15 agosto 2013

lembram-se da Terri Schiavo?



Lembram-se da Terri Schiavo, e de na altura se discutir imenso se ela ainda estava "cá" (como afirmavam os pais) ou se estava irreversivelmente do lado de "lá" (como dizia o marido)?
Às tantas, os pais tinham razão:
Vegetative Patient Communicates By 'Answering' Questions Using Attention
(notícia no Huffington Post)

Desse debate lembro-me de ter ficado chocada com o desenlace final: desligaram as máquinas, deixaram-na morrer de fome e de sede. A ser verdade que essas pessoas estão presas dentro do seu corpo e percebem o que se passa dentro delas e à sua volta, a decisão de as deixar morrer lentamente revela-se ainda mais terrível.

***

Este verão fui posta perante um dilema desse género. Descobrimos um ninho dentro do esquentador da nossa casa, e uma mãe melra que entrava pela enorme chaminé da cozinha, num permanente vai e vem para alimentar os filhos. Que fazer? Ainda ponderámos deixar o ninho ali mesmo, e não tomar duche de água quente. Mas não era muito agradável passar o Verão a desenrascar refeições fora de casa por ter a cozinha ocupada por pássaros. Escolhemos um lugar seguro onde pousar o ninho, e chamei um técnico que viesse abrir o esquentador e resolver o problema. Ele, muito despachado, resolveu o problema atirando o ninho pela janela fora. "Pássaros há muitos", dir-me-iam depois lá na aldeia. 
Eu é que não aguentava a cena daqueles bicos escancarados a pedir comida, a mãe já a léguas, eles a recusarem a farinha que lhes dava. Para não ficarem a morrer uma morte lenta, resolvi afogá-los.
(Hoje sei que desisti cedo demais - devia ter molhado a farinha em água, e ver se eles comiam.)

Já encomendei uma rede à volta da chaminé, mas mantém-se a questão: deixar que a natureza siga o seu rumo, e lavar daí as minhas mãos, ou sujá-las para reduzir o sofrimento?

Nem sei se estou a falar de pássaros, ou de eutanásia.
Mas se for da eutanásia, tenho de acrescentar um ponto que me preocupa cada vez mais: num mundo em que se conta cada cêntimo que o Estado Social gasta, normalizar a eutanásia pode ser abrir uma caixa de Pandora pela qual os velhos se verão convidados a desaparecer, para não provocar mais custos.  

5 comentários:

Interessada disse...

O procedimento mais correcto será sempre uma incógnita, para quem não tem certezas.
Mas parece-me que a questão da eutanásia está deslocada, uma vez que essa será sempre por vontade própria. E sendo assim, mesmo com as condicionantes inerentes, aprovo-a.
Julgo que o que refere no último parágrafo deixa de ser relevante se pensarmos que essas circunstâncias se verificam numa sociedade que não está preparada para oferecer uma vida digna aos idosos.
Essa falta de dignidade deverá ser combatida de outra forma e não por objecção à eutanásia.
A eutanásia deve ser um direito de qualquer ser humano, até por e apesar do que diz.

Helena disse...

Concordo com quase tudo, Interessada. Só uma coisa me preocupa: até que ponto é que somos verdadeiramente livres nas escolhas que fazemos? Que liberdade tem um idoso de continuar vivo, se a sociedade lhe dá a entender que ele é um fardo, ou que não faz sentido viver com tanta dependência?

Não é preciso ir muito longe: desde que é possível fazer testes durante a gravidez e abortar se a criança tiver uma deficiência, as mães de crianças com síndroma de Down resvalaram para uma posição em que têm de justificar porque é que não abortaram.

Luna disse...

Na Holanda a eutanásia é legal, e parece-me algo muito menos desumano que o simple desligar das máquinas (quando a função cardiaca e respiratória não param).

Helena disse...

Luna,
não tenho opinião sobre a eutanásia. Apenas dúvidas semelhantes à história dos passarinhos: deixá-los morrer de morte lenta, nem pensar. Mas será que tentei mesmo tudo o que era possível para os salvar, ou desisti cedo demais?
Li uma vez entrevistas com pessoas que já tinham marcado data para ir morrer a Zurique. Uma delas era uma mulher que tinha uma doença degenerativa, e não queria chegar ao ponto de a filha ter de lhe mudar as fraldas.
A filha, presente na entrevista, chorava e dizia: " e quando eu te for levar a Zurique, de que vamos falar durante todas aquelas horas da viagem?"

Cristina Torrão disse...

Gostei muito deste post :)