14 março 2013

Francisco

Do site do Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura:

Apontamentos para um perfil:

(...) Asceta e austero, o novo arcebispo ignora a pomposa residência episcopal da capital argentina para viver sozinho num pequeno apartamento perto da catedral e recusa carro com condutor em detrimento do autocarro e do metro.
Apesar da saúde frágil – extraíram-lhe parte do pulmão direito aos 20 anos – leva uma vida ascética e levanta-se às 4h30 da manhã para um dia de trabalho que começa sempre pela demorada leitura de uma imprensa a quem não deu mais que uma entrevista. O novo papa é conhecido por falar pouco mas ouvir muito.
Grande leitor, sobretudo de romances russos, com Dostoievsky à cabeça, e o seu compatriota Borges, aprecia também ópera e é um fervoroso adepto do San Lorenzo, um dos grandes clubes da capital argentina, fundado em 1908 por um padre.
Dos seus anos de pároco em Buenos Aires e na montanha guardou um forte sentido pastoral. Não desdenha confessar regularmente na sua catedral e faz tudo para estar próximo dos seus padres, para quem abriu uma linha telefónica direta. Não é raro vê-lo tomar uma sandes ao pequeno-almoço num restaurante com um dos seus sacerdotes.
Em 2009 não hesitou ir morar num bairro de barracas, em casa de um dos seus padres, então ameaçado de morte pelos traficantes de droga.
Em 2001 foi criado cardeal por João Paulo II. No mesmo ano a sua humildade impressionou os participantes no sínodo sobre o papel do bispo, em que foi relator adjunto, em substituição do cardeal Egan, arcebispo de Nova Iorque, chamado à cidade por causa dos atentados de 11 de setembro.
Tendo feito da pobreza um dos seus combates, este crítico aceso do neoliberalismo e da globalização tornou-se uma autoridade moral incontestável na Argentina e no exterior. Ao ponto de ser hoje, num país onde a oposição política é quase inexistente, a única verdadeira força a opor-se ao regime de Kirchner, de que não cessa de denunciar o autoritarismo.
Em 2005 a imprensa aliada de Kirchner acusou o padre Bergoglio, provincial dos Jesuítas durante a ditadura, de ter denunciado dois dos seus religiosos, que foram presos e torturados. Outros testemunhos, pelo contrário, lembram as energias que despendeu para conseguir a sua libertação.



Mensagem quaresmal do cardeal Jorge Mario Bergoglio (papa Francisco)
Buenos Aires, 13.2.2013, Quarta-feira de Cinzas


«Rasgai os vossos corações e não as vossas vestes,
convertei-vos ao Senhor, vosso Deus,
porque Ele é clemente e compassivo,
paciente e rico em misericórdia» (Joel 2, 13)

Pouco a pouco acostumámo-nos a ouvir e ver, através dos meios de comunicação, a crónica negra da sociedade contemporânea, apresentada quase com perverso regozijo, e também nos acostumámos a tocá-la e a senti-la em torno de nós e na nossa própria carne.
O drama está na rua, no bairro, na nossa casa e, por que não, no nosso coração. Convivemos com a violência que mata, que destrói famílias, aviva guerras e conflitos em muitos países do mundo. Convivemos com a inveja, o ódio, a calúnia, o mundanismo no nosso coração. 
O sofrimento de inocentes e pacíficos não deixa de nos esbofetear; o desprezo pelos direitos das pessoas e dos povos frágeis não nos são tão distantes; o império do dinheiro com os seus efeitos demoníacos como a droga, a corrupção, o tráfico humano - incluindo crianças – a par da miséria material e moral são moeda corrente.
 A destruição do trabalho digno, a emigrações dolorosas e a falta de futuro unem-se também a esta sinfonia. Os nossos erros e pecados como Igreja também não ficam fora deste panorama.
Os egoísmos mais pessoais justificados, e não por causa disso menores, a falta de valores éticos dentro de uma sociedade que faz metástases nas famílias, na convivência dos bairros, vilas e cidades, falam-nos da nossa limitação, da nossa debilidade, e da nossa incapacidade de transformar esta lista inumerável de realidades destrutivas.
A armadilha da impotência leva-nos a pensar: Será que faz sentido tentar mudar tudo isto?  Podemos fazer algo diante desta situação? Vale a pena tentá-lo se o mundo continua a sua dança carnavalesca disfarçando tudo por um tempo? No entanto, quando a máscara cai, aparece a verdade e, embora para muitos soe anacrónico dizê-lo, reaparece o pecado, que fere a nossa carne com toda a sua força destrutiva, desfigurando os destinos do mundo e da história.
A Quaresma apresenta-se-nos como grito de verdade e de esperança certa que nos responde que sim, que é possível não nos maquilharmos e esboçarmos sorrisos de plástico como se nada se passasse.
Sim, é possível que tudo seja novo e diferente porque Deus continua a ser «rico em bondade e misericórdia, sempre disposto a perdoar», e encoraja-nos a começar uma e outra vez.
Hoje, novamente, somos convidados a empreender um caminho pascal até à Vida, caminho que inclui a cruz e a renúncia; que será incómodo mas não estéril. Somos convidados a reconhecer que algo não está bem em nós mesmos, na sociedade ou na Igreja, a mudar, a fazer uma viragem, a convertermo-nos.
Neste dia, são fortes e desafiadoras as palavras do profeta Joel: «Rasgai os vossos corações e não as vossas vestes, convertei-vos ao Senhor, vosso Deus». São um convite a todo o povo, ninguém está excluído.
Rasguem o coração e não as roupas de uma penitência artificial sem garantias de futuro.
Rasguem o coração e não as roupas de um jejum formal e de cumprimento que nos continua a manter satisfeitos.
Rasguem o coração e não as roupas de uma oração superficial e egoísta que não chega às entranhas da própria vida para a deixar tocar por Deus.
Rasguem os corações para dizer com o salmista : «pecámos». «A ferida da alma é o pecado: Oh pobre ferido, reconhece o teu Médico! Mostra-lhe as chagas das tuas culpas. E uma vez que ele não são ocultos os nossos pensamentos, faz-lhe sentir o gemido do teu coração. Leva-o à compaixão com as tuas lágrimas, com a tua insistência, importuna-o! Que ouça os teus suspiros, que a tua dor chegue até Ele, de modo que, no fim, possa dizer-te: “O Senhor perdoou o teu pecado”»" (S. Gregório Magno).
Esta é a realidade da nossa condição humana. Esta é a verdade que pode se aproximarmo-nos da autêntica reconciliação… com Deus e com os homens. Não se trata de desacreditar a autoestima mas de penetrar no mais fundo do nosso coração e cuidar do mistério do sofrimento e da dor que nos liga desde há séculos, milhares de anos... desde sempre.
Rasguem os corações para que por essa fenda possamos olharmo-nos de verdade.
Rasguem os corações, abram os vossos corações, porque só num coração rasgado e aberto pode entrar o amor misericordioso do Pai que nos ama e nos cura.
Rasguem os corações diz o profeta, e Paulo pede-nos quase de joelhos "deixai-vos reconciliar com Deus". Mudar o modo de vida é o sinal e fruto deste coração reconciliado por um amor que nos ultrapassa.
Este é o convite, frente a tantas feridas que nos magoam e que nos podem levar à tentação de endurecermos: Rasgai os corações para experimentar na oração silenciosa e serena a suavidade da ternura de Deus.
Rasguem os corações para sentir o eco de tantas vidas rasgadas e que a indiferença não nos deixe inertes.
Rasguem os corações para poder amar com o amor com que somos amados, consolar com o consolo que somos consolados e partilhar o que recebemos.
Este tempo litúrgico que inicia hoje a Igreja não é só para nós mas também para a transformação da nossa família, da nossa comunidade, da nossa Igreja, da nossa pátria, do mundo inteiro.
São 40 dias para que nos convertamos à santidade mesma de Deus; nos convertamos em colaboradores que recebemos a graça e a possibilidade de reconstruir a vida humana para que todo o homem experimente a salvação que Cristo nos ganhou com sua a morte e ressurreição.
Juntamente com a oração e a penitência, como sinal da nossa fé na força da Páscoa que tudo transforma, também nos dispomos a começar como nos outros anos o nosso "Gesto quaresmal solidário”.
Como Igreja em Buenos Aires que marcha rumo à Páscoa e que crê que o Reino de Deus é possível necessitamos que, dos nossos corações rasgados pelo desejo de conversão e pelo amor, brote a graça e o gesto eficaz que alivie a dor de tantos irmãos que caminham ao nosso lado. 
«Nenhum ato de virtude pode ser grande se dele não resulta proveito para os outros… Assim pois, por mais que passes o dia em jejuns, por mais que durmas sobre o chão duro, e comas cinza, e suspires continuamente, se não fazes bem a outros, não fazes nada grande». (São João Crisóstomo)
Este ano da fé que percorremos é também a oportunidade que Deus nos dá para crescer e amadurecer no encontro com o Senhor que se faz visível no rosto sofredor de tantas crianças sem futuro, nas mãos trementes dos idosos esquecidos e nos joelhos vacilantes de tantas famílias que continuam a dar o peito à vida sem encontrar ninguém que as sustenha.
Desejo-vos uma santa Quaresma, penitencial e fecunda Quaresma e, por favor, peço-vos que rezem por mim. Que Jesus vos abençoe e a Virgem Santa vos proteja.

4 comentários:

Pedro disse...

Para além da questão da denúncia, "estará" implicado, segundo alguma imprensa, no roubo de bebés durante a ditadura e de ocultar casos de pedofilia, mais recentemente (pelo que fui lendo por aí)

De qualquer das formas, grande mensagem quaresmal.

A. Castanho disse...



Há já muita esperança em redor deste Papa. Esperemos pois que sim, que ele seja aquilo de que o Mundo de hoje mais precisa: um Homem bom.

Helena disse...

Pedro,
também já ouvi "dizer umas coisas". E depois, leio contraditórios. Sabemos todos como é fácil conspurcar a imagem de alguém. Antes de acreditar no que dizem, vou ver muito bem de onde é que vêm os rumores, que base têm, etc.

A. Castanho,
a minha primeira impressão foi muito boa. Pareceu-me um homem bondoso e humilde. Agora vamos ver.

Unknown disse...

Não está implicado no roubo de bébés. O que se passou foi que, já depois da ditadura ter acabado, declarou que só em 85 é que tinha tido conhecimento da existência desses roubos. Isto veio a provar-se ser uma mentira, o que é bastante grave, mas não significa que ele robou bébé algum.