06 janeiro 2013

o discreto charme da Rússia

Neste princípio de 2013, parece que tudo gira em volta da Rússia. Festejámos a passagem de ano com russos, o primeiro concerto do ano foi com uma orquestra russa, na próxima sexta-feira vamos à Filarmonia ver o Kaminer a fazer de Ivan, o terrível, e no sábado vamos à Russendisko vê-lo a fazer de Wladimir, o insubstituível.
Por este andar, até ao fim de Janeiro tenho a nacionalidade russa, desato a fazer coro com o Depardieu sobre as maravilhas daquela democracia, e saio com a Brigitte Bardot e o Putin para uma das caçadas fantásticas que o presidente organiza. Ou talvez não - suspeito que, para sentir esse fascínio pela democracia do Putin e pela política russa de defesa dos animais e do ambiente, precisava de ganhar vários milhões por ano.
(Presidente, ou primeiro-ministro? Esqueci-me. O problema destes regimes tipo "l'État c'est moi" é que uma pessoa decora o nome e depois esquece-se dos detalhes da fachada.)


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Enquanto não ganho os milhões, vou adiantando trabalho, familiarizando-me com a cultura. Ontem fui a um concerto com uma velha orquestra de jovens, a Serebranyje Struny, de São Petersburgo. Ia a convite de um antigo colega do finado coro de diplomatas, pensando que seria um concerto assim-assim, e saiu-me um evento muito sui generis: uma orquestra de instrumentos tradicionais russos (balalaika, gusli, domra, etc.) que tocava música clássica. Confesso que foi estranho ouvir as Asturias do Albéniz ou a Dança de Anitra do Grieg tocada daquela maneira. Por momentos, lembrei a banda de música da aldeia da minha avó, a abrir o cortejo da procissão. Mas uma pessoa habitua-se a tudo, e até acha graça. De tal modo, que no fim cantei lalala com os outros, a acompanhar a orquestra numa valsa da Suite para Orquestra de Jazz Nº2 de Schostakowitsch.





O e-mail com o convite informava que se tratava de uma iniciativa diplomática, do grupo parlamentar russo-alemão (esta parte, confesso que não entendi), e que a seguir ao concerto havia uma recepção (que eu traduzi logo para petits fours de caviar, pelo menos).
Encontrei uma cantora do finado coro, e rumámos à sala da recepção, juntamente com vários embaixadores em Berlim, ou representantes seus. Foi na cave por baixo da igreja onde tinha sido o concerto, num pequeno bar que lá têm (por sinal, muito engraçado, sob as antigas abóbadas de tijolo). O espumante servido era o mais barato que existe na Alemanha, uma mistela industrial da RDA, Rotkäpchen. "Ist nicht gut, ist aber kult!", dizia a minha amiga. "Ah, então está bem", respondi. Para comer, havia apenas chips vários e pretzel de pacote largados em pratos de papel sobre as mesas.

Há um ditado alemão que diz "se queres poupar, aprende com os ricos". Pensei muito nele, enquanto ia petiscando batatas fritas e pretzel, e bebericando aquele espumante que só entra na nossa casa quando queremos fazer uma gracinha. Duvido que em Portugal alguém se lembrasse de organizar uma recepção para embaixadores com um serviço tão barato. E estou em dúvida: isso é uma virtude ou um defeito?

2 comentários:

Maria B disse...

Olá de novo, Helena,

Talvez a virtude seja algo intermédio, nem tão "mixuruca", nem à la D.João V com a sua famosa dupla encomenda de carrilhões para Mafra (o mal é mesmo crónico).

Quanto à Rússia, literatura e música sempre. O resto, actualmente, ná. Vi há uns anos um documentário alemão, chamado "Rubljovka-Straße zur Glückseligkeit", que achei assustador. O Depardieu deve ter pirado, mesmo com muitos milhões não quereria aquele tipo de regime e de vizinhos.

Helena disse...

Sim, algo intermédio é boa ideia. Uns petits fours de caviar, pronto, não peço muito... ;-)

Quanto à Rússia: nem sei que diga. O que é que leva o Depardieu a pensar que está mais seguro que o Chodorkowski?