20 abril 2013

Messi, mais para lá que para cá




Uma das surpresas que a Christina preparou para a nossa viagem foi um jogo de qualificação para o campeonato mundial de futebol. Um Bolívia-Argentina, que é como quem diz: Messi!
Aconteceu em La Paz, num estádio a 3.637 m de altitude, que é como quem diz: coitadinho do Messi!

Fomos buscar os bilhetes a uma agência de viagens, e a senhora perguntou-nos se tínhamos equipamento a preceito. Claro que sim!, respondemos, e exibimos todos satisfeitos as t-shirts da equipa boliviana que a Christina nos dera. Ela insistiu que tínhamos de as vestir logo ali, ensinou-nos a dizer bo-bo-bo  li-li-li  via-via-via  viva-Bolivia!, fez fotografias da nossa figura e fartou-se de rir.

Saímos já todos equipados, e tentámos aproveitar as poucas horas que tínhamos, antes de começar o jogo, para ir conhecer a cidade. As pessoas que passavam por nós riam-se muito, espetavam o polegar para cima, diziam "viva Bolivia!" - nós sorríamos.



A igreja de São Francisco estava a fechar para o intervalo do almoço, mas o guarda olhou para nós e perguntou "é mesmo só para entrar e sair, não é?"
"É! é!", respondemos nós, e entrámos todos satisfeitos, mas vimos a igreja tão a correr que nem me lembro de nada para contar.
Felizmente a fachada da igreja não fecha para almoço. Fascinante: feita por pedreiros indígenas, mistura ao barroco dos espanhóis vários símbolos que nada têm a ver com a cultura europeia. Bela confusão vai por ali!



Subimos devagarinho pela Calle Sanjinés, e numa esquina encantei-me por uma casa com varandas de madeira que me fizeram parar, de tão belas. A família protestou: "despacha-te, que temos pouco tempo e queremos ver o Museu Nacional de Etnografia e Folclore!" Fiz umas fotografias rápidas, e continuámos a subir.



Duas esquinas acima demo-nos conta de que o museu que queríamos ver era a casa com as belas varandas. Voltámos para trás, e uns 30 m de altitude mais abaixo (La Paz é assim) descobri que me tinha esquecido de reparar na fachada da Igreja Santo Domingo e nos seus pumas a decorar as colunas. Logo ali tirámos a conclusão: La Paz precisa de muito mais que um par de horas. É para ser vista e saboreada com calma. Infelizmente, nós não tínhamos tanto tempo disponível.

Melhor dizendo: não tínhamos tempo nenhum! O museu fechava daí a vinte minutos. A senhora da caixa telefonou à chefe, pedindo autorização para nos deixar entrar de graça. O Joachim comentou "quem é que na Alemanha faria uma coisa destas?", mas eu por essa altura já desconfiava que uma família de gringos vestidos com as t-shirts verdes da selecção boliviana era o segredo do sucesso.
O museu fica num edifício colonial muito bonito, e tem uma enorme colecção de máscaras tradicionais. Também explica muito bem a evolução das culturas e dos modos de vida nas várias regiões da Bolívia. Precisa de muito mais que uma hora para ser bem visto - e nós vimos tudo a correr em meia hora. Um empregado veio chamar-nos a atenção para o atraso, com toda a delicadeza e simpatia. Talvez fosse boa ideia mandar alguns guardas de museus alemães fazer um pequeno estágio em La Paz. É que com simpatia consegue-se o mesmo efeito, mas todos continuam bem-dispostos.










Faltavam ainda duas horas e meia para o início do jogo. Queríamos muito ir à Calle Andes comprar uma máscara semelhante às que mostravam no museu, mas primeiro era preciso ir ao banco fazer uma transferência. Nunca vi: sem contar o tempo de espera na fila, fazer uma transferência demorou uma hora. De modo que não houve nem máscaras nem almoço - compramos empanadas de galinha na rua, e corremos para o estádio.


Eu e futebol é mais ou menos como daquela vez que passaram um filme ocidental numa aldeia indígena da Amazónia, e as pessoas dessa comunidade viam coisas completamente diferentes daquelas em que os ocidentais costumam reparar. Perdi o único golo marcado pela Argentina porque estava nesse momento a olhar para o Matthias e a sugerir-lhe não sei quê para proteger a cabeça do sol. O Joachim contou depois que o Di María precisou de máscara de oxigénio, mas eu não vi nada. Quando não olhava para o sol na cabeça do Matthias, e o gelado com um ar muito estranho na sua mão (cinco dias depois ainda andava cheio de dores de barriga) estava a olhar para o nº 10, ansiosa por ver o Fenómeno em acção.
O Fenómeno, contudo, espetava a cabeça entre os joelhos e deixava-se estar. Às vezes corria um pouco, chegou mesmo a tentar meter um golo - contei quatro vezes. Fintava quatro adversários ao mesmo tempo, passava por eles como Jesus passou por Maria, chegava à baliza e então pousava a bola no colo do guarda-redes (o Joachim diz que não era bem assim, mas a mim foi o que me pareceu). O guarda-redes metia a bola debaixo do sovaco e vinha dar umas palmadinhas amigáveis nas costas do Messi, como os pais americanos que dizem "good job" aos filhos só por eles terem tentado.
Gostei muito de ver aquele fair play entre adversários. Mas algo me diz que se o Messi estivesse a jogar três quilómetros mais abaixo, o guarda-redes boliviano não seria tão amoroso com ele.
Se ficar mais um bocadinho neste tema ainda invento uma teoria de correlação entre altitude e atitude. O melhor é andar para a frente.
O guarda-redes era chileno. Chamava-se Hijo de Puta, e saía do campo protegido por uma muralha de polícias de choque. Corajoso, o homem - atrever-se a assumir aquele papel poucos dias depois do Dia do Mar, o dia em que se lembra que o Chile roubou o mar à Bolívia (parece que os apanharam a festejar o Carnaval, e zimbas, passa para cá este bocadinho de país, e os bolivianos pensaram que seria gracinha de Entrudo, e quando foram para reagir já era tarde).
No final foi 1-1, muito melhor que da outra vez, quando a Bolívia deu 6-1 à Argentina. Mas ainda não foi desta que o Messi conseguiu marcar um golo àquela altitude.





Depois do jogo foi uma enorme confusão para arranjar um táxi que nos levasse para o outro lado da cidade (eles diziam que não tinham autorização para ir tão longe, mas o que nos pareceu foi que era mais um problema de vontade). Finalmente encontrámos um simpático que disse que sim, que não havia problema nenhum, e de caminho ainda nos levou ao miradouro Killi Killi. O caminho para lá foi assustador, porque o motor do carro tinha pouca potência e as ruas são do mais íngreme que se possa imaginar. O condutor subia aquelas rampas intermináveis às curvas (imaginem a Lombard Street de San Francisco, mas sem flores, e a subir) e numa das vezes chegou a descer em marcha atrás para ganhar lanço, subir a rua, fazer uma curva apertada e entrar noutra rua ainda mais íngreme. Mas valeu a pena: chegámos a uma plataforma sobre a cidade iluminada para a noite, e sobre ela uma gloriosa lua cheia.
La Paz tem uma diferença de 1000 m de altitude entre o ponto mais alto e o mais baixo da cidade. O altiplano, a 4000 m, termina abruptamente nas encostas de um enorme caldeirão, e por aí se despencam cascatas de casas simples, em tijolo sem reboco, que preenchem a paisagem numa uniformidade harmoniosa - e surpreendente: como é que eles fazem para segurar as casas àquela lage inclinada?




O dia terminou com mais uma corrida pela rua das feiticeiras, mesmo ao lado do nosso hotel. O Joachim queria comprar um chapéu de cholita, a Christina procurava imagens da Pachamama para enviar às amigas alemãs, eu entretive-me a ver pós para tudo (havia um que punha a mulher a mandar no homem, mas o Joachim não me deixou comprar) e um vinho Oporto para oferecer à Pachamama (não sei se ela apreciaria aquele vinho Oporto...) e o Matthias protestava porque não lhe apetecia ir jantar à peña onde tínhamos reservado mesa. 






O meu guia dizia que do mesmo modo que no Rio se vai à Lapa ver samba, em La Paz se vai a uma peña. Devia ter-me lembrado que eu na Lapa vou ver chorinho, e que o samba é na Mangueira - e que portanto aquela peña só podia correr mal. Era um lugar para turistas, e para nosso azar havia apenas mais uma mesa ocupada. De modo que todo o show das danças era para nós e as duas asiáticas da mesa ao lado. No fim de cada dança eles queriam dançar connosco, o Joachim não sabia como dizer que não, lá ia saltitar para o palco, ainda com a sua t-shirt da equipa nacional boliviana, e daí a nada regressava com cara de Messi ao chegar à baliza: mais para lá que para cá.

Mas comemos bife de lama - parecia borracha. Dias mais tarde, junto às ruínas de Tiahuanaco, comeríamos carne de lama, tenra e deliciosa, chegando à conclusão que provavelmente o primeiro bicho tinha levado uma vida muito stressada. Lama da cidade, lama do campo.

Saímos do restaurante antes do fim do show, deixando as duas asiáticas sem ter quem as revezasse quando os dançarinos faziam questão de vir buscar o público para ir fazer tristes figuras no palco.
Voltámos para o hotel pelas ruas tranquilas do centro antigo.



Daí a meia dúzia de horas partíamos para Rurrenabaque.

3 comentários:

snowgaze disse...

ahahah o que me ri com esse guarda-redes :)

Gi disse...

Helena, se pudesses substituir os comentaristas habituais de futebol na televisão os jogos ficavam muito mais divertidos!

Helena disse...

Ficavam, pois! Era como aquele actor ingles tao mau tao mau tao mau que enchia sempre os teatros...