21 maio 2020

regresso a Le Conquet


O primeiro passeio que demos quando chegámos à Bretanha foi até Le Conquet. Mas na primeira semana de Março ainda éramos muito novos: limitámo-nos a passear pelas ruas da cidadezinha, e a comer crepes deliciosos numa casa com quinhentos anos. Só no dia seguinte nos informaram que o programa mais interessante de Le Conquet são as caminhadas do lado de lá da baía.

Na realidade, na nossa ignorância fomos bem espertos: como se tivéssemos adivinhado que o tempo de comer crepes sentados numa sala agradável ia acabar em breve, e que na primeira fase do desconfinamento a única alegria que nos seria devolvida ia ser a das caminhadas.

No sábado passado voltámos a Le Conquet, para fazer a tal caminhada na península em frente: Kermorvan.
Impressionantemente linda.
(Mas tenho de ter cuidado: já percebi que nos próximos quatro meses me vai ser difícil não repetir adjectivos de deslumbramento.)





(Enquanto durar esta Primavera, vão ter de me aturar as fotografias com florzinhas. E esperem só até publicar as fotos do dia seguinte, as da Île de Batz.)

A península de Kermorvan termina em frente a uma ilhota que se pode alcançar a pé seco na maré baixa. Como não podia deixar de ser, numa costa de corsários e inimigos vários e poderosos, também aqui existe um forte construído segundo planos de Vauban.

"No meio do caminho havia uma pedra". Inúmeras, aliás. E entre elas pocinhas de água a fervilhar de caramujos. Apanhámos alguns, para comparar com os de viveiro que tínhamos comprado de manhã. Tinham mais areia, e um sabor muito mais intenso.






Quem sai da ilhota e vira à direita avança na direcção do famoso farol do Astérix e da Volta à Gália. E do inevitável bunker alemão que lhe faz sombra desde há cerca de oitenta anos.


Mas antes de chegar ao farol passa pela praia Porz Pabu, que foi o local de entrada de São Tugdual/Tudwal/Tuzval/Tudal/T(h)ugal/Tual/Tutuarn/Pabu, um dos sete santos fundadores da Bretanha. Com tantos nomes diferentes, quase se diria o Fernando Pessoa dos sete. Muito fácil de reconhecer nos altares: é o que tem a pomba branca pousada sobre um ombro. Conta a lenda que foi em peregrinação a Roma, e calhou de o papa morrer justamente nessa altura. Durante as exéquias uma pomba branca pousou-lhe sobre o ombro, o que foi entendido como sinal divino para a escolha do novo papa (mas eu, que já ando aqui há umas semanas, estava capaz de desconfiar que ele teria uns bocaditos de gâteau breton escondidos no manto, para ir comendo enquanto esperava o fim do latinório, e a espertalhona da pomba...). Seja como for, a sessão na Capela Sistina foi rápida, porque o caso já estava decidido, e além disso a capela só viria a ser construída mil anos depois. Tugdual foi eleito papa, e assim ganhou um novo nome na Bretanha: Pabu, papa. Mas ao fim de alguns meses apareceu-lhe um cavalo branco que o levou pelos ares de volta à sua sé bretã em Tréguier. A cada época o seu beam me up, Scotty.

A praia de Porz Pabu estava fechada por causa da covid. Mas dava para ver que o santo dos sete nomes tinha bom gosto. O inimigo alemão, também: não faltava o bunker, com uma bela vista para a enseada de águas esmeralda.



Um pouco mais à frente espreitamos o tal farol do Astérix. E mais bunkers, mas esses não fotografei. As pedras na praia junto ao farol tinham formas fascinantes.



O meu telemóvel desatou a tirar fotografias em autogestão, com o horizonte na diagonal.
É um autêntico smartphone... 


Continuámos a caminhada rumo a Le Conquet. O mar estava calmo, e os barcos dormitavam tranquilamente no porto. Outros estavam pousados no lodo, à espera da maré alta.
A princípio, estes barcos fora da água faziam-me pensar na nossa própria situação em tempos de covid. Mas com o tempo habituei-me à sua situação desconfortável: uma lição de paciência. 







De Le Conquet seguimos para Saint Matthieu, lá perto, onde há uma estranha mistura de ruínas e faróis. Tal como perante os barcos fora da água, também aqui somos tomados por uma sensação de estranheza: como se tudo estivesse fora do lugar, do tempo, do contexto, do sentido.









Diz-se que já no século VI havia um mosteiro neste extremo da Finisterra, e nele se guardavam relíquias do evangelista S. Mateus, que marinheiros bretões teriam trazido do Egipto. Em 1206 receberam partes do crânio do santo, que contribuíram para fazer da abadia - construída no século XII, primeiro em estilo românico e depois em gótico - um importante lugar de peregrinação. É essa a igreja que agora se vê em ruínas, entre faróis e torres de vigia.





À volta do mosteiro e das suas regalias, nomeadamente o direito de fazer feiras e mercados, desenvolveu-se uma intensa actividade económica, A cidade chegou a ter dois mil habitantes no século XV, mas hoje tem apenas meia dúzia de casas. Da antiga igreja paroquial, do século XIV, só sobrou o portal. Igreja, localidade e população foram vítimas de uma razia inglesa em 1558. No século XIX reconstruíram uma capela no lugar da antiga igreja paroquial, deixando o portal da igreja original esquecido ali ao lado. 





Em frente a essa capela há uma praça enorme: um descampado com piso de pedra ao longo do terreno murado onde ficava a horta dos frades. Do lado oposto vê-se ainda o que resta de um poço.
E tudo aquilo tem um ar desolado.

Desolado também é o monumento que fizeram em frente ao mar para lembrar os marinheiros mortos pela França. O autêntico "faz-me um desenho": com um busto de mulher triste a fitar o mar, a inscrição "aux marins 1914-1918", e a imagem de um marinheiro. Como se não bastasse, ainda têm uma placa a dizer às pessoas que aquele é um lugar triste, e que devem respeitar o silêncio. 

Por ser tão claro - quase humilhante - o que se esperava de mim neste lugar, lembrei-me de um comentário que ouvi a uma francesa que organiza visitas guiadas de arte contemporânea. Dizia ela que Berlim sabe fazer memoriais não impositivos, permitindo às pessoas que os deixem ecoar livremente no seu espaço subjectivo de ressonância. Por isso, dizia ela, Berlim é uma cidade com tanta energia positiva. 

 

Gostei de ver Saint Matthieu e as falésias deslumbrantes que rodeiam aquele cabo. Mas voltei para casa um pouco cabisbaixa - e não terá sido apenas do cansaço das caminhadas. 


4 comentários:

Helena Monteiro disse...

Obrigada. Fotografias lindíssimas de lugares que não conheço (gostava que fosse ainda...) de uma França que sempre me encantou. O confinamento ajuda a querer espreitar por estas janelas que nos deixam espreitar o “ lá fora “! O texto.. muito a meu gosto. Está autora de conhecimento-recente-de-escrita, ajuda-me a ficar a aqui mas com companhia. Obrigada, de novo. Helena .,outra do mesmo nome

" R y k @ r d o " disse...

Olhares fotográficos fascinantes
.
Felicidade em seu coração

jj.amarante disse...

«Mas com o tempo habituei-me à sua situação desconfortável: uma lição de paciência. »

Qual paciência, ao fim de menos de 6 horinhas já têm maré alta outra vez, antes do COVID esperava-se mais do que isso frequentemente nas urgências dos hospitais em Portugal. :)

Luccas Neto disse...

Interessante seu post, muito bem explicado. Parecido um pouco com um artigo do
Mega Sorte que lir recentemente na Internet.