...que também merece!
Aos amigos que me visitam aqui: que tenham um bom Verão, e até já!
07 julho 2010
e agora vou revelar o grande segredo dos alemães...
Para quem se pergunta porque é que a selecção alemã tem tanto sucesso, e consegue marcar tantos golos, e tal, hoje vou revelar o segredo - e é porque estou a sair para férias, e é só por ser para vocês, que são gente boa.
Ora então, o segredo é:
Treinar.
Treinar muito.
Treinar sempre.
Nunca perder uma oportunidade de treinar.

(fotografado com o telemóvel numa casa de banho de um centro de ocupação de tempos livres de jovens)
Ora então, o segredo é:
Treinar.
Treinar muito.
Treinar sempre.
Nunca perder uma oportunidade de treinar.

(fotografado com o telemóvel numa casa de banho de um centro de ocupação de tempos livres de jovens)
02 julho 2010
Monument Valley

A aproximação mais deslumbrante a Monument Valley é pela scenic road 163, vindo de Bluff.
Ainda tentei convencer os companheiros de jornada a irmos almoçar a Bluff (tem lá um restaurante realmente agradável e com óptima cozinha - um caso raro no Sudoeste -, junto a um trading post com artesanato indígena realmente bonito e finamente trabalhado - outro caso raro no Sudoeste) mas eles estavam com pouca vontade de viajar setenta milhas suplementares. Além disso, já tínhamos feito aquele percurso em 2001, e é de supor que no entretanto a paisagem não se tenha alterado substancialmente para melhor.
Estava tudo marcado para nos encontrarmos com um guia a meio da tarde no The View Hotel. Iríamos no carro dele para o interior do parque, e lá ficaríamos acampados. Com a promessa de um pôr-do-sol inesquecível, um serão mágico sob as estrelas, uma alvorada deslumbrante. Cinco meses antes telefonara a combinar tudo (se não acreditam: tenho provas), uns dias antes telefonara de novo, tudo OK.
Chegámos ao hotel, nada. Perguntámos na recepção, não sabiam de nada. Esperámos. Perguntámos de novo. Foram muito simpáticos: telefonaram para a empresa, perguntaram. Esperámos de novo. O que não é tão trágico como parece: todo aquele hotel é uma beleza de bom gosto, cultura tradicional e conforto. A paisagem é extraordinária (não é por acaso que se chama "The View"), e tem várias lojas onde se pode gastar muito tempo como nos museus: a ver. Finalmente, apareceram dois navajos. Completamente alheios a tudo, começaram a desenrascar uma solução (aqui arrisco uma hipótese revolucionária: o seu povo não terá vindo pelo estreito de Bering, mas com os primeiros bacalhoeiros portugueses). O problema é que nós já tínhamos passado duas horas naqueles sofás confortáveis, e a última coisa que nos apetecia era sair para o meio da natureza agreste, para uma noitada que não tinha sido convenientemente preparada. Comecei a temer que nos servissem pizza congelada ao jantar, por não terem tido tempo de pedir à avó que lhes fizesse boas comidinhas tradicionais. De modo que perguntámos delicadamente se eles ficariam muito frustrados se não nos tivessem como companhia naquela noite, e a cara de alívio que fizeram deu-me vontade de correr para o psicólogo mais próximo. Combinámos que no dia seguinte nos encontraríamos às cinco e meia da madrugada para ir ver o nascer do sol nos confins sagrados do vale, e fomos a correr alugar um quarto. Conseguimos o último disponível, nas traseiras do hotel, e com apenas uma cama.
O The View Hotel foi construído em 2008 sobre uma plataforma natural, em frente às duas formações Mitten (as duas luvas mais fotografadas do mundo inteiro, depois das do Michael Jackson). Procurou-se integrar o edifício na paisagem, dando-lhe a mesma cor das rochas adjacentes, e fazê-lo reflectir a cultura navajo, para o que usaram na decoração os seus elementos estilísticos e artesanato. Quase todos os quartos são virados para aquele espectacular cenário. Nas traseiras, ao lado do parque de estacionamento, tem alguns quartos mais pequenos, apenas com uma cama - ao contrário do habitual em hotéis americanos, que é duas camas de casal -, por metade do preço. Tendo em conta que (1) nós queríamos o quarto para dormir e não para ver a paisagem, (2) metade do preço é sempre uma vantagem e (3) era o único que havia, aceitámos muito contentes e aliviados o que nos deram. Tanto mais que não se importavam que trouxéssemos do carro os colchões de campismo dos miúdos para eles dormirem no chão.
Junto ao hotel inicia-se um percurso panorâmico pelo vale, com 17 milhas, que pode ser feito sem guia, mas exige carro adequado: as estradas são meros caminhos de terra batida, esburacados e cheios de pedras. Resolvemos aproveitar as últimas horas de luz para fazer esse passeio.
As formações mais interessantes têm nomes para turista ver: Titanic, Elefante, Três Freiras, Polegar. Mas os navajos não esqueceram os nomes antigos, e o carácter sagrado daquelas pedras. Esta é terra tocada pelos Entes Sagrados, que no princípio do mundo nela abriram os seus caminhos.

As "luvas" (The Mittens), por exemplo: são duas mãos adormecidas, deixadas pelos Sagrados como promessa de que um dia regressarão e governarão o mundo a partir de Monument Valley. Nelas mora o Talking God que, a cada amanhecer, surge da terra e abençoa todas as rochas e mesas do vale.
Mau grado o insigne inquilino, a formação da direita, Merrick Butte, é assim chamada em memória de um soldado que tentou arrancar prata desta terra, e foi morto e enterrado ali mesmo, juntamente com um amigo que empresta o nome a outra butte famosa, a Mitchell Butte.



No meio de tantas rochas e areia, uma surpresa: vida.
Árvores, e um verde fascinante, muito vivo no contraste com a terra avermelhada.

Ao anoitecer fizemos esta fotografia. Claro que o que se vê é só resultado de uma incompetência fotográfica teimosamente cultivada. Mas podemos inventar, e garantir que em Monument Valley vimos os Espíritos sair da terra ao anoitecer - para abençoar as pedras, e talvez até o que resta de orvalho nas estrelas.
O jantar, no restaurante do hotel, foi memorável: uma interpretação moderna da culinária navajo. Tudo muito saboroso. E um fry bread com mel que era de comer e engordar por mais. Um músico da região fazia música ambiente numa flauta tradicional, o que, sendo muito bonito, não nos dava jeito nenhum: temos a mania de conversar enquanto comemos.
A seguir ao jantar, passaram um filme ao ar livre. Tudo perfeito: a temperatura amena, as estrelas, os famosos maciços rochosos recortando-se contra o que sobrava de luz, um western filmado naquele local. De John Ford, obviamente - que, em troca do uso daquele cenário, decidiu deixar aos navajos os vestígios da sua passagem, e por isso lhes ofereceu os edifícios que tinham sido construídos para fazer os filmes. Revelando rara intuição, os navajos agradeceram penhorados, e a seguir mataram dois coelhos de uma cajadada só: desmantelaram tudo, levaram os materiais para melhorar as suas casas, e livraram-se do risco de ver nascer nas suas terras uma espécie de Westernland com shows variados, montanhas russas e hot-dogs.
Pois, o filme. "She Wore a Yellow Ribbon", com as trapalhadas da cavalaria, uma história de não-amor mal-amanhada, e índios ameaçadores: uma gente muito má, muito má, muito má. Não sei que me parece passarem aqueles filmes numa reserva navajo - para nós foi muito penoso. Aproveitei estarmos no terraço, ao ar livre, para virar a minha cadeira na direcção das estrelas. O John Ford que me perdoe.
Também nos foi muito penoso levantar às cinco da manhã, para nos encontrarmos com o nosso guia. E subir para o seu pequeno camião do "shake and bake tours". Mas valeu a pena.


Passámos por um regato de prata e fomos para uma planície junto de Yeibi’chei e do Totem Pole, onde vimos nascer o sol na mais absoluta tranquilidade.
Reza a lenda que Yeibi’chei são seres sagrados petrificados. Nós vimos sentinelas atentas à primeira luz da madrugada. A seu lado, o Totem Pole, uma das pedras mais sagradas do vale. Junto à coluna fazem-se oferendas e rezas para que os deuses enviem a tão almejada chuva.
(Os miúdos interessaram-se muito por esta formação, mas não conto porquê)


O mais fascinante, para mim, era a luz rasa da manhã que mudava a substância de tudo o que tocava.


O guia era homem de poucas palavras - uma experiência bem diferente da que tivéramos em Canyon de Chelly. Mesmo assim, conversámos um pouco. Contámos-lhe do nosso desconforto ao ver o filme do dia anterior, onde os índios apareciam sempre de perfil e com ar selvático e ameaçador. Ele riu-se, e comentou com um certo desprezo: "o John Ford filmava sempre em frente às mesmas rochas".
Depois levou-nos a passear pelo vale.

e a ver vestígios dos antigos.
Dizia-nos: "venha para aqui, para fazer uma boa fotografia", e nós íamos e fazíamos como ele mandava.
Os miúdos, que sabiam bem que pisávamos solo sagrado, perguntavam: podemos ir até ali? podemos ir até acolá?
Ele ria-se: se acham que conseguem, podem.
Ele próprio subia aos sítios mais incríveis. Contou-nos que ninguém do seu povo sofria de vertigens. Nós muito admirados, e os de Manhattan ainda mais: eles pensavam que eram só os mohawk...
De novo na carrinha, de regresso ao hotel, o guia estacou de repente e saltou para a estrada. Começou a andar de um lado para o outro, olhando para o chão. Saímos também. Mostrou-nos marcas na areia: "passou por aqui uma cobra". Seguia-lhe o rasto. Cumpria na perfeição o seu papel de índio, e nós o de turistas satisfeitos: fizemos fotografias, procurámos a cobra com ele. Finalmente, apontou para um buraco: "deve ter-se metido por ali".
Regressámos ao carro sentindo uma enorme admiração por ele. Das duas, uma: ou combinou previamente com a cobra, ou tem olhos de lince para conseguir distinguir, àquela distância, o rasto dos diferentes animais no caminho.


Já perto do hotel, vimos um balão junto a The Hub. Para os turistas, é uma roda e o seu eixo. Para os navajos, é um hogan que se transformou em pedra, rodeado de bisontes, também eles petrificados.Despedimo-nos do nosso guia, fomos tomar o pequeno-almoço, depois o Joachim foi correr um bocado porque se andava a preparar para a maratona de Setembro, em Berlim. Chegou passada meia-hora, esgotado de calor. Aplaudimos muito o nosso herói. Uma última fotografia das residências do Talking God, e zarpámos.

Etapa seguinte: Lake Powel e Antelope Canyon. E ainda: travessia do Grand Canyon para os homens, Las Vegas para as mulheres (poupem-me às piadinhas, por favor). E Coral Pink Sand Dunes. E Bryce Canyon. E a scenic route 12.
Em Setembro conto o resto. De momento não posso, porque tenho compromissos importantes e inadiáveis.
os berlinenses e as vuvuzelas
Algumas cidades alemãs proibiram as vuvuzelas.
Em Berlim, parece-me, há poucas. Ou então, é a gente do meu bairro que não é muito dada a essas coisas.
Mas há, ainda assim, as suficientes para que o típico humor berlinense se manifeste.
1. No domingo passado, a Filarmónica deu o habitual concerto de fim de época na Waldbühne. Tradicionalmente tocam no fim a canção "Berliner Luft", e 20.000 pessoas desatam a bater palmas e a fazer os assobios da praxe, em jeito de concerto promenade. Desta vez, trocaram as trompetas por vuvuzelas. Reparem que uma delas está envolta na bandeira inglesa. O concerto teve lugar pouco depois daquele histórico 4-1 com a Inglaterra. Ao dirigir-se ao público, o maestro começou por dizer "quatro um quatro um, teste de microfone". O delírio.
2. Músicos da orquestra da Konzerthaus (que fica no Gendarmenmarkt, uma belíssima praça) saíram-se agora com uma reinterpretação de algumas peças famosas, usando vuvuzela. E falam do fascínio que este instrumento exerceu sobre compositores como Brahms e Ravel. Uns pândegos.
Não percam o Bolero, no fim do filme.
(obrigada, Gi)
No post anterior, onde falava de como é necessário haver muito circo cultural, comentei na brincadeira que o Porto precisava de duas Casas da Música. Em Berlim, onde há três óperas e nem sei quantas salas de concertos com excelentes programas, o resultado de tanto excesso também se torna visível nestes episódios de criatividade e humor.
Em Berlim, parece-me, há poucas. Ou então, é a gente do meu bairro que não é muito dada a essas coisas.
Mas há, ainda assim, as suficientes para que o típico humor berlinense se manifeste.
1. No domingo passado, a Filarmónica deu o habitual concerto de fim de época na Waldbühne. Tradicionalmente tocam no fim a canção "Berliner Luft", e 20.000 pessoas desatam a bater palmas e a fazer os assobios da praxe, em jeito de concerto promenade. Desta vez, trocaram as trompetas por vuvuzelas. Reparem que uma delas está envolta na bandeira inglesa. O concerto teve lugar pouco depois daquele histórico 4-1 com a Inglaterra. Ao dirigir-se ao público, o maestro começou por dizer "quatro um quatro um, teste de microfone". O delírio.
2. Músicos da orquestra da Konzerthaus (que fica no Gendarmenmarkt, uma belíssima praça) saíram-se agora com uma reinterpretação de algumas peças famosas, usando vuvuzela. E falam do fascínio que este instrumento exerceu sobre compositores como Brahms e Ravel. Uns pândegos.
Não percam o Bolero, no fim do filme.
(obrigada, Gi)
No post anterior, onde falava de como é necessário haver muito circo cultural, comentei na brincadeira que o Porto precisava de duas Casas da Música. Em Berlim, onde há três óperas e nem sei quantas salas de concertos com excelentes programas, o resultado de tanto excesso também se torna visível nestes episódios de criatividade e humor.
01 julho 2010
que nos cortem o pão, ainda vá...
...mas cortar no circo, Eduardo, no circo?...
Vem isto a propósito do post no blogue Da Literatura sobre o orçamento da Casa da Música. Dez milhões, ou 9,5 depois do corte.
Havendo 10 milhões de portugueses, a Casa da Música custa anualmente um euro a cada um deles.
Não faria absolutamente nenhuma diferença para o preço dos transportes públicos, dos medicamentos, etc., se o orçamento da Casa da Música fosse reduzido a zero.
Em compensação, faria imensa diferença para Portugal e em especial para o seu Norte se não houvesse uma Casa da Música. Ou se o edifício se especializasse em programas medíocres.
Do ponto de vista do futuro de um povo, a Educação e a Cultura deviam ser como a orquestra do Titanic: a última a saltar do barco. Do ponto de vista da economia portuguesa, oferta cultural de excelente qualidade é condição indispensável para atrair turistas mais exigentes, que é como quem diz: com a carteira mais recheada.
Por uma vez sem exemplo, sei do que estou a falar (enfim, pelo menos até a Rita aparecer por aí a dizer que não é bem assim): a cidade onde moro, Berlim, está completamente falida. Mas para o circo cultural há sempre dinheiro, e os resultados estão à vista, em forma de hotéis completamente cheios e todos os etc. que lhes estão associados.
Vem isto a propósito do post no blogue Da Literatura sobre o orçamento da Casa da Música. Dez milhões, ou 9,5 depois do corte.
Havendo 10 milhões de portugueses, a Casa da Música custa anualmente um euro a cada um deles.
Não faria absolutamente nenhuma diferença para o preço dos transportes públicos, dos medicamentos, etc., se o orçamento da Casa da Música fosse reduzido a zero.
Em compensação, faria imensa diferença para Portugal e em especial para o seu Norte se não houvesse uma Casa da Música. Ou se o edifício se especializasse em programas medíocres.
Do ponto de vista do futuro de um povo, a Educação e a Cultura deviam ser como a orquestra do Titanic: a última a saltar do barco. Do ponto de vista da economia portuguesa, oferta cultural de excelente qualidade é condição indispensável para atrair turistas mais exigentes, que é como quem diz: com a carteira mais recheada.
Por uma vez sem exemplo, sei do que estou a falar (enfim, pelo menos até a Rita aparecer por aí a dizer que não é bem assim): a cidade onde moro, Berlim, está completamente falida. Mas para o circo cultural há sempre dinheiro, e os resultados estão à vista, em forma de hotéis completamente cheios e todos os etc. que lhes estão associados.
um estranho caso de melomania (será urban legend?)
Extracto de uma recensão na amazon.de sobre um CD recentemente saído, "Wiegenlieder, Vol. 2", com canções de embalar interpretadas por gente famosa:
(...)
Regalo-me e saboreio e sinto-me incrivelmente bem.
Tal como o meu cão.
Por um lado, é impossível acordá-lo enquanto o CD está a tocar.
Outros cães pedem comida, este pede canções de embalar.
Ontem, por exemplo, interrompi o CD.
O meu cão acordou assustado, e começou a andar de um lado para o outro muito inquieto.
A princípio, não percebi o que se estava a passar.
Ele voltava sempre para a aparelhagem de som e gania de tal maneira que me partia o coração.
Até ao momento em que pus o CD de novo.
O cão enrolou-se outra vez, todo satisfeito, e soltou um profundo suspiro.
Não consigo levar este cão à rua sem os Wiegenlieder.
Reconheço que é estranho ver um cão na rua de MP3-Player à volta do pescoço e headphones nas orelhas, prestes a adormecer a cada passo.
Mas de outra forma não consigo que ele saia à rua.
Será que se viciou em canções de embalar? ;)
(...)
(...)
Regalo-me e saboreio e sinto-me incrivelmente bem.
Tal como o meu cão.
Por um lado, é impossível acordá-lo enquanto o CD está a tocar.
Outros cães pedem comida, este pede canções de embalar.
Ontem, por exemplo, interrompi o CD.
O meu cão acordou assustado, e começou a andar de um lado para o outro muito inquieto.
A princípio, não percebi o que se estava a passar.
Ele voltava sempre para a aparelhagem de som e gania de tal maneira que me partia o coração.
Até ao momento em que pus o CD de novo.
O cão enrolou-se outra vez, todo satisfeito, e soltou um profundo suspiro.
Não consigo levar este cão à rua sem os Wiegenlieder.
Reconheço que é estranho ver um cão na rua de MP3-Player à volta do pescoço e headphones nas orelhas, prestes a adormecer a cada passo.
Mas de outra forma não consigo que ele saia à rua.
Será que se viciou em canções de embalar? ;)
(...)
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