04 outubro 2012

3 de Outubro de 2012

Ontem foi feriado na Alemanha: dia da unidade alemã, data da assinatura do tratado da reunificação. Todos gostariam que fosse antes o 9 de Novembro, dia da queda do muro, mas essa é uma data maldita devido à Reichskristallnacht. O processo relâmpago da reunificação decorreu ao longo de 1990, e trataram de assinar o seu tratado antes do 7 de Outubro, por ser o dia da fundação da RDA, e quererem evitar esse feriado  (de onde se prova que esta mania de os alemães tirarem feriados aos outros países não é só de agora...).

Muito simbolicamente, passámos o nosso dia da unidade alemã no meio de uma enorme mistura de nacionalidades. Começámos com um brunch em casa de um pintor italiano, onde uma argentina que acabou agora mesmo o seu curso de "arte de teatro de marionetas" (porque é que no meu tempo não havia cursos assim giros?) nos revelou que os alemães que nunca saíram do país são diferentes dos que já viveram noutro lado (mas logo a seguir concordou que esse estranho fenómeno também ocorre com os argentinos), e onde um sírio falou dos milhares de combatentes da al-Qaeda que estão a instalar-se na Síria, nos desenhou mapas de pipelines de gás e petróleo, nos alertou para as coincidências - não é por acaso que neste momento o Japão e a China fazem aquele teatro todo por causa de uns torrões de terra no meio do mar, dizia ele (e eu, que gosto de coisas simples, como a Liberdade do Quino, quase fico com vontade de sentir saudades do tempo da Guerra Fria). Depois chegaram uns franceses, cada pessoa trazia os seus temas - eu ouvia, e dava razão à argentina: para nos alargar os horizontes, nada como falar com pessoas de outras culturas. E nem é preciso sair do país - basta ir visitar um amigo que mora no mesmo bairro. Quanto ao mais: comida deliciosa, enquanto me lembrar daquele couscous nunca mais tento fazer algo semelhante cá em casa.

Ao fim da tarde havia concerto na Filarmonia, um recital de piano com Krystian Zimerman. Calhou simbolicamente muito bem: um pianista polaco com raízes culturais alemãs e russas. O programa parecia uma auto-hagiografia escrita na terceira pessoa, o que me deixou um pouco predisposta a não gostar do pianista. Isso, e uma insistência exagerada para não fazermos fotos nem gravarmos a música. Mas não consegui aguentar o rancorzinho para lá das primeiras notas de Pagodes, a peça de Debussy com que abriu o recital.





Em algum momento, o que acontecia naquela sala deixou de ser música e tornou-se uma aguarela feita de sons. No terceiro (ou quarto?) prelúdio, o piano começou a flutuar serenamente na neblina matinal que cobria um lago sereno - garanto que isto aconteceu ontem na Filarmonia! - e eu esqueci tudo, inclusivamente a hagiografia, para me render sem reservas à sua magia.

Krystian Zimerman não se limita a tocar com perfeita maestria e sensibilidade - domina a própria acústica, pára a meio da peça como que modelando os ecos no ar, prende-os por uns momentos, depois solta a mão e deixa-os ir. Reparem aqui, logo no início, no primeiro minuto:



Ontem tocou as Estampes e alguns dos 24 Préludes de Debussy, três prelúdios da Opus 1 de Karol Szimanowski (e eu que não conhecia este, e que bom ele é!) e a sonata para piano nº 3 op. 58 de Chopin. Maravilha. Mas infelizmente não encontrei nenhuma destas peças tocadas por ele, para partilhar aqui.

O público aplaudiu freneticamente, uns bons dez minutos. Ele regressou ao palco repetidas vezes, e por fim sentou-se de novo ao piano. Silêncio na sala. Ele sentado, também em silêncio. Até que começou a dizer, com um ar pensativo, como se estivesse simplesmente a conversar connosco: "A primeira vez que toquei aqui foi em 1975... Era tudo muito diferente... Nós gostamos de dizer mal dos políticos, porque não conseguem construir aeroportos e coisas assim (risos na sala) mas temos de estar muito gratos pelo que têm conseguido fazer nestes anos". Depois disse uma gracinha qualquer sobre um compositor a quem ele encomendou uma peça para esta ocasião, mas que não a pôde acabar a tempo porque morreu há 185 anos - virou-se para o piano e começou a tocar a sonata Mondschein de Beethoven. Com uma leveza e imaterialidade como eu nunca tinha ouvido. E a meio da sonata, a partir de um acorde qualquer, passou para o "parabéns a você". Depois foi-se embora, e eu, por um daqueles acasos incríveis que me acontecem frequentemente, dei comigo sentada a uma mesa com uma pianista amiga dele, que estava encantada, e dizia frases como "aquele quarto andamento da sonata de Chopin, nunca ninguém o tocou assim como ele hoje - nem a Martha Argerich o conseguiria tão bem. E não há gravações disto assim, foi um momento único."
Depois começou a falar de Guastavino, "o Schubert das Pampas", e se eu não conhecia Guastavino!?
É o seu centenário, é preciso organizar ainda este ano um concerto de Guastavino em Berlim.
Esta cidade não pára.

3 comentários:

Gi disse...

Pois foi exactamente essa a sensação que tive desta vez em Berlim: que a cidade não pára, que há sempre coisas interessantíssimas a acontecer.
E nem lá estive quarenta e oito horas!

Helena disse...

Isso, isso.
Gi, conheces o Krystian Zimerman? Tenho a certeza que ias adorar. Ele consegue momentos de impressionante leveza.

Gi disse...

Só o conheço de nome e do YouTube. Por enquanto...