06 março 2012

a propósito da sugestão de retirar o Houaiss de circulação

O caso é tão absurdo que parece uma anedota: querem retirar o Houaiss de circulação devido a alguns significados do verbete "cigano". Fui ver "judeu" no Porto Editora e - ai! - espero que o procurador Cléber Eustáquio Neves não leia. Nem o Porto Editora, nem o Aurélio, nem a maior parte dos outros dicionários: são o autêntico manual de maus costumes, pior que estes só mesmo a Bíblia.  (ai! Espero que o procurador Cléber Eustáquio Neves não leia a Bíblia: ainda manda alterar o milagre das bodas da Canã, em nome da luta contra o alcoolismo...)


O Manuel António Pina sugere que de caminho se purgue também a História dos seus episódios menos agradáveis. E eu rio-me, mas começo logo a dizer que não que não, porque até sei de um sítio muito central aqui em Berlim, entre uma Universidade e uma Biblioteca, para queimar esses dicionários todos, e se o Manuel António Pina me vai de tipp-ex para a História depois temos de inventar tudo outra vez.

Eu rio-me, e no entanto ocorre-me que estes gestos são importantes para promover um debate necessário.
Agradeço então ao procurador Cléber Eustáquio Neves, e apelo a todos para que aproveitemos a sua coragem um pouco louca para falarmos - calmamente, que não há necessidade de ter uma apoplexia só por causa disto - e definirmos com mais nitidez o que deve a nossa sociedade inscrever no verbete "dicionário".

Por exemplo: um dicionário é um espelho ou um educador? Deve eventualmente criar-se uma nova classificação (biased, em inglês - bem gostaria de lhe encontrar um bom correspondente na nossa língua) que alerte para o conteúdo racista, xenófobo, machista ou outros, de determinado uso da palavra?


Adenda - muito a propósito, um post do Vítor Santos Lindegaard:

A língua: elemento de identidade, mas nem escantilhão nem espelho da cultura

9 comentários:

Anónimo disse...

Simples: "biased" = enviesado.

Helena disse...

Pois é! Como é que eu não me lembrei disto antes?...
;-)

Gi disse...

Esta história do Houaiss aterroriza-me, porque a história é escrita e re-escrita e se nos apagarem palavras então é que deixamos de conseguir pensar.

Não será de deixar que os dicionários dêem os significados possíveis das palavras, e os educadores expliquem que nem sempre os significados são os mais correctos, ou correspondem à realidade?

Helena disse...

Gi,
penso que ninguém vai tirar palavras do dicionário.
Mas isso de deixar de conseguir pensar serve para os dois lados: é fundamental conhecer bem as palavras que usamos. Muitas vezes usamo-las sem pensar.

De uma maneira ou de outra (com educadores, e/ou com os dicionários a classificar como "racismo" certos significados, por exemplo) é fundamental olhar cuidadosamente para as palavras que usamos, e perguntarmo-nos porque é que as usamos.

A propósito: o meu filho não diz preto ou negro ou africano, diz (se chega a dizer) "pessoa com forte pigmentação na pele". É apenas isso: uma questão de pigmentação. O resto, são as nossas categorias e gavetas.

Gi disse...

Eu digo "preto", sendo que com isso quero dizer "pessoa com forte pigmentação na pele", e apenas isso.

Por outro lado, a minha irmã, quando a filha pequenita lhe perguntava de que cor eram diversas pessoas, respondia "beige", independentemente da pigmentação real da pele de cada uma.

Helena disse...

Sabes, eu pergunto-me cada vez mais porque é que preciso de dizer "preto".
"Fui assaltado por um loiro" ou "no meu compartimento do comboio vinha um ruivo". Ou "tenho uma empregada de limpeza nova - tem olhos verdes, mas é muito séria."

Uma vez dei-me conta que a minha filha, aí pelos seus sete anos, não reparava na cor das pessoas. Não se forçava, não era para ser politicamente correcto. É que não lhe ocorria mesmo referir esse detalhe. Usava outros: "aquela menina que tem sempre vestidos muito bonitos", por exemplo.

Gi disse...

Sabes, eu acho que as características que apontamos têm que ver com o que é excepcional ou raro. Numa terra em que as pessoas são maioritariamente brancas, ser preto é uma característica notável, assim como o inverso. Quando as pessoas têm maioritariamente à volta de 1.70m de altura, ser alto é o que distingue alguém com 1.90. Por isso, dizer "aquele fulano é preto" ou "aqueloutro é alto" ou ainda "aquela rapariga é cigana" parece-me normal.
Complicado é passar às generalizações, "os pretos", "os altos", "as ciganas" pensam, fazem ou são... Isto ou aquilo. Porque das generalizações é que se passa aos preconceitos.
Percebes o que quero dizer?

Gi disse...

(Olha, também comecei a minha resposta por "sabes", saiu-me, deve ter sido na sequência do teu tom um bocadinho de inquirição/ descoberta :-))

Helena disse...

Sabes, Gi (hihihi)
eu penso que é o contrário: do preconceito passa-se à generalização. Há no youtube um filme onde um homem de pele escura diz o ódio que lhe cresce por causa de um reflexo condicionado das pessoas de pele clara: quando o vêem, agarram a carteira com mais força.
Ninguém tem um reflexo de insegurança quando vê um alto, um baixo ou um ruivo.
E quando identificamos alguém como preto ou cigano estamos a usar uma marca de estigma. Será que há necessidade?
No fundo, e já que esta conversa começou por dicionários: até que ponto é que os vários significados estão realmente separados? Se digno "cigano" (membro de uma etnia etc.), qual é a carga pejorativa escondida que esta palavra carrega?
Temos falado de pretos e ciganos. O terceiro grupo óbvio são os judeus. Mas o Holocausto obrigou-nos a olhar com muito mais cuidado para o modo como usamos as palavras. Bem, pelo menos na Alemanha... As pessoas não dizem "um judeu" com a facilidade com que dizem "um preto" ou "um cigano". Há o cuidado de ver a pessoa por trás do carimbo, e de pensar muitas vezes antes de a identificar por essa sua característica.
Há todo um trabalho para fazer em relação a outras minorias da nossa sociedade.