guia, mas eu não sei se deva acreditar: não vejo ali três grupos de letras repetidos - a não ser que esteja escrito "três vezes santo é o Senhor").
Quando serei capaz de parar de me surpreender com estes sinais históricos da maldade e da arrogância dos católicos? E é mesmo preciso manter aquela inscrição hoje em dia, é mesmo preciso continuar a provocar os judeus desta maneira?

(foto daqui)

Jantámos num restaurante excelente junto à ponte Karlov. A moderna cozinha checa é uma delícia e uma elegância. Regressámos ao hotel por becos secundários, praticamente desertos - e sobre nós uma magnífica lua cheia.


O céu nocturno estava de um extraordinário azul, um autêntico céu de
- e lá vai a palavra que tenho tentado evitar -

veludo.




5 comentários:

Carla R. disse...

:)
Tenho que lá voltar, tenho que lá voltar, mesmo muito rapidamente. Que sorte a tua, que tiveste os astros todos a teu favor. Que cidade maravilhosa.

Gi disse...

Achei a igreja de Týn um pouco assustadora, a aparecer assim por trás e por cima das casas, fez-me lembrar a fada Maléfica da Bela Adormecida do Walt Disney. Não sei exactamente se as espiras do castelo se os cornos da senhora.

De resto, achei a arquitectura de Praga um encanto, e o ambiente um bocadinho tourist-trap. Não te pareceu?

Mas voltava, ah, voltava.

Helena disse...

"assustadora", não direi. Achei-a completamente despropositada. A que propósito se tem uma fachada daquelas por trás das casas?
Mas achei graça às tuas comparações.

De facto, às vezes senti-me na Disneyland em LA, mas muito melhor.

Quanto ao ambiente: bem, quero lá saber do que eles fazem para os turistas. Eu só me diverti a olhar, não comprei nada...
(mas fui ao Teatro Negro, e assumidamente, hehehe)

Gi disse...

Eu não fui ao Teatro Negro (pelo menos não me lembro), mas fui ao Teatro de Marionettes ver o Don Giovanni :-)

Paulo disse...

A viagem de comboio de Dresden a Praga é uma beleza. Estava a ler a descrição das margens do Elba e do Moldau e a relembrar tudinho.