02 abril 2026

saudades de uma viagem que não fiz

 


O facebook lembra-me este post da Carla Rodrigues dos Santos, com mais de dez anos. Partilho-o mais abaixo, mas recomendo muito que - quem puder - o leia no facebook, por causa dos textos que acompanham cada imagem.
Tenho saudades da Carla e - espantosamente - também desta viagem dela. Como se tivesse andado a dar a volta ao mundo com eles. (Lembro-me particularmente de uma frase que ela largou quando estava no Laos: "Digam à minha mãe que não vou regressar.")

Perdi a minha capacidade de sintese em Sapa. Tudo me parece importante, tenho pena de tudo o que aqui não mostro.
O nevoeiro que não dos deixa ver a paisagem, o caminho em argila que nos faz deslizar e cair, os trajes dos H'omng pretos, os Dzais, os Dzaos, os flower h'mong, as crianças nuas a banharem-se no rio, a lama nos arrozais, os galos que começam a cantar às 6 da manhã, os cães que ladram a noite inteira nas aldeias, o sound systema a fundo, as brincadeiras viris das crianças, o pequeno almoço com arroz, carne e tofu, o vinho de arroz que me arde por todo o tubo digestivo, as conversas que não percebo, o bébé de dois anos que morreu afogado enquanto a mãe cavava a terra para plantar indigo, os dentes de ouro, os dentes tingidos de preto das mulheres velhas, ser velha aos 45 anos.
A minha vida imaginada aqui, a plantar milho para as galinhas, a ficar marreca com todo o trabalho da cultura de arroz, a aprender a falar inglês com os turistas, vender-lhes o que costurei ou mandei vir de uma fabrica chinesa, saber que mesmo que mande os meus filhos para a escola, não vai haver empregos para eles - que o futuro deles vai ser igual ao passado dos pais. Para os H'mongs vai haver sempre a terra, a subsistência, o dia a dia, o dinheiro que o turista guarda para ele.
E saber muito cedo, que o mundo não vai mudar como eu gostava. E a continuar, mesmo assim.
A Anabanana a bom tempo nos mandou aqui. Kam on !

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