27 janeiro 2016

ai que horror, esta semana o Holocausto é na Dinamarca...

Junto-me ao coro dos que criticam o parlamento dinamarquês por ter aprovado regras muito mais restritas para a entrada de refugiados no país, sem se incomodar ao menos em esconder que o faz para evitar que os refugiados continuem a entrar ao ritmo actual.

Sem sequer mencionar a cruel decisão de impedir durante 3 anos a reunião de membros da família, esta decisão de confiscar o dinheiro e os bens dos refugiados:
- é desumana e insensível em relação a essas pessoas que fogem para salvar a própria vida, têm de se instalar numa terra desconhecida e alheia, estão numa situação de extrema precaridade e não sentem qualquer espécie de segurança;
- é perigosa para os nossos Estados, porque representa uma cedência a um discurso egoísta e xenófobo, em vez de apelar para os valores que dizemos serem os europeus;
- é estúpida (e falo agora numa perspectiva muito egoísta e de mero bom senso) porque afasta do país os refugiados com mais posses, que são em princípio aqueles que têm uma profissão e um nível social que mais nos convêm. Com estas leis, a Dinamarca consegue uma triagem pela negativa: só atrai pessoas sem vínculos familiares, sem dinheiro e sem perspectivas. Mesmo correndo o risco de generalizações injustas: aqui está o retrato robot dos homens que fizeram os ataques em Colónia.

Dito isto, tenho de criticar também os que tão facilmente recorrem a palavras sonantes como "nazi" e "Holocausto". Isto não é o Holocausto, nem sequer o seu princípio, e o Parlamento dinamarquês não tem uma agenda nazi. Há diferenças substanciais entre o nazismo e um egoísmo nacional.
O uso abusivo e ignorante destas palavras esvazia-as, e é uma ofensa às vítimas do Holocausto e das outras perseguições perpetradas pelo regime nazi. Ao menos por ser hoje o 71º aniversário da libertação de Ausschwitz, sejamos capazes de medir melhor as palavras.

Enquanto gritamos "nazi!" e "Holocausto!" apontando o dedo aos dinamarqueses, podemos esquecer a nossa própria responsabilidade e culpa. A Dinamarca foi deixada sozinha com o seu problema. O país de 5,6 milhões de habitantes já tem 21.000 pedidos de asilo (site alemão), uma das maiores cargas per capita da Europa. A Grécia está a ser fortemente pressionada pela UE para impedir a chegada de mais refugiados. Perante uma tragédia desta dimensão, cada país é abandonado à sua sorte, e criticado pelos outros. Confesso que não sei o que mais me choca: se as medidas aprovadas pelo Parlamento dinamarquês, se a hipocrisia de quem critica a partir da posição confortável de habitante de um país que não se debate com este problema. Mais: será que já nos esquecemos todos da nossa própria História recente, nomeadamente quando a Europa não soube resolver o problema dos imigrantes africanos, deixando que continuassem a morrer no Mediterrâneo? A Europa não começou a morrer hoje na Dinamarca, já morre há vários anos em Lampedusa. E antes disso em Melilla. E nem aí se trata de uma deriva nazi e de um Holocausto: nenhum governo europeu quer deliberadamente "acabar com a raça aos pretos e/ou aos árabes". Os governos, e muitos de nós, só querem que eles continuem a morrer longe e não nos chateiem. Chamemos as coisas pelo seu nome: comodismo de ricos, desinteresse, egoísmo nacional. E estamos todos enterrados nisto até ao pescoço. Que ninguém se iluda apontando o dedo à Dinamarca.

A criação de opinião pública às vezes tem fenómenos curiosos. Nas redes sociais, o Canadá parece ser o país modelo no acolhimento aos refugiados. Até passam um vídeo bonitinho, no qual o novo primeiro-ministro dá as boas-vindas a um grupo de refugiados. Não dá para acreditar: o país que só recentemente aceitou subir para 50.000 o número de refugiados acolhidos até fins de 2016, que faz casting de refugiados (só famílias, mulheres e crianças; homens, só os perseguidos devido à sua orientação sexual - não sei se estão a ver o filme: se fosse a Dinamarca, provavelmente iriam dizer que até parece a selecção em Auschwitz), e que se permite atrasar - em pleno inverno! - a entrada dos refugiados porque, devido aos atentados em Paris, quer verificar muito bem a sua identidade previamente - este país é considerado o modelo. E a Dinamarca, que até agora teve as fronteiras escancaradas para quem precisa e não para quem lhe dá jeito, quando resolve pressionar os outros países da UE para que se cheguem à frente e façam também a sua parte, é acusada de deriva nazi. Pelos que não fazem a sua parte.  

2 comentários:

Filipa disse...

Helena, se por um lado, concordo no que diz em relação à Dinamarca (realmente, parece que não pensam), por outro lado, considero a atitude do Canadá a mais sensata.

Acolhem os mais liberais (gays e, claro, lésbicas), os menos passíveis de considerarem que uma boa maneira de passar uma sexta-feira é matarem pessoas de forma cobarde e que poderão formar relações com outros canadianos (mulheres, mais ou menos liberais) e aqueles que melhor podem aderir aos valores do país (crianças).

Admito desde já que não sinto qualquer respeito por crenças que consideram que as mulheres são seres inferiores e muito menos me interessa se justificam essa histeria patética invocando divindades. Por isso, não, não dou pulos de alegria ao saber os números de homens muçulmanos prestes a entrar na Europa.

Não vejo, em nenhum dos orgãos de informação que leio, nenhum movimento islâmico apostado em debater a sua religião.

Claro que os crimininosos de Colónia representam uma minoria, mas também é inegável que pertencem a uma cultura que incentiva tais comportamentos.

Os governos europeus parecem andar cada um para seu lado, como galinhas decapitadas. Uma solução concreta passa, claro, por um acordo, mas talvez a solução do Canadá não seja a pior.

Helena disse...

Filipa,
parece-me que no que diz respeito à Dinamarca estamos todos de acordo: é inadmissível.
Já a atitude do Canadá pode parecer sensata, mas é de um egoísmo atroz. Independentemente da sua religião e do seu contexto cultural, todas as pessoas que estão em fuga para salvar a vida têm o direito a ser ajudadas.
Este casting que o Canadá faz é indecoroso. Para eles poderem ficar com os refugiados "fáceis", outros países vão ter uma percentagem muito maior de refugiados "difíceis".
Se cada país pudesse escolher os que dão jeito (os que têm as melhores profissões, as famílias, as mulheres e crianças, os cristãos, os ateus, etc.), que seria dos restantes? Vamos devolver ao mar os homens solteiros muçulmanos?
Quanto aos perigos da religião muçulmana e do contexto cultural das pessoas que estão a chegar à Europa: lembro-me muitas vezes da frase de uma adolescente alemã na época nazi, algo como "todos os judeus são maus, excepto o senhor Rosenstein, que é meu vizinho".
Nós tememos o que desconhecemos. A solução não pode ser rejeitar o desconhecido, tem de passar por nos darmos ao trabalho de o ir conhecer. E não é conhecer nos livros e nos jornais, é ir conhecer as pessoas concretas, falar com elas. Vamos acabar por perceber que são todos como o senhor Rosenstein. E para os outros, os "maus", há o direito criminal, igual para todos.
Não podemos é fechar as portas a estas pessoas que precisam desesperadamente da nossa ajuda, só porque temos medo da sua religião e do seu contexto cultural. Os quais, diga-se de passagem, não são muito diferentes do que acontece em alguns sectores da nossa própria sociedade.
Penso que a integração é possível, se nos dermos todos ao cuidado de falar uns com os outros, e de aprender uns com os outros. O que me dizem as pessoas que trabalham com refugiados, aqui em Berlim, é que os refugiados estão muito gratos, têm uma vontade imensa de se integrar bem nesta sociedade, e nos dão muitas lições de vida (há tempos escrevi aqui sobre isso: http://conversa2.blogspot.de/2016/01/historias-de-berlim-um-centro-de.html )

Sobre os criminosos de Colónia: fala-se cada vez mais em ser um tipo concreto de refugiados - parece que não vieram para escapar à perseguição política, mas ao direito criminal do seu país. Agora, imaginemos que se juntavam em Colónia 50 rapazes portugueses que tinham conseguido fugir da cadeia em Portugal: seria justo que os alemães, a partir do comportamento dessa "selecção especial", tirassem conclusões sobre a sua cultura de origem?

Quanto aos governos europeus a andar cada um para seu lado, como galinhas decapitadas: magnífica imagem! É isso mesmo.