20 dezembro 2016

Arschlöcher! (Berlim, 19.12.2016)



Todos sabíamos que mais cedo ou mais tarde seria a vez de Berlim. Foi ontem. De momento contam-se 12 mortos e 48 feridos.

Esta é a praça onde aconteceu a tragédia. Tirei a fotografia recentemente - é um sítio onde passo com muita frequência. Mesmo assim, não me sinto pessoalmente afectada, nem penso que "escapei" ou que podia ter sido eu a vítima. Sinto apenas uma enorme compaixão para com as vítimas e os seus familiares. Espero que os médicos consigam salvar a vida de todos os feridos.





As imagens que tirei do site do Bildzeitung informam com clareza sobre o local e o percurso do camião.  Parece que o condutor é um paquistanês de 23 anos que entrou na Alemanha como refugiado há cerca de um ano. Terá roubado o camião a um motorista polaco, e terá passado duas horas a aprender a conduzi-lo.

Quando me marquei como segura no "incidente violento em Berlim", do facebook, a amiga com quem estava em Paris no 13 de Novembro perguntou se agora ando a "coleccionar isto". A gente ri. E vai continuar a rir. Eles que nem pensem que nos tiram a alegria. Hoje vou ao Lunchkonzert na filarmonia, como combinei ontem com uma amiga. E se o mercado de Natal da Potsdamer Platz estiver aberto, vou lá almoçar. Teimosamente. 

Não vou dizer que a vida continua, porque não é isso. A vida é. 
E não concedo a estes Arschlöcher o poder de a castrar.

No meio do choque, penso também em Bagdad. Quando terá sido o ataque terrorista mais recente naquela cidade? A wikipedia em alemão mostra uma lista de todos os ataques terroristas. Em português, mostram apenas os ataques ao mundo ocidental - o habitual "eles contra nós". Prefiro a perspectiva alemã: ataques contra a Humanidade.

Ontem à noite tive uma sensação de déjà-vu: ouvia a televisão na sala, e acompanhava a sucessão das notícias na internet. Como há 15 anos, na Califórnia, quando passei o dia 11 de Setembro sentada em frente a duas televisões ligadas lado a lado. As diferenças:
não mostraram vítimas; reportaram de forma relativamente calma; falaram na grande probabilidade de ser um ataque terrorista, avisando que ainda não está 100% confirmado, e que darão informações à medida que as forem recebendo da polícia; alertaram para o risco das fake news na internet; tiveram muito cuidado para não criar um pânico generalizado, e lembraram o que aconteceu em Munique - muito se aprendeu com os erros cometidos no dia do amok num centro comercial.

Esta manhã levei o meu marido ao trabalho, passámos muito perto do mercado e depois na rotunda onde prenderam o condutor. No Parlamento e na Chancelaria ainda não tinham as bandeiras a meia haste. Levei o carro à oficina. A cidade estava calma, e os condutores mais pacientes e atentos uns aos outros do que habitualmente. Atravessei Wedding, com a sua imensa quantidade de prédios dos anos 50 e 60 a lembrar que há 70 anos aquele bairro viveu o que hoje está a acontecer em Aleppo. Esta cidade sabe o que é ser bombardeada, sabe o que é fugir ao horror e ser ajudado. Não há como não ajudar quem está a passar pelo mesmo.
 

Na rádio Fritz, uma emissora berlinense para um público mais jovem, alternavam música com informações e comentários. Na meia hora do percurso até ao trabalho ouvimos que o camião estava nesse momento a ser levado da praça, e o apelo para que as pessoas não tirassem fotografias e muito menos as pusessem na rede. "Por piedade", disseram. Por respeito aos familiares das vítimas, para não serem confrontados com o objecto do crime. Já ontem a polícia tinha apelado para que as pessoas não filmassem cenas da praça, por respeito pela privacidade das vítimas. Um jornalista que, por coincidência, estava junto ao local quando a tragédia aconteceu, filmou com o telemóvel o trajecto do camião enquanto ia fazendo comentários. Teve o cuidado de não filmar os corpos dos mortos e feridos. No filme vê-se que foi insultado por várias pessoas por andar ali a filmar, e uma delas chegou a atirar-lhe o telemóvel para o chão.

Os locutores da Fritz falavam do seu próprio choque, e tentavam encontrar palavras de esperança: uma pessoa cometeu um acto desta violência, mas os sete ou oito mil milhões restantes não fizeram nada. Lembram o evidente: aquele condutor será antes de mais um idiota, um Arschloch, uma pessoa doente, um psicopata - e só depois uma pessoa de determinada nacionalidade ou religião.
Falam da rapidez quase inacreditável
com que a cidade recupera a normalidade. Ainda antes das oito da manhã já se acendiam as primeiras luzes nas lojas à volta da praça. E criticam duramente os aproveitamentos xenófobos e oportunistas que imediatamente surgiram na rede: alguém pôs a fotografia de uma pessoa com ar de estrangeiro, que se estava a rir na praça, e a legenda: "os emigrantes riem-se!" Por sua vez, a AfD declarou sem perda de tempo que estes são "os mortos da Merkel".


Agora termino este post e vou à minha vida: primeiro uma volta com o cão, e depois Filarmonia. 
Talvez vá também à exposição da Pina Bausch.

Lembro o Caetano a fechar uma canção:
"Navegar é preciso, viver!"


4 comentários:

Conde de Oeiras e Mq de Pombal disse...


Centrar o problema da violência urbana em questões sociais, raciais, religiosas, históricas, ou políticas é sempre muito redutor.

E é até a melhor forma de não se querer perceber a sério este terrível fenómeno da violência irracional, que me parece muito mais profundo e preocupante do que aquilo que se pensa e diz - e basta ver como sempre ficamos sem palavras quando acontece, por motivos "fúteis", numa Escola ou numa Universidade, sobretudo na América, onde este fenómeno é mais frequente entre adolescentes e jovens - e que carece de uma abordagem muito mais séria e consequente do que a mera especulação apaixonada a que quase sempre dá lugar, após as tragédias.

Tenho a nítida sensação de que a violência impregna hoje toda a comunicação dita social, a começar pelos "inocentes" desenhos animados, quando o meu inocente de oito aninhos me começa a pedir pistolas e a dizer que gostava de ir viver para a Suíça, porque ouviu dizer (vá lá eu saber onde...) que não tem Exército, porque lá toda a gente tem armas em casa para se defender dos "maus".

Isto é deveras preocupante...

Maria do Ceu disse...

É com alegria (até mesmo uma alegria-egoísta) que constato que tu e aqueles que amas estão bem.

Tudo "o mais" passa a ser um tempo de silêncio e prece.

E Não.
Não podemos fingir que não temos medo.
Não podemos deixar-nos tomar pelos medos.

Vida. Natal!
Grande Abraço!

Helena Araújo disse...

Um abraço, Céu. Obrigada.
(Hoje passei horas nos transportes e espaços públicos. Não pressenti medo em lugar algum. Esta gente de Berlim é rija.)

Teresa disse...

Deus te proteja sempre, Helena. A tua clara simplicidade e a tua cristalina alegria são um exemplo.
Ah, como vou aproveitar o teu presente de Natal! :)
Grande beijo.