04 novembro 2011

o retorno



Um livro que começa com "mas" já ganhou:

Mas na metrópole há cerejas.

Entrei no livro curiosa, antecipando o melhor. Mesmo assim, não estava preparada para o que ele me fez: de repente, a minha própria história vinha à tona:

a miúda que na aula de ginástica disse que em África não se dançava assim como o Regadinho que a professora nos ensinava a executar disciplinadamente, e a professora "então na próxima aula trazes um disco teu", e ela trouxe, e dançou com a alegria no corpo todo, e nós maravilhadas a abrir os olhos para um mundo completamente desconhecido

as irmãs que andavam na minha turma, e contaram que os pais as foram buscar à escola para fugirem - nem sequer puderam ir a casa buscar os objectos mais queridos, despedir-se

e contaram mais: que na rua lhes apontavam armas à cabeça - diziam o nome das armas, um nome que eu não conhecia e já esqueci. Eu ouvia, mas não entendia - nem o nome das armas, nem o que é isso de ter uma apontada à cabeça. Naquela altura tinha 10, 11 anos, sabia da vida o que acontecia na minha geografia pacata, e mais o que via nas tardes de cinema, onde não havia armas apontadas à cabeça de miúdas como eu a caminho da escola. Elas, aquelas duas irmãs que tinham mais ou menos a minha idade, sabiam muito mais do que as tardes de cinema, e eu a ouvi-las no recreio da escola não soube ver e entender o horror que elas transportavam consigo

a prima da minha mãe, que conseguira trazer um contentor, e se queixava a nós: que eles a obrigaram a fazer uma lista exaustiva do que trazia, até a quantidade de agulhas de coser quiseram saber, e que ali estava tudo o que sobrara de uma vida de trabalho, e depois a tragédia: os vários serviços de porcelana chinesa no chão da sala, porque ainda não tinha armários, e a criança que passou a correr e caiu em cima deles - as peças desirmanadas, e era tudo o que nos tinha sobrado de uma vida

o meu tio que foi preso, e viu matarem um homem só por causa do seu relógio

os meus primos, que no Alentejo, a caminho de um Natal em família no Algarve, louvavam a cor da terra deles - "é vermelha, de um vermelho vivo" "um bocadinho como aquela ali, mas mais bonita" - e eu descobria por eles a cor de uma saudade muito funda quase desesperada

Um livro como um arqueólogo: desenterrando página a página o que estava esquecido, escondido no fundo de mim. Refazendo a peça a partir dos bocados, unidos agora à luz da distância e da experiência de meia vida.
E a delícia de um texto escorreito, servindo-se de palavras e frases aparentemente simples para dizer as ideias e os sentimentos mais complexos. Como se fosse fácil, como se tivesse de ser mesmo assim, como se já estivesse escrito algures, escrito em sangue, mesmo antes de ter sido imaginado.

8 comentários:

maria disse...

fiz ontem a encomenda, deve estar a chegar. Vamos ver...as expectativas são altas.

Helena disse...

ai! não me digas que vou ter de devolver o dinheiro se não gostares?
;-)

Carlos Azevedo disse...

«como se já estivesse escrito algures, escrito em sangue, mesmo antes de ter sido imaginado» [sublinhado meu]

O primeiro romance da escritora chama-se "Campo de Sangue". :-)

(e mais um belo texto, Helena; está imparável!)

Helena disse...

Carlos,
ele há coisas. Como é que me fui lembrar disso?

Obrigada, obrigada. Estou imparável, sim, e o que isto me atrasa a vida real...
;-)

Daqui a nada saio para ir ouvir a 9ª de Mahler, com os simpáticos do costume: Simon Rattle e Filarmónica.
Não fosse isso, e despachava mais uns 3 ou 4 posts... ;-)

Carlos Azevedo disse...

Eheheh! :-)

Na Casa da Música, há pouco tempo, perdi a 8ª... :-(

Bom concerto!

Helena disse...

Foi na semana passada.
Eu vi a 8ª outro dia aqui, com os do costume, e centenas de cantores. Um prodígio.
Daqueles concertos que não esquecem. Veremos como vai ser o de hoje.

Obrigada! E bom fim-de-semana para si!

Carlos Azevedo disse...

Na semana passada, sim. Quando os bilhetes esgotaram, pensei em assistir, pelo menos, ao ensaio geral, no dia anterior, mas não me foi possível ir. Pelo menos já tenho bilhetes para os concertos que me interessam do ciclo do Barroco; o próximo será no Domingo.

Obrigado, Helena, e também para si!

sem-se-ver disse...

bong, lá tenho de comprar o livro... :)


(imparável é um óptimo adjectivo)