09 novembro 2012

9 de Novembro - e o muro que não cai



Como todos os anos neste dia, alguém terá vindo pôr flores na placa que lembra a sinagoga incendiada, aqui perto de casa. O que este país gasta e gastará em flores no dia 9 de Novembro...
(O Holocausto e  as centrais nucleares têm isso em comum: séculos depois de terem passado à História, ainda darão trabalho a muita gente.)  

*

Há 23 anos e 3 dias cheguei à Alemanha. Era uma segunda-feira. Na quinta-feira, quando o muro caiu, estava sentada no sofá dos meus sogros - eles de mão dada, a chorar, eu sem perceber quase nada. Na televisão, o que mais se via era bananas. E Trabis que passavam, e pessoas a chorar e a rir ao mesmo tempo. Só muito depois comecei a dar-me conta de como era esse mundo, tão outro, de onde vinham.

Depois veio a euforia, as imagens (se tiverem seis minutos,vejam este filme, é um belo resumo desses dias).

Há tempos, num táxi, tive uma conversa muito interessante com o motorista, que falava no dialecto berlinense. Disse-lhe para onde queria ir, e ele recitou o encadeamento de ruas que nos levaria a esse destino.
- Vejo que não é principiante nesta profissão...
- Pode crer! Já fazia isto no tempo do muro. Era mais fácil. Uma pessoa sabia logo: esta rua, por exemplo, Hohenzollerndamm, a seguir vem a Clayallee, depois a Potsdamer Chaussee, a Königsstrasse, a fronteira. Quando o muro caiu, tive de aprender as ruas todas do outro lado. Ruas com nomes lá dos políticos deles, comunistas, socialistas, gente que eu não conhecia. Depois mudaram os nomes, as ruas voltaram a chamar-se como antes da RDA. Tive de aprender tudo de novo. E aprendi! Outro dia, uma senhora disse-me: quero ir para a Cecilienstrasse, em Marzahn. E eu: ah, a antiga Albert-Norden-Strasse! E ela: você é um dos nossos?
Veja-me lá isto: só porque eu sabia o nome da rua quando tinha o nome de um daqueles políticos da RDA, ela pergunta-me se sou "um dos nossos"! "Um dos nossos"! Por pouco não me caiu o volante das mãos. Então, quase um quarto de século depois da queda do muro, ainda se diz "um dos nossos"?!

11 comentários:

Júlio de Matos disse...



Incrível! Até parece que a História estava à tua espera...

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E eu, que vivi três semanitas inesquecíveis em Berlim-Oeste no Verão de 88, num tempo em que ainda nem se podia sequer sonhar com a queda do Muro? Também eu pasmei com os inacreditáveis acontecimentos do Outono de 89...

Paulo disse...

"Perhaps-bag"! Lembrou-me a sensação de tristeza que davam os super-mercados em Berlim-Leste.

Paulo disse...

Obrigado pelo vídeo do fotógrafo da Time.

Helena disse...

Paulo, obrigada teres visto o vídeo! Já tenho alguém com quem dizer "é giro, não é?"
:)

Paulo disse...

É muito bonito.

Helena disse...

:)

Gi disse...

Ambos os vídeos são muito interessantes. Eu gostava que os povos tivessem mais vontade de se conhecer uns aos outros. Também gostava de, quando viajo, poder (saber?) falar mais com as pessoas.

sem-se-ver disse...

claro que diz

:)

Helena disse...

Pois é, sem-se-ver: este muro está difícil de se deitar abaixo!

Pois é, Gi, mas depois vais ao estrangeiro e acabas a falar com portugueses... ;-) ;-) ;-)

snowgaze disse...

23 anos é realmente muito tempo. :) Parabéns!

Helena disse...

parabéns pela resistência? ;-)