04 setembro 2012

o passeio dos alegres (8)

Quarta-feira era o último dia do grupo completo, e resolvemos regressar ao Wannsee, onde já tínhamos estado no primeiro dia.
Passámos pelo terreno onde vamos construir uma casa, para eles contarem aos paizinhos meus amigos. Mas não desataram a fazer aaaah e ooooh, ai, esta juventude! (pais que me estão a ler: da próxima vez treinem-lhes melhor as interjeições de entusiasmo sem limites)

Fomos apanhar o S-Bahn para Wannsee na estação de Grunewald, e aproveitei para lhes mostrar um memorial do Holocausto pouco conhecido dos turistas: Gleis 17, o cais de onde se fizeram as deportações de judeus para os campos de concentração. As datas, o número de pessoas deportadas e o seu destino estão marcadas em placas postas lado a lado ao longo da linha. Procurámos as datas dos nossos aniversários, e as dos nossos pais. É um reflexo natural ir em busca de algo que nos liga ao que estamos a ver, mas ler que no dia dos meus anos saíram 900 judeus para Theresienstadt é um elo desconfortável.
É Berlim: onde a nossa vida se mistura à dos outros e à História.




A viagem de Charlottenburg ao Wannsee não é longa. O comboio atravessa a floresta e pára junto ao lago. Continua-se para a Liebermann-Villa de autocarro (é o 114). Falei-lhes deste pintor proveniente de uma família de industriais judeus muito abastada, que tinha casa junto à porta de Brandeburgo e mandou fazer, mesmo em frente ao lago, um luxuoso refúgio para os fins-de-semana e meses de Verão. Aproveitei as fotos na loja do museu para lhes falar do escândalo do quadro em que Liebermann representou Jesus como um rapazinho judeu.








Passeámos pelos jardins, os meus meninos fizeram milhares de fotografias de flores (e muito boas, mas poupo os meus leitores, que este blogue, sendo muita coisa, ainda não é um calendário das edições paulistas), eu  encantei-me com umas couves azuis que lá tinham plantado, fomos até ao lago...
...e foi então - talvez à décima quinta vez que visito aquele museu - que me caiu a ficha: estávamos num daqueles famosos jardins de pintor, como o de Monet em Giverny, o de Renoir em Cagnes-sur-Mer, o de Nolde em Seebüll! Apressei-me a contar isso aos miúdos, mas num tom neutro, como se desde sempre o tivesse sabido. 





Dentro da casa havia uma exposição sobre a pintura de jardins de Liebermann e de Nolde. Espero que da outra vida não haja janelas para esta, porque ainda se arranja um sarilho no Além: estes dois pintores, inimigos em vida, têm agora os seus retratos e quadros frente a frente!
Nolde teve um papel importante nos conflitos geracionais entre impressionistas e expressionistas que dilaceraram o grupo da Secessão Berlinense, de que Liebermann era presidente. À entrada da exposição vêem-se auto-retratos dos dois, justamente com a opinião que tinham um do outro:
Liebermann: "Nolde... só sabe fazer garatujos crus, devia ter-se ficado pelos retoques de postais com que começou a sua carreira."
Nolde: "Liebermann fez um discurso sem calor, com palavras cortantes como ácido."
Estava-se no princípio do séc.XX. Em breve os nazis subiriam ao poder. Em Maio de 1933, no dia em que os nazis queimaram os livros dos autores indesejados do regime, Liebermann renuncia a todos os seus cargos públicos, porque já não vê reconhecido o princípio de a arte ser independente da política e da origem do artista. Morre poucos anos depois. A sua viúva, Martha, é forçada a vender a casa do lago. Suicidar-se-á em 1943, aos 87 anos, após receber uma ordem de deportação.  
Nolde, por seu turno, vê-se a si próprio como o pintor por excelência do III Reich. Os nazis têm outra opinião, e proíbem-no de pintar. Nolde refugia-se na sua casa junto ao Mar do Norte, em Seebüll, e trabalha clandestinamente nos quadros não-pintados.


(Emil Nolde)

Comparámos os quadros dos dois, e gostámos de ambos. A luz sábia nos quadros de Liebermann, por um lado, a extraordinária energia dos jardins do Nolde, por outro. 
As senhoras da caixa foram amorosas. Além de terem deixado entrar metade do grupo sem pagar, ainda deram um postal a cada um, à saída. O museu é o resultado de uma iniciativa cultural privada, e todas elas são voluntárias que trabalham gratuitamente para tornar este projecto possível.

Da casa do Liebermann seguimos para a casa da Conferência de Wannsee, praticamente ao lado. Combinámos que seria uma visita rápida, apesar da exposição extremamente informativa e completa, que pede para ficarmos longamente em cada sala. Mas dois museus numa manhã é demais - mesmo para mim! - pelo que lhes fiz um pequeno resumo do que se passou ali, e só lhes mostrei alguns dos textos e das fotos mais importantes. Uma das fotos mais inesperadas é da Leni Riefenstahl, a excelente cineasta do regime nazi. Nessa imagem vê-se a expressão de horror no rosto da realizadora quando é testemunha do assassínio de um grupo de judeus. A partir desse momento deixou de trabalhar para os nazis, mas nunca se demarcou publicamente deles, e nunca foi reabilitada. Vejo essa fotografia, e reconcilio-me com aquela mulher: afinal era um ser humano, tinha consciência e coração.




(a sala onde foi feita a reunião e está exposta a respectiva acta) 






Mesmo ao lado da casa da Conferência de Wannsee há um sítio óptimo para almoçar. Optámos pelas famosas salsichas com batatas fritas no terraço em frente ao lago, em vez da tortilha no restaurante junto ao cais dos barcos à vela.







Regressámos a Berlim. Eu fui para casa trabalhar, e o grupo seguiu para a Coluna da Vitória. Alguns valentes subiram todos aqueles degraus, e valeu a pena:







Depois saíram pela cidade, por lojas que não sei. 


Ao jantar contaram histórias mirabolantes do que viram nas lojas, de um kindle novo, sei lá. E riram, de tudo e da minha maneira de falar com o Fox. Ingratas criaturas, é o que é.
(...as saudades que cá deixaram!)


Ajudaram-me a preparar um calendário de advento para mandar à Christina, e fizeram fotografias, provavelmente para mostrarem em casa, a ver se os pais se inspiram...


(Na sexta-feira seguinte levei o calendário a uma amiga da Christina que ia daí a uns dias para a Bolívia, para ela o levar. Quando soube que era um calendário de advento, virou-se para a mãe e perguntou: "também me fazes um?" A mãe suspirou, porque tinha apenas um dia para tratar disso. Se continuo assim, torno-me persona non grata numa série de famílias.)

5 comentários:

Ana Vicente disse...

Quando eu visitar Berlin, vou pegar nestes itinerários!

Helena disse...

Até já deixei o número do autocarro e tudo! :-)

Paulo disse...

Eu fiz a excursão da manhã. Agora foi como se estivesse a fazê-la novamente, só que com os barcos descongelados.

Essa fotografia excepcional de Leni Riefenstahl, gostava de a ter, mas não consegui encontrá-la na net. Talvez esteja nos livros sobre ela que não possuo. Hei-de investigar.

sandra costa disse...

Bem, revivi neste texto partes de dias que passei por Berlim por esses mesmos sítios. As placas do Cais 17 são impressionantes. Não procurei as do meu aniversário... Os jardins da Casa de Liebermann são lindíssimos, também trouxe uns postais... A visita à Casa da Conferência de Wannsee foi um dos momentos mais importantes da viagem em questão... Não me recordo da foto da Leni Riefenstahl mas recordo a de Willy Brandt junto do memorial da Revolta do Gueto de Varsóvia, nessa cidade, e a história de Otto Jogmin, porteiro e zelador no número 18, Wielandstraβe, em Charlottenburg, onde, entre 1941 e 1945, ajudou e escondeu, temporaria e permanentemente, cerca de 30 judeus. Não seguimos a sequência do itinerário aqui tão bem descrito pela Helena mas poderia ter sido assim... Um itinerário que nos deve mostrar as alternativas... Ou que entre o bem e o mal, não se tem alternativa (http://www.memoshoa.pt/nao_tinha_alternativa.pdf)...

E chegar a Wannsee de comboio deve ser muito bonito...

Helena disse...

Paulo, vou tentar arranjar-te essa fotografia. Está no catálogo da exposição - só tenho de o encontrar e fotografar.

Sandra,
tenho de voltar a essa casa para tentar encontrar o Otto Jogmin. A Wielandstraße não fica longe da minha rua. Hei-de ir lá ver.
A foto do Willy Brandt é um monumento. Feliz o país que tem políticos capazes de tal grandeza!