06 março 2013

não sabíamos de nada...

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Segundo um estudo americano recentemente divulgado, os nazis tiveram na Europa mais de 42.500 locais onde as pessoas eram tratadas de forma cruel e desumana - entre campos de concentração, guetos e locais de trabalho forçado, inclusivamente bordéis. Em termos numéricos, revela-se um fenómeno de muito maior dimensão do que até agora se pensava. Estes números provam que não era apenas "lá longe em Auschwitz" - a iniquidade entrelaçava-se com o quotidiano de todos os países ocupados. 

No site do Tagesschau lê-se: "Estavam em todo o lado", diz Dean, e o seu colega Megargee acrescenta: "Se não antes, agora é muito claro que a desculpa de muitos alemães, que não sabiam de nada, é uma mentira."

É nesta frase que penso ao ler o post da Rita Dantas sobre a amazon e as suas terríveis práticas laborais e de mercado - vale muito a pena ler, tanto o post como os comentários. Não me passa pela cabeça comparar as condições de trabalho da amazon, ou de outras empresas, ao que acontecia naqueles 42.500 centros dos nazis. Mas comparo a atitude das sociedades, a de então e a nossa: no fundo sabemos que o nosso quotidiano está entrelaçado com a injustiça, mas preferimos nem pensar nisso.  

Agora foi a amazon. Antes foi uma grande cadeia de vestuário, que trabalhava com uma fábrica que produzia em condições de escravatura. Soube-se que uma cadeia de drogarias alemã explorava os seus trabalhadores para lá do legalmente imaginável, que um discounter espiava os seus funcionários com câmaras escondidas. Ninguém ignora que para o café, o chá e o cacau chegarem ao nosso mercado a preços baratos, quem trabalha nas plantações vive em condições de extrema pobreza. Ou que as lindas flores que compramos por tuta-e-meia no Inverno são produzidas em África em condições insalubres. Ou que os frangos que compramos tão baratos são alimentados com soja produzida numa Amazónia depredada. Ou que todos esses animais cuja carne comemos são criados em condições abjectas.

Nós sabemos. Procuramos permanentemente os produtos mais baratos, mas no fundo sabemos que o preço desse barato só pode ser a cínica exploração das pessoas e da natureza. 
O que podemos fazer?

Por coincidência, o semanário Die Zeit tem esta semana na primeira página a pergunta: "De quanto é que as pessoas precisam? Crescimento económico sem fim não traz a felicidade - consumo sem fim também não. Então, o quê? Um olhar sobre um mundo com menos"

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Parece-me um caminho a explorar: comprar menos, e de mais qualidade, por um preço justo para as pessoas envolvidas na produção e distribuição, e com garantias de protecção do meio ambiente.

11 comentários:

calita disse...

Há muito tempo que não compro carne, ovos e outros sem olhar para a origem, a idade de abate, etc. e fico sempre com um peso na consciência que nem imaginas. Há muito que deixei de comprar fruta e legumes de outros países, porque os custos para o ambiente são tremendos (com algumas excepções, parece que mandar vir carne de veado da Nova Zelândia para a Grã Bretanha é muito mais ecológico do que criar veados nos campos britânicos. Podemos questionar porque raio querem eles comer veado, mas também não percebo porque raio comemos porcos e vacas).
Enfim, isto tudo para dizer que uma pessoa por mais que tente ter um consumo racional, estamos sempre sujeitos ao que o mercado oferece.
Pelo menos uma coisa é certa, os vegetarianos não parecem tão estranhos como há uns anos atrás.

anouc disse...

Muitas vezes me sinto presa numa armadilha. Mesmo.

Izzie disse...

Há algo nisto tudo que me deixa perplexa, que é a inoperância das entidades que deviam fiscalizar as condições de trabalho. Por cá temos uma inspecção que ignora muito, mas na Alemanha, também não funciona?

Helena disse...

Calita,
o que o mercado oferece, nem mais!
Os ovos, por exemplo: na Alemanha posso escolher ovos de aviário em prateleira, ou de aviário com as galinhas no chão, ou de galinhas que têm a possibilidade de andar à solta na terra. Além dos biológicos.
Costumo comprar os de galinhas que podem andar à solta na terra, mas em Portugal só encontro "ovos frescos".
Em Portugal tens sorte: podes comprar muitos legumes e frutas portugueses. Na Alemanha, com o Inverno, é mesmo preciso importar - ou comprar o que foi guardado em frigoríficos. As maçãs, por exemplo: a partir de Janeiro, não há grande diferença em termos de energia entre comprar as da Nova Zelândia e as alemãs que estão guardadas em câmaras frigoríficas.
Não vou chegar ao extremo de deixar de comer carne. Mas há uma diferença enorme entre um porco ou uma vaca criados ao ar livre e com alimentos naturais e os bichos desgraçados que crescem em espaços minúsculos, apertados entre muitos outros, com um imenso stress. Idem para as galinhas.

Helena disse...

anouc,
como te compreendo!

Helena disse...

Não sei como é exactamente, Izzie.
Penso que de um modo geral as regras são cumpridas, e se a fiscalização estatal falha ainda há os sindicatos (que puseram o Schlecker de joelhos, por exemplo) e os jornalistas.

No caso da amazon, menos de uma semana depois da reportagem ter passado, a tal empresa de segurança já estava na rua e foi iniciado um inquérito às condições laborais na empresa. A ministra do trabalho avisou logo no princípio: se for caso disso, retira-se a autorização para esse ramo à empresa que contrata os trabalhadores temporários. A rapidez e a eficácia com que estes casos são resolvidos ajudam a evitar que outros chicos-espertos tentem o mesmo truque.

Em Portugal há um factor suplementar que complica a coisa: a pobreza. Se perderem aquele emprego, de que é que as pessoas vão viver? Conheço histórias no mundo dos têxteis, e penso logo numa resposta dada pelos trabalhadores da fábrica de pasta de papel em Cacia a alguém que criticava aquele fedor insuportável e dizia que a empresa tinha de pôr filtros: "Isto é o nosso ganha-pão. Vamos é ficar calados!"

Izzie disse...

Bem haja a liberdade de imprensa e informação, e kudos à inspecção por se ter mexido.
A pobreza é o calcanhar de aquiles disto tudo, já aqui há tempos dizia o meu irmão que enquanto houver gente a precisar de trabalhar por uma tigela de arroz isto não mudava. E a pobreza, com o fenómeno da entrada de imigrantes de países muito pobres em países desenvolvidos, veio trazer o problema da nova "escravatura" para as nossas portas.
Enfim, enfim, consumo ético sim senhora, mas enfim, enfim, isto é tudo muito complicado.

Helena disse...

enfim, enfim - tens razão!

m. disse...

Outro problema do consumo ético é por vezes não é acessível a todas as bolsas. Por exemplo, os ovos de galinhas criadas em gaiolas são mais ou menos a metade do preço dos ovos de galinhas do campo (os ovos biológicos são menos comuns mas os outros tipos encontram-se facilmente, pelo menos em qualquer dos supermercados e mercearias em Lisboa nas áreas por onde circulo). Custa-me que, quem tem poder de compra para o fazer, não faça escolhas mais éticas mas para algumas pessoas, trazer 6 ovos para casa ou trazer 6 ovos e um quilo de arroz pelo mesmo preço faz diferença.

Helena disse...

m.,
pensei muito nisso enquanto escrevia o post. O tema parece-me muito importante, mas propor a portugueses, neste momento da nossa História, que escolham produtos alimentares bem mais caros, parece uma provocação cínica.
Cheguei a pôr a hipótese de um comentário final, sobre isto ser um post escrito para alemães.

Contudo, acima de um certo limiar de desafogo financeiro, a questão coloca-se realmente, porque é a das escolhas éticas: prefiro comprar nos supermercados mais baratos e com o que poupo passar um fim-de-semana num hotel? Ou comprar alimentos produzidos de forma respeitadora da Natureza é para mim uma questão de princípio, mesmo que depois não sobre tanto para viagens ou consumos culturais?
E tem outro problema: se eu faço consumos éticos para contribuir para o esforço de salvar o planeta, por causa disso o dinheiro não me chega para a "boa vida" e depois vejo os meus vizinhos que compram no Lidl mas resolvem ir um fim-de-semana a compras em Londres.
Há aqui muita matéria para uma certa tensão social.

Gi disse...

Helena, notei o que diz um(a) comentador(a) da Rita: "depois de se saber das coisas é impossível des-saber".