10 janeiro 2013

Pepa, qual é a raíz quadrada de 144? o que pensas do relatório do FMI? achas que o governo se devia demitir? e tens uma receita para o meu jantar de hoje?




Parece que a Samsung andou a pedir a bloggers de moda que falassem dos seus desejos para 2013, e eles não souberam estar à altura da situação. Pelo que foi por aí um regabofe cruel, e a Samsung tirou os vídeos de circulação. Com o de uma tal de Pepa à cabeça.
Vi um bocadinho desse filme, mas só um bocadinho, porque não tinha interesse nenhum e o que não falta na internet são vídeos sem interesse dos quais fujo a correr.

Entretanto começaram todos a opinar, e de tal maneira que eu, que até nem simpatizo nada com bloggers de moda, estou cheia de pena da Pepa.

Começando pela Samsung: provavelmente foi ver quais são os blogues que têm mais leitores, e resolveu apelar a esse público numeroso. Mas escolheu mal os artistas. Admito que com uma Pipoca a campanha não tivesse corrido tão mal, porque ela teria (imagino eu) sabido vender-se muito melhor, e servir melhor as intenções publicitárias da Samsung, atraindo todos esses milhares de pessoas que a lêem e deixando o seu público satisfeito, mas sem levantar ondas na nossa casta de iluminados.

Cá entre nós: não entendo o fenómeno desses blogues. Inquieta-me, incomoda-me. Não é possível que aquela superficialidade e aquele correr atrás de ilusões de consumo seja o que mais sucesso tem em Portugal! Mas pelos vistos é. Pelos vistos, há muita gente que gosta de sonhar com carteiras Chanel, ou gosta de se encostar a pessoas que gostam de sonhar com carteiras Chanel.
Podemos perguntar como é que chegámos aqui - o costume: os pais que deram tudo aos filhos e os habituaram mal?, a sociedade de consumo e aparência?, a eterna adolescência?, o isolamento crescente das pessoas e a falta de consciência social? Podemos ficar chocados com o que estes filmes revelam de um certo mundo, ou de uma certa geração. Podemos dizer: então o país em derrocada e esta gente pensa em carteirinhas Chanel?
Só que uma coisa é olharmos para os sinais e tematizar o problema geral, e outra coisa é bater sem dó nem piedade numa miúda que podia ser nossa filha.
Pergunto ainda: queremos desprezar as pessoas que estão em condições de fazer consumos de luxo, e as que sonham com isso? Isto sou eu a tratar de salvar a própria pele: começam a chatear a outra por causa da carteira Chanel, depois chateiam-me a mim por ir tanto à Filarmonia, depois acabam a chatear a minha empregada por fazer férias no Peru (bem, ela é peruana). Em todo o caso: era bom que aprendêssemos a falar dos temas sem diabolizar os indivíduos, porque essa maneira de estar na retórica é um boomerang que acabará por nos atingir a todos.  

No que diz respeito à Pepa, começo por uma dúvida: ela será tipo "tia precoce", ou precisa de um terapeuta da fala? Se for este o caso, devíamos ter cuidado com as críticas que fazemos, porque podemos estar a ser injustos.

Em segundo lugar: o que esperávamos de uma blogger da moda? Um discurso articulado como o do Dalai Lama, talvez? Isso é que seria de surpreender. De uma blogger da moda espero que - à semelhança das miúdas dos concursos para miss - ela diga generalidades como "gostar de viajar" e "ler O Principezinho". Porque é que ficamos chocados por ela não conseguir corresponder às nossas expectativas irrealistas? Mas isso sou eu a falar, que também não gosto nada de quando se riem das frases tolas dos jogadores de futebol (quantas delas largadas depois de um jogo que os deixou esgotados!), como se eles tivessem de falar como o Saramago (mas ninguém esperava do Saramago que marcasse lindos golos). Há em muitas dessas críticas uma arrogância e uma violência que me incomoda, porque estamos a exigir de uma pessoa aquilo que ela não pode dar - e que, na realidade, não estava na encomenda do filme.

Finalmente, e passando para um nível completamente diferente, e só para provocar: qual é o problema de uma carteira Chanel? É um tipo de produto que incorpora muita mão-de-obra qualificada e materiais de alta qualidade, e dura muito mais que as porcarias das lojas dos trezentos (cuja lógica representa uma grande sobrecarga para o meio-ambiente: o desperdício de matéria prima em produtos que se estragam depressa, o transporte da China para a nossa rua). Às vezes penso que o nosso mundo estaria melhor se comprássemos muito menos quantidade, mas de excelente qualidade - móveis artesanais em boa madeira em vez das baratices da IKEA para usar e deitar fora, roupa de excelente tecido e corte que não passe de moda nos próximos cinquenta anos, etc.
Não sei onde e em que condições laborais são feitas as carteiras Chanel, mas talvez a Pepa, com este seu desejo para 2013, esteja a fazer mais pela economia europeia e pelo nosso querido modelo europeu que os seus críticos que se alegram com pechinchas made in China.
(disse isto assim, mas de facto ainda não tenho opinião sobre a defesa da economia europeia dever passar por mais proteccionismo comercial, e não sei até que ponto é que "menos e melhor consumo" não provocará mais recessão nas nossas economias)

Resumido é isto: deixem a Pepa em paz. É possível falar sobre os rumos da nossa sociedade sem achincalhar pessoas concretas.
(Mas o Relvas devia ir estudar. Ou prescindir do título académico.)

16 comentários:

mdsol disse...

Muito bem Helena.

txticulos disse...

Estou a ver que o que não falta no burgo é maltinha com tempo livre e de faca afiada para espetar à mínima trivialidade.

Ide trabalhar malandros! :)

Helena disse...

:)

José Sousa disse...

Olá Helena, boa noite. Mesmo sem uma noção exacta do caso particular que lhe serve de motivação, mas que julgo poder inferir a partir do seu texto gostaria de a cumprimentar pelo seu distanciamento crítico. Ainda nem há nove dias conheço este seu espaço mas acredite que já o aprecio: parabéns pelos nove anos. Um abraço.

Paulo disse...

Ó Helena, estás cheiinha de razão, acho eu, que não sei bem de quem estás a falar porque só soube da história por alto.

jj.amarante disse...

Boas palavras sobre a blogger. Já não tenho tanta certeza em relação à IKEA, até acho os móveis bonitos e funcionais. Tão pouco sobre as carteiras Chanel cuja atracção e preço resulta em grande parte da sua exclusividade, isto é, de os outros não as poderem possuir, é uma característica das marcas de luxo.

Maria B disse...

Helena,
"Fez-me" ir investigar quem era a Pepa, pois estava completamente a leste. Vi o video em causa e não achei nada de chocante. Conforme deve ter sido indicado pelo produtor da campanha, ela fala do que deseja para SI em 2013 e se diz que vai poupar para comprar a mala, qual é o mal? O dinheiro é dela.

Quanto às marcas, só gostava de acrescentar isto: pessoalmente não ligo nenhuma, nunca comprei um determinado objecto só por ser da marca X, mas, desde que o preço não seja completamente especulativo e eu tenha o dinheiro, procuro comprar coisas de qualidade e por vezes isso traduz-se na opção por uma marca cara. No entanto, o que conta para mim é a qualidade/beleza, não o nome só pelo nome.
Na minha opinião, aqui é que está o busílis. Anda demasiada gente obcecada por esta coisa da posse de objectos de marcas famosas pelos motivos errados.

Helena disse...

José Sousa,
obrigada!

Paulo,
sabes o que me preocupa? É que andamos a bater com tal violência nessa miúda (bastante ingénua e muito inexperiente), que ela ainda se pode lembrar de escapar por via de uma asneira terrível.
E depois, se ela fizesse? Com que cara ficávamos?

Helena disse...

jj.amarante,
a IKEA foi um mero exemplo, e não preciso de fazer dele meu cavalo de batalha.
Os produtos IKEA são em muitos casos cópias baratas de produtos famosos de design, e - salvo algumas excepções - não são feitos para durar trezentos anos.
Também compro na IKEA, mas pergunto-me cada vez mais se não faria mais sentido comprar os meus móveis a artesãos que apostam na qualidade, na atemporalidade e na extrema qualidade dos produtos.
Por exemplo: temos aí uma "cama de aventuras" (hehe, dito assim até parece outra coisa) que comprámos quando o Matthias nasceu. Já tem 16 anos de fantásticas aventuras, e está como nova. Vamos emprestar a uns amigos, e fica com eles até nós termos netos. Tenho a certeza que continuará como nova. E poderá servir aos bisnetos. Nenhuma cama para criança da IKEA aguenta este uso durante tanto tempo.
http://www.woodland.de/hochbett-winnipeg.html

Helena disse...

jj. amarante,
quanto às carteiras de luxo, e ao preço da exclusividade: tem toda a razão, mas há tolos para tudo. Esta miúda está a poupar para uma carteirinha clássica Chanel, outros compram vinhos Bordeaux cinco vezes mais caros do que vinhos do Douro de qualidade semelhante, e eu outro dia gastei um dinheirão absurdo para ver uma ópera de pouca qualidade na Semperoper em Dresden.

Helena disse...

Maria B,
completamente de acordo com tudo, inclusivamente o gostar de comprar coisas por serem boas, em vez de me pendurar na marca.
"Anda demasiada gente obcecada por esta coisa da posse de objectos de marcas famosas pelos motivos errados." - é verdade. Mas se queremos questionar as motivações das pessoas, saibamos fazê-lo com respeito. E, no caso, saibamos ter algum distanciamento. Uma carteira clássica preta da marca Chanel, "que se pode usar com tudo" (se bem me lembro, é o que ela quer), é a coisa mais óbvia que uma pessoa que se interessa por moda pode desejar. Ou: o que é que podemos dizer contra as carteiras clássicas pretas Chanel?

Titanices disse...

Adorei o comentário!!! E a miúda, como miúda que é, e tal como dizes podia ser filha muitos nós, não tem culpa da onda que se gerou à volta dela... imagino como ela se deve sentir desde ontem de manhã...

Helena disse...

Começo a temer que ela precise de gastar o dinheiro da carteira num bom psicólogo...
:(

m. disse...

Muito bem, Helena. Concordo com tudo o que diz, à excepção das expectativas relativamente ao discurso de uma blogger de moda (se escreve um blog com muitos leitores, seria de esperar que tivesse um discurso mais articulado, até porque ao contrário de um jogador de futebol após um jogo não foi apanhada de surpresa e sabia sobre o que iria falar). O bullying posterior é bem pior do que o vídeo.

Duluoz disse...

Palmas.

Helena disse...

m.,
obrigada.
Por experiência própria, penso que há uma enorme diferença entre escrever num blogue e aparecer num filme.
Claro que o discurso dela é terrível. Estava muito mal preparada, e talvez tenha apostado jogar na empatia e na sedução pela via da ingenuidade e da espontaneidade. Por outro lado, não sei se em termos de conteúdo teria sido capaz de dar mais que isto.
Enfim, um diletantismo do princípio ao fim, e da parte de todos os actores (a começar pela Samsung).