05 dezembro 2011

querido Pai Natal (7)

Querido Pai Natal,

Como decidi ser polícia, traz-me o material necessário: pistolas e algemas, boné de polícia, sirene e formulários de interrogatório. Gosto desta profissão porque podes ver os assaltos de perto, apanhas os ladrões e bates-lhes até eles confessarem o roubo e os tiros nos velhos que recebem reforma. Assim  triunfa a Justiça e nós levamo-los para a esquadra para os encher de pancada. Quando a tareia chega ao fim o juiz dá-lhes a cadeira eléctrica e fica o assunto resolvido.
É assim que se acaba com o crime e somos nós quem acaba com ele. O meu pai é obrigado a vender aquela coisa, mas não é um criminoso, ele diz que senão rebentamos todos de fome. Ele é varredor de ruas, mas só ganha meia leca. Além disso não pode ir para o trabalho porque é muito longe e tem de se levantar cedo, por isso é que está sempre doente, mas é só a fazer de conta. Cá nos vamos aguentando, mas não tenho coisas de polícia. Também quero a ambulância da Cruz Vermelha, era bom se trouxesses a que tem sirene, mas tens de trazer também a metralhadora para os criminosos, depois posso andar a toda a velocidade e dar tiros e feliz natal.

de Gennaro Giovanni

Giovanni - Noccera Inferiore (Salerno)

4 comentários:

Goldfish disse...

Obrigada por esta série, Helena! Perante este retrato da sociedade italiana, pergunto-me como seriam estas cartas se escritas pelas crianças portuguesas?

Helena disse...

Ainda agora estava a pensar que, depois do que aconteceu no dia da greve, não se sabe muito bem se isto é Itália ou Portugal...

"Assim triunfa a Justiça e nós levamo-los para a esquadra para os encher de pancada. Quando a tareia chega ao fim o juiz dá-lhes a cadeira eléctrica e fica o assunto resolvido."

Goldfish disse...

O que aconteceu na greve? Os presos? A minha mãe esteve na manif e não houve nada a não ser no final, um grupo meio deslocado do tom da manif. O que não quer dizer que mereçam levar bastonadas...

Cá só não há a cadeira eléctrica - e "atosto os pomates" (que não tenho) que nenhuma criança sabe o que isso é. Por enquanto.

Helena disse...

Goldfish, a Fernanda Câncio faz aqui uma boa síntese do que está em causa - o cumprimento das regras de um Estado de Direito.
http://jugular.blogs.sapo.pt/3032121.html

Eu vi um filme de um polícia à paisana a bater num rapaz.

Penso que na Itália também não há cadeira eléctrica. Mas o que há em comum é esta ideia de que a Polícia tudo pode, e os "criminosos" não são seres humanos, mas problemas que importa "eliminar".