10 novembro 2011

Herta Müller

Hoje é dia de Herta Müller. Vou vê-la num simpósio sobre ciganos (que na Alemanha não se chamam "ciganos", mas Roma e Sinti - "ciganos" era o carimbo com que os marcavam para o gás, ou para a prostituição forçada no bordel do KZ).

Sobre esta escritora já aqui falei (ora a brincar, ora a sério, ora impressionada). Hoje acrescento um dos seus poemas escritos com tesoura, que fazem parte de um livro delicioso: "Die Blassen Herren mit den Mokkatassen".




A fotografia vem neste site, onde se pode ouvir também a autora a ler vários dos seus poemas - vão ouvir, vão ver, garanto que devolvo o preço a quem não ficar satisfeito)


Uma tradução possível (*) do poema nesta criação:

O pior    é que    a erva    passeia    há horas    no meu vestido novo    
e    eu    sentada    no    banco de betão    uma    de cinco    em frente
ao cabeleireiro    a primeira    é    insensata    a    segunda    tem 
olhos grandes    a    terceira    é manhosa    a    quarta    e    a    quinta    
essas    sou eu    porque    por    baixo    de mim    há    uma    poça    
vejo    -me    dentro dela    e    tenho de    fazer caretas    senão    
uma    das    duas    que    eu sou   não consegue    distinguir    o     
gorro de pele    na    cabeça    da    outra    do    pássaro    morto    
na    poça


(*) eu bem sabia que me devia ter inscrito naquele curso para tradução de poesia do literarisches colloquium berlin, que além de ser gratuito é num sítio lindo na margem do Wannsee, e além disso tinha a vantagem de aprender a olhar para os poemas a traduzir como se nem eles fossem um palácio nem eu fosse um, bom, esqueçam, muuuh (mas sorridente, num prado).


2 comentários:

Carlos Azevedo disse...

Há alguns anos, ofereceram-me um livro dela: «O Homem é um Grande Faisão Sobre a Terra»; mas, nunca o li -- ou melhor (aliás, pior): iniciei a leitura e, como não estava a gostar, desisti.

Carlos Azevedo disse...

Uma rectificação: não foi oferecido: foi comprado por mim. Depois de escrever isto, fui verificar se havia escrito algo na altura da atribuição do Nobel, et voilá!

(excesso de discos, de livros e a passagem do tempo: má combinação para a memória)