13 agosto 2013

mais uma vez estou em crer que o futuro já foi pior


Esta imagem, que encontrei no facebook, irritou-me. Que arrogância é essa de chamar imbecil a jovens que estão concentrados no seu telemóvel? Conheço alguns que fazem muito essa figura: são amigos dos meus filhos, e ajudam-me imenso com o computador. Têm conhecimentos e uma intuição que eu nunca terei. Mas são simpáticos e discretos - nunca me deram a entender que, no que diz respeito ao mundo onde se movem com tanto desembaraço, a imbecil sou eu.

Do facebook para o 5 Dias, onde a Raquel Varela faz um desabafo descuidado. Embora ela tenha avisado que estava a fazer uma caricatura, sinto essa descrição como uma ofensa grave - e desnecessária - aos jovens portugueses. Talvez ande com as companhias erradas, mas os jovens que conheço não têm uma postura e actividade política muito diferente da dos seus avós, e uns e outros estão longe de corresponder ao que se afirma neste texto.
O ataque aos jovens é tão inapropriado como o elogio aos mais velhos, a "geração que fez o Maio de 68 e a revolução de Abril". A revolução de Abril não foi preparada pelos jovens dessa época, foi iniciada por um punhado de militares. De 24 para 26 de Abril de 1974, a maioria do povo português passou de politicamente amorfo para esperançado participante. Arranjassem hoje um punhado de militares que viesse depor o governo e exigir que a Europa tenha outra política de ajuda aos países em crise, e num instante estes jovens "apolíticos" sairiam à rua cheios de esperança, brandindo a flor da estação, juntando histórias míticas para contar aos seus netos daqui a 40 anos.  
(Não, não estou a sugerir um golpe militar. Era mesmo só para lembrar que. E aproveito para lembrar também que nos anos sessenta a maior parte dos jovens portugueses estava ou a fazer pela vida, batendo a bolinha baixa, ou a emigrar. Assim de repente, em termos de participação política, não vejo grande diferença entre esses e os jovens de hoje.)

Repasso o post de Raquel Varela. A seguir, um comentário de Nuno Atalaia.
Grande Nuno Atalaia! Descobrir gente assim faz-me acreditar que o futuro já foi pior.

Onde estão os nossos jovens?

O problema do nosso país não são os reformados, eles são parte da solução. Não temos «velhos a mais», temos «jovens a menos». O problema é a total ausência dos jovens na luta social e política. Jovens (entre os 16 e os 25 anos), que estão em casa, a vegetar. Filhos e netos dos reformados que fizeram o Maio de 68 e a revolução de Abril. Os precários, que estão na rua, são adultos, desempregados e dependentes, mas adultos.
Os jovens estão, literalmente, a ver a banda passar, sem fazer parte da música, alvos passivos da história, sujeitos de coisa nenhuma. E pensar que a geração que fazia política na universidade e perdia 1 ou 2 anos, sem pagar propinas, era considerada preguiçosa??!! Trabalhadores, cheios de iniciativa, força emocional, são estes jovens, mortos de medo, incultos, ignorantes, competitivamente convencidos que a  política não lhes diz respeito porque eles «pensam pela própria cabeça». 40 a 60% estão desempregados, portanto, no estado animal de comer, dormir e ler 2 parágrafos no facebook, que mais do que isso dá trabalho. Já os avós estão a organizar partidos, associações e manifestações.
Quem estuda movimentos sociais será sempre confrontado com esta variável, a que devemos procurar responder e que urge compreender. A crise de 2008 tem como sujeitos sociais uma novidade histórica – os reformados, que nunca até aqui tinham tido um papel de relevância na luta social -,  e tem como ausência, pela primeira vez desde os anos 60, a juventude.
É verdade que estas palavras são uma caricatura, portanto, uma imagem deformada. Mas ainda assim, reconheçam, com algo de verdade. Há uma geração inteira que vai ser queimada, sem futuro, calada, inamovível, imagino, em frente da televisão ou do computador. Ser empreendedor era começar por tirarem um curso de memória histórica de organização com os pais, outro de política e cultura com os avós, e virem para a rua e tornar esta política ingovernável. Assim, como fizeram todos os utópicos – tantos deles com 18 anos – que nos deixaram a civilização.
Cartoon Divertido_thumb[2]

***
Cara Raquel
Sei que provavelmente não vai responder a este comentário mas mesmo assim queria deixar bem claro uma coisa. Considero-a uma das mentes políticas mais interessantes em Portugal, e a minha única pena é não a ter encontrado antes. No entanto, tenho vindo a notar que como estratega política a Raquel é capaz de cometer os erros mais aventesmais, alienando a uma causa, que considero universal, parcelas inteiras da população. Agora, alienar as pessoas a uma causa universal, digo-lhe, tem o seu mérito, mas sinceramente não creio que é esse o mérito que a Raquel almeja.
Porque eu Raquel incluo-me nessa faixa etária que você não caricaturou mas insultou, pese embora quaisquer elementos mais ou menos verossímeis dessa sua “caricatura”. Compreendo que esta “crítica” é mais um desabafo, um impulso proveniente de um qualquer fundo de amargura perfeitamente justificada tendo em conta o estado da política (económica, social e cultural) do nosso país. No entanto note-se que esta compreensão é algo que ninguém lhe deve. E note-se que como ADULTA como gosta de dizer para se diferenciar de nós reles JOVENS, desabafar assim é uma opção que você já não pode ter responsavelmente.
Mais, que um jovem, como eu, leia isto, e decida nunca mais prestar-lhe atenção e afastar-se de qualquer iniciativa ou movimento político que tenha o seu nome ligado a ela, é um impulso tão ou mais justificável como aquele que a levou a escrever este seu pequeno textinho. Poderemos ser todos uma cambada de juventudes irritadas e irritantes, mas sabe que mais, não somos apenas um problema, ou uma oposição aos seus ideiais, somos a sua única esperança e é essa contradição no povo que o camarada Mao tentava abordar – que para além de qualquer utopia proletária terá ainda de ser mitigada a eterna luta de gerações.
Para ser muito sincero nem sei se tenho a capacidade de a considerar camarada. Porque isto de brincar ás elitezinhas intelectuais, é tão ou mais perigoso, tão ou mais socialmente nocivo, tão ou mais insultuoso que brincar aos pobrezinhos. Ainda mais quando eu começo a pensar que esta visão instrumentalizante da juventude (não mais que um grupo a ser indoutrinado com a “verdade” e alienado do seu próprio potencial político) está no cerne ideológico da maior parte das organizações de esquerda. Porque eu não a vejo a tentar fazer qualquer tipo de militância de bases a nível jovem – quer saber mais dos avós e dos pais.
Como jovem posso afirmar que o meu nascimento político foi para um mundo criado pela SUA geração, para políticos da SUA geração destruindo o futuro da MINHA geração. Acordei para uma terceira via imparável e para uma das esquerdas mais fragmentadas, e mais partidariamente incompetentes de toda a história do movimento; incapaz de manter qualquer tipo de resultados ao nível da militância de base, como ao nível de teoria de esquerda; incapaz de se renovar para uma realidade que nasceu com o 25 de Abril, realidade essa que ao mesmo tempo ajudou a criar; incapaz mesmo de ser uma união mas sim um combate de egos e ninharias ideológicas face a um neo-liberalismo vital e saudavelmente unido. Passaram um atestado de incompetência política à geração que mais tempo gastou a aprender – precisamente porque estava a aprender e não a “trabalhar” – e espantam-se que nós não acorremos a juntar-nos às vossas fileiras.
E por falar em fileiras, como historiadora deve ter notado que as maiores manifestações e movimentos activistas dos últimos anos são organizados não pela CGTP ou qualquer organização sincidal mas sim por jovens vegetantes nas plataformas sociais do Facebook. E terei visto mal a forma como os doutos e santos reformados tratavam esses jovens nessas mesmas manifestações?
Entrando no registo da caricatura, a minha preocupação não estaria com os netos mas os filhos dos reformados. Essa estrondosa maioria etária no parlamento, na direção dos partidos, nos locais de trabalho tanto do lado empregante como empregado. Melhor, os adultos pais que chegam a casa demasiado preocupados em educar os seus filhos e que decidiram que o melhor acompanhante para os seus filhos é uma fauna mediática que dia após dia enche de uma ideologia pouco emancipatória a nossa visão e imaginação política. Esses pais que se espantam que os filhos APRENDEM algo, mas não aquilo que eles pensavam ou queriam. Os pais marxistas que nunca reteram essa verdade máxima do materialismo histórico – a de que uma superestrutura só se poderá renovar se a estrutura de base também ela se renovar. E não há mais básico que os jovens, e não há maior reflexo do fracasso da SUA geração que os jovens.
E agora eu poderia ficar por aqui não é? Poderia dizer que já é tarde demais que os pais não conseguiram mostrar alternativas ou escolhas políticas que minimamente empatizassem com os filhos e as suas preocupações. Poderia aconselhar algum tipo de workshop de comunicação familiar ou terapia de grupo. Mas isso não nos ajudava muito.
Por isso tento aqui acabar com um gesto que talvez a Raquel pudesse retribuir: de lhe estender o braço e chamá-la camarada. De lhe pedir diálogo sério, de aprendermos uns com os outros, de realmente olharmos para o outro lado e vermos que por muitas diferenças que tenhamos uns entre os outros, temos em comum a nossa condição de explorados, de sermos a classe social que como Lukács dizia é a única capaz de reclamar e se identificar com uma universalidade histórica.
Porque o fim da história que Marx previa era o fim dessa farsa que nos dizem ser história, o começo de uma verdadeira história. A verdadeira história por começar é a do homem livre de preconceitos que só o alienam das suas capacidades e dos seus camaradas.
E por isso, camarada Raquel, estendo o braço e deixo o meu contacto, esperando um diálogo menos irritado.
Seu
Nuno Atalaia

8 comentários:

wapy disse...

Acho que me apaixonei um bocadinho.

Helena disse...

alto lá! eu vi primeiro.
;)

Cristina Torrão disse...

É verdade, Helena, "a revolução de Abril não foi preparada pelos jovens dessa época". Na verdade, salvo raras (raríssimas) exceções, os jovens dessa época eram muito ignorantes, não sabiam o que era política, nem PIDE, muitos nem sabiam que viviam numa ditadura. Eu era criança, lembro-me bem do meu deslumbramento em relação à revolução. Mas também me lembro que o deslumbramento dos adultos à minha volta era ainda maior.
Ao fazermos o retrato histórico, centramo-nos, claro, naqueles que lutaram, que até estiveram presos, ou que, de alguma maneira, contribuíram para mudar a sociedade. Mas quantos eram? Depois de quase cinco décadas de ditadura, é verdade que a ignorância grassava no país. E é por isso que é preciso muito cuidado com "retratos históricos".

Também me irrita que haja pessoas a dizer que os jovens deviam aprender com os pais e os avós. Então os pais e os avós ainda não tiveram tempo de lhes ensinar o que era importante? O que estiveram esses pais e esses avós a fazer, nestes últimos 20 a 30 anos? Valha-me Deus!
Quando se atiram as responsabilidades para cima dos jovens, é esquecido que, quem os criou, é que tinha a responsabilidade de lhes ensinar alguma coisa. Somos "atirados" indefesos e analfabetos para este mundo, compete aos pais (ou aos adultos à nossa volta) darem-nos formação. Ou será ao contrário?

Helena disse...

Cristina,
pois é: que exemplo terão recebido esses jovens, para - alegadamente - não serem capazes de mais do que duas frases no facebook?
E sim: gostava de saber quantos eram esses jovens dos 16 aos 25 anos que antes do 25 de Abril tanto lutaram.
Finalmente: talvez hoje seja preciso lutar de forma diferente. Talvez o futuro se construa menos com partidos políticos, e mais com grupos internacionais como o attac, o greenpeace, o transparency internacional, o amnesty international, etc. - e talvez haja largos milhares de jovens portugueses a trabalhar nesses grupos.

D.S. disse...

Helena, muito obrigada por partilhar este comentário tão digno. Pertencendo à geração que a senhora caricatura, sinto-me sempre frustrada cada vez que oiço esse desprezo pela "geração à rasca", que são uns burros, uns preguiçosos e sem interesse nenhum pela coisa pública. Como em todas as gerações, há quem se interesse muito, há quem se interesse menos, há pessoas trabalhadoras, há calões, etc. E não é melhor nem pior que antigamente. Acho que o problema de muitos adultos/velhos é não se lembrarem de como era e de como eram há 20, 30, 40 anos atrás. E serem incapazes de ver que os tempos, apesar de terem muita coisa diferente do antigamente, no fundo não são piores em termos de capital humano. Espera-se até que sejam um pouquinho melhores.

Helena disse...

Nem mais, D.S.

Pedro disse...

Andava a precisar disto :)

(ainda que ressacas de álcool e de tabaco sejam piores, é um facto)

Cristina Torrão disse...

Sim, a falta de memória é responsável por muitos mal-entendidos. Chegados à idade adulta, esquecemo-nos do que é ser criança; chegados à meia-idade, esquecemo-nos do que é ser jovem; e por aí fora...