Antes de irmos todos para casa reflectir profundamente, queria voltar a um tema que voltou à berlinda esta semana: o que acham os homens sobre o aborto.
Será que os tempos já estão maduros para assumir que nenhuma criança é gerada sem a participação do pai biológico (excepto uma, vá, mas foi por uma vez sem exemplo) e que o preço de uma gravidez não desejada, mas imposta pela sociedade, tem de ser pago pelos dois?
Significa isso que a sociedade que quer obrigar a mulher a levar uma gravidez não desejada até ao fim tem de ser também a sociedade que, mal a criança nasce, obriga o pai biológico a assumir todas as responsabilidades: de criar, de educar, de acompanhar, de ir levar e ir buscar aonde for preciso, e de pagar.
Sublinho: o pai biológico - não é a mãe dele, nem a criada, nem a mãe adoptiva. Se a mulher aguentou 9 meses violentos e um parto (que, note-se: não queria!), o homem também há-de ser capaz de aguentar umas noites mal dormidas, umas faltas ao trabalho por doença da criança, uma gestão apertada dos seus horários, queira ou não queira. Se não queria, paciência: tivesse tento na gaita. Pensasse antes de fazer.
Portanto, tão bem-falante candidato Cotrim: se quer mudar as regras, mude-as a sério. Roubar liberdade de escolha à mulher sem a roubar em medida equivalente ao pai biológico é violência misógina. Se roubar a ambos em igual medida, também é violência, mas pelo menos não é só contra a mulher.
Claro que sei o que vão comentar: "ai, que horror, coitadinha da criança a ser criada por um homem que não a queria/não tem jeito/não tem vocação/não estava na fase certa da vida, mas foi a isso obrigado pela sociedade! Que ideia cruel! Nenhuma criança merece!"
E têm toda a razão. Porque o primeiro direito de uma criança é ser desejada e acolhida por pais que se sentem felizes por tê-la. E por isso mesmo me parece uma violência a sociedade obrigar uma criança a nascer de uma mulher que não a quer.
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