14 dezembro 2011

como conquistar o homem dos meus sonhos?

Decididamente, a blogosfera é uma fonte de inúmeras surpresas. Esta manhã descobri um workshop de 2 x 2,5 horas para ensinar as mulheres a conquistar o homem dos seus sonhos. É tudo tão inacreditável, que, bom, não dá para acreditar.

Mas, com tudo e por tanto, seria uma boa ideia eu oferecer o mesmo, mas para homens. Afinal de contas, se "o arrumadinho" consegue, porque é que eu não hei-de conseguir?
(por acaso ocorrem-me logo meia dúzia de motivos para eu falhar: desde a noção das minhas limitações até uma certa exigência intelectual, passando pelo respeito pelas pessoas e pelo sentido do ridículo - mas que isso não se interponha entre mim e os, digamos, duzentos eurozitos que queria ganhar em cinco horas de bla bla barato)

Plagiando descaradamente, aqui está a minha proposta de workshop, que será dado por mim (pessoa com imensa experiência nesta área, inclusivamente alguns livros escritos sobre o tema, todos eles leitura obrigatória nas faculdades de Psicologia de todo o mundo) a um grupo de 8 a 10 homens:


Como conquistar a mulher dos meus sonhos? #1
(ou pelo menos como me posso tornar num homem mais interessante)

Módulo 1
LEVANTAMENTO DO PROBLEMA

1. O que é que tenho feito de errado?
O que é que leva uma mulher a abandonar um homem, ou a não querer assumir uma relação com ele? E quando assume, por que é que as coisas não resultam? Onde é que estamos a falhar? Espaço de discussão sobre relações falhadas, partilha de experiências.
(Pede-se que sejam muito breves, não gastem mais do que cinco minutos para contar os detalhes de todas as cinco relações falhadas; lembrem-se que os outros nove participantes também querem falar, e este módulo só tem 150 minutos)

2. Afinal, o problema sou eu ou têm sido todas elas?
O que se passa na cabeça das mulheres quando conhecem um homem? O que é que elas verdadeiramente pretendem? Como é que percebo se elas estão numa de assumir um compromisso sério ou se querem apenas sexo? Sou eu que não as entendo ou são elas que não me entendem?
(preparem-se para revelações fantásticas, mas muito sucintas, sobre o que eu penso que se passa na cabeça de todas as outras mulheres)

Módulo 2
RESOLUÇÃO DO PROBLEMA

3. Como me posso tornar num homem mais interessante?
Ando a vestir as roupas erradas? A abusar do gel no cabelo? Fico melhor de sapatos de pele ou ténis? Devia investir mais em pólos Ralf Lauren cor-de-rosa? Ando a ler os livros errados? A ver os filmes que não devo? Devo deixar de escrever no Facebook que adoro A Bola? Como é que posso continuar a ser eu mesmo mas tornar-me mais interessante para uma mulher?
(e também: devo mesmo deixar de ler A Bola, ou posso fazê-lo às escondidas?)

4. O que é que uma mulher quer num homem para ele ser “o tal”?
Temos de ser lindos? Elegantes? Musculosos? Ter instinto paternal? Inteligentes? Família rica? Afinal, o que é que uma mulher valoriza mais num homem, e que pode fazer com que ele se torne na pessoa certa?
(também disponibilizo o nome de famílias ricas e até nobres que estejam dispostas a adoptar maiores de 18 anos)

Módulo 3
ACOMPANHAMENTO INDIVIDUAL
Durante três meses, todos os participantes do workshop podem pôr-me dúvidas por mail, pedir conselhos, dicas, sugestões, para questões ligadas a relacionamentos. No final, não entrego diplomas de participação, mas posso disponibilizar os vossos nomes e nºs de telemóvel a psicoterapeutas que estejam dispostos a aceitar o desafio de um moroso trabalho para vos curar as feridas que este workshop disparatado abriu ou aprofundou.


***

- E porque perdes tu tempo com isto, Heleninha?
- Não sei. De facto, não sei.
Talvez por estar chocada com este fenómeno. Como é possível que a vaidade e a mais profunda vacuidade ("profunda vacuidade", hehehe) tenham tanto sucesso no nosso mundo? O que levará pessoas a pagar quarenta euros para participar num disparate destes?
Voltem, adolescentes que não sabem quem pintou a Capela Sistina e qual é a fórmula química da água: estão a ser desavergonhadamente ultrapassados, a estonteante velocidade e pela direita!

38 comentários:

Izzie disse...

Este post está genial, genial. Profunda vénia.

wapy disse...

Ainda passei por uns minutos de confusão quando vi isto, mas felizmente o Google está sempre à mão.

MAS
Não sei se me espanto (ou não) com o facto de "sinceridade" não estar presente nas características desejáveis no "tal" :(

snowgaze disse...

LOL

Por acaso acho que foi um enorme tiro no pé e provavelmente o gajo já se arrependeu da ideia mirambolante. Ou então não.

Por outro lado, uma vez li isto já não sei em que livro de marketing, há um estúpido a nascer a cada instante, e seria estúpido não nos aproveitarmos dele (mais coisa menos coisa era isto). Se há quem pague para este tipo de parvoíce, também haverá quem esteja disposto a receber o dinheiro...

Helena disse...

Izzie, obrigada. Por acaso foi fácil de escrever. Quando a indignação é grande...

Wapy,
"sinceridade", pois. Para além do machismo e do paternalismo, o que me incomoda imenso neste workshop é a fixação numa imagem e não na essência das pessoas.

Eu dava um worshop destes, dava, e era assim:

"Para ser grande, sê inteiro.
Nada teu exagera ou exclui"
- e depois punha as pessoas a pensar durante cinco horas sobre como mudar a sua vida a partir deste programa.

Helena disse...

Snowgaze,
hahahaha

Mas tenho muita pena de quem embarcar nisto. Quarenta euros é muito dinheiro para ir ouvir banalidades tipo revista feminina. E sobretudo: que angústias levarão as pessoas àquele workshop? Como sairão de lá?

Será que se lhes presta realmente um serviço dizendo-lhes que a saia não devia ser tão curta, que os saltos deviam ser um pouco mais altos? Às tantas, é isso que querem realmente ouvir para se sentirem mais seguras.

Rita Maria disse...

Adoro o fim!

Teresa disse...

Vénia, cortesia, tudo aquilo que isto merece.
Não resisti a transcrever pedaços na Gota.

Helena disse...

Rita: :)

Teresa: já vi. Obrigada! Também são as minhas partes preferidas.
Embora também tenha sido um interessante exercício imaginar-me a fazer uma coisa destas para homens. E imaginar a cara deles no momento de pagar...

Marianne disse...

Genial, pronto. (E eu continuo incrédula com a presunção do senhor, pronto!!)

Jonas disse...

Eu não consumo o blog em causa, pelo que só me apercebi da coisa pelo bruá dos blogs que sigo :)

Na realidade não tenho nada contra, a bem dizer o senhor está, presumo, a tentar criar uma marca, um bocadinho por arrasto da marca criada pela Pipoca. Hey....se ela trabalha numa fórmula que funciona, porque é que ele não há-de trabalhar a mesma fórmula, mas para outro target?

Imbecis ou distraídos que compram pulseiras power balance há por aí aos molhos, pelo que me parece que a estratégia até tem potencial para correr bem.

Ou então, esta coisa dos workshops, por ser tão palerma, é uam tentativa do senhor de se descolar da imagem de "o marido da pipoca", se calhar prefere ser conhecido pelo "senhor dos workshops ranhosos" :)

Só lê o blog quem quer e só frequenta um workshop quem quiser :)

Helena disse...

Marianne, tal e qual como eu.

Uma vez ouvi brasileiros a falar de uma maquininha com um nome engraçado, que pelos vistos ele não tem. Infelizmente já me esqueci do nome. Seria "se-tocômetro"? "desconfiômetro"?

A ver se me lembro do nome certo, para juntarmos dinheiro para lhe oferecer uma...

Helena disse...

Jonas,
eu a enfiar várias carapuças...
;-)

Pois, eu leio esse blogue por um estranho fenómeno de atracção pelo abismo. Um dia destes passa-me.

Quanto às pulseiras power balance: fizeram-me uma demonstração, e eu fiquei convencida. Só não comprei porque não se me atravessaram no caminho...
(Sim, eu sei, podes rir à vontade.)

Jonas disse...

Mas....mas.....mas....... como é que se demonstra uma pulseira? :)

A sério..... ou o sales argument era muito bom, ou não percebo como é que a tua inteligência superior (e não estou a ser irónica) não cheirou o esturro :)

Helena disse...

Jonas, eu no próximo verão compro e depois mostro-te.
;-)

Raquel Fernandes disse...

Genial, de verdade genial. Eu inscrevia-me já, até pode ser online...

CCF disse...

Eh, eh...também não costumo ler o senhor. Mas achei que era tudo uma piada, pelo menos eu ri-me. Será que é mesmo a sério? Se ele se leva mesmo a sério e leva isso a sério, tem ainda mais graça, e podemos rir dele à vontade. Tivesse eu tempo e não custasse dinheiro e ia lá dar uma boas gargalhadas, ou seja gozar valentemente com o professor.
~CC~

Helena disse...

Raquel, basta ir lendo o blogue do senhor. Está cheio de banalidades sobre o amor, sobre a vida de casal, e coisas assim. Se calhar ele aceita posts pedidos.

CCF, ahem... acho que não foi imaginado como piada.
Por acaso era boa ideia irmos todos lá ouvi-lo a explicar como é que a gente sabe se o homem está a fim de uma coisa séria ou se só quer sexo. 1 ou 0. hihihihi.

maria disse...

valhamedeuses...isto são efeitos das bolinhas de berlim, fofa Helena?

mas olha que...tá aí um bem segmento de negócio! não sei se te diga se te conte.

Parabéns, tá demais!

Jonas disse...

Opá...... mas isso era fantástico, termos lá uma infiltrada que twitasse o workshop. :)

Ninguém alinha?

Helena disse...

hahahaha
Tínhamos de fazer uma vaquinha das grandes: quanto é preciso pagar a uma pessoa para ela ir ouvir isso durante cinco horas inteiras?

Mas que ia ser uma twitada fantástica, lá isso...

Jonas disse...

Acreditem ou não....fui mesmo ver os horários e essas coisas......

Confesso que me passou pela cabeça, e continuo a achar que a ideia seria divertida, mas..... tendo tido na minha vida recente acontecimentos (mortes e derivados) que me fizeram ponderar sobre a forma como gasto o meu tempo, penso que roubar 5 horas a mim e à minha família não justificam a coisa. Não nesta fase da minha vida.

Há 1 ano, era menina para lá ir. Hoje não.

Deve ser isto, a idade.

Ana disse...

Olá!

Nunca comentei nem sequer conhecia o teu blog (tristemente). Vim cá dar pelo link que vi num outro blog para este teu (genial) texto.

Antecipo o meu pedido de desculpas por, à primeira vez que comento, vir logo pedir favores, mas era só para, no final do teu workshop com sucesso garantido, reencaminhes para mim os participantes. É que eu sou psicóloga e na impossibilidade de tratar o idiota (no sentido literal do termo, atenção) que se lembrou disto, uma vez que não podemos forçar ninguém a tratamento, gostava muito de ajudar quem estiver disposto a ser ajudado.

Obrigada!
(Pelo texto que escreveste e, antecipadamente, pelo número de pessoas que sei que irei receber. ;))

PS: Uma última achega apenas para dizer que, no fundo, o fulano está a conseguir o que quer: que falem dele. Nestes casos lembro-me sempre de um professor da faculdade que dizia "os meus alunos hão-de lembrar-se de mim para sempre, seja pelos bons ou pelos maus motivos, não quero saber." E é isto.

Rita Maria disse...

Eu não vou que com a idade estou a ficar com o estômago sensível mas se a hashtag for #emproadinho contribuo generosamente para a vaquinha.

Raquel Fernandes disse...

Helena eu inscrevia-me no SEU workshop :) O texto está fabuloso. Naquele não, por favor...

Helena disse...

Jonas, a idade deu-te mais cedo do que devia! Perdeu-se aqui uma twitada genial. Caramba, a galhofa que ia ser!
(Tu aguentavas twitar lá na sala sem rir?)

Rita, também estás a envelhecer a toda a brida? Ai que esta gente só me desilude.

Ana,
pois é, pois é. Foi a primeira coisa que pensei: pessoas que acham que as coisas se resolvem dando um jeitinho à imagem, e que estão dispostas a mudar-se para conseguirem conquistar "o tal", precisam muito de ajuda.

Raquel,
o meu workshop é só para homens com problemas graves de entendimento de si próprios. Não me diga que faz parte desse grupo? ;-)
(Obrigada pelo "fabuloso" - praticamente foi só copiar, e trocar homens por mulheres e vice-versa)

Helena disse...

Ana, um último comentário: estou como a snowgaze - acredito que a estas horas ele já se arrependeu, e muito, da ideia brilhante que teve.

Teresa disse...

Helena, não se arrependeu, é só ires aqui (não precias de fazer like, lês na mesma, passas ao mural):

http://www.facebook.com/pages/O-Arrumadinho/186702234712102

Eu e umas amigas ainda ponderámos disfarçar-nos de arbustos (ideia escandalosamente roubada ao Astérix) para ir assistir. Mas concluímos que o crime não compensava. Das duas, uma: ou vomitávamos ou tínhamos incontroláveis ataques de riso. Nenhuma das hipóteses era boa.

Teresa disse...

Mais especificamente:

http://www.facebook.com/pages/O-Arrumadinho/186702234712102?sk=wall

Helena disse...

É mesmo verdade!
E ele não se toca.
Teresa: leste o post do Tolan?
É genial.

http://tolanbaranduna.blogspot.com/2011/12/workshop-tolan.html

Teresa disse...

E mais este:

http://opistoneacabecadohomem.blogspot.com/2011/12/como-conquistar-o-homem-dos-meus-sonhos.html

Teresa disse...

Estava justamente a lê-lo agora. Ah ah ah!

Izzie disse...

Teresa, adorei o do Piston. Bruto e conciso.
E por falar no face, uma pessoa foi lá perguntar-lhe se tinha alguma certificação CAP para dar formação, e dizer que aquilo era aldrabice. Hoje já lá não está o comentário. Eu até perguntaria mais: tem alguma habilitação para fazer (psico)terapia de grupo?´Cada vez mais me convenço que é um caso sério de banha de cobra.

Helena disse...

Teresa,
o Piston também é fantástico.
Caramba, o mundo está cheio de homens interessantes!
Só o Tolan e o Piston redimem mais de mil Arrumadinhos que possa haver. Embora eu desconfie que o Arrumadinho é um caso único. Ou não?

Rita Maria disse...

Haha, querias. Recomendo releitura da caixa de comentários do post sobre a relações públicas de peitoralidade generosa.

Conta os homens e depois conta as mulheres, supõe um filho rapaz por cada duas e faz às contas à quantidade de anos em que ainda vão existir homens a pensar assim...

Helena disse...

Izzie, vai lá ler no facebook: aquilo é tudo saber de experiência feito. Se resulta por e-mail, resulta por workshop. Não te ponhas com esses alvitres, até parece que trabalhas para a ASAE... ;-)

Rita,
snif snif

Stiletto disse...

Que rico post! Amei!

Teresa disse...

Helena, cada vez penso mais que o Arrumadinho é caso único. Felizmente.

Izzie, eu já te tinha dito que no caso dele o que me parece mais recomendável é a portanálise.

Rita, lembras muito bem esse da relações públicas. Mais uma triste figura. Que depois veio contar, convencido de ter estado muito bem, e à espera de aplausos. E recebe sempre alguns daquela carneirada, claro.

Catarina disse...

Izzie, fui eu que lhe deixei esse comentário a perguntar se tinha CAP, mas não falei em aldrabice. Disse é que aquela situação revelava oportunismo. E revela. Primeiro, não é como ele diz que quem tira o CAP são os desempregados inscritos no centro de emprego... o CAP serve para garantir a qualidade de um serviço pelo qual se paga! Qualquer pessoa pode tirá-lo. Para mimné uma aldrabice dar-se um formação sem se ter qualificações para tal. Nem sei como é que ele não se lembrou de cobrar como um psicólogo.... enfim, enfim. Presunção e um ego inchado não lhe faltam.