03 março 2011

um crime perfeito

Imagine-se que um político sem tempo quer conquistar um título académico, e arranja para isso um ghost writer (parece que os há muito nas universidades, põem anúncios do género "tutor oferece-se"). Imagine-se que o ministro é de direita, e o ghost writer é o último resistente de uma antiga estirpe de anarquistas. Um génio da academia, por sinal, mas precisando de recorrer a estes expedientes para pagar o tratamento homeopático da sua esposa que padece de doença crónica.
Imagine-se o momento em que o ghost writer, num desvario de cinismo, tem o desplante de copiar inclusivamente a frase que abre a introdução ao trabalho. Imagine-se a câmara parada sobre a expressão de gozo no seu rosto.
Muitos anos mais tarde, quando o político já é ministro, o ghost writer (o anarca) cria as condições para que o caso se descubra. O político não pode dizer que o culpado do plágio era, afinal, outro.

O filme continua. Quem quer imaginar o próximo capítulo?

(Não, não estou a sugerir que o Guttenberg tal e coisa. Estou apenas a imaginar um filme para lá daquilo que vimos - e, confesso, um pouco também a partir de certas formulações dele no Parlamento: em vez de dizer "eu não copiei propositadamente" optou várias vezes por uma terceira pessoa incerta, do género "não se agiu com dolo". Eh, lá!)

14 comentários:

Paulo disse...

Eh lá! Temos filme. O ar aristocrático de Colin Firth encaixa no papel.

Helena disse...

E quem escolhias para anarca justiceiro?

Paulo disse...

Bruno Ganz.
E o realizador? E a Frau Merkel?

Helena disse...

Também pensei no Bruno Ganz - ou é a pessoa ideal para o papel, ou estamos telepáticos.
Quanto ao realizador, apetecia-me Tarantino, só para dar muito imprevisto a este enredo banal.
Quanto à Merkel, deixa cá ver, uma pessoa apagada, sem substância, "teflon" como dizia o outro, sem visão nem missão...
Ou alguém muito bom, para conseguir interpretar o vazio (Meryl Streep, Helen Mirren) ou então uma galdéria qualquer. Basta-lhe não ter conteúdo, fazer uma cara de contrariada, revirar os cantos da boca para baixo, já está bem. Acho que até eu conseguia interpretar esse papel. Vou já pintar o cabelo de loiro.

Paulo disse...

Ganz é a escolha perfeita. Está decidido. Tarantino também me parece muito bem e Meryl Streep é a solução óbvia. Se ela não estiver disponível podemos passar ao plano B: a actriz que franze a testa e revira os cantos da boca. Mas escusas de pintar o cabelo, que a Sofia Alves, com uma boa caracterização, deve dar conta do recado.

Cristina Torrão disse...

No meio desta polémica toda, quer-me parecer que todos se esquecem das responsabilidades da Universidade de Bayreuth. Sim, o ex-ministro terá sido trapaceiro. Mas, se o plágio era tão evidente, como é que a Universidade deixou passar a coisa? Não é suposto as teses de doutoramento serem examinadas? Quem foi o responsável que deixou passar isto? E não é hábito o doutorando defender a sua tese oralmente? Também aí ninguém deu pelo gato?!

Estranho, muito estranho! E acho injusto que o homem, apesar de trapaceiro, seja considerado o único responsável. A análise do caso tem que passar pela Universidade de Bayreuth! Examinou a tese, deu-lhe o título com distinção! Na minha opinião, a grande responsável!

sem-se-ver disse...

viste o escritor fantasma, do polanski, certo?

(grande filme)

Helena disse...

Grande filme, sim, mas o justiceiro que há em mim sentiu-se um bocadinho frustrado no final.

A. Castanho disse...

Temos aqui o famoso caso BPN/BPP e o virar do bico ao prego das culpas para a "regulação" do BdP/Vítor Constâncio. Ora essa, mas então quando se assalta uma casa a culpa deve ser repartida, se calhar "a meias", pelo ladrão e pelo guarda-nocturno? E, já agora, também pelos outros moradores do prédio, que estavam a dormir em vez de estarem vigilantes quanto aos ruídos dos apartamentos dos vizinhos?!


O trapaceiro é o trapaceiro. Nunca o deveria ter sido! Assunto encerrado. Ponto final, parágrafo.


Se a Universidade também fica chamuscada ou não, é outro assunto. Discutam-se os dois, sim, mas por favor não ligados entre si, nem no mesmo texto.


E agora vou ali depressa retirar o meu carro de cima da passadeira, não porque tenha pena da senhora que não consegue passar com o carrinho-de-bébé, mas porque estou a ver um Polícia de trânsito (e vou-lhe já dizer que ele é que é o culpado, por não estar lá quando eu cheguei, de eu ter estacionado mal, por isso ele é que deve pagar a multa, se ma conseguir passar...)!

Helena disse...

Sim, o trapaceiro é o trapaceiro. Sem dúvida.

O que eu acho fascinante neste filme que inventei é que um ghost writer possa levar a cabo vinganças sem ser apanhado, porque para o apanhar é preciso que o trapaceiro se enterre ainda mais. Quer dizer: entre "de facto, devia ter sido bem mais cuidadoso a referir as minhas fontes" e "o meu summa cum laude foi escrito por outro!" vai uma grande distância.

Se estamos a falar do Guttenberg: acredito que a Universidade esteja a "rezar" para que não se descubra o ghost writer, caso exista. E muita razão tem o jpt, do ma-schamba, a dizer que é preciso que estes trabalhos tenham um acompanhamento muito diferente por parte da universidade.

Cristina Torrão disse...

A. Castanho, eu não defendi o trapaceiro. O trapaceiro é e será sempre um trapaceiro. Numa pessoa que faz o que fez o Guttenberg não se pode confiar, nisso estamos de acordo. Eu quis chamar a atenção para as responsabilidades da Universidade, pois tenho a impressão de que ainda ninguém se lembrou disso. Uma tese de doutoramento é (ou devia ser) examinada por quem entende do assunto, o examinador também tem a internet e as máquinas de pesquisa à sua disposição. Por isso, que faça o seu trabalho! No fim, ainda é dada uma nota por um júri, que, neste caso, foi alta!!!

Não está em causa passar uma multa a quem infringe o código ou responsabilizar um guarda-nocturno por um assalto. Mas, sim, exigir responsabilidades em quem pactua com uma vigarice. Se eu sei de um crime (um assassínio, por exemplo) e não o denuncio, arrisco-me a passar por cúmplice.

A Universidade de Bayreuth é cúmplice, ponto final!!!

P.S. Como escritora, odeio o plágio!!!

sem-se-ver disse...

não chego ao ponto de considerar a universidade cúmplice (nã exageremos, só o seria se tivesse deixar passar em silêncio um plágio por ela detectado), mas sim displicente e negligente. mas, atenção, à velocidade astronómica a que são produzidas teses de mestrado e doutoramente por esse mundo fora, acho cada vez mais difícil esse tipo de controle.

(pelo que voltamos sempre aos motivos e intenções, dolosos, do autor)

a castanho, desculpe, mas foi um mau (péssimo) exemplo, o seu. porque o BdP tem como MISSÃO e OBJECTIVO regular, pelo que a FISCALIZAÇÃO é um dos seus deveres. a incompetência (dando o benefício da dúvida de que se tratou simplesmente disso) que por ali grassou quanto aos casos BPN (em particular) e BPP foi criminosa - e não é força de expressão, veja-se o que já se injectou no BPN, saído dos cofres do Estado.

helena,
o teu 'filme' é óptimo, tinha-me esquecido de o dizer. mas o que mais amei do escritor fantasma foi mesmo o final... :-)

Helena disse...

sem-se-ver,
também gosto muito de imaginar a perversão desta história: um trapaceiro que não pode deitar as culpas para o verdadeiro trapaceiro, porque aí descobre-se que a trapaça ainda era maior!

Para todos,
alguém me confidenciou que o professor responsável pelo acompanhamento desta tese será um velhote sem grande pachorra para fazer esse tipo de pesquisas na internet.
Reparem que dois ou três dias depois da revelação do caso, o Spiegel falava de apenas 10 parágrafos copiados. Dez parágrafos em quase 500 páginas.
Só quando o pessoal da internet começou a passar o trabalho a pente fino é que se descobriu (rapidamente) o resto. Ora, se em dois dias o Spiegel só aponta 10 frases, mesmo sabendo que há plágio, o que é que um professor velhote será capaz de descobrir numa pesquisa tipo pro forma?

Chamo de novo a atenção para o que diz o jpt: o fundamental é que o professor acompanhe o doutorando, com tempo, empenhamento, controle. Não é chegar ao fim e meter o trabalho na internet a ver se há alguma coisa copiada. Além disso, há 7 anos (acho que foi quando esse trabalho foi feito) a internet não é o que é hoje.

Finalmente: admito que fosse um bocado difícil ocorrer a um professor bávaro que aquele aluno (de uma família cheia de pergaminhos, com aquele nome, aquela história, etc. etc. etc.) ia fazer uma burrice tão grande. É que ele tinha realmente muito a perder - mesmo antes de ser ministro.

A Universidade falhou, sem dúvida, e com certeza terá aprendido imenso com este episódio. Mas parece-me que no máximo falhou por preguiça e falta de conhecimento de técnicas actuais de controle.

A. Castanho disse...

"sem-se-ver", o meu exemplo não é mau, muito menos péssimo, é antes paradigmático porque paradigma de uma contradição suprema, que a "sem-se-ver" mais uma vez reproduz: se a sua missão é fiscalizar, diga-me então como é que se fiscaliza o crime de colarinho branco ao seu mais sofisticado nível? Tem a mínima noção do que está a afirmar? Aceitaria chamar "criminoso" ao pobre polícia londrino, que por norma até trabalha desarmado, que não conseguisse impedir sózinho um atentado da Al Qaeda?


Teste máximo: se escolhe "criminosa" para qualificar a suposta inoperância do Banco de Portugal, diga-me sem rodeios qual então o adjectivo que considera mais adequado para os próprios criminosos?