26 março 2011

mais um choque cultural

À época da Expo 98 os meus filhos tinham quatro anos um e ano e meio o outro.
Na Alemanha passavam por muito bem educados, ah, e tanta competência social, e tal.

Em Portugal, nesse verão, passei muitas vergonhas.

Por exemplo: na confusão do oceanário (lembram-se de como era no oceanário durante a Expo 98?) disse-lhes para furarem por entre as pessoas para chegar mais perto do vidro, e os adultos portugueses em vez de darem um jeitinho para deixar passar as crianças, desatavam a queixar-se "ai os meus pés!" e "o que é isto?" e "mas que abuso é este?!" e "que é isto de furar a fila?"

Ou no autocarro, quando disse à Christina, que ia sentada junto a uma janela, que viesse ter comigo porque íamos descer na paragem seguinte (e o fiz em português porque ela percebia e eu não me queria armar em emigrante), a senhora ao lado de quem ela ia sentada ralhou logo muito zangada e muito alto "então não se pede licença?!"
Não, na Alemanha as crianças não precisam de pedir licença, porque os adultos adivinham os seus desejos e necessidades ainda antes de as próprias crianças os perceberem, e reagem muito proactivamente. Uma alemã que ouvisse a mãe de uma criança de quatro anos dizer "vamos sair agora" imediatamente se desviava para a criança passar, e ficava alerta para a poder segurar caso estivesse em risco de cair ou de se magoar.

No verao de 98 eu quase parecia aquela mãe que ao ver os militares a passar ficou toda orgulhosa porque o seu filho era o único que fazia o passo certo. Quem é mal-educado: os meus filhinhos, ou os portugueses?

(O melhor é não contar daquela vez que fomos expulsos de um museu em San Francisco por causa dos filhos de amigos nossos alemães, que se puseram a cavalo num hipopótamo de esferovite que havia na exposição. As pernas do pobre do bichinho cederam, e nós: rua! Vá lá que não pagámos multa. Mas quem é que se lembra de deixar coisas assim frágeis no meio de uma sala de exposições para crianças e jovens, sem qualquer barreira nem aviso para não tocar? Na Alemanha seria impensável! Conclusão à maneira do Obelix: os americanos são loucos...)

11 comentários:

Cristina Torrão disse...

É engraçado, porque os alemães têm a ideia de que os países do sul são mais "simpáticos" para as crianças (kinderfreundlicher). Por isso, a minha cunhada alemã ficou admiradíssima, quando esteve em Portugal com os filhos: poucos parques infantis em condições de serem usados, poucas zonas verdes, falta de faixas para as bicicletas, passeios estreitos e em más condições, automobilistas que não respeitam peões, etc., etc.

Gi disse...

Cheira-me que em Portugal a simpatia pelas crianças levou a uma má-criação tão grande que teve o efeito oposto, e perdeu-se a paciência.

E assim, os mais velhos esperam que as crianças peçam licença e agradeçam, e ficam chocados por os mais novos não educarem dessa maneira os filhos.

Helena disse...

E uma certa falta de respeito pela pessoa da criança, também: bem me lembro da fúria de uma alemãzinha muito loira, num arraial minhoto - praticamente não havia uma única pessoa que ao passar por ela não pusesse a mão no seu cabelo, "ai que ricos cabelinhos, ai que linda menina!"
E a miúda, furiosa: "deixem o meu cabelo em paz!!!"
Tivemos de ir embora da romaria.

Paulo disse...

Em relação aos automobilistas não concordo. É comum os Alemães comentarem que os Portugueses param para os peões passarem (mesmo quando não há passadeiras), o que, segundo me dizem, os automobilistas alemães não fazem com tão boa vontade.

P.S. E acho que a Gi tem razão.

Helena disse...

Em relação aos automobilistas, confesso que nos últimos 20 anos Portugal deu um salto brutal: eles param mesmo!
Lá perdi eu o resultado de tantos anos de treino nas ruas do Porto, esse perfeito bluff para atravessar a rua: pôr um ar muito decidido, estando interiormente preparada para saltar para trás se o condutor não parar.

Quanto às crianças dos portugueses: não digo nada, porque não sei.

Paulo disse...

Quem é que me disse há pouco tempo que as crianças dos Portugueses se transformaram em pequenos tiranos?

(No Porto nota-se geralmente uma condução muito mais agressiva que em Lisboa. Sei bem do que falo.)

Helena disse...

Terei sido eu?!!!
(gulp)

No Porto está assim? Ai, que chatice, esses espanhóis de Vigo...
;-)

Rita Maria disse...

Eu concordo muito contigo com a história do respeitar as crianças como pessoas - nao tenho dúvidas nenhumas de que parte da minha autoridade sobre os meus irmaos resulta da minha falta de hesitaçao em pedir desculpas e dizer que nao tenho razao nenhuma. Lá dizia mi madrecita, o respeito nao se exige, inspira-se.

Mas sobre "pedir licença" acho que é uma questao cultural. No metro de Berlim, tal como nas ruas de Berlim, ninguém pede licença, é suposto que as pessoas adivinhem se nos queremos sentar ou se queremos passar. Antes de o terem adivinhado, também nao facilitam - estao mesmo embrenhados no livro, com a mochila no banco ao lado e as pernas de forma a nao dar espaço. Em Lisboa presta-se atençao, antecipam-se necessidades, pede-se licença e até se pede desculpa por tocar nas pessoas - eu gosto mais desta versao em que o outro existe e hei-de transmiti-la aos meus filhos. O respeito também é uma questao de igualdade.

Se aos quatro (!!!) anos ainda nao tiver conseguido, o que é por demais natural, hei-de usar o meu olhar mortífero para com senhoras que gostam de educar os filhos dos outros e as autoras de blogues berlinenses sem filhos com a mania que têm opinioes.

A. Castanho disse...

Essas questões culturais são muito curiosas e reveladoras. Eu e a Ju fomos educado no "com licença", "desculpe" e "obrigado/de nada", desde pequeninos (acho que, no caso dela, até com um certo exagero...), por isso as nossas criancinhas também serão ensinadas assim (já que vivemos em Portugal, claro).

Já quanto ao respeito pela pessoa da Criança (ou falta dele), concordo que a educação tradicional portuguesa, quanto a mim, deixa muito a desejar (e até já tive arrufos, com familiares mais velhos, por causa desta delicada questão!)...

Helena disse...

Rita:
:-D

Cristina Torrão disse...

O respeito dos automobilistas pelos peões não passa só pelo parar nas passadeiras (ou sem passadeiras). Em Portugal, raramente se respeitam os limites de velocidade. Principalmente, dentro das localidades, isso iria contribuir para que os peões se deslocassem mais descontraídos, crianças inclusive. É que é muito aborrecido e perigoso andar num passeio bem estreitinho, que nos obriga a ir em fila indiana com as crianças, e os carros passarem a 80 km/h, ou mais, ao lado. E se alguém escorrega? E se o energúmeno que vai ao volante se despista? Etc. e tal!

Na Alemanha, em bairros habitacionais, o limite até costuma ser 30 km/h. E, nas "Spielstrassen", 10 km/h!