27 abril 2007

Chefe Silva em Weimar

Sugeri no Conselho de Estrangeiros a criação de cursos de culinária internacional, para divulgar outras culturas e reduzir as quase intransponíveis barreiras que separam o bom povo de Weimar dos seus estrangeiros. Eles decidiram que, em vez de cursos para meia dúzia de participantes, mais valia fazer programas de culinária na televisão regional.
Já se sabe quem vai ser a special guest star portuguesa...

As luzes da ribalta são uma coisa terrível.
Ontem, enquanto fazia rissóis para uma festa na escola (sim, eu sei: na primeira quem quer cai, na segunda cai quem quer, e eu já vou praí na quarta ou na quinta vez que caio...), ia treinando gestos, expressões faciais, histórias e piadinhas para contar quando estiver a estender a massa perante as câmaras de televisão.
Da próxima vez que fizer rissóis, vou instalar um espelho na cozinha.

Qual Chefe Silva, qual quê?
Eu quero é ser o Jamie Oliver de Weimar!

24 abril 2007

à fror da pele

Um doce para quem entender a mensagem
(nota: no título deste post há uma ajudinha)



20 abril 2007

gosto deste cartaz



Gosto deste cartaz.

Finalmente um bom produto para exportar. Traduzido para outras línguas ficava muito catita, e aposto que tinha imensa procura.
"La France aux Français" (mas deviam mudar o avião da fotografia, tinha de ser um A380 em regime de shuttle aéreo para repatriar os 800.000 portugueses), "Le Luxembourg aux Luxembourgeois" (sim, que 15% de portugueses no total da população ainda é pior que o peso dos turcos na Alemanha). Ou em alemão, numa praça central de Hamburgo, Estugarda, Colónia: "Deutschland den Deutschen".

Na Alemanha, justamente: mandavam os portugueses para a terra deles, criavam-se automaticamente 170.000 postos de trabalho para os alemães desempregados. E logo os portugueses, que não aprendem a língua, e têm uma cultura esquisita, sempre a comer um peixe salgado fedorento que empesta o prédio inteiro, além daquelas garrafas enormes de vinho, não fazem uma refeição que não bebam vinho. E as mulheres, que horror - fazem questão de trabalhar, em vez de tratarem dos filhos como deve ser, coitadas das crianças que crescem nas mãos de estranhos, sabe-se lá quem as educa!, e para quê?, para com o segundo salário comprarem uma casa de férias em Portugal. Como se isso fosse mais importante que dar às crianças uma infância feliz e equilibrada - que nojo de cultura! E mais: em vez de mandarem os filhos para a universidade, mandam-nos trabalhar! Como se a instrução fosse um luxo facultativo! Eles não sabem que a instrução é a condição primordial de sucesso de um país?! E até consta que batem nos filhos.
E nós a gastar os nossos euros cada vez mais escassos (oh, saudades do marco!) a tentar remendar problemas que não são nossos, ele é professores e cursos especiais para lhes ensinar a nossa língua, ele é assistentes sociais para tentarem a integração, quando há tantos alemães honrados que precisariam muito mais dessa ajuda, mas ficam sem nada, porque este Estado decidiu dar mais aos portugueses que ao seu próprio Povo.
Esta gente está a minar o sistema alemão por dentro - barricados nos seus guetos, enchem o nosso país de jovens semi-analfabetos, gente que nem fala bem alemão nem quer aprender. E é nas mãos desta ralé que o nosso país vai cair?
Para piorar, fazem boicote económico: ganham aqui o dinheiro, e vão gastá-lo na terra deles. O que é uma sangria para o nosso sistema económico, que bem precisa de mais consumidores e mais capital a circular.

Ora, façam boa viagem.

***

Gosto deste cartaz. Uma pessoa desliga a inteligência e liga a desconfiança, e a produção de disparates com encadeamento lógico entra em mouvement perpétuel.

19 abril 2007

Dar a cara!

18 abril 2007

meu reino por um canudo

Será que entendi bem?
O país tem andado ocupado com a questão do canudo e dos títulos do primeiro ministro?

Tenham paciência, pessoal, mas numa democracia a sério as coisas não se fazem assim.
Se querem ser oposição como deve ser, arranjem-lhe uma estagiária de lábios carnudos.
Menos que isso, é provincianismo atroz.

***

Agora sei para que serviu o dinheirão que paguei por aquele pedaço de papel num tubo ridículo, depois de concluído o último dos cerca de 40 exames que fiz, conjunto que dava pelo nome de Curso de Economia.
Só não sei em que caixote de mudanças guardei essa prova incontornável de competência profissional e idoneidade moral.

Por outro lado, estou cheia de dúvidas: doravante, devo-me fazer tratar por dra. Helena ou lic. Helena?
"Oh licenciada Helena, tem o bacharel António ao telefone. Depois, a quase-professora-doutora Maria quer falar consigo. E anda-se a esquecer de responder à mestre Paula."

***

Em tempos conheci uma telefonista, num organismo do Estado, que antes de passar o telefonema à Garcia perguntava assim:
"Desculpe, o senhor é doutor, engenheiro, ou não é nada?"

Por algum motivo que me escapa, Portugal não simplificou as formas de tratamento.
Mr. Blair, Frau Merkel, M. Chirac - problema nenhum.
Agora, Sr. Cavaco Silva e Sr. Sócrates...
Na vida real, Eng., Dr. e Arq. são pouco mais que pro-formas com o valor de um artigo que antecede o nome.
Terrível é ser "nada" - complica a vida a toda a gente, a começar pela telefonista.

Andamos há séculos a conviver com esta espécie de acordo ortográfico, engana-me que eu gosto, e a fazer questão de chamar "dr." ou "eng." às pessoas situadas a partir de determinado nível da hierarquia social, para de repente, sabe-se lá porquê, desatarmos a questionar o sistema, e começarmos a caça às bruxas pela pessoa do primeiro ministro.

Tenham paciência, pessoal, mas visto à distância chega a ser embaraçoso.

17 abril 2007

histórias de consumo

1. Esta, que me lembra a frase de uma conhecida:
"quem precisa de psicanalista, se o cartão de crédito funciona?"

2. Quando vou a Berlim, gosto de passar pela secção de brinquedos do KaDeWe (bem, pelas outras também). Tem sempre ofertas formidáveis, porque se desfazem das bonecas, dos ursos e dos jogos da saison anterior - e os miúdos a quem vou dando presentes ao longo do ano não se preocupam muito com esses pormenores.
Numa dessas minhas sessões de planeamento e poupança acabei com dois sacos enormes e uma conta choruda. A Christina comentou secamente: "fazes muita gente feliz, excepto o pai."

16 abril 2007

meta-noia

Quase no final do Evangelho de Lucas (Lu. 24,47), ao dar as últimas instruções aos apóstolos, Jesus diz:

"Assim está escrito que o Cristo devia sofrer e ressuscitar dos mortos ao terceiro dia, e que, em seu Nome, fosse proclamado o Metanoian para a remissão dos pecados a todas as nações"

Metanoian?!

Para quem gosta de traduções comparadas, pode ver aqui que metanoian aparece traduzido na Vulgata como poenitentiam e Martinho Lutero continua a mesma linha: Busse.
Até há poucos anos era essa a tradução na Bíblia alemã (fazei penitência), tendo sido recentemente mudado para conversão (umkehren); na minha versão portuguesa aparece arrependimento, e na francesa, repentir.

Atravessei a infância inquieta por causa dessa penitência e do arrependimento cuja necessidade não entendia, e afinal a culpa era da tradução. O São Jerónimo - patrono dos tradutores - que se cuide, que de castigo ainda o passam a beato por uns anos.

Voltando às fontes e a esse Meta-, do grego metá (além de; para além de):

"Assim está escrito que o Cristo devia sofrer e ressuscitar dos mortos ao terceiro dia, e que, em seu Nome, fosse proclamada a mudança para pensar em dimensões mais amplas com vista à remissão dos pecados a todas as nações".

Isto sim: para deixar uma mensagem destas é que vale a pena morrer e ressuscitar.

E eis como me descubro mais papista que o Papa: missa em latim?! Evangelhos em grego!



PS1. Depois de meia semana dedicada à análise literária e teológica do último capítulo de Lucas, seguida de uma semana em Taizé, cuidado comigo - nem preciso de acender a luz da mesinha de cabeceira, leio à luz da auréola.

PS2. Nada de ilusões. Além de meta, só conheço mais duas palavras em grego: kalimera e tzatziki.

04 abril 2007

nozes, como sempre

E de novo as Bachwochen na Turíngia - mais um festival de Bach, filho dilecto desta Land.

No sábado passado várias casas de Weimar abriram a porta para saraus familiares de música de câmara ou solistas, e nós partimos à descoberta.

Começámos pela que parecia um conto de fadas: pai maestro, mãe pianista, três filhas cada uma mais bonita que a outra, sendo a mais nova a musicalmente mais dotada de todas. Onze anos apenas, e que beleza de frases tocava no violoncelo!
A Beethoven e Bach seguiu-se um quarteto do príncipe Louis Ferdinand. Se Beethoven o admirava, quem sou eu para dizer que achei a sua música plena de belos momentos mas algo desequilibrada? Digamos então que o rapaz não se chegou a cumprir - outro talento que morreu jovem, numa das batalhas que precedeu a matança de Jena.
A música estava óptima, o ambiente estranho: embora fosse um concerto aberto ao público, notava-se bem que só estavam lá os convidados da família. E eu, que os conheço do supermercado, da loja de produtos biológicos, de outros concertos, de festas das escolas, fiquei sentada num canto a sentir-me penetra...

Seguimos para a casa de uma aprendiz de pianista, que me disseram ser da família de Nietzsche. Numa sala pequena e simples, ouvindo a música de uma mulher que gosta tanto do que faz que nem se preocupa com a falta de qualidade, demo-nos conta de que estes concertos em casas privadas não servem para exibir a perfeição dos profissionais, mas para partilhar o amor à música, o amor ao caminho para a música. De modo que sim, acredito que esta pianista seja da família de Nietzsche.

Fiquei a pensar que, tendo piano e salão com uma vista magnífica sobre Weimar, no próximo ano devíamos participar neste evento. Aconteça na nossa casa a música possível, com quem quiser fazê-la acontecer.
(Talvez fosse boa ideia começar imediatamente a preparar o meu repertório.)
(Pelo sim pelo não, vou convidar alguns músicos profissionais...)
(De onde se prova que Nietzsche não passou pelos meus genes.)

Amigos nossos anunciaram com entusiasmo a apresentação da Paixão Segundo S.Marcos, de Bach, na Herderkirche. A nossa cara de "ah, já sei, conheço muito bem..." só durou até sabermos que esta obra estava perdida, e um músico de Weimar a reconstruiu a partir de peças que a citavam, tendo esta versão sido apresentada no domingo passado pela primeira vez...

Também no domingo foi inaugurada uma exposição sobre a Anna-Amalia, a jovem grã-duquesa que soube juntar em Weimar um número considerável de génios - começou por convidar um universitário, Wieland, para professor do seu filho, e este convidou Goethe, que atraiu Schiller; aos três juntou-se Herder, e um número considerável de intelectuais atraídos pelas sinergias do momento.
E foi assim que uma jovem mulher, em situação de família monoparental, vivendo nesta cidade provinciana em alojamentos precários após o seu palácio ter sido consumido pelas chamas, deu origem a uma época áurea da cultura alemã.

À inauguração compareceram muitos dos seus familiares, o princípe daqui e o duque dali. Fizeram os discursos de ocasião, o blablabla habitual - excepto o príncipe de Sachsen-Weimar, que desafiou a fundação Weimarer Klassik a fazer neste palácio uma exposição sobre Weimar e a identidade alemã: do Humanismo a Buchenwald. A ver vamos.
O Joachim adormeceu durante o discurso do não-sei-quê sobrinho tataraneto da senhora. Eu quase lhe ia dando um encontrão - que coisa, anda uma pessoa a esfalfar-se em nordik walking para conseguir convites para o acontecimento cultural do ano, e ele adormece assim -, mas depois reparei que não era o único. O que por ali ia de cabecear era uma coisa por demais.
Espero que a consanguinidade ataque a vistinha - não haveria necessidade de o pessoal dos discursos perceber que da terceira fila para trás estavam todos a meditar profundamente.

Uma vez, ao folhear uma revista Nova Gente, aconteceu-me algo muito esquisito: aquele pessoal todo a sorrir para o fotógrafo, muito satisfeitos de serem VIPs e Stars, e eu a olhar para eles sem conseguir identificar ninguém. Stars de quê, VIPs porquê? Bem: no domingo aconteceu-me o mesmo, mas ao vivo. Acho que reconheci uma das filhas da Gloria von Thurn und Taxis, mas com esta memória visual de que padeço também podia ter sido a minha irmã. Sabe-se lá.


Do fim de semana cultural fica esta conclusão: Deus dá as nozes, e às vezes o bolor, e a mim as alergias.

***

E por falar em nozes: os meus filhos estão neste momento na cidade a vender bombons que fizeram com nozes e chocolate amargo. Chamam-lhe Bio-Montignac-Anna-Amalia-Kinder-Pralinen (sim, dirigem-se a todos os possíveis segmentos de mercado, desde os turistas da cultura, até aos que querem emagrecer com o método Montignac, passando pelo crescente número de consumidores de produtos biológicos). Três euros por 100 gr - vão juntar bom dinheirinho para as férias que começam daqui a nada, depois de escrever este post e fazer as malas para os próximos dez dias.

Boa Páscoa!