Por ter gostado muito desta sua síntese, partilho um post de Rui Guerreiro, publicado no seu mural de Facebook em 22.3.2026.
"Nem que seja por respeito à minha experiência de vida,
já que inteligência, ao que parece, não tenho nenhuma,
porque, se tivesse luzes à frente,
não estava aqui no Luxemburgo, à míngua de emprego.
Sou a prova viva dos sucessivos desgovernos que nos assolaram,
que me atiraram para uma insolvência injusta
e demasiado pesada, um laço ao pescoço.
Mas não transformem uma massada de peixe
numa açorda espapaçada.
Continuo a ver muita gente na esplanada,
Mercedes e SUVs de todas as marcas douradas,
restaurantes que se dão ao luxo de escolher as marcações,
e avenidas congestionadas.
No inferno anda-se a pé
e come-se de vez em quando.
Confesso:
quando o Chega foi pela primeira vez a votos,
senti que o povo português ia aproveitar a sátira
para mostrar em sapateado, um cartão vermelho
a todos os poderes
e a todas as instituições.
Era fácil gostar de André Ventura,
como muitos, onde me incluo, gostam do eterno
“candidato Vieira”.
Porque o humor é uma forma de arte
e de resistência,
uma das mais antigas.
Discursos com sapatos de meio metro
e bola no nariz
são, para a maioria, uma alegoria antiga:
o circo que descia à cidade
para augúrio das crianças
e de alguns desistentes
que encontravam no riso e no espanto
uma janela para o sonho.
Até aqui, tudo bem.
O ser humano tem uma tendência escabrosa
para o excesso
e para o zelo.
E isso levou-me a pensar
que o senso comum,
por norma,
acaba por pôr estas coisas no sítio.
Mas hoje…
Depois de ver a Assembleia da República
transformada numa espécie de república das bananas,
e depois de ver a Europa
a ser atacada por todos os lados,
mas principalmente por dentro,
sou obrigado, por experiência própria, a afirmar:
já fomos longe de mais com a birra.
Chega.
O líder partidário, ou comediante azarado,
o palhaço triste do circo de outrora,
não pode continuar a ser confundido com um messias.
Sob pena de acordarem
num país onde já não querem estar,
mas onde têm de ficar,
por não terem outras opções.
Emigrar, meus amigos,
não é mudar de país.
É arrancar as raízes da terra.
Estão a confundir um menino mimado,
que perdeu no debate político interno para Pedro Passos Coelho,
com o vosso Messias.
Estamos a falar de alguém
que está para a ideologia política
como estamos todos para a física quântica:
alguém que faz política à vista,
como nas caravelas,
sem mapa
e sem astrolábio.
Confesso que sempre pensei
que em Portugal ainda havia sopa
e livros para ler,
que o desfasamento ainda não estava tão acentuado.
Desconhecia por isso o novo Portugal profundo, aquele que se esconde no buraco.
Enganei-me.
E por isso peço desculpa.
Mas talvez ainda vá a tempo
de mostrar, com o exemplo americano,
o que nos espera.
Trump, o vitalício candidato ao Nobel da Paz,
conseguiu, em dois anos,
começar uma espécie de terceira guerra mundial,
ao mesmo tempo que prepara a América
para a guerra civil.
Estão os dois para a política
como o diabo está para a cruz.
Lutar por justiça
ou por melhores condições
é muito diferente
de puxar fogo ao circo das instituições.
Nada muda da noite para o dia.
É preciso tempo.
Porque, tal como numa guerra,
podemos determinar quando começa a revolta,
mas nunca sabemos como vai acabar.
Vivemos um período de avanços tecnológicos
como não acontecia desde a Revolução Industrial.
E eu sou o primeiro a concordar:
o desconhecido assusta.
E muito.
Mas, perante o incerto,
o mais racional
seria permanecermos juntos.
Porque a confusão é amiga dos predadores.
E se cada um começar a correr para seu lado,
então a dança da morte desce à cidade.
E vocês nunca vão ser os lobos,
desculpem que vos diga,
serão sempre os cordeiros.
Um país não muda
às mãos de um milagreiro.
Muda por dentro primeiro.
E isso leva tempo.
Às vezes, gerações.
Se tentarmos quebrar o padrão à força,
abrimos a porta à anarquia.
E, no caos,
o ser humano entra em modo de sobrevivência,
perde a visão periférica,
deixa de conseguir raciocinar.
E, sem pensamento,
somos todos pedras de atirar.
Se este texto não vos fizer pensar,
pensem nos vossos filhos.
E em todas as gerações vindouras,
que precisam de ter condições mínimas
para poderem escolher o seu próprio futuro.
A política da terra queimada
não serve para mais nada
senão para eucaliptos.
Reparem:
sou o primeiro a dizer
que há muita coisa que precisa de mudar.
Vivemos uma crise profunda de ideologias
e, principalmente, de estadistas.
Mas isso não pode ser desculpa
para a histeria colectiva,
para a alucinação em massa.
Porque quem se mete com crianças…
acaba sempre… vocês sabem.
Insisto, por isso, na mesma receita
para as maleitas que já mencionei:
sopa ligeira
e muitos livros para ler.
Comecem pelos clássicos.
Estou cansado, demasiado cansado,
mas não pouso o raio da caneta."
Rui Guerreiro
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